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América Central
Volta

Mais uma vez na adorável América Central...

Saímos cedo de Chetumal e cruzamos a fronteira para Belize. O visto de entrada foi emitido rapidamente, mediante pagamento de alguns dólares. Não foi preciso esperar a boa vontade e horários das Embaixadas e Consulados que, às vezes, pedem alguns dias para a emissão de vistos. Não teve muita burocracia e em pouco tempo já nos encontrávamos dentro do país. O carro não foi revistado e somente perguntaram o que carregávamos. Dissemos e eles mandaram seguir adiante. Em 3 horas já estávamos em Belize City, na parte central do país.

Belize é o segundo menor país da América Central. Sua economia é baseada na agricultura, banana e açúcar, e turismo. A sua costa é cercada por arrecifes e atóis. O destino da maioria dos turistas se concentra na pequena ilha Cayo Ambergris, que fica na parte norte, em San Pedro. Outros optam pela Caye Caulker. E poucos decidem ir para o sul do país, ainda menos explorado, por causa das condições das estradas. 

Naquela época, Belize City era pequena, embora fosse a maior cidade do país. Apesar de alguns edifícios e casas decadentes, a cidade tinha uma bela arquitetura e os prédios em madeira dão muito charme ao local. Corre do lado norte para o lado sul do rio Haulover. Tem a "Swing Bridge", uma ponte estreita e movimentada, que conecta os dois lados. Essa antiga capital do país, foi parcialmente destruída pelo furacão Hattie. Por isso, Belmopán foi construída com o intuito de se tornar a capital. Seu nome é simplesmente a união de "Bel" de Belize e "Mopan", que é a língua dos povos Mayas. O país é predominantemente de população negra e o reggae é o ritmo musical mais ouvido por ali. Para quem já foi à Jamaica saberá o que é Belize, pela sua semelhança. 

De lá seguimos em direção de Hopkins, uma pequena vila costeira, perto de Dangriga, a maior cidade da região sul. Cortando caminhos por estradas de terra chegamos primeiro a Dangriga. Era praticamente uma rua de comércio com uns poucos quarteirões cortando a cidade de ponta-a-ponta. Paralelamente a essa rua estava o mar. Mais um pouco de estrada de asfalto e de terra, chegamos em Hopkins, nosso destino. 

Hopkins Village era muito pequena e não foi difícil localizar a casa de mais um amigo, dessa vez o americano Peter, que encontramos em San Carlos no México. Peter vivia ali com a Snowball, uma Golden Retriever branca e muito dócil. Ele foi mais uma daquelas pessoas que mantivemos contato durante toda a viagem ao Alaska. Numa dessas trocas de mensagens o Peter convidou para sermos os primeiros hóspedes da sua nova casa em Hopkins, assim que soube que passaríamos por Belize. O lugar era um paraíso e ele resolveu ficar algum tempo. Foi um reencontro muito bom e comemorado com muita Belikin, a cerveja local, pizza e torta deliciosa, tudo feito por ali mesmo na vizinhança. Depois dessa recepção, curtimos esse paraíso por alguns dias. 

A população da região sul de Belize é formada, na sua maioria, por garífunas, que são os negros descendentes dos escravos náufragos nigerianos. Essa região não é tão populosa, como a parte norte e central. As estradas não são das melhores, principalmente, depois da passagem do furacão Iris, ocorrido em finais de 2001. Ainda assim, nos aventuramos por aquelas bandas indo a Placência, que é uma península e uma pequena vila de pescadores. A cidade também é bem pequena. Tem algumas cabanas coloridas, alugadas a estrangeiros que se aventuram por lá, ou são de estrangeiros que decidiram viver em Belize.
 
Em Hopkins os nativos construíram as suas casas na faixa de areia, deixando as praias bem estreitas. Ainda assim, encontramos o nosso paraíso. Uma praia linda, que terminava numa mata muito verde. Não tinha casa e ninguém para perturbar. Era mesmo um pedacinho de paraíso, somente nosso, onde passávamos horas nadando, tomando sol e fazendo muitos planos. 

