11a etapa

 

Um merecido descanso em Bowling Green - Ohio

 

25 de julho, quarta feira. A decisão de ficar nesta pequena cidade foi se consolidando enquanto fomos novamente nos aproximando dos Estados Unidos. Decidimos ficar um tempo em Bowling Green porque era uma cidade pequena, lugar ideal para dar um descanso para o carro e para nós mesmos. Já era possível perceber alguns sinais do cansaço de dormir tanto tempo dentro de uma barraca e no carro. Estávamos sonhando com um teto e uma cama. Quando chegamos na cidade pressentimos que era o lugar perfeito para o merecido descanso. Ficamos primeiro num camping muito agradável perto da cidade, na beira de um lago bem bonito. Em menos de uma semana já estávamos em um apartamento e conseguimos enfim, dormir numa cama. O calor era bem intenso e os termômetros marcavam quase 35 graus; o dia era muito longo com o por do sol acontecendo pelas 9 horas da noite. Nos sentimos muito bem e à vontade na cidade.


Bowling Green tem aproximadamente 30 mil habitantes dos quais 20 mil são estudantes da Universidade que leva o mesmo nome da cidade: Bowling Green State University (BGSU). É um lugar com a população bem jovem e descontraída. É possível encontrar estudantes que vêm de várias partes do mundo fazendo do lugar uma verdadeira "Torre de Babel".


No verão, a cidade não está muito cheia porque é período de férias e somente os alunos que optam por fazer algumas classes de verão permanecem por aqui, mas ainda assim não deixa de ser uma festa. Como o calor é intenso, é possível ver os estudantes tomando sol ou se refrescando nas piscinas improvisadas em frente suas casas. A cidade tem ar de festa e descontração. Nesta época existem vários festivais ao ar livre na própria cidade e em varias outras pequenas comunidades perto de Bowling Green, com muita música, feira de artesanato, comida e chopp à vontade, desde que consumido dentro do espaço delimitado para beber. E´ lógico que apelidamos este reservado para beber de "curralzinho". Nenhuma bebida alcoólica pode ser consumida em locais públicos. É engraçado ver centenas de pessoas tendo que ficar em uma área delimitada para tomar cerveja.
O outono em Bowling Green é de uma beleza indescritível. As árvores vão mudando de cores e este colorido faz da cidade um espetáculo a parte. O verde, vermelho, laranja e amarelo vão tomando conta das estradas e viajar pela região é uma bela oportunidade para apreciar esta beleza. Aliás, o que não falta por aqui é lugar bonito para ver. Há mais ou menos meia hora daqui está Toledo, que fica ao lado do Lake Erie. Put-in-Bay e Kelleys Island também são duas ilhas muito legais para visitar. Cedar Point é um parque de diversões com a montanha russa mais alta do mundo. É uma atração nacional e muita gente vem para a região para se divertir neste parque. Tantos outros lugares podem ser visitados e todos têm uma atração especial.
O inverno em Bowling Green é muito rigoroso com temperaturas que chegam a 20 graus negativos, com um vento gelado que vem diretamente do Pólo Norte. Esta é uma região muito plana e com isto o vento traz uma sensação de frio bem maior. Por isto todas as atrações de verão e outono tem grande adesão dos habitantes da região.


A partir do final de agosto, quando começam as aulas, a cidade fica cheia e é possível ver melhor a agitação. Enquanto alguns estudantes estão em festa por causa da formatura que acontece nesta época, outros estão retornando à cidade e os novos alunos estão chegando fazendo das ruas um cenário a parte.


Apesar de ser uma cidade pequena, ela concentra no pequeno centro bares, restaurantes e danceterias o que faz das noites de Bowling Green um lugar alegre.


Quando chegamos por aqui encontramos um amigo americano que nos ajudou a conseguir um lugar para ficar e nos ensinou os macetes de uma cidade onde estudantes vão e vem a cada começo e final de ano letivo. Franklin, Lynn e suas filhas Olivia e Angelica nos apresentaram novas perspectivas por aqui e nos apresentaram seus amigos que acabaram tornando também nossos amigos. Aqui encontramos vários brasileiros que vieram estudar, e acabaram morando definitivamente, e outros que continuam estudando. A Márcia e o Craig, o José Luiz e a Kathy e suas filhas Isabel e Andréa também nos deram sua atenção e força. A Mônica com as filhas Patrícia e Tootsie, o Terry, Andréa, Pedro, Carol e Duda, Henrique, Cristiane, Emílio, Eileen e William e o filho Lee, os Brunos, as Fernandas, Ailene, Ana Elise, Valerie, Marcelo, Rafael, a Rosa, Margarida, Carlos Batista, Paulo e Silvia, Cristina ... ufa! São tantos os brasileiros que encontramos por aqui... e ainda nem conhecemos todos. Nunca pudemos imaginar encontrar numa pequena parte de Ohio tantos brasileiros juntos.


