
América do Norte
Ida
E viva o México…
Deixamos a América Central no começo de maio. Não conseguimos ir a El Salvador, por uma questão burocrática. O visto, exigido pelo país, demoraria muito e não tínhamos garantias de ser aprovado. Seguimos adiante. Numa outra oportunidade poderíamos conhecer esse país. Afinal, a América Central deixou um gostinho bom de “quero mais".
Assim, avançamos para a fronteira El Carmem. No México fomos bem recebidos pela imigração e orientados a pagar uma taxa num banco em Tapachula, cidade próxima desta fronteira. Saindo da imigração deparamos com a "fumigação", que é a desinfecção do carro, procedimento já familiar, depois de cruzar dez países. Alguns deles são muito rigorosos na inspeção do carro, como é o caso do Chile, mas o México ganhou de longe.
Foi preciso tirar absolutamente tudo de dentro do carro e de um grande maleiro que ficava no teto. Foi uma trabalheira. As frutas que tínhamos, comemos ali mesmo. Mas, uma lata de leite em pó... ah, esse sim, justificou todo o trabalho dos cinco agentes incumbidos na busca. Ela foi apreendida.
Depois preencheram um longo formulário sobre a ação. Tudo isso durou mais de uma hora. Disseram que a inspeção era parte do programa intensivo de combate a febre aftosa e a “mosca da fruta”. Só estranhamos que, por ser uma inspeção sanitária, não era preciso revistar a bolsa e pertences pessoais. Em todo caso foram muito educados e agradeceram a nossa paciência.
Depois dessa rigorosa revista, conseguimos, finalmente, seguir para Tapachula e pagar a conta que devíamos ao país, ou seja, a taxa de imigração. Note bem, era preciso pagar em cartão de crédito. Nada de dinheiro! Depois disso, seguimos para a aduana junto com um canadense, sua mulher brasileira e o filhinho de 10 meses, que viajavam num motor home. Dessa vez os trâmites foram simples e rápidos. Tudo de acordo e já estávamos, legalmente, aptos a circular pelo país. Seguimos juntos para Tapanapetec.
Entramos no México pelo estado de Chiapas, famoso pelas histórias do movimento revolucionário zapatista. O movimento era liderado pelo “Subcomandante Marcos”, que lutava pela “democracia, liberdade, terra, pão e justiça para os índios”. Na estrada fomos parados inúmeras vezes pela imigração, pelo exército, pela polícia federal e pela inspeção sanitária, de novo. Entendemos que essas revistas eram pela proximidade da fronteira.
Por sugestão da polícia de fronteira, resolvemos não cruzar o México pela costa do Pacífico, como era previsto. As autoridades avisaram dos perigos de constantes assaltos pela região. Aceitamos a sugestão e fomos para Oaxaca, Puebla, Cidade do México, sempre rumo ao norte. Mas, não sem antes sermos interrogados e revistados durante todo o percurso. Na verdade, o motivo era o cumprimento de uma Lei Federal em busca de armas e drogas. A turma do exército era formada por jovens com cara de mau mas que, depois que sabiam que éramos brasileiros, não resistiam a curiosidade de conhecer melhor o carro. Perguntavam sobre o Brasil, sobre o Ronaldinho Gaúcho, mulheres, preço do carro etc.
O nosso maior susto foi quando paramos numa fila para passarmos por um enorme Raio X. Os carros e caminhões eram submetidos, aleatoriamente, a esse procedimento. Era um enorme braço mecânico com um potente Raio X. Felizmente, fomos liberados. Foi um tanto assustador pensar na potência desses raios, favorecendo o trabalho deles, mas com grande prejuízo para a saúde das pessoas. E assim seguimos, sempre em frente e sendo parados, praticamente a cada 100 km, até Oaxaca.
Oaxaca é uma cidade histórica, considerada Patrimônio da Humanidade. Andamos pelo centro da cidade, observando as suas ruas e o casario, visitamos o mercado, onde tivemos algumas experiências gastronômicas interessantes. Provamos o mole poblano, feito com mais de 25 temperos e chocolate amargo, comemos um estranho tira-gosto de gafanhoto frito, queijo fresco e bebemos a Mezcal, um tipo de aguardente da região. Saboreamos também as frutas tropicais.
A igreja de Santo Domingo é outra atração interessante. Mas, é impossível estar em Oaxaca e não se sentar num bar em volta das duas principais praças da cidade, o Zócalo, e ficar apreciando o movimento da cidade. Este é um estado com muita diversidade de dialetos e povos indígenas.
É uma região que abriga sítios arqueológicos como Monte Albán, que hoje é um complexo de ruínas. Construído pela civilização Zapotec é considerado um lugar sagrado. Depois passou para o domínio Mixtec e, finalmente, foi conquistado pelos Aztecas. Outras atrações ficam por conta do povoado de Mitla, Hierve el Água, que são formações rochosas com mais de 200 metros de altura e formam piscinas naturais, e Tule, com seu enorme cipreste de mais de 2000 anos de idade.
De Oaxaca, já totalmente aclimatados, fomos para Puebla, a quarta maior cidade mexicana. Conhecida também como Ciudad de los Angeles. A propósito, é uma cidade com muitos templos religiosos. Conta a lenda que os sinos de 8 toneladas da Catedral foram colocados por anjos. Mas, não só é uma cidade conhecida pelos roteiros religiosos como também pela sua gastronomia. Nos arredores encontram-se sítios arqueológicos e vulcões como o Malintzin, Popocatépetl e Iztaccíhuatl.
De Puebla até a Cidade do México o caminho não é longo. Por isso, resolvemos fazer dali o nosso quartel general. À semelhança e imagem da cidade de São Paulo, o trânsito da Cidade do México é intenso. A poluição consegue ser pior. O gigantismo da cidade, com seus milhões de habitantes, a altitude de 2.500 metros acima do nível do mar, e a inversão térmica, o cheiro forte e ardor nos olhos e no nariz, consequência do ar muito seco da região, nos causou um certo desconforto, depois de lugares bem mais calmos por onde passamos. Apesar disso, é imperdível.
