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América do Sul
Ida

Deixando o Brasil e subindo em direção ao norte ...

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Debaixo de muita chuva, com a cabeça atordoada de pensamentos, seguimos em direção a Avaré, Campo Mourão e depois Foz do Iguaçu. Era um caminho longo, mas não tão longo como seriam os, pelo menos, quatro meses até o Alaska. Os pensamentos saltavam de um lado para o outro e lembramos do nosso amigo frentista que perguntou “a que horas chegaríamos ao Alaska”. Ninguém tinha a dimensão do que era aquela nossa viagem. E nem nós, naquele momento. 

           

Foi aí que decidimos curtir cada minuto, como se fosse único. Com essa ideia na cabeça, fomos conhecer as Cataratas no Parque Nacional do Iguaçu. A Garganta do Diabo, um show dentro do espetáculo das cataratas. Visitamos Ciudad del Leste, no Paraguai, cruzando a pé a Ponte da Amizade. O calor era insuportável. 

 

Voltando, já no lado brasileiro, pegamos um ônibus e presenciamos a ação de um contrabandista contratado para atravessar mercadorias. As placas de computadores estavam presas debaixo dos assentos, inclusive do nosso. Sem o menor constrangimento pediu para levantarmos e retirou a mercadoria. Inacreditável! 

           

Já estávamos prestes a deixar o Brasil. Fomos abastecer o carro e conversando com o frentista, que nasceu ali mesmo em Foz do Iguaçu, perguntamos com que frequência ele ia ao Paraguai. A ponte ficava a poucos metros dali. E ele respondeu que nunca tinha atravessado para o lado de lá. Ficamos surpresos e pensando como as pessoas são tão diferentes. A nossa ansiedade de conhecer o mundo contrastava com a falta de curiosidade daquele rapaz em conhecer o outro lado da ponte. Concluímos, naquele momento, que era exatamente essa diferença que nos instigava a viajar. Ver o diferente e seus contrastes. 

 

Então, foi ali que, de fato, começou a nossa história e a nossa “Expedição Alaska 2001”. O medo deu lugar a uma aventura inesquecível. E, nesse dia 12 de março de 2001, numa segunda feira às 10h00, com o odômetro do nosso Defender 110 marcando 110.110 km, cruzamos a fronteira Brasil- Argentina, rumo ao Alaska. 

           

A situação de fronteira é sempre um pouco tensa. Fizemos todos os trâmites em uma hora sob os olhares curiosos dos guardas que queriam saber um pouco mais sobre a expedição. E, finalmente, entramos na Argentina. 

 

Passar por essa fronteira foi a nossa opção, por já conhecermos a região mais ao sul, quando da Expedição Tierra del Fuego no ano anterior. Preferimos seguir a partir deste ponto em direção a cidade de Resistência, na província do Chaco. 

           

Na estrada fomos parados, pela polícia, seis vezes. Na última vez, já quase na cidade, o policial pediu a documentação. Vendo que estava tudo em ordem resolveu implicar com o reboque do carro. Embora não tivesse nada sobre esta proibição na Argentina, este foi o argumento da autoridade local. Entendemos a velha e boa “cantada” de propina e decidimos acabar com a farra. O Helinho pegou as ferramentas e começou a retirar o reboque. O policial ficou desconsertado e mandou seguir “adelante”.

 

Foram situações como essa, que fomos colecionando histórias caminho afora. Mas, sempre com bom humor e bom senso, o que fez dessa expedição uma grande história de nossas vidas...

 

Enfrentado os “Paros”, o calor e os malditos pernilongos...

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Na manhã seguinte, seguimos para Sáenz Peña. Era uma cidadezinha legal para ficar, não muito longe de Resistência. Por volta do meio-dia, com o sol a pino, e o termômetro do carro marcando 40 graus, vimos uma fila de caminhões parados na estrada. Faltavam apenas 20 km para chegar, mas não tinha como passar. Era um “paro”, bloqueio feito por trabalhadores rurais. Tentamos seguir, mas fomos barrados, interrogados e decidimos voltar. Ficamos sabendo que aquele bloqueio já tinha dois dias, sem previsão de abertura da estrada. 

