
Chapada Diamantina:
A estreia do Land Rover Defender 110
O sonho que virou realidade...
Sempre sonhamos. E o nosso sonho era viajar o mundo num veleiro. Um dia, conversando sobre esse sonho, tivemos um insight. Como bons mineiros, nunca tivemos intimidade com o mar. Seria preciso ter um veleiro, aprender a velejar e saber muito mais sobre o mar e navegação. Por isso, vimos que o nosso sonho estaria bem distante de se tornar realidade. Por outro lado, o Land Rover Defender sempre foi um sonho de consumo e o Helinho sempre gostou de dirigir.
O ano era 1995. O Brasil tinha liberado as importações de carros. Mas, onde encontrar o carro e quanto custaria? Morávamos em São Paulo e começamos a nossa busca. Depois de algum tempo, vimos um anúncio de uma Defender. Fomos ver o carro e decidimos, na mesma hora, ficar com ele. Estava com cinco mil quilômetros rodados. O dono do carro ia casar e a noiva mandou que ele escolhesse entre o carro ou ela. Nós ficamos com o carro. E ele ficou com ela.
Pegamos todas as nossas economias e investimos na compra. Era o carro mais caro que tínhamos adquirido até então. Tentamos colocar alarme, mas ninguém sabia como fazer. A resposta era sempre a mesma: - “pra que isso? Ninguém sabe que carro é esse. Ninguém vai roubar este carro”. Mas, pelo sim, pelo não, tínhamos que protegê-lo. Era o nosso patrimônio e o nosso sonho que começava a ser realizado. Enfim, conseguimos com que uma empresa desenvolvesse uma trava para o carro. Ficamos mais tranquilos.
Era preciso entender um pouco mais daquele carro. E, tinham duas pessoas que conheciam bem o desempenho dele. O primeiro era um inglês, o Bob, que ensinou tudo sobre o carro e os seus limites. O segundo era um mecânico, o Domenico nosso amigo até hoje, que tinha feito uma viagem à Amazônia testando um Defender da própria fábrica inglesa. E foi por aí que começou a nossa rede de contatos Land Rover. Com o tempo, vieram outras pessoas e outros proprietários de Defender, inclusive um inglês que estava dando a volta ao mundo num Defender Série 1.
A partir daí, o nosso desejo de rodar o mundo de carro começou a se concretizar. Não tínhamos dinheiro para investir no carro, mas estávamos muito felizes porque era o começo da realização de um sonho.
A primeira expedição Off Road ...
Somente dois anos depois de comprar o carro, conseguimos fazer a nossa primeira viagem, ou seria a nossa primeira expedição? Seja como for, foi um “off road” para a Chapada Diamantina. Fizemos um levantamento das estradas vicinais. Queríamos descobrir novos caminhos, passar por lugares pouco trilhados e usar os caminhos por entre fazendas e natureza.
Saímos de São Paulo em direção a São José do Rio Preto, Uberaba e Belo Horizonte. De Belo Horizonte seguimos para Montes Claros, Guanambi, já na Bahia. Chegamos a Brumado. Ficamos numa pousadinha que, de uma varanda do nosso quarto víamos um riacho bem bonito. Mas, os pernilongos infestaram o quarto. Abrir a porta e a janela tornou-se impossível.
Com fome e cansados, fomos procurar um restaurante por perto. Como não achamos nada, voltamos para a pousada e tentamos comer alguma coisa no bar ali mesmo. Mas, não foi possível. Tinha tanto mosquito que deixamos para lá. O jantar foi um pacote de biscoitos e refrigerante.
Na manhã seguinte, fomos nos informar como chegar a Andaraí. Aprendemos que a cidade foi habitada pelos índios Cariris e que, mais tarde, a busca por diamante e ouro fez do lugar um dos preferidos dos garimpeiros. Paramos também em Capão da Volta e em Rio de Contas.
Rio de Contas tem muitas histórias. Fica num altiplano, entre abismos de mais de mil metros de altitude. Dizem que essa foi a primeira cidade planejada do Brasil (1745) no apogeu do ouro. A sua arquitetura colonial estava preservada, as ruas eram largas e as praças amplas. Além de ser uma cidade histórica, tinha muitas atividades outdoor – cachoeiras, rios, vales, flora rica e exuberante. Os picos das Almas, o pico do Barbado e o pico do Itobira diziam ser os mais altos de todo o Nordeste do país.
Naquela época, não tínhamos acesso a GPS, mas tínhamos bons mapas. Ainda assim, nos perdíamos em meio a tantas trilhas e estradinhas. O jeito era torcer para encontrar alguém, no meio do nada, e perguntar. Com sorte, alguém indicava. Muitas das referências eram difíceis para nós. Um exemplo, foi quando disseram para seguir em frente até uma plantação de feijão. O problema era que não conhecíamos a bendita plantação de feijão.
