Amazônia e La Gran Sabana

            O que leva as pessoas a tomar decisões e procurar saídas para situações difíceis e imprevisíveis? Se formos otimistas podemos pensar que um “tropeço”, na verdade, é uma forma de andar para frente mais rápido e que as situações imprevistas, na verdade, nos ajudam a incrementar a criatividade. É assim que estamos encarando nossa próxima viagem: “o tropeço”, “o imprevisto”, “as decisões”, “a criatividade”...

Foi assim que saímos de São Paulo rumo a Venezuela, usando a criatividade. Colocamos desta vez as mochilas nas costas e pegamos um vôo que nos levou até Belém, onde começaríamos a nossa nova aventura.

Descemos em Belém, sob um calor de 33 graus, contrastando com o frio de 9 graus que estava em São Paulo. Daí pra frente, durante 32 dias tudo foi muito diferente da rotina que vínhamos tendo em São Paulo. Como sempre fazemos em nossas viagens, nossa primeira providência ao chegar no aeroporto foi tentar achar um hotel, bom, limpo e barato. A pessoa que procuramos foi de zero a cem na indicação. Ela indicou o hotel mais caro da cidade e um bem baratinho. Acabamos indo para uma “espelunca” com cheiro de remédio de matar barata. Claro que chegando lá não ficamos. Achamos um outro hotel novo e que estava fazendo uma excelente promoção. Pagamos muito pouco por um hotel de excelente padrão, muito bem localizado e com vista para a Baia de Guajarás. Era tudo que precisávamos.

Muito bem instalados, resolvemos “nos perder” na cidade e descobrimos que estávamos conhecendo uma “Belém” bem diferente da que havíamos conhecido muitos anos atrás. A exceção era a mesma pancada de chuva que cai diariamente no final da tarde. No mais a cidade ficou bem mais moderna.

Belém é uma cidade que tem praças bem cuidadas e conserva o antigo, como as casas e ruas da Cidade Velha. Uma parte do porto foi restaurada e lá fizeram a Estação das Docas, um lugar muito agradável com restaurantes, bares e até uma mini cervejaria. À noite muitas pessoas vão para ouvir músicas que são tocadas por bandas em palcos suspensos e que correm de um lado para o outro possibilitando que todos os clientes dos diversos bares e restaurantes possam, além de ouvir os músicos, vê-los. Dali saem passeios de barcos e abriga, também, um teatro que tem uma programação bem variada e para todos os gostos. Ao lado da Estação das Docas, está o Mercado Ver-o-Peso, hoje todo restaurado. É muito interessante andar por ali e apreciar a variedade de frutas, plantas medicinais, alimentos e artesanatos, assim como é bom sentar num dos restaurantes simples para tomar o famoso “tacacá”, ou comer os peixes da região, como por exemplo, o “Filhote”. Por falar em peixe, não é possível ir a Belém sem dispensar uma manhã no Mercado de Peixes.

Decidimos fazer um passeio de barco, aproveitando o dia ensolarado. Foram seis horas de passeio, passando pelas comunidades ribeirinhas, vendo a impressionante habilidade das crianças remando suas canoas e buscando na água os sacos de biscoitos que as pessoas atiram para elas. Paramos numa praia com águas super quentes e com ondas que nos deixou impressionados. Era uma praia na beira do rio que fica na Baia de Marajó.

Em áreas mais remotas os ribeirinhos se alimentam de forma natural (frutas, peixes e outros alimentos que conseguem na mata, além da mandioca cultivada). Ficamos surpresos ao ler numa revista local que a média de vida destes homens e mulheres que vivem desta forma é muito maior do que a vida de quem vive na cidade. Apesar de não ter nenhuma comprovação, especula-se que vivem cerca de 85 anos, em média.  

De Belém fomos para a Ilha de Marajó num barco que demora 3 horas até Camará, porta de entrada da ilha. Resolvemos ficar em Joanes, uma pequena praia, fugindo um pouco do comum, Salvaterra ou Soure, capital de Marajó.

A Ilha de Marajó tem 15 municípios e muitas comunidades distribuídas numa terra que, em extensão, é maior que a Bélgica, ou do tamanho do estado do Espírito Santo. O maior problema é o transporte público. É muito limitado e ninguém nunca sabe se a “van” ou o velho ônibus já passou, se vem ou não. Depois de saber deste problema crônico da ilha, conseguimos chegar a uma pousada muito agradável, num lugar muito especial.

Não poderíamos deixar de conhecer Soure, pois afinal era a capital de Marajó. Saímos da pousada bem cedo, aproveitando a “van” que deixaria o povo local em Salvaterra para fazer compras, pagamentos ou resolver qualquer outro problema burocrático. O problema é que a tal e única “van” disponível voltaria às 10:30h e nós não poderíamos mais contar com ela pra retornar a Joanes mais tarde. Relaxamos e fomos embora assim mesmo. De Salvaterra para Soure é necessário atravessar num barco. Apesar de avistarmos, de uma cidade a outra cidade, o barco só sai com hora marcada e pára no horário de almoço. Descemos em Soure sem saber o que encontraríamos. Antes de chegar especulamos se teriam prédios, ônibus, mas ainda bem, não encontramos nada disso. Caminhamos pelas ruas e seguimos até Barra Velha, uma praia sossegada e muito distante do centro. Era preciso passar dentro de uma fazenda. Logo na entrada vimos muitos “guarás”, que são os pássaros da região. Eles são de um vermelho fluorescente impressionante que contrastava com o verde da vegetação. Depois de uma longa caminhada sob um sol forte ainda bem cedo, chegamos à Barra Velha, uma praia de rio com areias bem branquinhas. Na entrada da fazenda encontramos um francês que, por coincidência, estava hospedado em Joanes e que tinha resolvido ir para Soure na noite anterior. Seguimos juntos e ficamos algumas horas na praia, tomando sol, conversando e nadando. A volta foi mais difícil, pois o sol estava escaldante. Tão escaldante que todas as pessoas da cidade de Soure pareciam estar escondidas dentro de suas casas por causa do calor. Só víamos os búfalos, que pastavam pelas ruas enfeitadas pelas mangueiras. Algumas vezes pareciam estátuas, colocadas estrategicamente.