           

O jeito foi ficar ali, esperando. Corria o boato de que o bloqueio seria suspenso as oito e meia da noite. Com essa expectativa achamos uma sombra num camping abandonado. Ao entardecer os pernilongos atacaram aos bandos. Mesmo com o forte calor que fazia ficamos trancados dentro do carro para evitar as picadas daqueles malditos. Não demorou, começamos a ouvir um “zum, zum, zum” de que a estrada não abriria naquela noite.

           

Lembramos de ter visto um pequeno hotel na beira da estrada, alguns quilômetros atrás. Retornamos e, por sorte, tinha um quarto onde nos hospedamos. A estrada em direção a Resistência, logo depois do hotel, também fechou. Ficamos no meio do caminho, mas, felizmente, o hotel era agradável e limpo. Comemos algo e fomos descansar. 

           

Bem cedinho, houve uma movimentação na estrada. Num pulo, levantamos e saímos em direção a Sáenz Peña e Salta. O nosso receio era de que a estrada fechasse novamente. E foi o que estava por vir. Mais a frente começava um outro bloqueio. Dessa vez, com a ajuda de policiais e alguns motoristas locais pegamos uma estrada vicinal, estreita e empoeirada, em meio a plantações. Ficamos assustados quando vimos um homem armado no alto de uma torre. Mas, seguimos adiante acelerando forte junto aos demais.

 

O rádio do carro estava sintonizado numa emissora que comentava sobre os bloqueios nas estradas da região. E mais estradas seriam fechadas. Chegando numa ponte que daria para a estrada principal, já depois do bloqueio, disseram-nos que nosso carro era muito pesado para aquela ponte condenada. Não pensamos duas vezes e aceleramos. Atravessamos a ponte na marra e pegamos a estrada principal. Seguimos mais rápido, sem parar até a cidade de Salta. Ufa! Chegamos sãos e salvos! 

           

Foi uma aventura e tanto, mas estressante. Ali descansamos e curtimos o lugar, que é lindo. Não é atoa que a cidade foi apelidada de “Salta, la Linda”.  

A “Lhama Lelé”...

           

No dia seguinte nos preparamos para cruzarmos os Andes em seus quase 5 mil metros de altitude, rumo a San Pedro de Atacama, no Chile. Seguimos em direção a San Salvador de Jujuy, ainda na Argentina, numa estrada muito bonita. No caminho nos deparamos com novo bloqueio na estrada. Inacreditável, era o terceiro. E, dessa vez, era um protesto de uma comunidade andina. Esperamos bastante tempo, o que atrasou muito a nossa viagem, e começou a nos preocupar. Iríamos cruzar os Andes e não nos agradava dirigir à noite. 

           

Primeiro, porque queríamos ver a natureza e depois pelo risco em função da altitude. Foram horas de espera antes de liberarem a estrada por dez minutos. Seguimos por um caminho empoeirado, com pedras e muitos buracos. Enfim, começamos a subir os Andes. O visual era lindo e intrigante. Um lugar inóspito e casas no meio das montanhas, sem nenhum acesso a carros. Nosso destino era a fronteira de Paso Jama, que fica a 4.200 metros de altitude. 

           

Fizemos os trâmites da fronteira Argentina, junto com um caminhoneiro brasileiro que seguia para o Peru. Ao entrarmos no Chile a estrada já era asfaltada. A paisagem era a mesma: vulcão, picos nevados, imensos “salares” e cactos gigantes. Continuamos a subir até 4.860 metros de altitude. A atenção precisava ser redobrada. O ar rarefeito trazia a sensação de cansaço, sonolência e dificuldade para respirar. 