A Catedral Metropolitana domina o centro da Cidade do México. Em volta estão os prédios públicos. As ruas são muito movimentadas por causa do intenso comércio. Mas, foi o Museu de Antropologia que nos deslumbrou. Fica no bosque Chapultepec, junto com outros importantes museus, galerias e zoológico. A exposição conta toda a história do povo mexicano, desde os pré-clássicos e clássicos até os dias atuais. As primeiras salas são dedicadas a introdução da Antropologia e ao crescimento da civilização mesoamericana. Na entrada do museu há um enorme monolito de 217 toneladas e quase 10 metros de altura que pertencia aos Aztecas. Esse monolito representa o “deus da chuva”. Segundo contam, quando transportado para o museu foi acompanhado de um verdadeiro temporal, em plena estação seca. Entre outras coisas fantásticas do museu está a "pedra do sol" que pesa 24 toneladas. Ela tem o sol esculpido em uma das suas faces. Passamos ali muito tempo admirando e aprendendo a história mexicana. Foi impressionante!
No domingo fomos para Teotihuacán, sem muita pressa, para conhecer este enorme sítio arqueológico. Aos domingos e feriados os monumentos históricos, museus e ruínas eram entradas grátis. Por isso, Tepotzotlan tinha muitos visitantes. Resolvemos privilegiar a Pirâmide do Sol, que é a maior e que possibilitava avistar o lugar como um todo. Essa pirâmide tem 248 degraus até o seu topo e é considerada a terceira maior do mundo. O caminho que cruza à sua frente segue até a Pirâmide da Lua. São mais de 2 quilômetros de comprimento e é chamada Avenida dos Mortos.
Passamos o dia por ali e voltamos para Puebla por uma estrada secundária. Fomos parados por policiais que pareciam querer achar alguma coisa errada. Mas, a documentação estava em ordem, o carro estava em ordem, nos estávamos em ordem Então, resolvemos seguir pela estrada principal, o que foi bom porque nos permitiu ver toda a exuberância e a imponência do vulcão Popocatépl. Enfim, chegamos de volta ao nosso confortável camping.
No México conseguimos ficar em RV Parks, espaços muito frequentados por americanos e canadenses que viajam com seus enormes motorhomes, os Recreational Vehicle ou, simplesmente RV. Os RV Parks são estruturas grandes, com banheiros absolutamente limpos, piscina, TV, Internet, restaurantes, alguns com bibliotecas e SPAs com hidromassagem. Enfim, alguns são um luxo!
Mas, o mais engraçado foi o sucesso que o nosso Land Rover fez. Primeiro, porque era um carro diferente naquele ambiente. Segundo, porque era brasileiro. E, convenhamos, parecia um brinquedo frente aos enormes RVs estacionados. Com isso, muitas pessoas chegavam para falar conosco, saber sobre nós, nossa viagem e dar dicas, algumas muito preciosas. Fomos presenteados com livros sobre os parques, rodovias, campings que nos foi útil durante todo o percurso.
E foi ali, nesse mesmo camping, que conhecemos os nossos queridos amigos ingleses Mike e Liz (in memoriam). Ao verem um carro inglês, o nosso Land Rover, foram conversar conosco. Depois disso, não perdemos mais o contato com o casal. Até hoje somos amigos do Mike. A Liz, infelizmente, faleceu depois de viverem na estrada por longos 15 anos, deixando saudade. Na volta do Alaska para o Brasil, nos encontramos, novamente, no México. Tempos depois recebemos a visita do casal em São Paulo e em Belo Horizonte. Eles viajaram pela América do Sul até Ushuaia com o motorhome. Nós já visitamos o Mike em sua casa na Inglaterra, numa cidadezinha próximo a Bath e nos encontramos pela Europa, enquanto caminhávamos pela Itália. Além disso, nos falamos regularmente pelo FaceTime, WhatsApp etc.
Voltando ao México, o nosso roteiro inicial seria pela Baja California, mas ficamos sabendo do alto preço que teríamos que arcar para a travessia no Ferry Boat. Assim, seguimos em direção a Costa do Pacífico (Mar de Cortês).
Chegamos em Guadalajara, segunda maior cidade do México. Essa é uma cidade charmosa e requintada, que combina prédios lindos antigos com modernos, ruas largas e praças coloniais. Dizem que é a cidade mais mexicana do país, por causa dos tradicionais Mariachis e da tequila, que é largamente consumida. São muitas as suas atrações e aqui vão algumas dicas: não deixe de andar pelo Centro Histórico, aprecie o Teatro Degollado, caminhe pelos Jardins Colomos e sim, fale que é brasileiro para os mexicanos mais velhos e os apaixonados pelo futebol. Só lembrando, nas copas de 70 e 86 Guadalajara foi sede da nossa seleção.
Depois de Guadalajara, de inspeção em inspeção, chegamos em Mazatlan que é uma cidade de praia preparada para receber, principalmente, o turista americano. A cidade tem muitos resorts, hotéis caros e econômicos. Felizmente para nós, tinha um bom RV Park com toda a infraestrutura e um SPA a nossa disposição.
De lá, saímos em direção a Los Mochis. Ficamos mal-acostumados com a mordomia e esperamos encontrar, no próximo RV Park, o mesmo conforto que deixamos para trás. Mas, a surpresa não foi das melhores. A cidade era grande, mas não tão aconchegante quanto pensávamos. Um pouco decepcionados decidimos ir para Topolobampo, uma praia que ficava a mais ou menos 9 km dali. Outra surpresa! Era péssima! Definitivamente não era nosso dia de sorte. Aceleramos para Navojoa. A caminho vimos que a 50 quilômetros dali ficava a cidade de Alamos, conhecida pelos famosos "feijões saltadores". Na verdade, esses feijões saltadores não são para comer, são grãos ou sementes que têm uma larva dentro e que se mexem. A cidade era bem pequena, sem muito recurso. Por isso, decidimos voltar para Navojoa. A intenção do dia era rodar 450 km, mas virou 800 km. Já cansados, paramos no primeiro hotelzinho que vimos pela frente. Depois de muitos dias dormindo no carro até estranhamos dormir numa cama de hotel.