Depois de conhecer Soure e Salvaterra era hora de pensar na volta. Sabíamos que existia um ônibus que levava os “estudantes” pra casa, mas que só saía as seis da tarde. Teríamos ainda que conversar com o motorista e pedir uma carona. Sentamos num bar para descansar e encontramos uma pessoa que também queria ir pra Joanes. Ele, como nativo, “negociou” um carro para que pudéssemos retornar. À noite caminhávamos pelo lugarejo e o mais impressionante era que as pessoas nos cumprimentavam como se nos conhecêssemos há muito tempo. O lugar nos era familiar. Foi aí que lembramos que se parecia muito com Trancoso a mais de 20 anos atrás. A igrejinha, o gramado, as casinhas e a criançada brincando eram nossa diversão. Além disto, aproveitávamos para nos deliciar com um bolo de abacaxi feito pela Neide. Huuum, o sabor é inesquecível. Talvez fosse a simplicidade daquele lugar bucólico que nos fazia achar aquele bolo simples tão saboroso e tentador. Afinal, muitas vezes é na simplicidade que encontramos as maiores felicidades da vida.  

Queríamos ter ficado mais tempo em Marajó, mas nosso barco para Manaus sairia às 6 da tarde e por isto teríamos que ir embora a tempo de embarcar. A opção foi sair de lá às 6:30 da manhã, já que o outro barco sairia só na parte da tarde e não conseguiríamos chegar a tempo de embarcar para Manaus.

Chegando de volta a Belém, fomos até o porto e conseguimos deixar nossa bagagem dentro do barco que já estava ancorado. Foi muito divertido porque muitas pessoas já tinham embarcado às 11 horas da manhã e a carga que o barco levaria já estava sendo colocada no barco. Não adiantava ficar ali o dia todo, por isto voltamos para o centro, fomos ao shopping, enfim, caminhamos quase todo o dia esperando a hora de embarcar rumo a Manaus. Voltamos para o barco e no início da noite ele tocou a sirene e partiu. A sensação foi muito legal porque sabíamos que só chegaríamos ao nosso destino em 5 dias.

O barco que escolhemos para a viagem foi o “Santarém”. Já sabíamos que existiam outras opções, mas sabíamos também que este era um barco seguro, porque a empresa, em tese, não coloca mais passageiros do que o barco comporta. A capacidade máxima era de 350 passageiros. O barco, ou navio como eles chamam (toda embarcação de ferro é chamada de navio e as embarcações de madeira são chamadas de barcos naquela região) tinha no porão cargas de todo tipo, no primeiro andar uma pequena lanchonete, a cozinha, um refeitório somente para quem estivesse viajando nas redes colocadas neste andar e banheiros. No segundo andar, com ar condicionado, tinha espaço para redes, banheiros, camarotes com beliche e o refeitório que servia àqueles que estivessem neste andar e também às suítes do andar superior. No terceiro andar, além das suítes, tinha um espaço para diversão; bar e espaço externo com som altíssimo e que começava a funcionar a partir das 8 ou 9 horas da manhã até a noite. A primeira refeição era servida de 6 às 7 da manhã, o almoço de 11 ao meio dia e o jantar de 17 às 18 horas. É claro que ninguém perdia os horários, mesmo porque o barco não era tão grande e a movimentação no horário das refeições era visível.

Não tínhamos absolutamente nada para fazer no barco a não ser ver como vivem os ribeirinhos, conversar com as pessoas, ler ou descansar. Tudo era surpreendente. No primeiro dia, o barco navegou pelo rio Pará. Este rio é mais estreito que o Amazonas e dá pra ver exatamente como vivem os ribeirinhos, como as casas são construídas e a habilidade das crianças que nascem e vivem praticamente dentro do rio. Quando o barco se aproxima de algumas comunidades muitas crianças pegam suas pequenas canoas e ficam esperando o barco passar. As pessoas jogam presentes enrolados em saco plástico na água ou as crianças, algumas vezes, contentam-se somente com um aceno ou com o “banzeiro”, pequenas ondas que o barco provoca, retornando em seguida para as suas casas. Crianças e adolescentes demonstram habilidade incrível ao se aproximarem do barco com suas pequenas canoas para “laçarem”, literalmente, o barco em movimento. Eles atracam suas canoas e entram, como piratas, mas para venderem farinha, queijo, doces, palmito e frutas da região. Numa das vezes contamos nove barcos atracados. Depois de uma ou duas horas dentro do barco, eles se soltam e retornam para suas casas, remando. Vimos alguns se soltarem já à noite e sumirem na escuridão do rio.

