15a etapa

 

Indo em direção ao nosso Brasil

 

15 de março, sábado. Depois da certeza que o navio já tinha partido do porto com o nosso carro era hora de deixar a América Central, os amigos e partir para a América do Sul. As despedidas são sempre muito difíceis mas, desde que em um ano de viagem tivemos a oportunidade de reencontrar alguns viajantes amigos, entendemos que dizer "tchau" para as pessoas era somente uma questão de tempo. Quando se gosta de viajar não existe distância e quando se tem amigos não existe dificuldade que impeça de vê-los.


Nosso destino foi Santiago do Chile. Com a decisão de enviar nosso carro para o porto de San Antônio conheceríamos a única região do Chile, a central, que ainda nos faltava conhecer. Ali tínhamos a sensação de estar em casa pois já estávamos na nossa América Sul, muito próximos do Brasil.


Santiago é uma cidade muito bonita e muito elegante. Decidimos começar conhecendo a parte histórica da cidade: Passeo Ahumada, Plaza de Armas, La Moneda e alguns outros pontos turísticos. De lá fomos apreciar a linda vista do Cerro Santa Lucia, do Cerro San Cristobal, passeamos pelo Parque Florestal e pelo bairro Bela Vista. Providencia e Las Condes são as regiões mais modernas de Santiago. Nesta parte da cidade estão os melhores restaurantes, cafés e lojas. É um lugar muito bonito e com todo o conforto e sofistição que uma cidade moderna oferece. Como o carro demoraria dez dias para chegar ao Chile resolvemos ir para Viña del Mar e lá ficar descansando e preparando física e psicologicamente para os 3.000 quilômetros finais da viagem até São Paulo. Apesar da temporada de férias chilenas já ter terminado ainda vimos muitos "gringos" como nós que preferem viajar numa época mais tranquila. Estava ótimo para tomar sol em Reñaca ou Concon, praias ao norte da cidade. Entrar na água era impossível de tão fria, mas ficar estirado nas areias só observando o lindo visual já valia a pena. Viña del Mar tem seu charme especial. A orla marítima é muito bonita e tem uma parte comercial, a rua Valparaíso, que as pessoas ao final da tarde vão andar, olhar vitrines, comer alguma coisa nas confeitarias, tomar um café ou jantar nos seus vários restaurantes. Aproveitamos a proximidade de San Antonio, porto onde o carro chegaria, para ir até a empresa de navegação e nos informar sobre as burocracias e procedimentos de retirada do carro. Ficamos sabendo que no Chile a "desconsolidação", ou seja, o desembaraço do carro no porto, teria que ser feito por uma empresa especializada. Nos indicaram uma empresa que fez um orçamento absurdamente caro mas finalmente conseguimos fechar com outra empresa pela metade do preço. Pegamos todas as informações para evitar futuros problemas. Ficamos descansados e pudemos conhecer os arredores de Santiago e Viña del Mar, certos de que não teríamos nenhum problema já que tomamos todas as providências para a retirada do carro.


No dia que o carro chegou fomos para o porto bem cedo para retirá-lo. Uma decepção: ficamos sabendo que, por um problema interno da companhia de navegação, não seria possível retirar o carro naquele mesmo dia. Depois de todas as precauções que havíamos tomado a empresa esqueceu de pedir "prioridade" no desembarque do nosso container. Mais uma vez foi hora de ter paciência, bom humor, muita conversa e argumentações... e finalmente no meio da tarde conseguimos ter o nosso carro novamente. Ufa! Que alívio! Voltamos para Viña del Mar e no dia seguinte era hora de pegar estrada para ir em direção a Mendoza, na Argentina.


Finalmente passaríamos pelos Los Caracoles. Este era um caminho que muitas vezes pensamos fazer. Cansamos de ir aos domingos até o Ceagesp, em São Paulo, para conversar com os caminhoneiros que fazem a rota Brasil, Argentina e Chile para saber sobre as estradas, os riscos e facilidades deste trajeto. Agora estaríamos enfim, matando nossa curiosidade. Seguimos para a cidade de Los Andes e começamos a subir a estrada que daria nos Caracoles. A Cordilheira dos Andes já havia se tornado bem familiar para nós já que cruzamos as montanhas nos seus quase cinco mil metros de altitude indo para o Deserto de Atacama, viajamos pela sua parte sul e agora estávamos tendo a oportunidade de ver as montanhas bem de pertinho, subindo por entre elas, na parte central. No alto dos três mil metros cruzamos para a Argentina, passamos por um túnel de 3 quilômetros (Cristo Redentor) e tivemos a oportunidade de ver bem de perto o Monte Aconcágua, que desafia os amantes das grandes escaladas.


