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América Central
Ida

Cruzando para América Central...

Depois de toda a saga do Equador, era hora de cruzar para a América Central. Numa quinta feira de abril, embarcamos muito cedo, num voo curto, para o aeroporto de Tocumém, na Cidade do Panamá.

A Cidade do Panamá é uma cidade grande, bonita e moderna. O centro antigo, na época, estava muito descuidado e era preciso ter um pouco mais de atenção com a segurança. Mas, visitamos assim mesmo e não nos arrependemos. Quem foi ao Pelourinho, em Salvador, antes da restauração e revitalização pode ter ideia do que era quando lá estivemos. A arquitetura é fantástica. Foi declarada Patrimônio Mundial da Humanidade, mas o descuido e a má fama afugentavam a maioria dos turistas. Hoje revitalizada, essa parte da cidade é um ponto obrigatório de visitação. 

A cidade sofreu grande influência norte americana, por causa da construção do canal. Mas, os contrastes das grandes avenidas e shopping centers com os ônibus coloridos com sons altíssimos tocando salsa e merengue, e as buzinas estridentes e ensurdecedoras nos faziam lembrar que ainda estávamos na América Central. 

No sábado, bem cedo, pegamos um ônibus para ir buscar nosso carro em Colón, a 85 km da capital. A rodoviária era moderna. O ônibus era confortável, com ar-condicionado e TV. O ajudante do motorista era uma atração a parte. Ao estilo Latin Lover, chamava todas as mulheres de “meu amor” e “minha vida”. Ele tinha um dente de ouro branco e outro de ouro amarelo, ambos decorados com pequenos desenhos. Durante toda a viagem se mostrava. Ao som da salsa e do merengue, tocada em volume altíssimo no rádio do ônibus, como era o costume, ele dançava. Depois de uma hora e meia de viagem e diversão, estávamos no escritório da empresa de navegação. 

Esperamos o funcionário, responsável por nos entregar toda a documentação para a retirada do carro. Com os trâmites feitos corremos para o porto Mazanillo, que ficava a 5 km dali. Chegamos às 11h15 e fomos informados que o porto fecharia ao meio-dia e que o departamento de trânsito, que precisávamos ter ido antes da aduana, no porto não abria aos sábados. 

Bateu um certo desespero de pensar que enfrentaríamos a mesma maratona burocrática que tivemos que amargar em Guayaquil. Teríamos que voltar para a Cidade do Panamá e depois retornar a Colón, novamente, na segunda feira. Ficamos tão desolados que a pessoa encarregada pela entrega do container pediu a um funcionário que nos ajudasse.

Enfim, tínhamos o carro, mas faltava um documento que nos permitia dirigir pelo país. O chefe da aduana, que também era um professor de geografia e interessado em saber mais sobre a situação política e econômica do Brasil, fez todo o possível. Ligou para uma funcionária do departamento de trânsito e pediu que ela fosse da sua casa ao escritório para emitir o tal documento que nos autorizava a circular no Panamá. Sem esse documento não poderíamos seguir viagem. Com isso, conseguimos, graças a essas pessoas, retirar o carro do porto de forma segura e totalmente legalizada, conforme as leis do país. 

De novo, estávamos com o nosso “caminhão”, como carinhosamente chamávamos nosso “carro casa”, intacto. E, finalmente, poderíamos seguir a nossa viagem rumo ao Alaska. Mas, não sem antes conhecer o Canal do Panamá, na sua maior eclusa conhecida como Gatun.

Essa eclusa é uma obra de engenharia fantástica e que leva os navios do Pacífico ao Atlântico e vice-versa, passando por um lago a 26 metros acima do nível do mar. Vimos a fila de navios de carga e de passageiros que ficam à espera da sua vez para passar pelo canal. Só para ter uma ideia, do ponto de observação que estávamos era possível conversar com os que estavam a bordo. O navio passa lento, a mais ou menos sete metros de distância. E, como curiosidade, vimos que a tarifa média que cada navio pagava era de 45 mil dólares. Mas, o recorde, na época, era de 185 mil dólares, pago por um navio de cargas. 