Uma outra vez, nos deparamos com uma porteira, que dava na entrada de um casebre. Ficamos parados, analisando a situação. Apareceu uma pessoa e disse que era para passarmos. O caminho era ali mesmo. Às vezes, nos indicavam caminhos que eles faziam a pé, mas que era impossível passar de carro. Assim, fomos nos perdendo e nos achando, por estradinhas que cortavam canaviais, rios, plantações até que chegamos a Mucugê.
Essa cidade é conhecida pelo seu cemitério bizantino, que começou com uma epidemia de cólera na região. Por causa de um decreto em 1855 de que os mortos não podiam mais serem enterrados nas igrejas, como era comum na época, escolheram um espaço e construíram o cemitério que virou um ponto turístico local.
De Mucugê, continuamos até o Poço Encantado, um lago dentro de uma caverna e que, de acordo com a incidência da luz solar, a água fica azul. Esse foi um espetáculo lindo de ver! Mas, que era apenas uma das muitas atrações da Chapada Diamantina.
Água de geladeira e a Cachoeira da Fumaça…
Finalmente, chegamos a Lençóis. A cidade foi fundada em 1845. Ela foi fruto da riqueza mineral na região. Lençóis ainda preservava suas características arquitetônicas em estilo colonial. A Matriz Senhora dos Passos, construída em pedra, com paredes e portais lavrados, ainda conservava as imagens barrocas. Além disso, a pequena cidade tinha todo tipo de acomodação, de hotéis cinco estrelas a camping. Claro que a região, nos dias de hoje, tem muito mais infraestrutura do que naquela época.
Resolvemos sair para explorar o máximo possível, sozinhos. O Morro do Pai Inácio, Gruta da Lapa Doce, Fazenda da Pratinha, Poço do Diabo, Cachoeira do Mosquito, Cachoeira do Sossego, Ribeirão do Meio, Parque Municipal da Muritiba, Cachoeira da Fumaça, Cachoeira do Buracão e muito mais.
Na verdade, começamos pelo Morro do Pai Inácio. Ouvimos uma lenda que diz que na época do garimpo, o escravo Pai Inácio foi seduzido pela esposa de um dos coronéis do garimpo. Ele teve um caso com a bela portuguesa. O coronel soube do romance e, acompanhado de seus capangas, partiu em busca de vingança. Pai Inácio fugiu e se escondeu em cima de um grande chapadão, um morro de difícil acesso. Permaneceu mais de um mês escondido, até que foi descoberto pelo coronel e seus ferozes cães de guarda. Assustado, Pai Inácio pulou do morro com uma sombrinha nas mãos, uma lembrança da sua amada. Muitos dizem que ele morreu. Outros dizem que o escravo se escondeu numa pequena caverna. Depois de saber sua lenda a visita ao Morro do Pai Inácio ficou ainda mais interessante.
Fomos também conhecer a Cachoeira da Fumaça. Quando começamos a subir para a cachoeira, numa casinha bem na estrada vimos um menino de mais ou menos doze anos de idade. Ele perguntou se íamos até a cachoeira. Dissemos que sim e se ele queria ir conosco. Ele falou com o pai e chamou o primo da mesma idade, que nunca tinha ido até lá. Muito falante, o menino ia nos explicando cada detalhe da trilha. Disse que no final da subida, nós íamos tomar a “água de geladeira”. Já ficamos imaginando vendedores com isopor cheio de gelo, vendendo água mineral a preços exorbitantes. Mas, no final da subida tinha uma fenda numa grande rocha. O menino desceu uns poucos metros e pegou água de uma nascente. A água estava realmente geladinha. Matamos a sede e seguimos.
A primeira parte da trilha era bem íngreme, mas aos poucos a visão panorâmica do lugar compensou o cansaço. Depois de uma hora de subida chegamos nos gerais, campos planos que abrigam uma flora riquíssima de bromélias, orquídeas e cactos. A partir dali, a trilha ficou plana e com algumas áreas inundadas. A região era rica em plantas carnívoras e matas ciliares. Não vimos, mas dizem ser repletas de siriemas, perdizes, gaviões e até onças.
Finalmente, chegamos à Cachoeira da Fumaça. Com 380 metros de queda livre, ela é um espetáculo. No período de estiagem, de maio a setembro, a cachoeira fica com pouca água e o vento leva de volta as gotinhas formando a famosa "fumaça". O cânion, onde corre o rio, é cercado por uma densa mata Atlântica. Após uma grande curva, desce do alto da serra até o rio São José e Paraguaçu. Dizem que as gotinhas de água da cachoeira da Fumaça terminarão sua viagem na Bahia de Todos os Santos.