No dia seguinte, nosso próximo destino não era tão longe dali. A apenas 200 km estava San Carlos, um lugar bonito. O mar muito azul contrastava com a aridez das montanhas e com os cactos gigantes. Pela proximidade com a fronteira dos Estados Unidos e pela quantidade de turistas americanos o inglês já era quase a língua oficial. O clima despojado da cidade proporcionou encontros descontraídos. E foi assim que conhecemos uma simpática família de mexicanos, que nos seguiu até o nosso camping. Eles eram de Ciudad de Obregon, não muito distante de San Carlos. Ficaram curiosos, por causa do carro, e resolveram saber sobre a viagem e tirar umas fotos. Depois daquele dia, trocamos muitas mensagens por e-mail.
Embora com vontade de ficar mais, era hora de seguir para os Estados Unidos. Fomos aprendendo a ter que deixar para trás lugares e amigos. Sabíamos que ainda tínhamos muito que rodar e que muitos lugares e pessoas ainda viriam. Além disso, tínhamos fé que essa não seria uma viagem sem volta. E, na volta, ainda tínhamos muito o que conhecer. Como, de fato, foi o que aconteceu. Mas isso vamos deixar para contar mais à frente...
Cruzando os Estados Unidos pela Costa Oeste…
No dia 13 de maio, um domingo, deixamos o México. Entramos nos Estados Unidos pelo Arizona por um bom motivo. O Cesar, um amigo de longa data, que conhecemos no Peru, morava em Safford. Só nos vimos em uma única noite, mas nos tornamos bons amigos; história que contaremos quando relatarmos sobre a nossa viagem ao Peru.
Mas, antes de contar sobre esse encontro, vamos nos situar na história. Cruzamos a fronteira de Nogales.
Entramos numa longa fila de carros mexicanos e americanos. Quando chegou a nossa vez não tivemos nenhum problema, a não ser a curiosidade dos policiais e funcionários da aduana. Eles nunca tinham visto um Land Rover Defender brasileiro cruzando por aquelas bandas, e muito menos indo em direção ao Alaska. Pelo menos aqueles que estavam trabalhando, naquele domingo, "Dia das Mães".
Não teve revista oficial, mas tivemos que falar sobre o carro, seu desempenho e mostrar o funcionamento do motor. Enfim, eram só curiosidades sobre a viagem e sobre o nosso Land Rover. Isso porque, nos Estados Unidos o modelo “Defender” era uma raridade e os poucos que existiam pertenciam a colecionadores. A propósito, nos foi oferecido um valor de 80 mil dólares por ele. A venda desse carro foi proibida no país por não ter passado no crash test. Assim, sem nenhum estresse e com muita rapidez, diferente do que vinha acontecendo até então, entramos nos Estados Unidos. Até estranhamos a falta de papelada para carregar conosco.
Fomos direto para um RV Park em Tucson. Ganhamos uma verdadeira bíblia de RV Parks, enquanto estávamos no México, e escolhemos este porque era um “cinco estrelas". Tinha piscina aquecida, SPA, salas de leitura e ginástica, Internet, sala de jogos, lavanderia e churrasqueira. Nos espaços reservados para cada RV tinha mesa, cadeiras, luz, água, pontos de telefone, conexão de Internet. Era um ótimo jeito de começar uma nova etapa da viagem. Além disso, nos deparamos com enormes motorhomes. Verdadeiras casas luxuosas. E, atrelado sempre tinha uma SUV com a mesma pintura. Só para ter uma ideia, esses motorhomescustavam até um milhão de dólares, na época. Foi o que conferimos numa empresa de venda de RVs, que funcionava ao lado do camping.
Estacionamos o carro num dos “sites” que nos foi destinado. Os curiosos olhavam incrédulos e, às vezes, chegavam para dar boas-vindas e uma olhadinha no carro. Um desses visitantes nos fez um convite, no mínimo inusitado, um jantar ao “estilo latino-americano”. Esse nosso novo amigo, o Fred, era um senhor, que viajava com o seu cachorro Pupi. Ele pediu para chegarmos cedo, para que pudéssemos beber antes do jantar que seria servido mais tarde. Aceitamos. E assim foi.
O motorhome do Fred não era daqueles suntuosos. Era como os que encontramos por aqui, com um baú a reboque, do tipo U-Haul, empresa americana de armazenamento de móveis e mudanças.
Pois bem, chegamos no horário combinado. O Fred era muito arredio à cultura americana. Viajava muito e, às vezes, referia aos seus compatriotas como “eles” ou “essa gente”. Ficou muito bravo com um outro rapaz que estava no camping e nos convidou, à tarde, para tomar umas Margaritas em frente ao seu enorme RV. O sujeito era de Arkansas e viajava sempre pelos Estados unidos. Contou que uma vez se aventurou a atravessar para o México, mas que foi um “nightmare”. Morreu de medo e voltou correndo para a segurança das estradas americanas. O Fred, que também estava conosco, não teve paciência e foi embora. Nós ainda ficamos conversando um pouco mais. Ele ficou perguntando sobre o Brasil e insinuando ideias preconceituosas sobre as mulheres brasileiras. Não gostamos do assunto. Ele mostrou o RV, mas nós vimos sem muito entusiasmo e fomos embora.
Esse assunto foi o “quebra gelo” inicial e rimos muito da situação. Ficamos ali, com o Fred, tomando cerveja e conversando. Depois comemos codorna recheada, que estava muito gostosa. Enfim, foi como o Fred quis. Chegamos cedo, bebemos muito, jantamos tarde e saímos de lá muito depois de meia noite, quando todos no camping já dormiam.
Ainda ficamos alguns dias nesse RV Park e nos divertimos. Conhecemos uma brasileira, que morava nos Estados Unidos há mais de 30 anos com seu marido americano. Era um casal muito simpático e prestativo. Conhecemos Tucson, que é uma bela cidade, com a paisagem já bem familiar, porque era um cenário muito parecido com o norte do México. Tinha o "saguaro" (cactos enormes). Aliás, muitos filmes de Western foram rodados nas montanhas por ali e nos estúdios de Old Tucson. A parte moderna é tipicamente americana com Malls, Fast Food, Walmart, Best Buy e longas avenidas e ruas largas.