Pelos problemas enfrentados em relação às questões políticas, já mencionado, resolvemos abreviar nossa estadia no Panamá. E, seguimos para a Costa Rica...


Costa Rica – Pura Vida…

Apesar de essa ser uma viagem com muito tempo, era importante ter algumas preocupações. Uma delas era a época de chegada ao Alaska, por causa do seu clima rigoroso. Portanto, esse tipo de viagem requer organização. 

Cada um de nós tinha suas funções e obrigações. Era preciso pensar onde parar, abastecer o carro com alimento, combustível e água. O carro era limpo por dentro.  As roupas eram lavadas, de preferência numa lavanderia self service. Mas, nem todas as cidades dispunham do que precisávamos. Por isso, para permanecer mais tempo em algum lugar, era preciso saber qual a infraestrutura da cidade. Enfim, não era uma viagem de férias. E, ao contrário do que todos pensam, e nós também pensávamos, viajar por muito tempo é bem trabalhoso. Tínhamos rotina, trabalho e diversão. 

Então, depois de toda checagem feita na Cidade do Panamá, seguimos pela Rodovia Panamericana, também conhecida como interamericana por aquelas bandas. A estrada era estreita e margeada por mata, flores e frutas. Atravessando a fronteira, e já na Costa Rica, resolvemos deixar a Panamericana e pegar a rodovia Costaneira, que margeia o Oceano Pacífico. Em alguns pontos o mar fica a poucos metros da estrada, um convite para um mergulho. 

Agora o nosso destino era a praia de Manuel Antônio, um lugar bem charmoso com hotéis, pousadas, camping, bares e restaurantes. Conhecer o parque, que tem o mesmo nome, foi uma ótima opção. Ficamos por alguns dias e de lá, seguimos para San José. 

Já era ideia fazer uma parada "técnica" na capital para revisão do carro. Mas, coincidência ou não, chegando à cidade o carro apresentou um pequeno problema, que foi facilmente resolvido numa concessionária Land Rover, a única da região. Fomos recebidos com muita curiosidade. O serviço foi rápido e honesto. 

Ainda na concessionária, tivemos uma informação que nos deixou um pouco preocupados. A Costa Rica e a Nicarágua tinham um “problema comercial” e a marca Land Rover não era bem-vinda no nosso próximo destino. Ligamos para a Embaixada da Nicarágua, mas, apesar de saberem da existência de algum problema, não tinham informações concretas. Passaram o telefone do chefe da aduana da fronteira por onde entraríamos. Ligamos e ele nos disse que realmente a informação estava correta, mas que seria possível cruzar o país. Relaxamos. 

Fomos conhecer a Costa Rica. “Pura Vida” é uma expressão dos costarriquenhos que representa muito o país e como os costarriquenhos encaram a vida. Ali, o exército foi abolido. O índice de criminalidade era baixo. O povo é politizado e educado. Fora isso, o sol, as praias e as belezas naturais são deslumbrantes. A paisagem lembra um pouco o Brasil, em pequena escala. ​

Certo dia, estacionamos o carro numa rua, que precisava de um ticket de estacionamento. Saímos para comprá-lo e quando voltamos encontramos dois policiais olhando o carro. Ficamos preocupados e mostramos o ticket, mas eles disseram que estava tudo bem. Na Costa Rica os turistas são bem-vindos e tem alguns privilégios, acrescentaram. 

Um outro ponto de parada foi Tamarindo, uma praia ao norte do país. Conhecemos um italiano que gostou do país e resolveu ficar por lá mesmo. Construiu uma pequena pousada, num terreno bem grande. Era um lugar simpático e especial. A natureza era fantástica e os macacos bugios faziam a maior algazarra, principalmente ao amanhecer.   

Num desses dias, fomos fazer o nosso café da manhã, numa cozinha que ficava numa área externa. O italiano passou animado e desejou um eufórico “bom dia”. Realmente, o dia estava lindo. E, certamente, aquele seria um “bom dia”. Mas, recebemos a visita de um iguana enorme, que resolveu tomar o café da manhã conosco. Foi um verdadeiro pandemônio. 