É muito bom ter a oportunidade de conhecer além dos americanos e brasileiros gente do mundo todo. Caminhando pelas ruas da cidade ou sentados num bar sempre encontramos novos amigos de diversos lugares da África, do Japão, da China, Coréia, Rússia, Bulgária, Azerbaijão, Cazaquistão, Porto Rico, Jordânia, Turquia e várias partes da Índia. É divertido poder trocar nossas experiências e brincar com as diferenças. É ótimo poder ir a um bar local com gente do lugar e ouvir Blues entre os novos amigos, com um deles tocando. É como entrar num filme. É divertido, é bom e será inesquecível para nós!


Estes momentos tão especiais para nós só foram interrompidos por um instante, em 11 de Setembro quando ouvimos a notícia dos ataques terroristas em New York e Washington. A sensação foi horrível, como se estivéssemos vivendo um terrível pesadelo. Não conseguíamos mensurar tudo que estava acontecendo e tivemos medo de termos que interromper nosso descanso por causa de toda a situação. O momento era tenso e não sabíamos o que seria dali para frente. A família e os amigos, preocupados conosco, sugeriram nossa volta para o Brasil, mas mesmo diante de toda aquela confusão sentíamos que poderíamos ficar aqui, em segurança. As coisas foram tomando um rumo complicado no país e a tensão foi aumentando com o início da guerra. Nós achamos que o melhor seria permanecer, naquele instante, em Bowling Green. Como se não bastasse toda a situação, começaram os ataques com antraz e ameaças de novos ataques terroristas. Para completar, nossa permissão de estadia no país teria que ser renovada e nosso passaporte estava prestes a expirar. Veio a dúvida com relação ao que fazer pois ir para Washington renovar o passaporte não nos parecia boa idéia. Resolvemos arriscar o envio dos passaportes pelo correio, meio a toda aquela onda de antraz que assolava o país. Até o correio de Bowling Green foi interditado por um dia! Como se não bastasse teríamos também que mandar nossa documentação para a Imigração. Não tinha outra alternativa a não ser acreditar que tudo daria certo. E felizmente tudo deu certo. É engraçado pensar que em toda a viagem passamos por diversos tipos de tensões, mas jamais imaginamos passar por um tipo de tensão como este nos Estados Unidos. Apesar de tudo, estar neste momento em Bowling Green representava muito para nós, pois era um momento de descanso e um momento muito produtivo intelectualmente. Resolvemos aderir à vida de estudantes e pudemos conhecer melhor a estrutura da Universidade assim como todas as facilidades que ela oferece aos alunos. Aproveitamos cada instante, chegamos até ser famosos na cidade, afinal não era difícil ser reconhecido com o nosso carro rodando para lá e para cá numa cidade tão pequena. Principalmente depois das entrevistas que demos no Sentinel, jornal local e no BG News que é o jornal da Universidade. Foi muito divertido e interessante ver os jogos de basquete, hokey e futebol americano da Universidade. Também foi gostoso sermos convidados para o almoço de Thanksgiving na casa da Linda e David junto com seus filhos Alma-Lynn, Phillip e Erik e foi muito bom também ter participado da vida de tantos outras pessoas que conhecemos por aqui, a Yolanda, o Jeff, a Jessie, a Beth, o Tom, o Cris, a Kristy, o Leonard, enfim todos que conhecemos e com eles pudemos descobrir o que é viver numa pequena cidade americana que é campeã de Tractor Pulling (o esporte mais estranho que já vimos na vida. São tratores e pick ups modificados puxando um grande peso), cercada por campos de milho com centenas de estradinhas cortando estes campos, sujeita a Tornados, nos fazendo sentir como se estivéssemos no filme Twister (a cada primeiro sábado de cada mês ouvimos as sirenes da cidade sendo testadas em caso de aviso de Tornado) e uma geografia totalmente plana nos fazendo sentir saudades das montanhas de Minas. É possível encontramos por perto comunidades de Amish ou Menonites que fazem um belo trabalho em madeira. Eles são grupos religiosos que vivem em fazendas e não utilizam das facilidades da vida moderna. As casas não tem luz, eles andam de carroças e trabalham a terra com arado puxado por animais. Jamais esqueceremos os bate papos no Grounds for Thoughs, no BW3, no Zig Zang, Howard's Club, Samb's, Up town e Down town


Sabemos que a situação que temos vivido durante esta viagem é muito importante para nós e que, mesmo que retornemos para Bowling Green algum dia, a sensação jamais será a mesma, por isto é importante deixar bem guardado na nossa memória os momentos que tivemos e as pessoas que encontramos. É muito bom poder voltar para casa as três da manha, caminhando pelas ruas desertas sem ter medo, é bom falar com as pessoas sem se importar quem elas são, é gostoso sentar num café e por lá ficar batendo papo por um longo tempo vendo gente entrando e saindo, é bom sentir e viver uma vida longe do stress e poder dormir num silêncio profundo interrompido às vezes somente pelo barulho dos grilos, sem ter o que não é necessário e ter o que é necessário para a vida: amigos e felicidade.

 

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