Caminhando de volta, o garoto explicava ao primo, a importância de não deixar lixo nas trilhas. Enquanto falava, guardava todo o lixo que achava pelo caminho – garrafas plásticas, tampas e pedacinho minúsculo de papéis. Ficamos surpresos com a consciência do menino. Ele disse que na sua escola ensinavam a importância da preservação ambiental e como reciclar o lixo. E o mais importante foi ver que todo aquele aprendizado estava sendo passado para frente. Esperamos que a escola tenha incentivado outras crianças, principalmente, com o aumento descontrolado do turismo na região.
Enfim, depois de alguns dias explorando a região seguimos nossa viagem. Nessa etapa, encontramos pontes de madeira derrubadas pela força dos rios, o que nos obrigou arriscar travessias por dentro dos rios. Quando não era possível, buscávamos um desvio. Foi necessário usar tração nas quatro todas, reduzida, guincho, pás... O carro foi testado e aprovado... Satisfeitos deixamos o sertão e fomos curtir um pouco de praia.
Vamos a La Playa...
Da Chapada Diamantina fomos para Maceió, ainda buscando caminhos alternativos. Os buracos e a poeira castigavam o carro.
Já em Maceió, encontramos um grupo de pessoas do “Jeep Clube” da cidade. Nos juntamos a eles, para ir até a foz do rio pela praia. De repente, a maré começou a subir rapidamente. Pegamos uma areia fofa e o carro atolou feio. A preocupação era a água que chegava bem perto. Demoramos mais de uma hora para tirar o carro da areia. Até um grande coqueiro foi arrancado: Por sorte, num pequeno caminho que subia para uma falésia, e cruzava uma fazenda, conseguimos salvar o carro. Chegamos numa estrada.
O problema foi que, além da areia fofa da praia, os pneus não eram adequados para aquela situação. E o peso do carro dificultou muito para retirá-lo de lá. Ao contrário dos Jipes, que eram bem mais leves e com pneus apropriados para aquele tipo de terreno. Com isso, viramos chacota dos “jipeiros”.
Depois de todo esse sufoco, fomos todos para uma cachoeira. Antes de chegar, tinha uma subida muito íngreme e com muitas pedras soltas. Um dos jipeiros nos aconselhou usar outro caminho. Mas, esse era o “nosso terreno”. O carro mostrou toda a sua força e elegância. Enquanto isso, os “jipeiros” que arriscaram a subir, jogavam pedras para todo lado... E ainda, tivemos que rebocá-los. Saímos de lá de alma lavada!
Passado o sufoco de quase perder o carro na praia, continuamos a nossa viagem pela Praia do Francês, Barra de São Miguel, Ponta Verde e muitas outras praias... Cruzamos o Rio São Francisco, na divisa de Sergipe e Bahia, e seguimos a Rodovia do Sol.
Na praia de Costa Azul, entramos em direção a Mangue Seco. Foram quase 80 km, numa praia, desta vez, de areia batida. Aproveitamos a tranquilidade do lugar e, depois, fomos para a Praia do Forte, Subaíma, Itacimirim.
Seguimos também para Itacaré e para Ilhéus. A estrada estava em construção e com muita lama. Demoramos muito nesse trajeto, não pelo nosso carro, mas porque socorremos e rebocamos vários carros atolados.
Por fim, as nossas últimas paradas foram Porto Seguro e Caraíva, por estradas bem precárias. Caraíva ainda não era famosa e uma pousadinha recém-construída antes de cruzar o rio, nos chamou atenção. Era tão legal e novinha que resolvemos ficar por ali mesmo. Como não tinha nada desse lado do rio, resolvemos atravessar para jantarmos. Ainda não existia nenhuma balsa para cruzar, mas tinha a canoa do Antônio. Pedimos para nos atravessar e ele disse que para voltar era só gritar o nome dele, que ele nos buscaria. Ficamos tranquilos. Jantamos, passeamos e na hora de voltar quase perdemos a voz de tanto gritar o tal de Antônio. Já não sabíamos mais o que fazer. Foi quando vimos uma movimentação, um corre-corre e nos aproximamos. Um menino tinha se queimado e uma canoa ia atravessá-lo para ser socorrido no hospital. Foi aí, que conseguimos uma carona de volta. Chegando do outro lado da margem vimos o Antônio escornado. Estava apagado de bêbado dentro da canoa.
Era hora de voltar para casa. Foi exatamente como gostaríamos. E, ainda com a poeira da estrada no carro e no corpo, já sentíamos saudades. Ganhamos um pouco de experiência. Então, era hora de preparar para uma próxima expedição.