6a etapa

 

O México

 

Deixamos a América Central numa sexta feira, 04 de maio, com uma sensação de ter vencido mais uma etapa mas ao mesmo tempo com uma vontade enorme de conhecê-la melhor. Ela será na verdade um grande incentivo para a volta, afinal quando se pensa em "desafios" é necessário colocar metas e ter os objetivos alcançados. Além disto a América Central foi para nós a desmistificação de uma imagem criada em função da situação de ditadura e guerra. É um povo que quer esquecer este passado e que luta por uma vida melhor.


Da Guatemala entramos na América do Norte cruzando a fronteira El Carmem. Os trâmites de saída não foram complicados embora seja esta fronteira bem mais confusa do que a que entramos no país. Logo que chegamos no México fomos muito bem recebidos pela imigração e orientados que deveríamos pagar uma taxa num banco em Tapachula, cidade próxima desta fronteira. Saindo da imigração deparamos com uma "fumigação" (spray para desinfetar), que já é um procedimento muito familiar para nós que já cruzamos 10 países até agora. Alguns países são mais rigorosos na inspeção do carro e outros deixam correr mais solto. Desta vez foi muito pior que o Chile, que nos pareceu até agora a mais rigorosa. Nos fizeram tirar tudo do carro, dentro e em cima para que pudessem ter certeza de que não levávamos frutas e produtos de origem animal. Finalmente encontraram um leite em pó e apreenderam depois de preencher um enorme formulário justificando a apreensão. As frutas que tínhamos no carro, é claro que comemos ali mesmo, pois era nosso almoço. Esta inspeção foi a mais demorada e durou mais de uma hora, com pelo menos cinco agentes revistando tudo. Segundo o que eles disseram fazia parte de um programa intensivo de combate à febre aftosa e à mosca da fruta. Se era somente uma inspeção sanitária não sabemos porque não vimos nenhum sentindo na revista feita dentro de mala, de bolsa, etc, etc... Em todo caso foram muito educados e nos agradeceram muito pela nossa paciência. Aliás "paciência" e "bom humor" é o que é necessário para cruzar o México de carro...


Depois desta revista rigorosa, conseguimos finalmente pagar a conta que devíamos ao país (taxa de imigração), em Tapachula, com ajuda de um canadense casado com uma brasileira e que viajava num motorhome com a esposa e um filho de 10 meses. Nos encontramos na fronteira em meio a toda confusão da inspeção. A aduana finalmente estava a alguns quilômetros depois da saída da cidade. Desta vez os trâmites de aduana foram simples e rápidos, porém com uma ressalva: a taxa de aduana só pode ser paga com cartão de crédito, dinheiro por lá não vale nada!!! Depois de tudo isto já estávamos legalmente aptos a circular pelo país. Entramos pelo estado de Chiapas, que é uma região muito conturbada em função do movimento revolucionário zapatista, liderado pelo sub-comandante Marcos. É um movimento que vem lutando por democracia e pelos direitos sociais do povo daquela região, predominantemente indígena.


A partir daí tudo era muito novo e muito estranho para nós que fomos parados inúmeras vezes pela imigração, pelo exército, pela polícia federal e inspeção sanitária. Pensamos que a revista era por causa da proximidade com a fronteira e seguimos para Tapanapetec, lugar onde combinamos de encontrar novamente o canadense que tinha nos indicado um hotel por lá, já que não conseguiríamos chegar na cidade que programamos por causa de todas as burocracias. Como fomos recomendados pela polícia a não viajar durante a noite, resolvemos aceitar a sugestão do canadense e paramos antes do previsto. Tínhamos planejado anteriormente cruzar o México por toda costa do Pacífico, já que teríamos oportunidade de conhecer o interior e o Caribe na volta, porém fomos desaconselhados pelas autoridades que avisaram dos perigos de constantes assaltos pela região. Deixamos de lado a idéia e resolvemos seguir por outro caminho. Fomos para Oaxaca e Puebla. Durante o percurso fomos interrogados e revistados muitas vezes. Era agora o cumprimento da lei federal em busca de armas e drogas. A turma do exército era formada por jovens com cara de mau e que depois que descobriam que éramos brasileiros não resistiam a curiosidade de conhecer melhor o carro e perguntavam sobre o Brasil, sobre o Ronaldinho Gaúcho, mulheres, preço do carro e por aí iam... Revista que é bom, nada. O susto maior ficou por conta de um enorme Raio X que os carros e caminhões são submetidos, aleatoriamente. São caminhões com braços mecânicos enormes com um raio x com capacidade de verificar tudo que existe dentro dos veículos. Chegamos a entrar numa destas pavorosas filas de inspeção mas felizmente fomos liberados. Ficamos horrorizados com tal recurso pois ficamos imaginando a potências deste raios favorecendo o trabalho deles na verificação mas com um grande prejuízo para a saúde dos motoristas e viajantes.


Em Oaxaca, Puebla e próximo à cidade do México existem sítios arqueológicos fantásticos e que vale a pena demorar um pouco mais para visitá-los. Puebla, a 3a. maior cidade mexicana também vale a pena conhecer. De lá até a cidade do México o caminho não é longo e num domingo resolvemos fazer este trajeto pensando que a capital mexicana seria melhor. Passamos por fora da cidade, às 4 da tarde e pensamos que estivéssemos retornando a São Paulo, num dia de semana. O engarrafamento era enorme, a poluição insuportável, o cheiro horrível. Não sabemos bem se desacostumamos com a poluição ou se a cidade do México é bem pior que São Paulo. O Olho ardeu na hora e o nariz idem, isto porque além de tudo a cidade está a 2.500 metros acima do nível do mar e o ar é muito seco.