           

Não tínhamos feito nenhum tipo de aclimatação e a diferença de altitude era muito grande. Os picos nevados, que antes víamos distante, agora estavam bem perto. As nuvens pareciam estar ao nosso alcance. As sombras pareciam grandes lagos. Eram verdadeiras miragens. Uma beleza natural incrível. Paramos para curtir aquele momento. Tentamos uma corridinha para atravessar a estrada, mas o cansaço nos impedia. Tudo ficou em câmera lenta. O tempo parecia que estava parando. Então, resolvemos seguir adiante.

           

Começamos a descer o vale e, de repente, chegamos em San Pedro de Atacama, que fica a 2.400 metros de altitude. Fizemos a aduana antes de entrar na cidade. O Chile é muito rigoroso em relação à entrada de alimentos. Nada de frutas e alimentos frescos. Já conhecíamos as burocracias. Com isso, não tivemos problemas. Os policiais revistaram o carro e nós entramos na cidade. 

           

Não chovia em San Pedro de Atacama há mais de 45 anos, segundo os moradores. E, justamente, antes de chegarmos choveu muito forte. As ruas ficaram alagadas e com muito barro. As estradas ficaram intransitáveis. Com isso, o camping estava fechado e o jeito foi procurar um “hostal” razoável e com preço justo. O único problema foi a falta de luz na cidade e, consequentemente, a falta de água quente. A cidade não era preparada para chuva e, por isso, estava um tanto caótica. Mas, mesmo assim não afastou os turistas. 

           

Saímos para dar um passeio pelas ruas e o cheiro de incenso nas lojas, de perfume patchouli, a iluminação com velas e as músicas de Ravi Shankar e Bob Marley nos bares, nos fez voltar no tempo. 

           

Descansamos, e no dia seguinte, começamos a explorar a cidade e os pontos imperdíveis do deserto. O Vale da Lua, ganhou este nome, pela semelhança com a superfície lunar. Não possui nenhum tipo de vida e as formações rochosas, que alcançam até duzentos metros de altura, são resultado dos ventos na região. O Vale da Morte, foi um lugar onde os povos antigos levavam os seus doentes e velhos, com os pertences, para ali morrerem em paz. Múmias foram encontradas e algumas estão no museu da cidade, que vale a pena ser visitado. Tanto o Vale da Lua quanto o Vale da Morte estão numa cordilheira de sal. Mas, foi o Vale da Morte que mais nos impressionou. Os desfiladeiros e dunas próximas nos causou uma sensação bem esquisita. Chegou dar arrepios. 

           

Outra atração, Pukara de Quitor, considerado um monumento nacional, é um sítio arqueológico pré-colombiano que dizem ter servido como fortaleza do povo atacamenho, contra os ataques incas. Ainda mais interessante é visitar o El Tatio, onde os Gêiseres explodem, levantando a mais de oito metros de altura, jatos de vapor e água fervendo. Eles estão localizados a 4 mil metros de altitude e fica a quase 100 quilômetros de San Pedro de Atacama. 

           

Com as chuvas dos dias anteriores, as estradas ficaram intransponíveis em alguns pontos e a polícia local não recomendou caminhos alternativos para visitar os vulcões Licancabur e Lázcar, as piscinas de Peine, a Reserva Nacional dos Flamingos, o Salar de Atacama e as cidades de Toconao e Socaire. Ficamos frustrados, claro!

           

O vulcão Lázcar, que pode ser visto de San Pedro de Atacama, ainda é ativo e fica sempre envolto por uma fumaça, com forte cheiro de enxofre. O Licancabur, impõe por sua beleza e altura, o que atrai os mais curiosos montanhistas. 

           

Antes de continuarmos o nosso caminho, aproveitamos um pouco mais a cidade e vimos o carro de um brasileiro, que se acidentou na região. Por falta de sorte dele, tinha um carona, que faleceu. O rapaz foi detido. Nunca mais soubemos o que aconteceu com ele. 