Hopkins, com sua gente muito simpática, acabou nos conquistando. Todos que passavam por nós abriam um sorrisão, cumprimentando ou acenando. Conhecemos o Gadd, um nativo que trabalhava num bar. Ele nos contou sobre Belize, sobre o reggae, sobre o dialeto, que usam como língua oficial. O inglês também é falado, por ter sido Belize uma possessão inglesa. 

As crianças adoravam o Peter e todos os dias, depois da escola, passavam para falar um “alô”, mostrar o que fizeram na escola e brincar com a Snowball. Sempre aparecia alguém batendo à porta para pedir emprestado uma chave de fenda, gás etc. Enfim, se ajudavam, mutualmente, no verdadeiro sentido do termo “boa vizinhança”. 

Ficamos tristes de irmos embora, mas como as despedidas há muito já faziam parte dessa viagem, seguimos em frente e fomos para Belmopán. Imaginávamos uma cidade, pelo menos do tamanho de Belize City, já que era a capital. Mas, de tão pequena demos a volta na cidade e paramos num pequeno comércio, que mais parecia uma feira. Então, resolvemos seguir em direção à fronteira da Guatemala. 

Ainda do lado de Belize fomos abordados por pessoas querendo ajudar e trocar dinheiro. Já estávamos desacostumados com essas abordagens. Para nos safar da situação, demos uma ré no carro, mas tinha um poste e ele decidiu não sair de trás.  O prejuízo foi a porta traseira amassada e o vidro trincado. Sorte que, por causa do insulfilm no vidro, pudemos seguir em frente. Fizemos um pequeno reparo caseiro e seguimos, um pouco tensos por causa de um alerta para a presença de ladrões na estrada entre as ruínas de Tikal e Flores, nosso próximo destino. Uma das vítimas contou sobre o assalto. Os ladrões foram muito agressivos e roubaram tudo que tinham dentro do carro. 

Felizmente, não passamos pela mesma situação e chegamos às ruínas de Tikal, que são envolvidas pela floresta, num visual lindo e impressionante. Além disso, os animais que habitam o lugar - macacos, tucanos e outras espécies – deixa tudo mais mágico. 

Depois da visita, seguimos para Río Dulce, uma cidade turística. Pela região existem vários lugares interessantes e, um deles é a cidade caribenha de Livingston. É uma vila de garífunas que mistura a música latina e caribenha. A viagem até lá é de tirar o fôlego. Passamos pelo lago El Golfete, alimentado pelo Rio Dulce. Passamos por florestas, pelo Castelo de San Felipe de Lara, um forte colonial espanhol na entrada do Lago Izabal que está conectado ao mar do Caribe, através do rio Dulce e do lago El Golfete. 

Procurando um local para ficar, acabamos num hostal, com muitos outros “gringos”. O hotel era suspenso por palafitas, dentro do rio. Os quartos eram divididos por uma espécie de tela e cortinas. Apesar de estranho, era agradável. Tinha um restaurante e um píer bem movimentado. O barulho dos sapos era alto, mas não incomodava. O que incomodou mesmo foram alguns hóspedes que resolveram beber e conversar até tarde, abafando os barulhos da natureza.

Dali, seguimos, novamente, rumo a Guatemala Antígua. O visual já era agreste, com subidas, descidas e muitas curvas. O que nos chamou atenção foi o policiamento ostensivo das estradas, desde que entramos na Guatemala. Fomos parados, várias vezes e, chegando em Guatemala City, tivemos todos os nossos documentos checados. 

Apesar do caos da cidade, fomos abordados por uma pessoa que era do Clube 4x4 de Guate, como Guatemala City é chamada.  Ele estava numa Toyota e, muito interessado em carros 4x4 pediu informações sobre o nosso Land. Trocamos endereços e e-mails e seguimos para Antígua, ficando no mesmo lugar de quando subimos em direção ao Alaska. 