De Tucson seguimos para Safford. O encontro com o Cesar foi fantástico. Ali tiramos uma grande lição. Existem pessoas que são especiais na vida da gente, mesmo sem ter um relacionamento diário. São pessoas que nos ensinam, dão força ou que simplesmente entendem e torcem por você. E o Cesar era uma dessas pessoas. Conhecemos a sua esposa Donna, que nos ofereceu um delicioso jantar. Aproveitamos para colocar 15 anos de conversa em dia, embora sempre mantivéssemos em contato. Bebemos, rimos e temos certeza de que deixamos o Cesar muito feliz, assim como nós também ficamos felizes com esse encontro.
No dia seguinte, o Cesar nos fez dois convites. O primeiro foi um almoço no “Lyons Club”, onde era um associado. De improviso fizemos uma palestra para 30 pessoas. O assunto era sobre a nossa viagem e a vida no Brasil. O mais difícil foi quando perguntaram nossa opinião sobre aberturas de fronteiras. Respondemos com muita cautela. Percebemos que a maioria dos que ali estavam eram bem conservadores.
O segundo convite, se tratava de uma entrevista para um jornal local. Por sorte, era um jornalista muito interessante o que ajudou a fluir o assunto. Esse jornalista, filho de diplomata americano, tinha nascido no Japão e viveu grande parte da sua vida em países asiáticos, onde também trabalhou como repórter, antes de ir para os Estados Unidos. Enquanto terminávamos de contar a nossa viagem, chegou o próximo entrevistado, um senhor de 80 anos de idade, que foi piloto de bombardeiro na Segunda Guerra Mundial, e que esteve na batalha do "Dia D". Muito orgulhoso, mostrou fotos da época e conversamos um pouco. Infelizmente, não acompanhamos a entrevista porque já tínhamos outro compromisso com o nosso amigo Cesar.
Ficamos mais uns dias na cidade, mas como já era de praxe chegou o momento de partirmos. Deixamos aquele lugar tão simpático e o Cesar e Donna, amigos tão queridos. E até hoje nos falamos. Agora a nossa comunicação ficou mais fácil pelo WhatsApp.
De Safford, seguimos nosso caminho: Phoenix, Black Canyon, Meteor Crater, Flagstaff e, finalmente, o Grand Canyon. Black Canyon é um lugarejo que você só tem certeza de que não está num filme de época porque a Highway cruza por ali. Meteor Crater é impressionante, porque é uma cratera imensa, resultado da queda de um pedaço de meteoro. Flagstaff é uma cidade muito charmosa, e que está na Route 66, lembrando em alguns lugares os anos 60. Enfim, o caminho até o Grand Canyon foi muito prazeroso, com muito verde e bem diferente da aridez do Arizona.
Dentre outras peculiaridades do lugar, um pouco antes de entrarmos no parque uma grande loja de artesanato, com adereços indígenas, chamou a nossa atenção. Era um cenário de filme de faroeste, com os proprietários vestidos à caráter; um deles com uma enorme barba branca. Tinha um apelo turístico, mas bem cuidado. Até um cachorro branco, grande, dócil e lindo esparramado pelo chão. Era tão lindo que decidimos ir até ele e acariciá-lo. Ele foi bem receptivo às nossas carícias. Somente depois ficamos sabendo que não era um cachorro, mas um lobo. Felizmente, não era um lobo mau.
Entramos no parque e a grande estrela, sem dúvida, foi a visão impressionante do Grand Canyon. Fomos até o último posto de observação da parte sul (Desert View), de onde foi possível ver melhor o Rio Colorado. Esse é um dos lugares obrigatórios para quem vai por aquelas paragens. É realmente um show!
Ainda extasiados com a bela visão do Gran Canyon seguimos para Las Vegas. Passamos pelo impressionante Deserto de Mojave, lugar de inspiração de muitas músicas, e chegamos à cidade mais iluminada do planeta. Se isto está no Guiness Book não sabemos, mas nunca vimos tanta luz e tanto brilho.
Las Vegas, é uma cidade peculiar. Uma combinação do luxo e do lixo. Do chique e do brega. Gente de todo tipo. Dos bêbados às 10 horas da manhã aos ricos que gastam dinheiro nos fantásticos shows e nos cassinos. Dos turistas de bermuda que veem os shows de graça, das limusines, dos casais que se casam nas capelas, tipo "drive thru", dos supercarros, e todos apostando a sorte grande. Nós também não resistimos e apostamos uns poucos dólares para brincar. Ganhamos e perdemos.... Tudo isso faz parte. Encontramos por lá até um senhor que dizia ser amigo da "Maria" Só entendemos depois que ele disse que a Maria foi secretária da Carmem Miranda.
Quando chegamos à cidade, fomos para um camping. Não tínhamos a menor noção de que passaríamos a noite toda acordados, com tanta gente esquisita. Ali moravam muitas pessoas que trabalhavam nos cassinos e os que jogavam. Era um vai e vem de gente que passava conversando alto e rindo. Enfim, conhecemos o lado esquisito que a cidade esconde dos visitantes. Mas, não foi o fim do mundo. Foi só mais uma história a contar. Pela manhã, fomos para outro camping.
Esse outro camping era muito legal. Tinha uma ótima infraestrutura, com uma piscina deliciosa que nos refrescava do calor desértico de Vegas. Como ficava um pouco mais distante da cidade, um ônibus levava os “campistas” para a cidade, mediante um pequeno valor, que depois era revertido em moedas para a jogatina nos cassinos. E assim nos divertimos todas as noites em que estivemos na cidade.
Aproveitamos para visitarmos a Hoover Dam, que fica a mais ou menos 50 km da cidade. Hoover Damera um dos maiores projetos dos Estados Unidos. É uma represa gigantesca, construída entre 1931 e 1936 e é uma das responsáveis pelo desenvolvimento local, bem como um dos pontos turísticos.
Tínhamos que seguir adiante. Por isso, de Las Vegas fomos para a costa do Pacífico e paramos em Los Angeles. Turistamos em Hollywood, Rodeo Drive, Beverly Hills, Santa Monica, Venice Beach, Universal Studios. Ficamos em Pasadena e sentimos na pele o que os moradores sentem para ir de casa ao trabalho e vice-versa, com trânsito intenso.