Somente no final do dia chegamos, no Rio Amazonas. O entardecer estava lindo e a visão do gigantesco rio era muito impressionante. Nestas alturas já tínhamos alguns amigos dentro do barco. Além das pessoas da região, encontramos vários “gringos”. Conhecemos o Stefano, um italiano que vinha do sul do Brasil, depois de ter viajado pela Argentina, o Robert que é inglês e estava viajando junto com a Zana, uma namorada de Latvia (pra quem não sabe não é vergonha nenhuma, pois Latvia é um pequeno país entre a Estônia e a Lituânia). Conhecemos também o Trent (americano) e a Christin (da Nova Zelândia), que estavam aproveitando três meses para conhecer um pouco da América do Sul e América Central). A Mie é japonesa e viajava sozinha em redes, sem ar condicionado. Também estava viajando há 3 meses e de Manaus iria para Porto Velho, Lima e Japão. O Benjamin é um Chinês, radicado em San Francisco e tinha desistido do emprego para viajar e fotografar as maravilhas da América do Sul. A Patrícia era a única brasileira, além de nós, desta turma. Ela é do Espírito Santo, mas mora no Rio de Janeiro. Eram suas primeiras férias depois de ter retornado de uma temporada trabalhando na Inglaterra. O grupo estava formado e logo o Stefano já tinha virado “Empório Armani”, o Robert era o “James Bond”, a Zana virou Xuxa, nós éramos “Mr.President & First Lady” e assim nos divertíamos entre uma e outra parada nas cidadezinhas. Quando era possível descíamos do barco pra tomar cervejas no porto mesmo, enquanto o barco era descarregado e carregado.        

Em Santarém, fizemos uma parada bem maior. Conversamos com o Comandante e descobrimos que o barco ficaria ancorado das 8 da manhã até às 4 da tarde. Resolvemos ir além do porto. Fomos para Alter do Chão, que ficava 32 kms de Santarém. Avisamos aos “gringos” o que queríamos fazer e eles decidiram nos acompanhar. No caminho vimos uma caminhonete que fazia carretos e resolvemos ver quanto o motorista cobraria pra nos levar até nosso destino, esperar e voltar conosco à tarde. A negociação foi muito boa e fomos, todos, na caçamba da velha caminhonete. Nadamos na praia de rio, tomamos cerveja, almoçamos. Enfim, nos divertimos muito e voltamos em tempo de embarcar novamente e seguir adiante. O barco seguiu em frente parando em outras cidades incluindo Parintins. Chegamos um dia antes de começar a “Festa do Boi”, que hoje se tornou conhecida nacionalmente. O porto estava cheio de barcos. A expectativa era que chegassem cem mil visitantes para o duelo dos bois que acontece no “bumbódromo” da cidade. Como a cidade não comporta esta gente toda muitos ficam nos barcos.

A Festa do Boi é muito importante no norte. O Boi Garantido é o vermelho e é muito popular. O Boi Caprichoso é o azul e, segundo os torcedores do Garantido, é da elite. A rixa é tão grande que os torcedores de um não pronunciam o nome do outro. Eles se referem somente como “o contrário”. A festa também tem resgatado a cultura local e o interesse de adolescentes e jovens, deixando-os cada vez mais orgulhosos da sua descendência indígena. Os temas abordados são folclóricos e as apresentações acontecem numa arena. Cada boi apresenta-se em forma de dramatização, com músicas e textos, contando a estória. A torcida do boi que está se apresentando participa com uma coreografia específica e a torcida do “contrário” não pode se manifestar de jeito nenhum, caso contrário, perde ponto. Isto acontece nos três dias de festa. Ao final um júri decide quem foi o ganhador e este se apresenta no final de semana seguinte, em Manaus. Deste nós participamos, com o Garantido campeão.

Depois de quase seis dias de viagem, finalmente chegamos em Manaus. Foi um misto de excitação pela chegada e tristeza por ter terminado a viagem. Nem vimos passar todos aqueles dias. Tudo era igual no barco, mas ao mesmo tempo diferente. As pessoas, as histórias, tudo isto dá para escrever um livro com tudo que ouvimos as pessoas contarem. Tivemos experiências únicas, inclusive a de quase ficarmos encalhados num banco de areia. Aprendemos um pouco sobre o rio e descobrimos que ele é misterioso e diferente a cada dia. Escutamos lendas sobre a “cobra grande”, sobre o “boto”, que nos acompanhava constantemente, aprendemos sobre as estrelas, enfim, tudo foi enriquecedor e mágico.

Chegamos finalmente a Manaus. Fizemos muitas coisas diferentes. Encontramos e reencontramos muitas pessoas. Cada um de nós que estávamos no barco se arranjou em algum lugar, mas no final da tarde nos reuníamos para colocar a conversa em dia e contar as experiências de cada um. Reencontramos velhos amigos. A Ana, dona Darci e a Sussu são pessoas muito especiais e que conhecemos há muito tempo numa época que ainda nem cogitávamos em nos mudar para São Paulo. O Pedro também era daquela época de Belo Horizonte. Manaus nos pareceu bem diferente daquela que tínhamos conhecido a muito tempo atrás. Não sabíamos definir se era nossa visão mais amadurecida, depois de ter conhecido tantos outros lugares e ter novamente aprendido a valorizar nossas raízes, nosso país e nossa gente, ou se realmente estava tudo muito diferente, com a grande invasão dos turistas estrangeiros. Não importava, começamos a conhecê-la como se nunca tivéssemos conhecido.

