8a etapa

 

Canadá

 

No dia 30 de maio, quarta feira, deixamos os Estados Unidos e entramos no Canadá. Depois de passar por Seattle, que fica próximo da fronteira, fizemos uma pequena parada na última cidade americana para um lanche e para dizer até breve aos Estados Unidos. Cruzar a fronteira foi a coisa mais sem graça para nós que nos habituamos a tantas burocracias. Foi fácil, rápido e com um simples carimbo no passaporte tudo estava resolvido. Ali tinha também um escritório de informações turísticas com prospectos, mapas e gente muito simpática para orientar os que entravam no país. Em apenas 45 minutos já estávamos em Vancouver.


Num primeiro instante pensamos que a cidade não fosse muito grande mas foi somente quando tentamos achar lugar para ficar e onde jantar é que percebemos que era bem grande e com todas as opções possíveis e imagináveis. Tem lojas e restaurantes de todo tipo: barato, caro e sofisticado. Divertimento é o que não falta por lá... E com uma vantagem, mais barato que nos Estados Unidos, em função da cotação do dólar canadense ser mais baixo que o americano.


Estávamos resolvidos ficar por ali uns dois dias para colocar a cabeça e o carro em ordem antes de seguir para o norte. Já sabíamos que Vancouver era a maior cidade do oeste canadense e era preciso aproveitar disso, afinal de contas tínhamos um longo caminho até o Alaska. Precisávamos também nos acostumar com o frio que iríamos enfrentar pela frente. Para os canadenses aquela temperatura estava ótima e era possível ver gente de bermuda e camiseta... afinal Vancouver, segundo nos disseram, é o Rio de Janeiro dos canadenses. Enquanto isto, nós que viemos de um calor que chegou a 40 graus estávamos sentindo um frio absurdo. Não era só a sensação por estarmos desacostumados com o frio, o termômetro era a prova de que realmente estava gelado, à noite chegava a 3 graus. Dizem por lá que o Alaska nesta época também é quente, mas estamos pagando para ver se realmente é... Deve ser calor para urso, porque se 3 graus não é gelado para os canadenses imaginem para os moradores do Alaska...


Em Vancouver revelamos algumas fotos, colocamos o site em dia, respondemos os emails. Era hora de trocar o óleo do carro... Conhecemos por lá um cara que mora numa estação de esqui, Whistler, que nos convidou para ficar o fim de semana na cidade. Tudo aconteceu porque ele tem um Hummer e estacionou o monstrão ao lado do nosso carro num shopping. Fez de propósito porque queria encontrar o dono do Land Rover. Dito e feito, quando saímos resolvemos tirar uma foto e ele chegou exatamente na hora. Ficamos por ali... um namorando o carro do outro. Encontramos também um brasileiro que queria nos ajudar. Ele ficou tão impressionado de estarmos ali de carro que veio tentar dar uma mãozinha no que fosse necessário, mas felizmente estava tudo muito tranquilo e já conhecíamos boa parte da cidade. Tínhamos que trocar o óleo do carro mas nos lugares que fomos não encontramos o filtro correto e por isso resolvemos deixar este assunto para o dia seguinte. Conseguimos o telefone de um representante Land Rover e ficamos de ligar a noite. Neste meio tempo ouvimos um barulho estranho no carro e descobrimos mais um problema simples de resolver. Relaxamos e deixamos tudo para fazer junto com a troca do óleo, no sábado cedo. Depois disto era só cair na estrada em direção a Whistler para encontrar o novo amigo, dono do Hummer.


Quando fomos trocar o óleo do carro a oficina estava cheia e era preciso voltar mais tarde. Fomos passear e quando voltamos o problema do óleo foi resolvido mas a peça que precisava ser substituída não tinha por lá e a grande parte das lojas de autopeças já estavam fechadas. As que ainda estavam abertas não tinham o que precisávamos. Era simplesmente a borracha do amortecedor... Assumimos que teríamos que ficar o fim de semana por ali. Era uma pena que não encontraríamos nosso amigo do Hummer, mas afinal Vancouver era um bom lugar para ficar mais dois dias. À noite lembramos do cara que representava a Land Rover e conseguimos a tal peça com ele mas como já estavam pagas mais duas noites de hospedagem resolvemos sair na segunda feira mesmo. Foi bom porque no domingo pegamos a peça, que foi trocada graças a habilidade mecânica do Helinho e aproveitamos para ir à montanha, passear pelas lojas que abrem à tarde e caminhar pela praia em North Vancouver onde estávamos hospedados.


Era hora de partir e de decidir que caminho seguir. Optamos pelo caminho mais longo, o que aumentaria mais de 1500 kms, mas com estradas bem mais bonitas. Pudemos ver as montanhas com picos nevados que pareciam estar bem do nosso lado. Passamos em Whistler para matar a curiosidade sobre a cidade, tentamos falar com nosso amigo do Hummer mas não conseguimos deixando apenas um recado na secretária eletrônica. Neste dia especialmente estávamos um pouco mais quietos e não sabíamos bem porque. Seguimos em frente e depois de dormir num camping com uma chuva insistente continuamos em direção a Banff, que fica num parque com o mesmo nome. Resolvemos tentar entender o porque daquela angustiazinha que tomava conta da gente e fomos percebendo que não passava de ansiedade. Agora o Alaska estava realmente mais próximo e nos demos conta de estar quase alcançando nosso objetivo.


Nesta viagem vimos o primeiro urso que estava se alimentando na beira da estrada. Paramos o carro, não sabíamos se olhava, fotografava ou filmava. Fizemos tudo ao mesmo tempo. Era a primeira vez que víamos um urso no seu habitat natural. Ficamos eufóricos e era nossa vontade contar para todo mundo.