Depois de uns dias, e já cansados da cidade grande, vimos que não estávamos muito longe do Yosemite Park. Bem, longe, naquela altura, já não existia mais Era dia 24 de maio, uma data importante por ser Vera’s birthday. Também queríamos ver as sequoias gigantes, passar pelo Tunnel View, ver Bridalveil Fall, o El Capitan, Half Dome. Enfim, os dias e as noites estavam especialmente bonitos, com um céu de brigadeiro. Isso, motivou uma comemoração com jantar a luz de velas e das estrelas (bem romântico). Só tinha um detalhe, o parque é habitat natural dos ursos negros. Eles são gulosos e têm um olfato apuradíssimo, podendo sentir o cheiro de qualquer comida deixada no carro. Nosso carro era a nossa casa e estava sempre abastecido de alimentos.
Ao entrar no parque, é recomendado não deixar nenhum alimento dentro dos veículos. Os ursos podem arrombar as portas, quebrar os vidros, causando prejuízos e, claro, medo. Para evitar esse tipo de ameaça, existem caixas de ferro, a prova de ursos, para acondicionar todos os alimentos. As caixas ficam longe dos carros. Mas, decidimos que não deixaríamos de fazer nossa comemoração. Com um olho na comida e outro na mata, realizamos o nosso desejo. E, felizmente, nenhum deles nos surpreendeu. Não os convidamos para a festa e eles não vieram.
Voltando à nossa chegada ao parque, assim que entramos vimos uma senhora e um senhor em apuros. Paramos o carro e fomos socorrer o casal. O senhor tinha caído e estava bem sujo e machucado. Ficamos preocupados. Levamos o casal até o hotel onde estavam hospedados, dentro do parque. Insistimos para que eles procurassem um médico, mas disseram que estava tudo bem, apesar do susto. Ficaram muito agradecidos. O senhor subiu para o quarto e a senhora ficou conversando conosco. Contamos que era dia de comemoração de aniversário e que decidimos passar ali no parque. No mesmo instante, ela pediu para aguardarmos um pouco e foi até a recepção do hotel. Na verdade, ela queria presentear-nos com a estadia daquela noite. Mas, apesar da tentativa o hotel estava completo. Agradecemos e fomos embora. Seria bom ficar no hotel, mas já estávamos tão acostumados a dormir na nossa casa ambulante, sob o céu estrelado, o perfume da noite e a preocupação com os ursos, que não ficamos decepcionados. Afinal, teria faltado a emoção do nosso jantar romântico a luz de velas.
A próxima parada foi San Francisco. Voltamos para o litoral, subindo pela HWY 1 e passando pela Baía de Monterrey (Carmel, Santa Cruz e outras praias). Na entrada de San Francisco, num congestionamento, fomos surpreendidos por um carro que estava ao nosso lado com uma brasileira e um americano e que balançavam uma pequena bandeira do Brasil. Aproveitamos a lentidão do trânsito para conversar um pouco com o casal.
Nossa estadia coincidiu com um dos maiores feriados americano, o Memorial Day. Como seriam quatro dias, não tinha onde ficar. Então, decidimos ficar em Berkeley, do outro lado da Baía de San Francisco.
Ainda assim, aproveitamos para conhecer as atrações da cidade: Golden Gate, Bay Bridge, Pier 39 e o Fisherman’s Wharf, Sausalito, China Town, Nob Hill, Lombard Street etc., antes de seguirmos para Sacramento, onde estava acontecendo um festival de jazz. Eram muitas bandas e artistas que faziam suas performances pelas ruas de Old Sacramento.
A cidade foi construída na época da corrida do ouro americano. Era o ponto final da linha ferroviária transcontinental. Hoje os prédios ainda estão bem preservados e abrigam restaurantes e lojas. Um lugar bem interessante que remete a época retratada nos filmes de “velho oeste” e seus saloons.
Até esse momento, já tínhamos rodado 23 mil km, mas ainda tínhamos um longo caminho até Proudhoe Bay, nosso destino no Alaska. Por isso, resolvemos seguir adiante, depois de uma breve parada.
A partir do extremo norte da Califórnia percebemos a paisagem diferente. Tinham enormes reservas de pinheiros e muitas montanhas, algumas se destacando por seus picos nevados. O Mount Shasta era uma dessas montanhas, que se destacava na paisagem da cidadezinha com o mesmo nome. A temperatura também já era mais amena. Embora com os dias ensolarados e longos, as noites eram bem frias. Assim, atravessamos os estados de Oregon e Washington apreciando a paisagem que, depois constatamos, mais se assemelhava às paisagens canadenses.
Nossa última parada nos Estados Unidos foi próxima aos Mount Rainier e Mount St. Helena. O primeiro é considerado a montanha mais alta ao norte dos Estados Unidos, com uma altitude de 4.392 metros e podendo ser vista, em dias claros, de Seattle e outras cidades da região. O segundo ficou conhecido pela erupção vulcânica que modificou a paisagem, transformando-se numa cratera em forma de ferradura.
Ficamos num camping e foi ali que conhecemos um casal, Siegi e Roland (in memoriam), que ficamos amigos. Essa amizade permanece até hoje. Siegi é alemã, mas mora nos Estados Unidos há muito tempo. Roland, infelizmente, faleceu há alguns anos. Hoje Siegi e Chris, seu filho, moram em Austin (Texas), lugar que tivemos a oportunidade de visitar na volta para casa, como contaremos mais adiante.
O Canadá e suas maravilhas…
Numa quarta feira, do final do mês de maio, cruzamos a fronteira Estados Unidos-Canadá. Foi muito fácil e rápido. Com um simples carimbo no passaporte tudo estava resolvido. Entramos no escritório de “Informações Turísticas”, bem perto da fronteira e, com prospectos e mapas em mãos, 45 minutos depois já estávamos em Vancouver.
A principal cidade da Columbia Britânica é linda, populosa, com praias e muito verde. Tem comércio de todo tipo, dos mais caros e sofisticados aos mais baratos, e tem divertimento para todos. Logo, nos conquistou e resolvemos ficar por ali alguns dias.
Aproveitamos para colocar ordem no carro. A cidade oferecia tudo que precisávamos para continuar seguindo rumo ao norte. Era hora de começar a acostumar com o friozinho. À noite já fazia 3 graus, mas durante o dia a temperatura estava bem agradável.