Fomos ao Palácio Rio Negro, Teatro Amazonas, Museus, centro da cidade, a Igreja Matriz, ao INPA – Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, ao CIGS – que é um zoológico do batalhão de selva, etc, e também ao Encontro das Águas do Rio Negro e Solimões, os igapós, à Reserva Ecológica de Janauari. Pudemos recordar nossas aulas de ciências, geografia e aprender muito, muito mais... Aprendemos porque os rios Solimões e Negro correm sem se misturar. Devido à diferença entre a densidade das águas (a densidade da água do Rio Negro é menor), temperatura (5 graus de diferença) e a velocidade (a água escura corre 2 kms/h e a clara 5kms/h) é que os dois rios correm lado a lado, se misturando somente depois de 5 kms. Este é um fenômeno único. Vimos as Vitórias-Régias e ficamos sabendo que elas são presas por um “caule” que liga as folhas ao fundo. Na parte que fica virada para a água ela tem uma espécie de “ventosa” que permite agüentar o peso de um pequeno jacaré-açu, até 20 quilos, sem afundar. Cada planta é composta de aproximadamente dez folhas e ao contrário dos seres humanos nascem com as folhas enrugadas, ficam lisas, dão flores e simplesmente se desfazem e desaparecem. A flor, por sua vez, nasce branca e em três dias fica rosada, só abrindo à noite, em dias nublados ou chuvosos.

Vimos as casas flutuantes, navegamos nos igarapés, que são os pequenos rios, nos “paranás”, que são os rios formados somente nas cheias, e nos “furos”, que são menores que os paranás e que na verdade nada mais são do que a floresta inundada. Conhecemos a sambaúma, uma árvore gigantesca, com raízes longas que permitem que ela fique dentro d’água e que mantenha a árvore estabilizada nas grandes ventanias. É uma das árvores mais altas da floresta e é uma espécie de ”telefone indígena”, já que em época de seca, batendo em seu tronco o som pode ser ouvido até 5 kms de distância.

Além de tudo isto, nos deliciamos com as diversas frutas e os peixes da região. Tomamos o Café Regional, que é servido aos domingos em lugares muito agradáveis e, normalmente, afastados da cidade, e que onde se pode apreciar desde a variedade de sucos de frutas como o taperebá, murici, cupuaçu, abacaxi, acerola, e outros, até o sanduíche com tucumã e queijo coalho, a pupunha e muitas outras coisas.  Também comemos costela de Tambaqui e outros peixes da região, como o tucunaré, pirarucu, jaraqui. Foi uma festa de sabores.

Aproveitamos para conhecer também as cachoeiras que ficam perto da cidade de Presidente Figueiredo, a 107 kms de Manaus. O nome da cidade nada tem a ver com o antigo presidente do Brasil, mas é homenagem a outro Figueiredo que foi o “prefeito” (antigamente chamado de presidente) do lugar. Existem aproximadamente 40 cachoeiras, sendo que para visitar algumas é necessário autorização da Secretaria de Turismo. A maioria fica em propriedades privadas. Conhecemos Iracema, Santuário, as corredeiras do rio Urubuí e infelizmente não vimos tudo que gostaríamos, mas tudo bem, porque assim temos motivos pra voltar mais uma vez...

Era hora de partir. Fomos de ônibus para Boa Vista. Existia um motivo para que esta viagem fosse feita de ônibus e durante o dia. Queríamos passar pela Reserva Indígena Waimiri-Atroari. São 125 kms de estrada, onde é proibido parar, fotografar ou filmar. A passagem só é autorizada entre 6 da manhã às 18 horas, quando a cancela da estrada se fecha. Somente os ônibus, que são poucos, têm autorização para trafegar a noite. Os Waimi-Atroari ocupam uma área de 2.585 km quadrados. São aproximadamente 877 índios, distribuídos em 18 aldeias. Durante a construção da rodovia – BR 174, em 69-73, o conflito entre brancos e índios resultou na morte de muitas pessoas.

O movimento da estrada que liga Manaus-Belém, não é muito grande. Dentro da reserva cruzamos somente dois caminhões e quatro carros pequenos. A estrada é bem estreita e sem acostamento, e obrigava o motorista a “ziguezaguear” para escapar dos buracos da pista causados pelas chuvas.

Depois de 12 horas de viagem chegamos a Boa Vista. Na estrada, além da reserva indígena, vimos mata fechada, fazendas de gado e mais uma vez cruzamos a linha do Equador, que neste trecho é demarcada por uma grande pedra, que é o marco zero ou latitude zero. Ao contrário do que vimos no Equador onde a “Mitad Del Mundo” é um ponto visitado por pessoas de todo o mundo, só conseguimos ver o “marco” porque estávamos muito atentos a tudo que se passava pelo lado de fora do ônibus. Isto também nos permitiu enxergar um Tamanduá em busca de formigueiros.