           

O “hostal” onde nos hospedamos, era de uma nativa muito simpática, que tinha uma filhinha de 2 anos, de nome Leslie. Todos os dias tomávamos nosso café da manhã na cozinha, com Leslie e uma prima que ajudava nos afazeres domésticos. Com isso, acabamos nos afeiçoando com a menininha e ela conosco. No dia da nossa partida Leslie chorou muito, o que nos deixou de coração partido. Foi então, que nos demos conta de quantos encontros e despedidas teríamos pela frente. Ficamos tristes, mas ao mesmo tempo aprendemos o inevitável, as despedidas seriam difíceis. Ganhamos da Leslie uma lhama de pano, que era o brinquedinho preferido dela. Demos o nome de “Lhama Lelé”. Ainda guardamos conosco. É uma lembrança que nos foi entregue com desapego, por uma criança de 2 anos. Ainda hoje, quando olhamos a “Lhama Lelé” lembramos com carinho daquela menininha.

E naquela época não tinha telefone celular, nem redes sociais...

           

Durante o planejamento da nossa expedição tentamos conseguir algum patrocínio. Contatamos uma empresa de telefonia por satélite, que tinha, naquela época, um telefone enorme que cabia numa mala. Infelizmente, não conseguimos o patrocínio. Então, os boletins que enviávamos para uma emissora de rádio de São Paulo foi a maneira mais divertida de mandar notícias para o Brasil. Para isso, os relatos eram gravados e enviados de um telefone público, com ligação “a cobrar”. 

 

A comunicação com a família e amigos era feita por e-mails. Nos países da América do Sul, América Central e no México, o Cyber Café era a melhor saída. Já nos Estados Unidos era fácil conseguir uma ótima internet, sem custos, nas bibliotecas públicas e universidades. 

 

Mesmo sem fácil conexão com o Brasil, essa longa viagem até o Alaska teve de tudo, menos solidão. Muitas pessoas tinham curiosidade e sempre paravam para conversar, ver o carro e trocar informações. Por exemplo, no caminho para Iquique, ainda no Chile, encontramos uma família francesa que estava viajando há seis meses. Depois encontramos quatro brasileiros, que seguiam para surfar no Peru. Em Iquique, um chileno que tinha morado no Brasil, nos abordou quando viu o carro estacionado. E, como tem brasileiro pelos quatro cantos do mundo, também fomos abordados por um brasileiro que vivia na cidade. Fora isso, nos postos de gasolina, nas ruas, nas praias, em qualquer lugar, as pessoas queriam saber sobre a nossa expedição. 

 

Por vezes, fomos presenteados. E, em Iquique, ganhamos uma super lavagem no carro. Além disso, como a cidade era grande, com uma boa infraestrutura, resolvemos trocar um rolamento do motor do carro, avaria essa, que foi gerada pelas péssimas condições das estradas e da ventania com muita areia fina que enfrentamos pelo caminho. 

 

Enfim, a revisão foi feita, aproveitamos para enviar os relatos da rádio e era hora de partir. Retomamos o nosso trajeto, pela estrada Panamericana, rumo a Arica que ficava somente 20 km da fronteira com o Peru. Paramos para ver a cidade que era conhecida pelas suas praias de surf, e cruzamos a fronteira do Peru. 

O Peru e suas diferenças... 

A estrada era perigosa, com muitas curvas e cânions. As carcaças dos veículos no fundo dos desfiladeiros ficavam a mostra, assim como as cruzes e os pedaços de carros na beira da estrada demarcando os locais dos acidentes. Diante disso, seguimos com muita cautela até Arequipa, cidade que já conhecíamos. 

           

Foi um déjà vu. Quando estivemos lá, pela primeira vez, o presidente do Peru era Alan Garcia. E, dessa vez, chegamos bem no dia de um comício desse mesmo político. O então ex-presidente se candidatava à presidência novamente. Pelo que percebemos, suas promessas já não encantavam como antes, mas o “showmício” deixou a multidão de peruanos bem animada. 