No México temos conseguido ficar em R.V.Park, que são lugares somente para traillers e muito frequentado por americanos e canadenses. São super estruturas, com banheiros absolutamente limpos, piscina, TV, e alguns até com Internet e restaurantes. Isto porque muitos americanos aposentados resolvem ficar morando nestas áreas. Fazem do trailler, a casa e constróem jardins e varandas, deixando o ambiente super bonito. Como os americanos normalmente prezam pelo respeito ao espaço alheio, tudo fica muito limpo e agradável. Também é um lugar onde podemos encontrar pessoas que gostam de viajar como nós e que dão dicas sobre lugares de ficar, cidades que devem ser conhecidas e assim não ficamos sozinhos porque todos querem também saber sobre nosso roteiro, sobre o carro e etc. Já fomos inclusive presenteados com livros sobre parques, rodovias e campings. O mais engraçado foi entrar nestes "campings" e conseguir chamar mais atenção do que os imensos e bem equipados traillers e motorhomes.


Foi através destas pessoas que ficamos sabendo o alto preço que pagaríamos para atravessar no ferry para a Baja California, nosso roteiro inicial. Resolvemos assim optar em subir pela Costa do Pacífico (Mar de Cortês). Já então em Tepotzotlan, cidade próxima de Teotihuacan, a terceira maior pirâmide, deixada pelos Mayas fomos em direção a Guadalajara. É a segunda maior cidade do México e muito bonita. Combina o moderno com prédios lindos antigos, com praças e ruas bem espaçosas. É uma cidade bem charmosa e requintada ao mesmo tempo. Lá serviu para lembrar da vitória do Brasil na Copa do Mundo. O "Caneco" era nosso definitivamente. Só não foi bom lembrar que o roubaram.


De inspeção em inspeção, de pedágio em pedágio somando um absurdo de preço se considerarmos as distâncias (em 500 kms pagamos 40 dólares), enfim estávamos outra vez no mar. Mazatlan, uma cidade toda preparada para receber o turista americano era agora nossa casa por dois dias. A cidade é lotada de resorts, hotéis caros, econômicos e R.V Park. Tivemos mais uma vez, com ajuda dos nossos amigos gringos, a indicação de um R.V. muito legal que tinha além da piscina, uma super jacuzzi na piscina que podíamos aproveitar até perto das nove da noite com o sol e depois de escurecer, já que o calor era muito grande. Depois de toda esta mordomia saímos em direção a Los Mochis querendo encontrar todo o conforto que deixamos para trás. Mas a surpresa não foi das melhores... a cidade era grande e não tão aconchegante quanto pensávamos, decidimos então ir para Topolobampo, que é uma praia a 9 kms dali. Outra surpresa! Era péssimo. Definitivamente não era nosso dia de sorte, mas encaramos com bom humor. Aceleramos para Navojoa. A caminho vimos que a 50 quilômetros de lá estava a cidade de Alamos, conhecida pelos famosos "feijões saltadores mexicanos". Para quem não sabe, pode ficar tranquilo que não comemos estes tais "saltadores". Eles na verdade são grãos que têm uma larva dentro e que se mexem. Mas que parecem feijões, parecem...


Bom, não vimos os feijões e a cidade era bem pequena, sem muito recurso. Voltamos até Navojoa e vimos que realmente não deveríamos seguir em frente, pois saímos com a intenção de rodar 450 kms e já havíamos rodado 800 kms. Somos aventureiros (???), mas já estávamos com a "bunda quadrada", assim resolvemos por um fim nesta estória de ficar procurando e paramos no primeiro hotelzinho que vimos pela frente. Depois de muitos dias dormindo no carro experimentamos uma cama. Nosso próximo destino não era tão longe dali. A apenas 200 kms estava San Carlos.


San Carlos é um lugar bonito, com o mar super azul que contrasta com a montanhas áridas e com os "cactus" gigantes que vemos nos filmes de "cowboys americanos". Pela proximidade com a fronteira com os Estados Unidos e pelo o número imenso de turistas americanos que passam por ali, o inglês é quase a língua oficial. Porém, mesmo sabendo que estamos na América do Norte é estranho pensar o México como norte americano, pois embora a influência yankee seja muito grande, o sangue latino continua falando mais alto... Só para ter uma idéia, fomos seguidos na rua até o camping que estávamos, por uma família de Ciudad de Obregon, que fica perto de San Carlos. Eles passavam o fim de semana por lá e com muita curiosidade queriam saber sobre nós, nossa viagem e pedir para tirar fotos conosco e com o carro. É claro que mais uma vez ficamos orgulhosos e ganhamos novos amigos que agora já se comunicam conosco pelo email. Aliás todas as pessoas que encontramos e que demos nosso endereço vem regularmente se comunicando, fazendo comentários sobre o site, dando dicas e endereços de amigos em outras cidades. Também alguns brasileiros que encontramos pelo caminho nos escrevem desejando sorte na viagem e querendo saber mais.


Era hora de seguir para os Estados Unidos e saímos dali com muita pena de ir embora. É sempre assim: vamos acostumando com o lugar, com as pessoas, fazendo amigos que vamos deixando para trás... Enfim, ficamos com uma enorme vontade de continuar por lá, conhecer mais os sítios arqueológicos e as praias que fazem uma perfeita combinação para turista nenhum botar defeito, mas fomos embora com a certeza de que na volta teremos a oportunidade de aproveitar melhor o México e poder contar mais sobre este grande país

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