Em Boa Vista fomos recebidos pela Eliana, que é amiga da Ana, nossa amiga de Manaus. Ela nos mostrou a cidade e nos levou para um lanche. Apesar de pequena, Boa Vista é uma cidade limpa e muito bem planejada. Nos causou uma ótima impressão à primeira vista. As pessoas são simpáticas, educadas e hospitaleiras. Apesar de não ter nenhum shopping e só ter um cinema, foi lá, o único lugar no Brasil, que vimos os motoristas respeitarem os pedestres. Ao colocarmos o pé na faixa, mesmo que não tenha sinais de trânsito, os motoristas param imediatamente. Nos sentimos em outro país. A cidade tem a forma de um “leque”. As avenidas são largas e compridas. No canteiro central de uma das avenidas, que liga o centro ao aeroporto, no Complexo Ayrton Sena, foram construídos bares, lanchonetes, sorveterias, pistas de motocross, espaços para as crianças brincarem, espaço para exercícios físicos, centro de artesanatos, etc. À tarde e à noite o lugar fica bem movimentado, dividindo com a “Orla Taumanan”, que é uma espécie de “malecon” ou “calçadão”, às margens do Rio Branco. É um complexo com bares e restaurantes, com muita gente namorando e crianças se divertindo.

Decidimos que Boa Vista seria o lugar que passaríamos uma data muito especial para nós. Era nosso aniversário de 25 anos de casados. Fizemos nossa programação para comemoração, com a ajuda do Sr. Ramiro, pai da Eliana, da própria Eliana e do Paulo, irmão dela que tinha um bom hotel na cidade. A comemoração foi num dos restaurantes da orla, regado a um bom vinho e Tambaqui na telha, especialidade do lugar. Depois ficamos namorando, olhando as estrelas cadentes, a lua, o céu, o rio, a mata da outra margem... Foi muito gostoso e romântico. Nos sentimos muito felizes e fizemos planos para os nossos 50 anos de casados e “otras cositas más”...

Já em Boa Vista, começamos a ficar preocupados com relação à nossa escalada ao Monte Roraima. O motivo era que, curiosamente, enquanto no sul do Brasil o inverno deixava os termômetros na casa dos 7 ou 8 graus, em Belém e Manaus as TV’s já anunciavam o verão. Porém, em Boa Vista ainda era inverno, mas isto não quer dizer temperaturas baixas. Os termômetros batiam a casa dos 33 graus, mas a chuva indicava a estação. Só então ficamos sabendo que o verão chegaria apenas em Setembro e que Boa Vista acompanhava a estação da Venezuela, pela proximidade. Aliás, a Venezuela e a Guiana Inglesa estão muito mais próximos de Boa Vista do que Manaus. Num raio de 100 a 200 kms é possível chegar nestes dois lugares, enquanto foram necessárias 12 horas para chegar em Boa Vista, vindo de Manaus. Não nos deixamos abater e mais uma vez pegamos um ônibus para a cidade de Santa Elena, na Venezuela.

A viagem não seria longa, apenas 4 horas até Pacaraíma que fica na fronteira da Venezuela, mas ainda do lado brasileiro. Como os ônibus que vão diretamente para Santa Elena, não saem todos os dias, resolvemos seguir o conselho dos vendedores de passagem da empresa. Chegando na fronteira teríamos que pegar um táxi e rodar 15 kms até Santa Elena. Saímos de Boa Vista debaixo de chuva. A estrada era a mesma BR 174, estreita e sem acostamentos. O mais interessante, desta vez foi observar a relação passageiros-motorista que conversavam quase que por códigos. Não conseguíamos entender como o motorista sabia exatamente qual era o lugar que queriam descer. O motorista muitas vezes parou “num nada”. É claro que devia ter alguma sinalização ou coisa parecida que nós não conseguíamos enxergar. Diziam para parar no “oásis”, mas não víamos nada, pediam para parar depois da “placa branca” e no entanto não enxergávamos placa alguma. Desistimos de tentar entender e nos deixamos levar pelo encanto da  paisagem.

Nesta estrada passamos também por uma reserva indígena que abriga três tribos sendo uma delas dos índios Macuxis. Interessante é entender que para os indígenas não existe “nacionalidade”. Eles são capazes de transitar entre os países sem perceberem a diferença a não ser pela distinção que fazem, dizendo que o Brasil é “terra plana”, a Venezuela é “terra montanhosa” e a Guiana é “terra selvagem”. Afinal, eles são os donos destas terras muito antes delas serem brasileiras, venezuelanas ou “guianeses”.

Chegando em Santa Elena, percebemos que realmente estávamos na estação chuvosa. As ruas da cidadezinha estavam alagadas. O mesmo táxi que nos levou até ali nos indicou o caminho para que pudéssemos carimbar nosso passaporte dando entrada no país. Por falar nisto, esta fronteira foi o único lugar que demos saída no passaporte brasileiro. Geralmente quando saímos do Brasil nunca é estampada a saída. Não entendemos porque, mas seguimos as regras.

Era hora de nos informar sobre o trekking ao Monte Roraima. A cidade é um dos principais pontos de saída das expedições para o Monte Roraima e para a Gran Sabana. A idéia seria escalar o monte, que com seus 2.700 metros de altitude, é um dos locais mais visitados do Parque Nacional Canaima. Este trekking leva os aventureiros ao “Mundo Perdido”, chamado assim por causa de suas formações geológicas peculiares, seu isolamento e também por ser um dos lugares mais antigos do mundo. O percurso é feito, a pé, durante seis dias e cinco noites.