           

Resolvemos explorar outros lugares do país. Então, fomos para Nazca. Tivemos que ficar parados, mais uma vez, esperando acabar uma manifestação de camponeses. Era o nosso quarto bloqueio de estrada desde que saímos do Brasil. Muito tempo depois chegamos ao nosso destino. 

           

Não poderíamos deixar de ver as famosas “Linhas de Nazca”, principal atração da região. Esses geoglifos, que são linhas que formam diversas figuras, podem ser vistas a distância ou fazendo um sobrevoo na região.  Mas a cidade, essa parecia uma coisa de louco, literalmente. Só para ter uma ideia, um alto falante numa torre da praça central tocava uma música altíssima. Nas lojas, o volume da música também era ensurdecedor. Isso, sem contar a televisão pública que ficava no meio da praça com o som na maior altura. E, finalmente, os carros buzinando sem parar. Queríamos fugir dali para qualquer lugar. E fugimos para o deserto silencioso sabendo que ainda teríamos muito o que ver e sentir pela frente. 

           

Sem compromisso com o tempo físico, a não ser chegar ao Alaska no verão, não nos privamos de conhecer todos outros lugares com bastante calma. Depois de Nazca fomos em direção a Pisco, mas não sem antes parar em Ica. 

 

Ica nos fez lembrar a Índia. As ruas empoeiradas, com muita gente, e um trânsito caótico dividia o espaço com os carros e os riquixás ou tuc-tucs, bem ao estilo indiano. Essa cidade vive da produção de uvas, plantadas em pleno deserto, em areia irrigada formando campos verdes imensos. 

           

Fugindo do caos, fomos para Paracas, onde fica a Reserva Nacional de Paracas. Esta é uma área protegida onde vimos os lobos marinhos, condores e formações geológicas fantásticas como, por exemplo, La Cattedrale. Ficamos o final de semana para conhecer a região e a Islas Ballestas, uma verdadeira reserva ornitológica, com colônias de aves e leões marinhos. Foi um merecido descanso, com direito a aproveitar a praia, debaixo do calor escaldante. 

           

Encontramos um pescador, que já tinha morado no Brasil, e explicou que Paracas era o paraíso dos milionários, empresários e políticos. A região é fascinante, com o deserto e o mar se encontrando. Além das belezas naturais, o museu da cidade mostra um pouco da cultura Paraca. 

 

Como já tínhamos conhecido a parte central do Peru, numa outra viagem, resolvemos conhecer a costa. A saída de Paracas teria sido normal se não fosse mais uma manifestação de trabalhadores rurais. Era o nosso quinto bloqueio, desde que começamos a viagem. Já estávamos espertos em relação a esses bloqueios. Por isso, quando a polícia avisou sobre o protesto, seguimos, com mais uns dez carros, por estradas vicinais. Já tínhamos feito isso antes e não hesitamos. Parecia um rally, porque ficamos sabendo que a ponte que teríamos de passar para retornar à estrada, depois do bloqueio, seria fechada. 

           

Dessa vez, passamos entre plantações de algodão e cana, encontrando carros que vinham na mão contrária. Por sorte, não aconteceu nenhum acidente e chegamos, novamente, na estrada principal, a Panamericana. Algum tempo depois estávamos atravessando a caótica Lima. 

           

O nosso destino era Trujillo, mas não conseguimos chegar, pelos contratempos. Por isso, resolvemos dormir em Casma, uma cidade pequena, numa região com a cultura pré-colombiana Chimu. Partimos cedo, no dia seguinte, e resolvemos ir para Piúra onde ficamos num “hostal” bem legal, com direito ao melhor apartamento por um preço bem mais baixo. Foi uma generosa oferta dos proprietários. Ali conversamos por longas horas sobre a nossa viagem e sobre o Brasil.

           

Ali a paisagem era de arrozais, bananeiras e coqueiros. Algumas vezes lembrava o nordeste brasileiro, só que com o mar à nossa esquerda, não a direita como no Atlântico, já que nossa direção era o Norte. Afinal estávamos vendo o Oceano Pacífico. O calor se tornava insuportavelmente úmido. 