Ficamos num camping em North Vancouver. E, foi lá que conhecemos o Jonasie Faber, que viria a ser mais um amigo, cuja amizade dura até hoje. Já tivemos o prazer de recebê-lo em casa, aqui no Brasil, mais de uma vez, o que foi bastante divertido. O Jonasie ou Jonas, como o chamamos, é um artista, internacionalmente conhecido. Os trabalhos dele encontram-se em galerias, tanto no Canadá como mundo afora. Suas esculturas em pedra sabão e joalheria são todas com motivos Inuit. E o mais interessante, e o que nos fez ficar mais próximos, é que a pedra sabão utilizada em suas esculturas é importada de Santa Rita (MG), que fica poucos quilômetros de Outro Preto (MG). Coincidência? Não pode ser. Coincidências não existem...
Jonasie é de Quarqortoq (Groenlândia). Ainda criança mudou-se com a família para a Dinamarca. Na adolescência foi navegar e mais tarde estabeleceu-se no Canadá. Além de artista é exímio caçador, aventureiro e cheio de descobertas arqueológicas, tanto na América do Norte quanto em sua terra natal. É um grande amigo, divertido e bem presente em nossas vidas. E, foi ele quem deu boas dicas para o restante da nossa viagem até o Alaska.
Ainda em Vancouver, conhecemos o Tom, que morava em Whistler, uma estação de esqui não muito longe dali. De propósito, estacionou o seu Hummer bem ao lado do nosso Land, num shopping da cidade, porque ficou curioso quem seria o dono daquele carro. Por isso, o encontro rendeu fotos, curiosidades sobre os dois carros e um convite para ir a Whistler.
Whistler é um lugar bem bonito, com muitas atrações voltadas para os esportes de inverno e uma pequena vila. Depois da visita a cidade, sem encontrar o Tom, seguimos em frente. Dormimos num camping com uma chuva insistente e continuamos em direção a Banff. Ouvimos dizer que a estrada de Banff/Jasperera a estrada mais bonita do mundo. Olha, se é verdade que existe alguma outra estrada mais bonita, gostaríamos muito de passar por ela, porque, realmente, a estrada Banff/Jasper é demais. Várias vezes paramos o carro para ver os ursos se alimentando na beira da estrada florida. Cena para jamais esquecer.
Banff é uma cidade muito simpática, localizada no Parque Nacional de Banff. As Montanhas Rochosas dominam o cenário. A beleza dos lagos e rios da região é indescritível. São águas de desgelo que tomam cores verdes azuladas ou azuis esverdeadas. É tudo muito mágico. Lake Louise é o lago mais conhecido e o mais representado em fotos.
Apesar do frio ficamos acampados no parque. Desse momento para frente, seria muito bom levar a sério as regras locais. Os ursos circulam por todo lado. Por isso, o alimento tinha que ser acondicionado nas caixas de ferro, evitando contratempos sérios.
Anoitecia tarde, por volta das onze e meia. Mas, nada disso impedia nosso jantar e nosso vinho. Ali assistimos um treinamento de resgate nas montanhas. O local é muito visitado pelos turistas, mas nem todos os visitantes têm o bom senso necessário nesses locais.
Seguimos para Jasper, continuando pela estrada eleita “a mais bonita do mundo”. Continuamos vendo ursos, alces e caribus. Vimos placas de sinalização alertando sobre o risco desses animais cruzarem a estrada. E não deu outra, levamos um tremendo susto com um enorme urso negro cruzando o nosso caminho. Apesar do susto, tivemos a oportunidade de vê-lo bem de pertinho.
A estrada entre Banff e Jasper tem, aproximadamente, 370 km, mas gastamos um dia inteiro para percorrer. Isso porque, os glaciares ficam bem perto da estrada e é impossível não dar uma paradinha para ver melhor. Além disso, os muitos montes nevados, lagos com diversas tonalidades de verde e azul e rios são paradas obrigatórias. Foi realmente uma viagem com um cenário imperdível.
Em Jasper aproveitamos a experiência da estadia em Banff e, também, ficamos no parque nacional. O cuidado com os ursos era o mesmo. Aliás, dali para frente fomos acostumando-nos já que eles se tornaram parte integrante da viagem. As flores das estradas atraiam os ursos, mães e filhotes. A maioria era de ursos negros, mas também chegamos a ver o urso-pardo (ursus arctos), bem maior e mais perigoso. Topamos apenas com dois ursos “grizzly” ou urso-cinzento (ursus arctos horribilis), o mais perigoso de todos. As duas vezes, estávamos fora do carro e avistamos de longe, mas foi o suficiente para sairmos do local urgentemente.
Bem, a partir dali o Alaska ficava cada vez mais perto, apesar de ainda ser o nordeste do Canadá imenso. As cidades ficavam mais distantes e com menos recursos. Depois de mais de 800 km, chegamos à Dawson Creek, uma cidadezinha que tem o privilégio de ter a “Milha Zero” da Alaska Highway. Ficamos entusiasmados ao chegar naquele marco, afinal já estávamos na estrada há muitos meses. Começamos a enxergar o Alaska mais perto, mesmo ainda estando a 2000 km da fronteira.
A Alaska HWY é uma rodovia que foi construída, na época da Segunda Guerra Mundial, pelos americanos e canadenses em apenas oito meses e vinte dias. Foi utilizado mão de obra de soldados e civis, muitos negros e indígenas. São 2.223 km de extensão, terminando em Delta Junction perto de Fairbanks, já no Alaska.
Um breve encontro com um senhor de origem portuguesa, esposa e filhos, que seguiam também em direção ao Alaska, e fomos em direção a Fort Nelson e Watson Lake. Em Watson Lake ficamos num camping típico da região do Yukon.
Os proprietários eram mais velhos, bem-humorados e divertidos. O senhor, contador de (his)estórias assustadoras sobre a região e ursos enormes, raposas e lobos, deixou-nos sem saber se eram somente estórias ou histórias. Percebemos que o senhor era um tremendo de um gozador. Para saber o que era real e o que era gozação olhávamos para a sua mulher, que ria a cada bobagem que ele falava. Ao longo dessa estrada, os moradores colecionavam peças da época da sua construção e montavam uma espécie de “memória” ou pequenos museus.