Banff é uma cidade linda, preparada para os muitos visitantes que passam por lá, inclusive japoneses que chegam aos bandos. Estava gelado mas resolvemos acampar assim mesmo no parque. Entramos naquele instante em terra alheia: os ursos circulam por ali e é bom levar a sério as regras do lugar colocando os alimentos em boxes de ferro, evitando contratempos. Como anoitece por volta das onze e meia nesta época, fizemos nosso jantarzinho mantendo os olhos bem abertos, evitando sustos com os grandalhões. De manhã era hora de partir passando de novo pela cidade. Tivemos a oportunidade de assistir até um treinamento de resgate nas montanhas e seguimos em direção a Jasper. A viagem do dia anterior já tinha nos deixado impressionados com a beleza do lugar mas todos tinham nos recomendado esta estrada entre Banff e Jasper como sendo "a estrada mais bonita do mundo". Se era exagero até então não sabíamos mas que é maravilhosa agora podemos afirmar. Existem por ali várias placas alertando sobre os ursos, alces e caribus. Não deu outra, levamos um susto com um urso negro, enorme, que cruzou nosso caminho. Não foi de todo tão mal assim pois pudemos observá-lo bem de perto e de dentro do carro.
Este caminho tem aproximadamente 370 kms, mas é impossível não gastar pelo menos um dia inteiro para atravessá-lo, porque os glaciares ficam bem perto da estrada, sem contar os inúmeros montes nevados, lagos com diversas tonalidades de verde e azul e rios. As paradas são obrigatórias e as fotos idem. É realmente uma viagem inesquecível. Existe até um glaciar que é possível chegar bem perto, debaixo de um vento gelado e muitos avisos para não entrar no gelo por causa de buracos que ficam escondidos.


Em Jasper aproveitamos a experiência da noite anterior e também ficamos no parque nacional acampados sob o mesmo frio intenso. Existia lá o mesmo risco de ser surpreendido pelos ursos. Engraçado, mas a gente acaba se acostumando com esta história de ursos e no final eles já são parte integrante da viagem. Pela estrada continuamos vendo alguns deles, inclusive uma mãe ursa e dois filhotes. A cena parecia de filme. Eles estavam comendo na beira da estrada, num campo bem florido. A partir daí aprendemos que deveríamos ficar atentos quando víssemos estes campos com flores. Dito e feito, vimos vários ursos negros e até um marrom que até então não tínhamos encontrado comendo nestes campos floridos. Quando deparávamos com eles era sempre a mesma coisa: parar, observar e às vezes fotografar. Com o tempo passamos a ficar só observando, pois começamos a nos sentir meio intrusos naquela cena.


Agora começava um longo caminho rumo ao Alaska. O nordeste do Canadá é imenso e as cidades começam a ficar mais distantes e menores. Rodamos 800 kms e chegamos à Dawson Creek, uma cidadezinha que tem o privilégio de ter a "Milha Zero" da Alaska Highway. Não precisa dizer que ficamos realmente entusiasmados de chegar naquele marco, pois já começávamos a enxergar o Alaska mais perto, mesmo ainda estando a 2000 kms da fronteira.
A Alaska HWY é uma rodovia que foi construída há 50 anos, na época da 2a. guerra, pelos americanos e canadenses. Foi construída em apenas 8 meses e vinte dias, utilizando mão de obra de soldados e civis. Ela tem 2.223 kms de extensão, terminando em Delta Junction perto de Fairbanks.


O sonho já estava bem mais próximo e bem mais real. Por ali passam as pessoas que vão para o Alaska. Encontramos um senhor que tem um enorme motorhome e que veio conversar conosco em português (ele e a esposa são filhos de portugueses). Ele nos disse que já conhecia todos os estados americanos faltando somente o Alaska. De lá passamos em Fort Nelson e Watson Lake. Por sorte em Watson Lake conseguimos ficar num camping bem interessante de um típico canadense de Yukon, território que já estávamos. O dono era um senhor mais velho, contador de estórias às vezes assustadoras de ursos enormes, raposas e lobos que tinham que ser caçados porque atacavam os animais e pessoas. Nem todas as estórias eram verdadeiras pois o velho era um tremendo gozador. Para saber o que era real e o que era gozação olhávamos para a mulher dele que ria a cada bobagem que ele falava... Ali ficamos um bom tempo nos divertindo com as estórias, algumas peças da época da construção da estrada, armas e armadilhas para ursos e lobos. Tinham também cabeças de alce, caribu e um crânio de urso.
O Yukon é um território bem diferente da British Columbia, que até então estávamos subindo. Foi nele que aconteceu a corrida do ouro em 1896, com muitos europeus e americanos vindo garimpar em busca de riqueza. Para quem gosta de gibis é bom lembrar que foi em Klondike, no Yukon, que o Tio Patinhas também começou a fazer sua fortuna... Nesta parte da viagem os deslocamentos são longos, as cidades são pequenas e com poucos habitantes e os dias duram pelo menos 18 horas, podendo assistir o sol bem tarde.


A última parada antes de cruzar a fronteira com o Alaska foi Whitehorse, que é a capital do território de Yukon e que tem apenas 20 mil habitantes. As estórias por ali também são muitas... No Yokon pudemos ver os índios que habitam a região, Athabaskan e Tinglit, que descendem dos clãs Wolf e Crow. De lá estavámos apenas a 500 quilômetros da fronteira com o Alaska, não é preciso dizer da ansiedade que tomava conta da gente, sabendo que no dia seguinte alcançaríamos a nossa meta... Acordamos cedo, preparamos tudo e aceleramos...

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