Enquanto a iguana insistia em ser nossa convidada, o Helinho tentava espantar o bicho com uma vassoura. Quanto mais ele tentava afastar a iguana mais ela ia na direção dele. Eu consegui sair do cerco. A cafeteira jorrou café para cima sujando toda a parede, a iguana perseguia o Helinho, que tentava afastá-la e eu não me aguentava de tanto rir com a cena. Foi uma verdadeira batalha, até que o Helinho conseguiu sair da cozinha e a iguana, finalmente, conseguiu o seu intento, pegar as frutinhas que o italiano colocava para ela numa fruteira em cima da mesa. O italiano poderia ter nos avisado, né?

Depois de uns dias por ali, já habituados com as iguanas ou nos divertindo boiando num rio que desaguava no mar, o que depois ficamos sabendo ser o habitat de crocodilos, era hora de partir. Teríamos que enfrentar pela frente os problemas na fronteira da Nicarágua. Ficamos com vontade de ficar mais tempo, mas era hora de deixar, temporariamente, aquela “Pura Vida”. 

 Nicarágua em companhia dos nosso “Salvo Conduto” e passagem por Honduras …

Partimos de Tamarindo muito cedo, em direção a fronteira da Nicarágua. Quando chegamos encontramos muitos ônibus, caminhões e vans carregadas de mercadorias que os comerciantes nicaraguenses buscam na Costa Rica e no Panamá para comercializar no país. Tudo era revistado, antes de cruzar para o outro lado. E nós também passamos por todos os trâmites, mas ainda era preciso resolver a situação de entrada do carro. Nossa sorte foi ter ligado para o “chefe da aduana” antes. Do contrário, nem saberíamos por onde começar. 

Na verdade, a imigração foi fácil, mas na aduana passamos por quinze procedimentos e quatro horas entre o vai e volta aos guichês, correr atrás dos inspetores, pagar taxas, pegar carimbo e assinaturas, para no final ter somente um pedaço de papel escrito à mão. Nenhum papel oficial. Não sabíamos se aquele papel valeria para alguma coisa. No final valeu, e conseguimos finalizar mais ou menos o processo. Ainda precisávamos ter um “salvo conduto” para seguir viagem. 

Explicando melhor, a travessia pela Nicarágua teria que ser feita num único dia, mediante pagamento de uma taxa e acompanhados por uma pessoa indicada pela aduana. Não adiantou argumentar que o carro só tinha os dois assentos dianteiros. Na verdade, estávamos sob custódia. Esse funcionário era o nosso “salvo conduto” e era a garantia que sairíamos do país antes do final do dia. O assento da frente foi "gentilmente" cedido ao funcionário. Ele levou toda documentação do carro até a fronteira com Honduras. E só lá entregou a papelada.  Entendemos que essas eram as regras, mas ficamos com pena por não conseguir conhecer o país. 

Com toda essa pressão, não seria possível perder tempo na estrada, porque a fronteira com Honduras, fechava no final da tarde. A única concessão foi uma parada de 5 minutos, num posto de gasolina, para ir ao banheiro.  Enfim, chegamos na fronteira, pegamos os documentos do carro e enfrentamos outra burocracia com mais uma série de carimbos e idas e vindas aos guichês, à polícia etc., etc., antes de seguir para a aduana de Honduras. 

Já era final da tarde, quando começamos a fazer os trâmites hondurenhos. No meio de todo o processo, os funcionários desapareceram. Ficamos assustados. Não seria nada interessante passar a noite numa fronteira ou numa terra de ninguém, sem nenhuma proteção.  Só depois de algum tempo, descobrimos que a fronteira tinha fechado para o jantar, mas reabriria mais tarde. Não tinha outro jeito a não ser aguardar pacientemente.