No primeiro dia a saída é feita de Santa Elena, na parte da manhã, num carro 4x4 até a comunidade indígena de Peraitepuy de Roraima para encontrar com os nativos que ajudam com os equipamentos e comida, afinal é preciso levar barracas, sacos de dormir, comida, etc, para todos estes dias. Dali caminha-se até o primeiro acampamento, já a 1.400 metros de altitude à beira do Rio Kukenan.

No dia seguinte, depois do café da manhã, começa uma caminhada longa até atingir uma altitude de 2.000 metros. Novamente acampa e passa a noite, descansando para o dia seguinte, que será a subida do Monte Roraima.

No terceiro dia começa com a subida do Monte, onde no seu topo atinge-se  2.700 metros. Novamente são mais algumas longas horas de caminhada, mas desta vez com extrema dificuldade, pois a subida é íngreme e nesta região costuma chover sempre. Já no alto do Monte Roraima, o acampamento é feito em pequenas cavernas, que os nativos batizaram de “Hotéis”.

           O quarto dia é dedicado à exploração do topo do monte. Pode-se ver o marco da tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, o Vale dos Cristais e algumas piscinas naturais.

Já que “para baixo todo santo ajuda” o quinto dia é reservado para a descida até o Rio Tek, numa caminhada de 8 horas, onde os aventureiros passam a noite acampados, para seguir viagem, no dia seguinte, novamente, até a comunidade indígena Peraitepuy de Roraima. O caminho de volta é feito, outra vez, num carro 4x4, até Santa Elena.

 Infelizmente, toda esta programação não pode ser feita. Por causa das chuvas fortes, o rio Kukenan estava muito cheio e intransponível. Os guias locais, autorizados, não queriam arriscar a subida pela dificuldade em função do tempo. Fomos em todos os lugares, nos informamos com todas as pessoas e a resposta era sempre a mesma. Começamos a acreditar que realmente a escalada teria que ficar para uma outra época. Mesmo se conseguíssemos chegar ao topo seria impossível ver a tríplice fronteira, as piscinas e os cristais, já que o monte estava cercado de nuvens e neblina todo o tempo. Enfim, novamente, este seria um ótimo motivo para voltarmos numa outra época para Santa Elena e escalar o Monte Roraima.

Resolvemos que não nos deixaríamos abater e fomos conhecer a Gran Sabana. Conhecemos uma pessoa muito interessante, um contador de estórias, que nos acompanhou. Conhecemos sobre as minas de ouro e diamantes da região, vimos  montanhas que alguns juram presenciar aparições de “OVNIS” e também as montanhas “vaginales” chamadas assim pela forma triangular, com vegetação rasteira, e com reentrâncias com vegetações altas, formando “tufos” como se fossem os pêlos pubianos. Com imaginação vimos as três mulheres grávidas dando a luz e mais adiante vimos o perfil de um homem deitado que, segundo os índios, quando ele despertar “cabeças vão rolar”, literalmente.

Tepuis, na língua dos Pemóns, índios da região, são montanhas, sejam elas grandes ou pequenas, arredondadas ou chapadas. As mais conhecidas da região são Chirikayen, Roraima e o Kukenan, que podem ser vistas lado a lado. Paramos nos vales de Kukenan e no Vale de Aaka, que segundo a lenda, se você gritar e ouvir o eco, você já viveu neste vale ou viverá outra vida. Nós, pelo visto, já vivemos por lá ou vamos viver uma outra vida. Talvez tenha sido por isto o nosso fascínio tão grande pelo lugar. O mais engraçado foi ouvir de volta alguém gritando “louco” e soando o eco. É um morador local que grita de volta sempre que alguém, curioso, resolve testar a lenda.

Paramos para um banho na Quebrada de Jaspe, atrativo único e insólito. O lugar era de tirar o fôlego. As pedras muito lisas de jaspe brilham sob a água num tom avermelhado fantástico. Dizem que o lugar tem uma energia muito grande e que em muitas fotos apareceram pontos luminosos. O único incômodo eram os “puri-puri”, aqueles mesmos mosquitos que conhecemos como “mutuca’ ou “borrachudo”. Vimos também o Rio Yuruani, o Salto Arapená, Soroape, Quebrada de Pacheco, Valle de Los Quatro Vientos, Mirante Piel Del Abuelo, Salto Kamá ou Kamá-Merú.

A Gran Sabana reserva muitas surpresas. Paramos para ver os “mini tepuys”, que é uma formação arenosa com miniatura dos tepuys, do Gran Cannyon e do Salto Angel. Fantástico também foi observar uma floresta e perceber que bem na frente, ao nosso lado, existia uma mini floresta, verdadeiros “bonsais”, que eram exatamente iguais à floresta atrás. Ainda em plena Sabana, cuja característica são montanhas lisas e com pequenas ondulações nos deparamos com montanhas que nos fizeram lembrar a paisagem montanhosa da Irlanda.

Além do que vimos em termos de natureza, almoçamos numa comunidade indígena e experimentamos o “picante”, pimenta com molho de formigas ou cupim. Bem, o picante era muito bom, mas as formigas e os cupins não davam para encarar, embora eles jurassem que era muito saborosa. Entramos numa casa de um indígena que tinha três filhos pequenos. Geralmente, a parte da frente da casa é usada para fazer trabalhos manuais, artesanatos e a parte íntima, ou seja, o cômodo onde são colocadas as redes fica na parte de trás. Existe uma peculiaridade neste povo indígena. Eles jamais olham os brancos nos olhos. Dizem que os olhos mentem e a palavra não mente. Numa negociação eles sabem, através da voz, se a pessoa está blefando ou não.