A manhã do dia seguinte estava incrivelmente maravilhosa, com uma luminosidade sem igual. Os vulcões que cercam a cidade pareciam mais imponentes. O vulcão Água, que fica ao sul da cidade, estava lindo, sem nenhuma nuvem por perto e o Fuego, depois de ter entrado em atividade na semana anterior, estava deslumbrante. 

Perto de Antígua está Chichicastenango. Aos domingos a cidade é um grande mercado onde os indígenas colorem as ruas. Acordamos dispostos a ir para lá de ônibus. Fomos primeiro até Chimaltenango e depois para Chichicastenango. Foram quase 4 horas de viagem, mas valeu a pena. 

Como já conhecíamos Antigua, decidimos não ficar muito tempo na cidade e colocamos o carro na estrada, novamente, em direção a El Salvador. Antes, ligamos para a Embaixada daquele país. Queríamos confirmar se o visto ainda seria necessário, uma vez que outros vistos da América Central já tinham sido abolidos. Vimos, pela televisão, vários comerciais e depoimentos a favor da unificação e abertura das fronteiras nos países centro americanos e alguns acordos comerciais serem assinados. Mas, infelizmente, o visto ainda era necessário. Demorava 3 dias e nos custariam 60 dólares. Diante dessas condições, mudamos os planos e fomos, naquele mesmo dia, para Honduras. 

Pedimos informação, de como sair da cidade, a um senhor que prontamente disse que estava indo para a mesma direção. No meio do caminho, fomos parados por policiais de trânsito para checagem da nossa documentação.
 

Conversando com os policiais, já não tínhamos mais dúvidas sobre o caminho. Mas, não demorou e nos demos conta que aquele senhor nos aguardava na estrada. Daí para frente, parecia perseguição. Ele insistia para que parássemos e, resolvemos que não iríamos parar. Não conhecíamos o sujeito e achamos aquela atitude insistente muito estranha.

Apesar da simpatia inicial não gostaríamos de ter nenhuma má surpresa. Por isso, aceleramos e, finalmente, o perdemos de vista. 

Chegamos na fronteira e encontramos o de sempre, pessoas oferecendo ajuda para os trâmites. Quanto mais dizíamos já conhecer os procedimentos mais eles insistiam. Um deles chegou a subir no carro. Paramos o carro para dar uma bela bronca nele. Finalmente, nos deixaram em paz e assim pudemos sair da Guatemala. 

Do lado hondurenho a imigração foi fácil, depois de deixarmos 40 lempiras nas mãos do oficial, que concedeu apenas 5 dias para ficar no país. A partir daí, começou uma verdadeira peregrinação de um lado para o outro. Como recusamos a ajuda dos agentes, seguimos perguntando, a cada passo que percorríamos, qual seria o próximo passo. O primeiro pediu cópias da nossa documentação. Como já sabíamos dessas cópias, tínhamos todas em mãos. Não satisfeito, pediu uma cópia xerox dos vistos de saída da Guatemala.

Sabíamos que não era necessário, mas resolvemos satisfazer os desejos do cidadão. Ele datilografou os papéis e entregou para uma outra pessoa passar para o computador. De lá, fomos para o outro lado da estrada pagar uma taxa e recebemos recibo em dólares, embora pagássemos em moeda local. Passamos para o guichê seguinte e a outra pessoa nos deu um outro papel. Dali voltamos para o prédio principal, num guichê que marcava a cor "roja".

Entregamos nossos papéis. Na mesma hora vimos alguns agentes entregando os papéis de outras pessoas, junto com a propina. Só víamos os nossos documentos pulando para o último lugar. Cada agente contratado que entregava as documentações e as propinas, ganhava o nosso lugar, ou seja, os nossos documentos iam mais para baixo. Tudo isso, na nossa cara. A nossa cara feia não adiantava. Eles aguardavam a nossa propina. Esperamos um longo tempo pela revisão do carro. Depois, ficamos esperando muito tempo para o supervisor conferir e assinar toda a papelada. Muito tempo depois, deram uma conta para pagar no banco. Enfrentamos a fila para o pagamento e, chegando nossa vez, a funcionária nos avisou que precisaria de uma cópia xerox. Apesar de não ser um problema nosso, fomos lá tirar mais uma cópia.

