Somente depois de ter passado algum tempo do acidente que tivemos na Rodovia Fernão Dias, com o nosso Land Rover é possível fazer esta reflexão. É difícil tentar avaliar quando se está sob efeito do susto e sob o calor da emoção. Ainda assim, depois de algum tempo, continua sendo difícil entender o que faz uma pessoa causar um acidente grave e fugir. Pode ter sido medo ou covardia. Diariamente, ficamos nos perguntando se existe a palavra “remorso” para alguém que age desta maneira. Para nós “ele” é apenas uma “carreta branca”, porque sequer pudemos ver o seu rosto. Vimos somente os faróis e a cor clara do caminhão que estava ultrapassando numa curva e na contra mão quando deu de frente conosco. Não sabemos o que somos para ele. Podemos ser uma família branca, negra, japonesa, um casal, enfim, ele não sabe quem somos e nem se estamos vivos ou mortos, não sabe nosso rosto e nem quis saber.

            É desta forma que muitas pessoas têm seus sonhos desfeitos: pela imprudência e pela irresponsabilidade. Pessoas perdem a vida, perdem entes queridos, perdem bens materiais porque outras pessoas perderam a dignidade de cumprir com o seu dever de ser humano e com a responsabilidade.

            Não existe um culpado pra isto. Existem culpados. As estradas brasileiras são mal sinalizadas, não têm conservação, têm carros rodando sem a mínima condição, estão cheias de bares e restaurantes vendendo bebidas alcoólicas e cheia de caminhoneiros que viajam bêbados ou sob o efeito de drogas para mantê-los acordados. Têm bandidos e pessoas cometendo todo tipo de crime como vandalismos nas placas de sinalização, assaltos que muitas vezes resultam em mortes de inocentes. A Polícia Rodoviária é mal remunerada e alguns policiais tentam extorquir dinheiro de quem trafega pelas estradas brasileiras. Assim os honestos se misturam aos corruptos e nós já não sabemos mais em quem confiar.

É uma vergonha ter que ficar esperando, depois de um grave acidente, 40 minutos até aparecer um policial porque era ele o único na região. Foi exatamente o que aconteceu. Ficamos à noite, sozinhos, na estrada, sinalizando com lanterna para que os outros caminhões desviassem do nosso carro batido, por longos 40 minutos, debaixo de chuva torrencial porque o único policial estava atendendo um outro acidente com vítima fatal. Ficamos a mercê da sorte de não sermos roubados ou mesmo surpreendidos por algum outro tipo de azar. Nos sentimos frágeis diante da situação. Estávamos estarrecidos, com medo, assustados e tentávamos nos proteger e proteger o que nos restava: um carro completamente destruído.

O carro foi trazido para São Paulo e o resultado foi “perda total”, mas felizmente nós sobrevivemos a tudo isto. Nosso Defender teve um final, mas nos protegeu e garantiu a nossa vida. Pela violência do acidente se não estivéssemos com ele certamente o nosso final teria sido outro.

O Land Rover foi um sonho que começou em 94 quando descobrimos que queríamos viajar de carro e com ele aprendemos que podíamos, e viajamos. Para os que nos conhecem bem e os que nos conhecem através dos nossos amigos ou através da nossa história contada no nosso site sabem o que significou perder o carro. Ele foi nossa casa por quinze meses e com ele viajamos quase duzentos mil quilômetros, sendo os últimos setenta e cinco mil indo e voltando ao Alaska.

Seria mentira dizer que não estamos tristes por ter perdido nosso Land Rover, afinal tínhamos planos e sonhos para nossas próximas expedições, que incluía, Venezuela e Austrália. Nele estavam os adesivos dos países por onde passamos, as boas lembranças do que vivemos e já éramos até reconhecidos por onde passávamos... Por outro lado, nos sentimos felizes por saber que estamos vivos e que ainda podemos continuar sonhando e realizando. Voltaremos para as estradas sim, com um outro Land Rover, com uma outra pickup ou com qualquer outro veículo que nos leve aonde nossos sonhos vão, porque para nós  

“OS SONHOS SÃO PARA SEREM VIVIDOS”.

 Hélio & Vera

 

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