2a etapa

 

De Foz do Iguaçu ao Deserto de Atacama

 

Entramos na Argentina às 9 horas da manhã de uma segunda feira, 12 de março. Como sempre toda fronteira causa uma certa tensão pois nunca se sabe como será a recepção no país. Fomos bem recebidos pelos argentinos e demoramos mais ou menos uma hora para todos os trâmites porque além da documentação existia a curiosidade de saber sobre uma expedição que ia até o Alaska.


O calor já era intenso e o termômetro do carro já marcava 32 graus às 10 da manhã. Rumamos para Resistência e no caminho fomos parados por mais de 6 vezes por policiais. Na última parada, já chegando em Resistência, na província do Chaco, o policial pediu a documentação e olhou todo o carro. Não achando nada resolveu implicar com o reboque. Disse que na Argentina esse equipamento é proibido e nos trouxe uma relação de infrações e esta já grifada. Foi uma guerra de argumentações. Chegamos a mentir falando que tínhamos uma lancha no Brasil e este equipamento servia para reboca-la. Depois de muita conversa começamos a entender que não passava de uma "cantada de propina" e resolvemos dizer que iríamos tirar o equipamento. Ele ficou desconcertado e resolveu nos mandar seguir "adelante". Depois deste fato conseguimos achar um camping bem razoável. Lá encontramos um casal de alemães que estavam viajando com uma filha de 3 anos num Unimog que ia do Deserto do Atacama a Buenos Aires, entrando depois para o Brasil.


Na manhã seguinte resolvemos fazer uma viagem mais curta, indo para Saenz Peña porque tínhamos a informação de ser uma cidade muito agradável. Faltando 20 quilômetros para chegar, ao meio dia, com o sol a pino e o termômetro do carro marcando 40 graus vimos uma fila de caminhões parados na estrada. Era um bloqueio feito por trabalhadores rurais. Já tinha 2 dias que todos estavam ali parados e não tinha hora nem dia de terminar. Tentamos negociar nossa passagem mas foi impossível pois não existia somente aquele bloqueio. Dessa forma o jeito foi juntarmos à centenas de caminhoneiros, inclusive brasileiros, que por lá estavam.


Havia circulado uma informação de que o bloqueio seria suspenso às 8 e meia da noite e com esta expectativa achamos uma sombra num camping abandonado e ficamos por ali até este horário. Começou a ficar impossível permanecer naquele lugar porque os mosquitos e pernilongos não davam trégua, vinham em bandos para nos atacar. Também começou a chegar informação que a estrada não seria aberta naquela noite porque o acordo que estava sendo negociado com o governo não tinha sido aprovado. Tomamos a decisão de voltar para Resistência e lá ficar até o término do protesto.


No caminho de volta, a mais ou menos 20 quilômetros do bloqueio encontramos um pequeno hotel na beira da estrada e resolvemos parar por ali. Era um hotelzinho bem agradável e que foi como um oásis no meio do deserto. Achar este hotel foi a nossa sorte porque a estrada para Resistência também foi bloqueada naquele dia.


Acordamos cedo na esperança de tudo ter sido resolvido durante a noite, no entanto a estrada continuava um deserto. Num certo instante alguns caminhoneiros passaram buzinando para outros que estavam parados por ali. Pegamos nossas coisas rapidamente e fomos em direção a Saenz Peña, embora naquela altura já não nos interessasse mais por ali ficar. Era apenas o caminho para chegar em Salta.


O primeiro bloqueio onde ficamos parados no dia anterior havia sido suspenso mas outros continuavam. Com ajuda de policiais e caminhoneiros, passamos por estradas vicinais, estreitas e empoeiradas e conseguimos sair fora daquela confusão. Estávamos nestas alturas ligados no rádio que transmitia informações sobre o tal acordo e ouvimos que se não fosse resolvido a contento toda a província do Chaco seria fechada. Aceleramos o máximo possível em direção a Salta.


Aquela região é insuportavelmente quente e o ar condicionado do carro não conseguia vencer o calor. Enfim, suados e cansados chegamos a Salta onde pernoitamos num camping.


Já era hora de sair da Argentina. Levantamos cedo e rumamos para San Pedro de Atacama, no Chile. Passamos por uma estrada muito bonita indo em direção à província de Jujuy e lá chegando fomos novamente surpreendido por um novo "Paro". Era um protesto de uma comunidade andina e tivemos que ficar esperando bastante tempo. Isto atrasou toda nossa viagem e começou a nos deixar preocupados porque tínhamos que atravessar os Andes e não queríamos fazer isso à noite.


Depois de 3 horas de espera liberaram a passagem por 10 minutos, para nossa sorte, e pudemos seguir por uma empoeirada estrada já subindo os Andes. É impressionante ver que num lugar tão inóspito vivem pessoas que não conseguimos saber sequer como conseguem chegar em suas casas.