 

Enfim, voltamos com tudo pago. Só faltava a permissão para rodarmos nas estradas hondurenhas. Um outro funcionário entregou o passaporte carimbado e disse: "una copia más e no more". Demos uma risada e voltamos ao xerox. O funcionário nos encaminhou ao guichê onde tudo começou, há algumas horas. O cara de pau do oficial da aduana, antes de entregar os documentos, disse que custaria mais 120 lempiras. Pagamos, mas o recibo não veio. O safado ficou com o dinheiro. Era a propina que recusamos pagar desde o começo. No final, deixamos naquela fronteira perto de 40 dólares, para uma permissão de estadia de apenas 5 dias, o que levou 3 infinitas horas debaixo de um calor de 35 graus.

Honduras é montanhosa e, por isso, as estradas são feitas de muitas curvas, subidas e descidas. Os motoristas ultrapassavam em qualquer situação, na curva, na lombada ou sem visão nenhuma. Em dois dias cruzamos o país, indo para Santa Rosa de Copan, San Pedro Sula, Tegus (Tegucigalpa) e Choluteca. Comemos, dessa vez, a famosa "baleada", que eles apreciam no café da manhã. É uma tortilha com feijão batido, creme e queijo. 

Chegou a vez de cruzar para Nicarágua. Na ida para o Alaska, tivemos que cruzar o país num só dia, sob custódia de um oficial de aduana que portava todos os nossos documentos. Dessa vez, chegamos na fronteira e contratamos uma agente muito simpática para nos ajudar nos trâmites. Não sabíamos se ainda existiam os antigos problemas comerciais para a entrada do nosso Land Rover, e não queríamos levantar a questão. Passamos pelo "Pase Facil", uma modernização desde a última vez que cruzamos por ali. Incrivelmente, em meia hora já estávamos dentro do país, sem nenhum oficial de aduana conosco. Tivemos liberdade total para conhecer a Nicarágua. 

Ainda perto da fronteira, e felizes pela liberdade de ir a qualquer lugar, encontramos quatro meninos de mais ou menos 10 anos. Um deles se destacava. Ele dizia o nome de todas as bandeiras dos países que tínhamos no carro. Muito curioso, queria saber sobre cada um daqueles países e dizia que o melhor futebol do mundo era do Brasil. Dessa vez, sentimos que éramos bem-vindos ao país. 

Já na estrada, e não muito longe dali, encontramos um casal de alemães que também viajavam, porém em sentido oposto ao nosso. Paramos, trocamos algumas informações e seguimos em frente. Os 70 quilômetros iniciais foram de estrada muito ruim. As crianças jogavam punhados de terra nos buracos e pediam dinheiro. Infelizmente, já conhecíamos essa mesma prática em algumas estradas do interior do nosso nordeste brasileiro. Aliás, tanto Honduras quanto a Nicarágua, que são os países mais pobres da América Central, não nos mostrou mais miséria do que já vimos no nosso próprio país. 

Bem, seguindo em frente passamos por León, uma cidade colonial e berço da Frente de Libertação Sandinista. Aliás, foi na Universidade de Direito de León que surgiram os internacionalistas. E, seguimos para Manágua. 

Com terremotos e guerra civil, o centro de Manágua não tinha sido reconstruído até a nossa passagem por lá. Ainda assim, a cidade tinha shopping moderno e muitos carros novos circulando pelas ruas. Na época da guerra civil, as famílias mais ricas migraram para Miami, retornando mais tarde trazendo dinheiro e o estilo arquitetônico americano. Por isso, o contrastante país pobre e sofrido misturou-se ao moderno e sofisticado. Muitos "nicas", como se autodenominam, fugindo das áreas rurais que foram seriamente atingidas nos anos difíceis da guerra, seguiram em direção a capital em busca de mais segurança. Com isso, o contraste econômico e social era ainda maior. 