Naquela altura estávamos com fome, mas esperamos até a volta do revisor, do xerox, do administrador, do caixa... Enquanto isso, tivemos que espantar um bêbado que enchia nossa paciência, um cachorro que queria brincadeira... E o pior, quando todos voltaram, fomos colocados de “castigo” porque recusamos a ajuda do irmão, do primo, do filho e de todos os parentes que trabalhavam na fronteira. Com isso, todos que por ali cruzavam, chegavam e saíam antes de nós. Nossos processos eram colocados em último lugar da pilha de papéis. Até que num momento não conseguiram mais nos enrolar porque só tínhamos nós na fronteira e eles tiveram que finalizar o processo. 

Enfim, tudo pronto decidimos seguir para Choluteca, uma cidade que ficava apenas a 40 km da fronteira. Já era noite, as estradas não estavam boas, a sinalização inexistia, os animais cruzavam a rodovia e existiam desvios que, sem a luz do dia era difícil de entender. Tanto a Nicarágua quanto Honduras passavam por dificuldades, em função de guerras e do furacão Misty, que tinha arrasado a região. Muitas estradas e pontes estavam sendo reconstruídas. Apesar de tudo, é uma região bonita, com floresta tropical, montanhas, vulcões, lagos e praias lindas, tanto no lado do Oceano Pacífico quanto no Caribe, com um povo receptivo e simpático.  

No dia seguinte, descansados saímos sem pressa de Choluteca em direção a Santa Rosa de Copan. Depois nos preparamos para cruzar a fronteira da Guatemala. Para nossa sorte essa fronteira era bem mais organizada e com os trâmites rápidos. 

Guatemala...

           

Decidimos ir diretamente para a cidade de Guatemala Antigua, por ser uma cidade menor, histórica, com uma arquitetura colonial impressionante, agradável, bonita e cercada por três vulcões: Água, Acatenango e Fogo. A cidade já foi destruída algumas vezes por terremotos. Os pequenos abalos sísmicos são comuns, mas todos já se acostumaram. Por isso, não ficamos muito desconfortáveis. Antigua, como é chamada pelos guatemaltecos, é bem servida de bares, hotéis e restaurantes. Turistas do mundo inteiro visitam a cidade e alguns permanecem por mais tempo fazendo curso de espanhol. 

           

É um lugar inesquecível, e impressionante ao mesmo tempo. Apesar da sua beleza, vive em constante risco de destruição. Tivemos a sorte de presenciar as festividades da Semana Santa. Lembramos muito das celebrações nas nossas cidades históricas mineiras. A diferença era a participação ativa dos indígenas. A procissão do enterro foi o ponto alto da celebração, na Sexta Feira da Paixão. Enormes andores com o “Senhor Morto” era carregado por incontáveis homens, com suas vestes pretas e detalhes em roxo. Seguiam numa cadência impressionantemente compassada. Uma espécie de “dança” fúnebre, embalados por uma música triste que doía a alma até dos mais descrentes olhos.  

           

Ficamos na cidade mais uns dias, e depois trocamos a calma da cidade pelo trânsito caótico da cidade grande. Como qualquer metrópole, Guatemala, a capital, é feita de contrastes e muitas atividades, bares, restaurantes, museus, shoppings etc. Decidimos não ficar muito tempo na cidade grande para aproveitar as outras maravilhas que o país oferece. Queríamos conhecer a cultura da Civilização Maia nas Ruínas de Tikal, o Lago Atitlán, Semuc Champey, Panajachel, Vulcão Pacaya. 

 

Filosofando um pouquinho, aprendemos que existem duas realidades: a primeira é aquela que a gente aprende ouvindo ou lendo sobre a experiência de outras pessoas e a segunda é aquela que a gente vivencia. A América Central, sempre foi imaginada, por nós, como uma região pobre, assolada por guerras, corrupção, ditadores, uma verdadeira república das bananas. Vivenciando essa viagem, descobrimos o outro lado. Vimos um povo de sorriso fácil e amigável, uma cultura que nos instiga a conhecê-la mais de perto, paisagens exuberantes e deslumbrantes, de grandes contrastes e difícil de esquecer. 

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