O nosso destino era a fronteira Argentina de Paso Jama. Neste trecho alcançamos a altitude de 4200 metros. Já era o começo do deserto que nos mostrava como seria daí para frente. Fizemos os trâmites na fronteira argentina junto com um caminhoneiro brasileiro que seguia para o Peru. Ao entramos no Chile a estrada mudou de terra e pedra para asfalto mas a paisagem permanecia a mesma: variando entre visões de vulcão à imensidão com pico nevados, imensos salares e cactus gigantes.


Continuamos subindo até alcançar a altitude máxima de 4.860 metros. A atenção precisava ser redobrada pois o ar rarefeito pode ser percebido pela sensação de cansaço e sonolência e dificuldade de respiração. A paisagem intrigante e a ausência de outros carros na estrada nos deixava um pouco apreensivos. Os picos nevados que víamos longe agora estavam ao nosso lado e as nuvens ao nosso alcance. Assim seguimos por um tempo que não sabemos precisar.


Numa certa hora vimos um vale e começamos a descer rapidamente. Era San Pedro de Atacama. De 4.860 metros fomos para 2.400, o que nos fez sentir bem melhor. A passagem pela aduana chilena é rigorosa e nosso carro foi totalmente desinfetado e revistado.


Enfim chegamos a San Pedro. A idéia seria acampar mas a cidade estava tomada pela lama, já que excepcionalmente tem chovido muito em todo o norte do Chile e inclusive em parte do deserto de Atacama onde não chovia há mais de 45 anos. O jeito foi procurar um hotel. Tudo por aqui é muito caro pelo que oferecem, também uma cidade encravada no meio do deserto, com todas as dificuldades de uma região inóspita e cheia de turista de todo o mundo já seria de se esperar. Depois de procurar muito optamos por um pequeno hotel com banheiro privativo, água quente e preço razoável. O maior problema foi que quando entramos no hotel a luz acabou e não havia água quente. A culpa afinal, não era do hotel, era de toda a situação, pois o lugar não está preparado para este clima.


Apesar de todo o caos que a cidade vem enfrentando todos são muitos simpáticos e prestativos e podemos ver os turistas por toda parte. Estar em San Pedro nos faz sentir voltando no tempo. É possível sentir o cheiro de incenso nas lojas e ouvir Ravi Shankar e Bob Marley nos bares. A cidade vive sem pressa e a noite é longa. Apesar das luzes serem desligadas à meia noite, a cidade continua a luz de velas e muito viva.


Assim como os outros turistas que a pé, de bicicleta, a cavalo ou de excursão programada vão explorar as maravilhas da região também colocamos nosso carro nos caminhos esburacados e fomos conhecer o Vale da Lua, o Vale da Morte e Pukara de Quitor que depois de atravessar pelo menos cinco riachos não pudemos chegar por falta de estrada. A chuva transformou o caminho num buraco intransponível.


O Vale da Lua tem este nome por se assemelhar à superfície da lua e não possuir nenhum tipo de vida. O silêncio é absoluto e quase pode-se ouvir os próprios pensamentos. Existem naquele lugar formações rochosas imensas esculpidas pelo vento, podendo chegar a 200 metros de altura. Já o Vale da Morte é conhecido por este nome por ter sido um lugar onde os povos antigos levavam os velhos e doentes, com seus pertences, para morrer em paz. Muitas múmias foram ali descobertas e algumas encontram-se no museu da cidade de San Pedro de Atacama. Tanto o Vale da Lua como o Vale da Morte estão na cordilheira de sal, sendo que no Vale da Morte os desfiladeiros e dunas são muito próximas causando uma sensação de arrepios. Pukara de Quitor, hoje é considerado um monumento nacional. As fortalezas datam do século XII e serviam como um forte para defesa do povo atacamenho dos ataques incas.


Uma das atrações mais interessantes desta região é o El Tatio, onde os Gêiseres explodem toda manhã levantando jatos de vapor e água fervendo a mais de 8 metros de altura. Eles ficam a 4 mil metros de altitude e a 97 quilômetros de San Pedro. Infelizmente este fenômeno fantástico da natureza não poderemos presenciar pois as estradas foram totalmente destruídas com as chuvas. Fomos até os carabineiros, a polícia local, e tentamos conseguir caminhos alternativos mas fomos informados que seria realmente impossível. É uma pena mas ainda nos restam outras muitas opções de passeios como os vulcões Licancabur e Lázcar, as piscinas de Peine, a Reserva Nacional dos Flamingos, Salar de Atacama e as cidades de Toconao e Socaire.


O vulcão de Lázcar está ativo e o seu topo sempre fica encoberto pela fumaça que expele com um forte cheiro de enxofre. A última erupção ocorreu em 93. O Licancabur fica bem em frente à cidade de San Pedro; apesar de não ser ativo impõe pela altura e beleza chamando atenção de todos que por aqui passam. Toconao e Socaire são duas cidadizinhas que conservam suas características como aldeias com seu "pueblo" que vive atualmente dos turistas que por lá circulam.


Agora circularemos mais uma vez através do deserto, cruzando novamente os Andes em direção ao Oceano Pacífico rumo a Iquique.

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