Apesar da Nicarágua não ter um turismo muito grande, devido as essas catástrofes naturais e aos problemas sociais e políticos que marcaram o país, tem uma beleza natural incrível. Aproveitamos para conhecer Masaya, que tem o vulcão com o mesmo nome, e Granada, uma simpática cidade colonial que fica ao lado do Lago Cocibolca. A brisa que soprava fazia da cidade um lugar bem agradável no final de tarde, com pessoas sentadas nas portas de suas casas.

Mais em direção ao sul está San Juan del Sur, uma cidade praiana que recebe os poucos turistas. Na Ilha Ometepe estão dois vulcões, o Concepción e Maderas. Eles erguem-se majestosos de dentro do lago.  

Depois de conhecer o país, chegamos na fronteira. Nos procedimentos de saída o policial avisou que deveríamos apresentar o recibo com o pagamento da taxa para rodar nas estradas. Falamos que não recebemos nada para pagar, mas ele insistiu e fizemos o pagamento. Depois disso, só faltava a assinatura do supervisor. Ao chegar no guichê, o supervisor já era um antigo conhecido. Era o mesmo que nos colocou sob custódia na ida. Perguntou sobre o nosso “salvo conduto”, ou seja, o funcionário que deveria nos acompanhar para cruzar o país. Fizemos cara de desentendidos. Claro que ele nos reconheceu. Achamos que ele cobraria a mesma taxa de custódia e já estávamos dispostos a pagar. Mas, ele fez cara de poucos amigos, disse coisas que fizemos de conta não entender e pediu para ver o carro. Depois da revisão assinou a nossa liberação. Respiramos aliviados e fomos embora. O mais curioso é que vimos Land Rover antigos e novos circulando no país e até uma concessionária. Então, por que não poderíamos rodar no país? Foi essa a pergunta que ficou sem resposta. 

Entrar na Costa Rica foi bem tranquilo. Voltamos para Tamarindo e ficamos mais uns dias. O Lucca, o italiano dono da pousada, nos olhou e já disse: - "conheço vocês!" Contamos um pouco sobre nossa viagem até o Alaska e nos sentimos em casa. Pura Vida!

Em Tamarindo encontramos um casal de gaúchos que estava de férias pela Costa Rica. Também conhecemos os pais do Lucca, que visitava o filho, e conhecemos o Stuart, um menino de 3 anos muito esperto e divertido. Ele já nos cumprimentou dizendo: - "¡hola! Soy Stuart". 

Algumas vezes o Stuart nos surpreendia. Um dia, fomos tomar sorvete quando ele apareceu. Ficou super feliz porque demos um sorvete para ele. A partir daí viramos seus melhores amigos e fomos apresentados, por ele, para várias pessoas. Toda tarde Stuart aparecia para jogar futebol. Ele tinha um jeito e expressões muito engraçadas. Num desses dias, depois de uma formiga picar seu o pé, ficou muito bravo dizendo que a formiga tinha picado “duríssimo”. Apesar da cara de dor do menino, não resistimos e caímos na risada, o que o deixou mais bravo ainda. 

Nesse tempo de viagem tivemos pouquíssimos dias chatos, sem graça ou de pouca sorte. Mas, depois que saímos de Tamarindo tivemos dois dias bem estranhos e com muitas dúvidas. Estávamos preocupados com a situação da Venezuela, que começava a ficar muito ruim. Recebemos o e-mail de um amigo venezuelano alertando para não enviar o carro, do Panamá para lá. 

Não passar pela Venezuela atrapalharia nossos planos de entrar no Brasil pela Amazônia e nos deixava sem saber o que fazer. Não agradava muito passar, novamente, pelo Equador. Paramos um pouco em San José, pensamos melhor e seguimos para Dominical, uma praia conhecida dos surfistas. Em Golfito, já próximo da fronteira do Panamá, nos despedimos da Costa Rica.  