E, onde estávamos também tinham algumas peças de construção, armas antigas e armadilhas para ursos e lobos. Tinham aquelas cabeças assustadoras de alce, caribu e um crânio de urso pendurados na parede.
Vimos uma matéria de jornal, que estava exposta, e lemos a história. Um casal foi fazer uma caminhada. No acampamento, naquelas redondezas, foram atacados por um urso-pardo. A mulher conseguiu voltar e pedir socorro, mas o homem foi escalpelado e, por pouco, não morreu. Ficamos impressionados com a matéria do velho jornal e só quando fomos perguntar se eles conheciam o casal nos demos conta que os protagonistas estavam bem à nossa frente. O senhor, andava com a ajuda de uma bengala e usava um boné. Segundo a matéria do jornal, ele passou por várias cirurgias, mas encontrava-se bem. Quando perguntamos se eles eram os protagonistas riram muito da nossa cara.
O Yukon é um território bem diferente da British Columbia. Foi ali que aconteceu a “corrida do ouro” em 1896, com muitos europeus e americanos chegando para garimpar, em busca de riquezas. Para quem gosta de gibis é bom lembrar que foi no Klondike, no Yukon, que o Tio Patinhas também começou a fazer sua fortuna Ou seja, bem ali onde estávamos.
Nesta parte da viagem os deslocamentos eram longos, as cidades são pequenas e com poucos habitantes e os dias duravam, pelo menos dezoito horas. Além disso, a paisagem e os pernilongos enormes já remetiam ao que encontraríamos no Alaska.
Assim, a última parada, antes de cruzar a fronteira com o Alaska, foi Whitehorse, capital do território de Yukon, com 20 mil habitantes. Se nós mineiros gostamos de um “causo”, os canadenses dali também adoram. É comum depararmos com os indígenas da região, Athabaskan e Tinglit, que descendem dos clãs Wolf e Crow.
Nessa altura, estávamos a apenas 500 quilômetros da fronteira e logo estaríamos no Alaska. A ansiedade tomou conta quando percebemos que no dia seguinte alcançaríamos a nossa meta. Acordamos cedo, preparamos tudo e aceleramos... Calma! Nossa meta era o Alaska, mas saímos de casa dizendo que chegaríamos a Prudhoe Bay, lá em cima, no Mar Ártico.
Enfim, o Alaska!!! “Quem falou que a gente não vinha” ... [sic]
Dia onze de junho, segunda feira, partimos de Whitehorse rumo ao Alaska. Restavam apenas 520 km para cruzar a fronteira. A ansiedade era enorme. O coração batia forte, quando avistamos a aduana canadense. Paramos e conversamos menos de dois minutos com uma funcionária que sorriu dizendo que seríamos bem-vindos ao Canadá na volta do Alaska... Esta era a última fronteira e, certamente, voltaríamos...
E assim, mais alguns poucos quilômetros chegamos numa grande placa que dizia: WELCOME TO ALASKA. A sensação? Bem, primeiro ficamos bobos e paralisados olhando aquela placa. Depois tiramos uma foto de dentro do carro. Em seguida, a reação foi descer do carro e fazer o maior carnaval. Colocamos uma música bem alta e ficamos ali pulando, abraçados, rindo e chorando ao mesmo tempo. A emoção tomou conta. Passou um carro, com algumas pessoas, que parou para olhar a nossa festa. Mas, entenderam ao ver o carro e a bandeira do Brasil só pela metade, devido o tremular durante toda a viagem, que começou em fevereiro. Pedimos uma daquelas pessoas para fazer uma foto nossa, em frente a placa e o carro. Era a prova que alcançamos nosso objetivo. Chegamos ao Alaska!
Cruzamos, oficialmente, a última fronteira. O policial fez as perguntas de sempre, achou estranho um carro do Brasil e fez uma cara de “ué”. E nós, nem aí para o que o policial estava pensando, colocamos o pé, as mãos, o corpo e o coração no Alaska. Paramos no primeiro posto de combustível e compramos umas bebidas para a comemoração da noite.
O Alaska não tem muitas opções de estrada. Quando passamos por um lugar chamado Tok vimos que a estrada tinha duas opções a seguir: Fairbanks ou Anchorage. Resolvemos ir direto para Fairbanks. Com a ansiedade e a adrenalina nas alturas, nem percebemos que, neste dia, tínhamos rodado 920 km. Sobre a cidade de Tok, alguém nos disse que, originalmente, ela se chamava Tokyo, mas depois do ataque a Pearl Harbor, durante a Segunda Guerra Mundial, abreviaram o nome para Tok. Se é verdade ou não, não sabemos, mas é mais uma história a ser contada.
Continuando o caminho para Fairbanks, paramos em North Pole, a Casa do Papai Noel. Ele estava lá, trabalhando. Um sonho de lugar. Tudo era mágico. Nos emocionamos como se ainda fossemos crianças. Estávamos sensíveis e nos permitimos sentir toda essa emoção. Despertamos a criança dentro de nós. E esse foi apenas um dos sentimentos dessa nossa viagem incrível que transformou a nossa vida.
E, finalmente chegamos ao nosso primeiro destino no Alaska, Fairbanks. Ficamos num camping, à beira de um rio, com casas na outra margem. O gramado era bem verde de um lado e do outro. O rio era navegável. Lanchas e jet skis, com pessoas se divertindo, circulavam nos dois sentidos do rio. Comemoramos estar ali, jantamos e o cansaço bateu forte. Dormimos com o dia claro, apesar de passar da meia noite. Ainda sem entender muito os sons do lugar, com gente conversando, pássaros cantando tivemos aqueles sonos bem esquisitos, com sonhos confusos, acordando e dormindo.
Nessa época, o sol brilha vinte horas. Nas outras quatro horas a noite permanece mais clara do que escura, um lusco-fusco. Até os pássaros parecem querer aproveitar cada momento. Afinal, quando chega o inverno pouco se vê a luz do dia. Por isso, Fairbanks parecia estar em festa. Era um ir e vir constante de famílias inteiras, namorados, pessoas correndo, caminhando, pedalando, de carro. Os restaurantes, bares, lojas e fast food funcionavam as 24 horas. Para nós era tudo inusitado, muito diferente de tudo que já tínhamos vivido. Vimos um pouco de tudo, até um avião DC3 voando baixo em cima das nossas cabeças, enquanto estávamos sentados numa mesa do camping tomando cerveja Ou, o esquilo comer a mangueira do gás do nosso fogão. Além disso, não escapamos de ter que usar aqueles chapéus antimosquitos (Mosquito Head Net Hat), after bite, e até daqueles espirais antigos para espantar os enormes pernilongos do Alaska. Mas, ainda tínhamos muito o que ver.