Graças ao nosso novo amigo venezuelano, que nos acompanhou pela Sabana, aprendemos muitas coisas sobre o povo, sobre os lugares onde estivemos e ouvimos muitas lendas indígenas, como a do Beija-Flor**, do Tigre e do Caranguejo e outras (** Veja o link para a lenda do Beija-Flor no final deste texto).

Era hora de decidir o que fazer, já que também tentamos fazer um trekking de 3 dias até um “tepuy” menor, o Cherikayen, mas também não deu certo porque o guia que nos levaria teve um problema de saúde com o filho. Diante disto, tomamos a decisão de pegar o ônibus de volta até Boa Vista e seguir novamente para Manaus.

Loucura?  Não. Precisávamos fazer alguma coisa diferente e ousar um pouqco mais. Nos sentimos um pouco frustrados por não conseguir escalar o Monte Roraima e para que esta sensação não ficasse nos perseguindo até voltarmos numa outra época, pensamos num outro desafio. Resolvemos seguir para a selva e saber como era sobreviver alguns dias dentro dela.

Em Manaus nossa jornada começou às 5 e meia da manhã, quando partimos com um índio da tribo Waipixana, da Guiana Inglesa, rumo a uma comunidade a três horas de ônibus de Manaus. De lá pegamos uma canoa motorizada e viajamos mais ou menos quarenta e cinco minutos pelo rio Urubu, até chegar na selva. Diferente do que muita gente está acostumada, lá não existia nenhum hotel, somente uma maloca e redes para dormir. O banheiro era improvisado, mas pelo menos tinha uma cerca bem rústica, também feita de palha, que nos deixava mais à vontade. O banho é no rio, com piranhas. Pura verdade. A canoa motorizada voltou e a partir de então só tínhamos as canoas a remo. Passeamos pelo rio, remando, é claro, aprendemos a pescar piranhas somente com a linha e anzol. As piranhas são muito rápidas e é preciso muita sensibilidade para sentir quando elas fisgam a isca. Este seria o nosso jantar por isso caprichamos na quantidade.

O entardecer no rio foi maravilhoso e rapidamente a noite caiu. Não é preciso dizer que tudo ficou absolutamente escuro. Tentamos ir ao banheiro, mas foi impossível pela quantidade de aranhas. Só podíamos contar com nossa lanterna e uma ou outra vela que só iluminava um pouquinho. O índio nos chamou para “focar” o jacaré. Saímos na escuridão, com uma lanterna, entramos na canoa e fomos para o igapó. O cheiro e os sons eram bem diferente do que sentimos durante o dia. Ele ia à frente, com a lanterna na boca e olhando para todos os lados. Tínhamos que passar bem próximo às árvores inundadas (só pra lembrar o igapó é a floresta inundada) e muitas vezes ajudar a atravessar a canoa puxando as árvores com as mãos. Muitas folhas, galhos de árvore e “coisas” que não sabíamos o que eram caíam sobre nós. Num certo instante a canoa encalhou e ele teve que descer nos troncos de árvores caídos e empurrar. Outra vez ele parou diante de um tronco que teríamos que passar perto e focou com a lanterna uma aranha gigante venenosa. Focou em seguida mais outra que picou um grande sapo que morreu na hora. Tudo isso em silêncio para não espantar os jacarés.

Procura daqui, procura dali... Os índios-guias estão acostumados e até pegam os jacarés menores, mas nós tínhamos receio de passar por cima de um deles e ele levantar. Bom, pensávamos o impensável. Foi uma “longa” jornada. Achamos que nunca mais sairíamos daquele labirinto de árvores. Depois de olha daqui, olha dali, e de muitos sustos, finalmente saímos daquele lugar e entramos no rio principal. Olhando para o rio tivemos uma visão fantástica. O céu estava completamente estrelado e refletia nas águas escuras do Rio Urubu. Parecia ser possível pegar as estrelas com as mãos. O silêncio era profundo, a escuridão era total. De repente o nosso guia disse ter ouvido o som de uma onça no meio da floresta. Quando chegamos na margem, focamos um jacaré que abaixou e sumiu. O índio olhou todos os lugares por onde passaríamos e nós chegamos na nossa maloca de onde não saímos mais. Acendemos mais uma vela, subimos na rede e tentamos dormir o mais rápido possível. Estávamos muito cansados e queríamos dormir e não acordar durante a noite. Impossível.

O amanhecer na floresta compensou todo o cansaço de andar e remar. Os macacos, que eles chamam de Guaíba (conhecemos como bugios) faziam um barulho ensurdecedor antes do amanhecer e logo em seguida os pássaros começaram a cantar. Fomos para o rio ver os pássaros. Foi a primeira vez que ouvimos o bater de asas dos pássaros. A água parecia um espelho, de tão lisa. As árvores, a mata e os pássaros refletiam. A sensação era muito boa. Era a perfeita sintonia entre nós humanos e aquela exuberante natureza...