Cruzamos a fronteira sem nenhum problema. Mas, já em estrada panamenha aconteceu algo, no mínimo inusitado. Na estrada entre San José de David e a cidade do Panamá um carro da polícia rodoviária sinalizou para pararmos. Paramos no acostamento e o guarda, muito educadamente, disse que tínhamos feito uma ultrapassagem em local proibido e que seríamos multados. Não entendemos nada. Ele disse que ultrapassamos um outro carro em frente a um cemitério. Fazendo força para não rir ou fazer alguma piada com isso, pedimos desculpas e argumentamos que o cemitério talvez não estivesse tão bem sinalizado. Depois de muita conversa, e usando a tática do sorriso nos lábios e cara de bobo, fomos liberados sem a multa. Prometemos tomar mais cuidado nas ultrapassagens. Depois rimos muito, imaginando que poderíamos ter atropelado alguma “alma penada” ... com todo respeito.

Chegando na cidade do Panamá, resolvemos relaxar e fazer tudo com muita calma, porque era hora de difíceis decisões. Enquanto isso, a situação política e social da Venezuela piorava a cada dia, com greves e manifestações acontecendo com mais frequência. 

As nossas outras opções seriam: Primeiro, ir para o Equador, mas para piorar a situação, vimos as fortes chuvas e enchentes no país. Segundo, seria ir para o Peru e entrar para a Bolívia, mas as chuvas deixaram as estradas bolivianas muito danificadas e o nosso carro estava com um pequeno problema na marcha reduzida. Terceiro, embarcar o carro diretamente para o Brasil, o que seria inviável. Isso porque, quando saímos do Brasil para a Argentina, não recebemos nenhum documento de saída do carro. Como iríamos entrar com um carro brasileiro que, em tese, não tinha saído? Então, surgiu a ideia de ir para o Chile e cruzar a Argentina pela estrada Los Caracoles, na Cordilheira dos Andes.

​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​Depois da decisão tomada relaxamos um pouco. Ficar na cidade do Panamá foi muito bom. Ficamos no mesmo lugar que estivemos anteriormente. Conhecemos mais algumas pessoas interessantes, como um surfista do Hawaii que morava numa praia da Costa Rica. Encontramos também 3 viajantes, que estavam de moto. Eles estavam na mesma situação, decidindo como atravessariam para a América do Sul. Um deles, o Morten, estava viajando há um ano e meio. Ele era dinamarquês e já tinha cruzado a Europa, Ásia, Austrália, Estados Unidos e América Central indo em direção a Argentina. O Luís era argentino e o Patrick era americano, mas ambos viviam em New York. 

 

O destino final do Luis era a Argentina e do Patrick era o nordeste do Brasil. Em algum instante, diante das dificuldades, tanto o Luis quanto o Patrick cogitaram desistir do restante da viagem e queriam retornar aos Estados Unidos. Achamos a decisão precipitada e sugerimos que pesquisassem um pouco mais. Foi o que fizeram e decidiram ir para o Equador. O Morten continuaria aguardando uma peça da moto que chegaria da Dinamarca naquela semana. Nós embarcaríamos o carro no porto de Balboa para San Antonio, no Chile. Mas, antes disso, aproveitamos a cidade e fomos todos juntos conhecer a ilha de Taboga. 

 

Depois disso, mantivemos contato com o Patrick por um longo tempo. Ele entrou para a banda novaiorquina Scissor Sisters, como baterista, mas com o codinome Paddy Boom. Ficou na banda até 2009 e quando se desligou perdemos o contato. 

 

A América Central era uma incógnita, quando começamos a viajar. Aquele pedaço de terra nos lembrava guerras civis, hostilidades, ditadores, terremotos, furacões e corrupção. Depois de cruzá-la duas vezes vimos que os países da América Central abrigam pessoas incríveis, paisagens maravilhosas e uma rica cultura. Jamais esquecemos o abraço dos amigos que ali fizemos e, em especial o abraço sincero de doña Norberta, uma índia de quase 70 anos, que nos disse para não a esquecer. Nunca esquecemos. Saímos de lá pensando voltar algum dia.  Por isso, não conseguimos dizer “adiós”, mas apenas “hasta luego”.

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