Saímos do Brasil dizendo que iríamos até Prudhoe Bay. Nos comprometemos com uma emissora de rádio a mandar boletins gravados da nossa expedição. E lá seria o nosso último boletim. Então, fomos até uma “Informação Turística”, em Fairbanks, para saber como chegar a Prudhoe Bay. O atendente foi bem cauteloso em explicar que Prudhoe Bay era um lugar bem isolado e que ficava a 800 km ao norte. A estrada não era asfaltada e só existia um único lugar para uma parada. Deveríamos colocar o nosso rádio PX no canal 9 (Emergência) e avisar urgentemente, caso percebêssemos qualquer cheiro de óleo ou gasolina. Afinal, esta não era uma estrada turística, mas sim uma estrada com um oleoduto em toda a sua extensão. Era de cascalho, sem recursos e somente caminhões transitavam levando e trazendo suprimentos e peças para manutenção dos equipamentos. Recebemos um folheto explicativo que deveríamos ler com muito cuidado. Apesar de toda essa informação, não ficamos assustados e partimos.
A princípio, pensamos dormir em Coldfoot, o único lugar com algum recurso naquela estrada. Mas, quando chegamos ao nosso primeiro destino desistimos e resolvemos seguir direto. Ali era apenas uma parada para os caminhoneiros, bem sem graça.
Subitamente, o tempo mudou no meio do caminho. Uma nuvem negra e pesada surgiu à nossa frente. A nuvem era muito baixa e assustadora. A chuva estava muito forte e com ela uma mudança drástica na temperatura. Dalí para frente o frio foi intenso. A estrada ficou deserta e os grandes caminhões que, às vezes passaram por nós jogando cascalho para todo lado, sumiram. A nossa vontade era chegar, o mais rápido possível, e vencer o pior trecho do caminho. Os últimos 120 km pareceram intermináveis. Começamos a ficar um pouco preocupados. Prudhoe Bay tinha dois hotéis e não fizemos nenhuma reserva. O frio estava muito forte para dormir no carro. Finalmente, por volta das 21h00 avistamos longe, e no meio da neblina e chuva, a luz de um farol e outras silhuetas que pareciam ser de uma cidade. Finalmente, estávamos chegando lá. Sentimos um grande alívio.
Chegamos em Deadhorse. Na verdade, não é uma cidade como qualquer outra, mas um lugarejo que abriga os trabalhadores dos campos de petróleo, que ficam em Proudhoe Bay. Além dos dois hotéis, tem uma loja de conveniência, um posto de combustível e o resto fica por conta de algumas construções que pertencem à companhia de petróleo. Além disso, tinha um lago congelado, muito gelo pelo caminho e estranhas máquinas que pareciam ter saído do filme “Mad Max”.
Depois dessa primeira visão, nos restava comemorar e procurar um lugar para passar a noite. Fomos ao primeiro hotel e a recepcionista nos encaminhou para o segundo, já que nesse era preciso reserva. No segundo, e última opção de hotel, por sorte alcançamos a recepcionista que estava de saída. Finalmente, conseguimos um quarto bem quentinho, nesse hotel construído em containers.
São nesses hotéis que ficam hospedadas as pessoas que prestam serviços para a companhia petrolífera. Por isso, é expressamente proibido a entrada de qualquer bebida alcoólica. Mas, com jeitinho, não poderíamos deixar de brindar aquela chegada. Relaxar, tomando um “traguinho” não faria mal algum. Foi o que fizemos. Quebramos as regras. Afinal, foram 4 longos meses na estrada. E estávamos na última cidade ao norte.
Na manhã seguinte, vimos melhor Deadhorse e constatamos que era um lugar realmente bem estranho. O frio continuava intenso. Duas semanas antes da nossa chegada tudo estava absolutamente branco, com muita neve e gelo. Enfim, era hora de colocarmos o pé no último ponto e objetivo final: Proudhoe Bay.
Na verdade, Proudhoe Bay abriga as instalações da companhia petrolífera, cujas terras são de propriedade do Governo dos Estados Unidos, área de segurança máxima. Depois de explicar o motivo de estarmos ali, entramos com uma pessoa autorizada, no carro da companhia. Enfim, estávamos face-to-facecom o Oceano Ártico. De Deadhorse, onde fica o portão da companhia, até o Ártico são apenas 5 km. O que se vê até a chegada no Ártico são as construções da companhia, máquinas imensas e o oleoduto que corre a céu aberto por toda a Dalton Hwy até Fairbanks.
Jamais esqueceremos aquela sexta feira, 15 de junho de 2001. Até então tínhamos percorrido 30 mil km, 13 países, em 115 dias. Ficamos parados à beira do Ártico, olhando em direção ao Polo Norte a apenas 1.300 milhas de distância (mais ou menos 2 mil km). Colocamos nossa mão na água congelada, para acordarmos daquele torpor e chegamos à conclusão de que tudo era real. Realíssimo! Fizemos o último boletim para a emissora parceira com alegria. Cumprimos a nossa missão!
Como tudo na vida, quando alcançamos um objetivo sentimos muita alegria, ficamos eufóricos, mas depois sentimos uma dorzinha no coração por ter acabado. Isso era inevitável.
Quando estávamos ainda a caminho, já quase chegando ao Alaska, não entendíamos bem por que, algumas horas, sentíamos tristeza. Não sabíamos o que era aquilo. Depois de muita conversa, descobrimos que chegar ao nosso destino e voltar era o nosso incômodo. Afinal, uma hora aquilo tudo acabaria. Foi nesse momento, que decidimos que não era preciso “voltar”. Poderíamos simplesmente “ir”. No caminho contrário a visão é sempre diferente. A partir daí, decidimos não “voltar”, mas sempre “ir”, para onde quer que seja, para onde quer que estejamos.