Ali, já era a floresta, mas fomos adiante. Entramos mata adentro. Caminhávamos incansáveis horas. Dentro da selva tudo é intrigante: o som dos animais, pedaços de árvores que caem constantemente e o som destas árvores caindo. Parece uma estufa. A maciez do chão por causa da cama de folhas é impressionante. Mais uma vez presenciávamos a perspicácia do nosso amigo índio. Ele ouvia todos os sons enquanto caminhávamos, mesmo com o barulho de folhas secas por causa da nossa passada. Sem dizer que ele também enxergava bem no escuro e sabia as horas sem olhar no relógio, é claro. Fizemos alguns testes e deu certo. Nossa câmera tinha um relógio. Perguntávamos as horas e ele respondia certo. Inacreditável. 

O índio parava sempre que ouvia algum som de animal ou às vezes parava para matar alguma mosca chata que ficava rodeando. O tapa era certeiro e fatal. A mosca caía mortinha. O mesmo não acontecia conosco, é claro. Pouco falávamos porque os animais podem nos ouvir a uma grande distância. A selva abriga muitos animais bonitos como as araras, os pássaros, mas abriga outros animais como as onças, porcos do mato, jabutis, tamanduás, bicho preguiças, veados, sem falar das cobras, formigas, aranhas, etc. Fomos aprendendo sobre as plantas medicinais como “vick” que é bom para gripe, a “preciosa” que cura dor de estômago, além do “Pará”, que tem um leite que os índios bebem. Vimos frutas, como o açaí, bacaba, buriti. Além disso, aprendemos que o “tapuru”, que é uma larva que fica nas palmeiras é comestível, e por aí vai. Vida de índio.

A floresta, além dos animais, têm riachos, cachoeiras, é escura, às vezes, também mostra os raios de sol entre as árvores, chove freqüentemente, tem neblina, muitas árvores caídas, areia algumas vezes, tem muito cupim, formigueiro e coisas estranhas, como alguns cogumelos que vimos. Tem também estórias arrepiantes, como “espírito da floresta”, lugares em que surgem fogos azuis, folhas que caem como se árvores estivessem sacudidas, cobra grande e tudo isto, contado, obviamente, à noite.

O cair da noite na selva é impressionante, na mesma proporção que o amanhecer é fantasticamente lindo. Quando a noite chegava nos ajeitávamos nas redes amarradas nas árvores e com uma pequena cobertura com folhas de palmeira para proteger da chuva. Por sorte nossa conseguimos dois mosquiteiros que nos deixava mais confortáveis. Ouvimos um caso de que algumas pessoas saíram para a selva e que a onça tinha atacado somente uma delas que não estavam com o mosquiteiro. Isto porque ela ataca somente no pescoço e o mosquiteiro dificulta saber em qual dos lados está a cabeça. Insistimos para nosso guia levar também um mosquiteiro, mas ele recusou. Ficamos preocupados, pois nada adiantaria nos proteger e acontecer alguma coisa com ele. Se isto ocorresse jamais conseguiríamos sair dali. Enfim, nada aconteceu. Lógico. Ele é índio.    

A experiência na selva nos fez enxergar como somos tão pequenos e impotentes. Somente quem nasceu nela pode tirar o proveito de tudo que ela pode oferecer e pode conviver com todos os animais que ela abriga. Para nós, que só vemos animais no zoológico, nos sentimos inseguros de sabermos que dentro da selva estamos vulneráveis. Aquele é um mundo real e nós somos presas muito fáceis. Vimos o quanto somos impotentes diante dos animais maiores, como uma onça ou uma surucucu, como somos impotentes diante de uma cobra menor, mas venenosa, das aranhas, dos escorpiões ou de, simplesmente, uma formiga.

Além de toda esta experiência, importante foi o convívio com o nosso índio-guia, que acredita em sereia e espírito da selva. Observamos sua esperteza e seu instinto apurado, mas também observamos o respeito e a prudência dele diante da selva e do rio. Ouvimos estórias assustadoras contatadas sob a escuridão da noite e começamos a colocar em dúvida toda a nossa racionalidade. Muitas pessoas têm medos que para nós são infundados, como medo do boto e da cobra grande, outros não chegam perto dos rios ao meio dia e as seis da tarde. Se todas estas coisas existem ou não, sinceramente não sabemos, mas sabemos que os medos precisam existir para que sejamos prudentes e para que nossos desafios e aventuras sejam vencidos de forma saudável e consciente e que, além de nós humanos, existem outros seres muito mais poderosos que nós. É importante que nossa prepotência seja colocada de lado e que possamos saber que vencer e enfrentar os medos menores já é uma grande passo para nossa vida.

Mais uma vez, a viagem valeu a pena. Conhecemos pessoas, culturas, reencontramos amigos, revisitamos lugares e conhecemos lugares novos. Aprendemos muito e agora podemos passar mais esta experiência a todos. Nos sentimos mais ricos e mais felizes por termos tido a chance e a coragem de enfrentar o novo e presenciar toda esta beleza da vida.

Desta vez não ficamos restritos ao carro, viajamos de avião, ônibus, barco, carro e nossos próprios pés. Isto prova que nossa liberdade não estava restrita ao nosso Land Rover, que alguém inadvertidamente nos tirou. Ele foi parte da nossa história, mas a verdadeira “liberdade” nada mais é que o nosso espírito de aventura, nossa vontade e a curiosidade de conhecer lugares e pessoas, seja lá como for.

Volta Amazonia                       A Lenda do Beija-Flor

Volta Página Principal