top of page

O antes...

     

Nosso projeto de viajar o mundo de carro estava mais próximo. Com o carro testado e aprovado durante a “Expedição Tierra del Fuego”, organizada por amigos gaúchos na virada do milênio, partimos para os ajustes que achávamos necessários. 

       

Refizemos todo o interior do carro e uma revisão mecânica primorosa com nosso amigo Domenico. Acertamos alguns equipamentos e documentação. Afinal, o carro seria nossa casa por muito tempo. 

       

Mas, o medo ainda existia. Seria preciso deixar os nossos empregos e encerrar, mesmo que temporariamente, a nossa vida no Brasil. Era um momento de ascensão profissional, mas pensamos: “se não for agora, nunca mais teremos coragem”. E nós, que não queríamos ser, no futuro, dois velhinhos arrependidos, seguimos com o plano. 

     

Era muito difícil deixar tudo para trás. Passava pela nossa cabeça voltar ao Brasil e não conseguir mais um emprego na nossa área profissional. Mas, ao mesmo tempo pensamos que, se isso acontecesse, teríamos outras habilidades depois dessa nossa experiência mundo afora.

Era preciso colocar um limite de tempo. Ainda tinha uma defesa de Mestrado para defender e os pedidos de demissões. Numa data estipulada, nós dois pedimos nossa demissão. Sabe aquela máxima: “vai com medo, mas vai assim mesmo”. Pois é, foi o que fizemos. 

     

A partir dali, não teríamos mais um rendimento financeiro, a não ser o aluguel do nosso apartamento. Tentamos conseguir algum patrocínio, mas não tivemos sucesso. Por outro lado, conseguimos manter durante um ano um excelente convênio médico internacional, gentilmente pago pela empresa que o Helinho trabalhava. Além disso, fizemos um acordo com uma emissora de rádio de São Paulo para o envio de boletins da viagem, semanalmente. Não recebemos ajuda financeira, mas era um jeito de mandar notícias sobre o nosso paradeiro. Na época, não existiam as redes sociais e tampouco facilidade de acesso a um celular. 

         

Chegou o dia de arrumar o carro. Escolhemos o que precisávamos para a viagem e todo o restante colocamos num guarda móveis. Resolvemos dormir mais uma noite no apartamento. Foi uma sensação de vazio, literalmente e metaforicamente falando. Acordamos e saímos para voltar um dia, que não sabíamos quando. Avistamos o prédio e a sacada do apartamento de longe. Choramos! E seguimos. 

Saimos de São Paulo com destino a Belo Horizonte. Mas, no estado que estávamos, achamos melhor parar e recompor as nossas emoções na cidade de Campanha (MG), onde uma amiga, a Khadija e seu filho Yunus (in memoriam), nos receberam com o maior carinho. Passamos uma tarde e noite agradável por lá. No dia seguinte cedo nos despedimos e fomos para Belo Horizonte, via São Tomé das Letras. Paramos para almoçar num restaurante, dentro de uma fazenda que abrigava uma unidade de reabilitação de dependentes químicos. Um almoço delicioso e reconfortante. 

     

Finalmente, chegamos a BH. Foi uma semana de despedidas. Conversas sobre a viagem. E claro, ainda tínhamos medo do que viria pela frente, mas queríamos juntos enfrentar aquele desafio. A partir dali começamos a ficar famosos. Demos entrevista numa emissora de TV local e partimos, de novo, para São Paulo. 

         

O nosso apartamento já estava ocupado pelos nossos inquilinos, o Consul de Cuba e sua família. Ficamos num hotel. Tivemos que resolver problemas em relação ao seguro do carro, onde as regras mudaram no último momento. Resolvido o problema, depois de muita discussão, almoçamos num Shopping e encontramos nossa amiga Teresa. Dissemos um “até logo”, sabendo que este “logo” poderia ser um tempo breve, um tempo longo ou um tempo infinito. E partimos...

    bottom of page