Na Argentina, seguimos até Mendoza e no dia seguinte até Pergamino para pernoitar. A parada nesta cidade foi estratégica por dois motivos. Por causa das fortes chuvas tivemos que fazer um desvio de 100 quilômetros, o que atrasou nossa viagem. No caminho, perto de Pergamino, fomos abordados por um guarda que nos pediu uma "contribuição". Dissemos que não e então ele pediu por "qualquer coisa". Não dando nada para ele achamos melhor não seguir em frente, pois não sabíamos se poderíamos ter algum problema com esta nossa decisão de não nos deixar render as famosas "mordidas" dos policiais.


Em plena crise argentina podemos dizer que não vimos nenhuma crise. O que presenciamos foi hotel cheio, restaurantes lotados e estradas com muita gente viajando no feriado da Semana Santa. Decidimos cruzar para o Uruguai pela fronteira de Fray Bentos, mas um engarrafamento de argentinos de 9 quilômetros nos fez mudar de caminho. Entramos no Uruguai por Payssandu. A pouco mais de 300 quilômetros para entrar no Brasil não resistimos e seguimos em frente. Porém quando faltavam 100 quilômetros para a chegada começamos a experimentar um sentimento muito estranho que misturava uma grande euforia de estar chegando ao Brasil e uma profunda tristeza de saber que dali a pouco tempo estacionaríamos nosso carro para um merecido descanso.


Finalmente cruzamos a fronteira brasileira! Em Santana do Livramento fomos recebidos por amigos que vieram nos dar as boas vindas. Foi muito bom encontrar amigos ali, naquela hora. O Ricardo e a Ana nos convidaram para ir até Quaraí, outra fronteira do Uruguai (Artigas). Conhecemos muito gente por lá e fomos também muitíssimo bem recebidos pela Marjorie, Marinho e toda a família e amigos deles. Cervejinha gelada, churrasco, fotos e histórias fantásticas nos fez sentir em casa novamente. Voltamos juntos até Porto Alegre e de lá seguimos para Florianópolis, Curitiba e Espírito Santo do Pinhal, já em São Paulo. Encontramos nossos amigos de Bowling Green (Estados Unidos) Kathy, Zé Luiz e suas filhas Andréa e Isabel que passavam uns dias de férias numa fazenda. Estivemos por lá dois dias e curtimos a beleza do lugar. Finalmente chegamos a São Paulo onde fomos muito bem recebidos pelos amigos. Foram vários dias de festa. Era hora de encontrar todos e contar sobre esta grande aventura. De São Paulo seguimos para Belo Horizonte onde a família e os amigos mineiros nos esperavam. Fomos recebidos com faixa de boas vindas e enfim pudemos matar a saudade de 14 meses de ausência. Foram mais alguns dias de festas. Seriam necessários mais 14 meses para contar tudo o que todos queriam ouvir.


Depois de dirigir 73 mil quilômetros, 14 meses, 16 países, cruzando 26 fronteiras considerando ida e volta, conhecer muita gente, enfrentar todo tipo de situação social, política e adversidades de clima finalmente chegamos de volta ao Brasil. Hoje nos consideramos duas pessoas de muita sorte e afortunados de poder ter uma experiência como esta. Tivemos muita perseverança e em nenhum instante pensamos em recuar diante das dificuldades encontradas pelo caminho. Fomos sempre em frente, com muita determinação, precaução e segurança de que conseguiríamos vencer todas as etapas propostas. Atingimos o que era nosso objetivo: chegar com nosso Land Rover Defender a Proudhoe Bay, última cidade do Alaska e voltarmos ao nosso ponto de partida, São Paulo-Belo Horizonte. Muita coisa aconteceu neste tempo e com isto muitas alternativas nos foram apresentadas. Neste instante sentimos que a viagem foi muito além de uma simples expedição. Ela nos apresentou uma nova percepção da vida. Ela foi um aprendizado que nada mais neste mundo poderia ter nos proporcionado. Em 14 meses aprendemos entre outras coisas a ser pacientes, respeitar e ser respeitado, a tolerar, negociar diante das situações, viver de forma simples, enxergar a natureza e respeitá-la acima de tudo, mostrar o mundo a quem não teve a oportunidade, através da nossa experiência e aprender com a experiência das pessoas que encontramos pelo caminho. Aprendemos o valor de enfrentar um grande desafio como este e ter a família e amigos nos apoiando e nos dando a oportunidade de contar tudo que vimos, vivemos e aprendemos. Aprendemos acima de tudo que valeu a pena interromper nossa vida profissional, fechar nosso apartamento e sentir saudades da família e amigos em troca da realização de um grande sonho pois afinal " OS SONHOS SÃO PARA SER VIVIDOS".

 

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