 

Apesar do local e pessoas agradáveis, era hora de cruzar a fronteira do Equador. Mas, as imagens que vimos pela televisão não eram muito animadoras. A chuva tinha castigado a região. Tinham muitas pontes caídas e o rio que cruzava a fronteira estava bem cheio. Em alguns pontos da estrada era necessário a ajuda de tratores para tirar os carros da lama. As cidades estavam alagadas. Felizmente, tinham alguns desvios, que era com o que contávamos naquela altura. Assim, bem cedo saímos em direção ao Equador, nosso novo destino. 

Despachando o carro ...

           

Até ali já tínhamos viajado 10.000 km. A fronteira do Equador mais parecia a fronteira de Ciudad del Leste em tamanho menor, mas com o mesmo volume de gente circulando. Fizemos os trâmites burocráticos e seguimos para Machala, uma cidade a 60 km da fronteira. 

           

Chegamos bem na hora do jogo de futebol entre Brasil e Equador. E, pior, exatamente na hora do gol do Equador, que dava a vitória ao time sobre o “tetracampeão mundial”. Nosso carro todo adesivado com bandeiras do Brasil chamou atenção e o resultado foi um “buzinaço” atrás de nós   

           

Depois disso, acham que tivemos sossego? Claro que não! Ouvimos muitas gozações dos policiais que nos paravam para checar documentação, dos atendentes de hotéis e lojas... Enfim, tivemos que aderir à brincadeira porque, convenhamos, era um bom “quebra gelo” em muitas situações. Ganhamos, inclusive, uma lavagem geral do carro. Mas, o que mais nos impressionou foi que duas horas após o jogo já tinha uma edição extra do jornal local com a seguinte manchete: "Ganhamos do Brasil. Mudamos a história". 

           

A nossa ideia era seguir do Equador para a Colômbia, mas fomos desaconselhados cruzar a fronteira porque, na época, as FARCs estavam muito ativas, praticando sequestros, e nós seríamos um alvo muito fácil e precioso para os propósitos dos guerrilheiros. Desistimos e fomos até Puerto Bolívar, um porto internacional, para entender como fazer para embarcar o nosso carro para o Panamá. Isso porque, não existe passagem por terra da América do Sul para a América Central, uma vez que o “Darién Gap” é uma grande bacia hidrográfica, florestas e montanhas, sem estradas construídas. 

 

Fomos bem recebidos pelos agentes da Capitania dos Portos, em Puerto Bolívar, e informados que somente em Guayaquil poderíamos fazer o embarque. Guayaquil não era, exatamente, a cidade que gostaríamos de ficar por muito tempo. Era uma cidade muito grande e confusa com um agitado centro comercial. O trânsito era caótico. Os pedestres cruzando à frente dos carros, sem mais nem menos. A buzina era acessório fundamental. Os guardas de trânsito eram verdadeiros “kamikazes”. Ficavam no meio dos cruzamentos, sem nenhuma proteção, tentando organizar o trânsito, numa performance muito divertida. Os condomínios luxuosos ficavam numa região, que chamam La Puntilla, bem distante do centro da cidade. 

           

Naquele momento, o Equador estava passando por uma difícil situação econômica, pela sua dolarização. O Sucre, sua moeda antiga, deixou de existir. A conversão era de 25.000 Sucres para 1 dólar. Com isso, houve um empobrecimento geral e, consequentemente, um aumento significativo da violência urbana. Os contrastes eram enormes e os problemas sociais, idem. Ficamos impressionados com a ostensiva vigilância armada, com metralhadoras e escopetas, dentro e fora dos shopping centers, nos hotéis, nos estacionamentos, nas lanchonetes e restaurantes. Mas, algumas pessoas nos disseram que quatro anos antes da nossa passagem por lá a situação era muito pior.  

 

Diante da situação, optamos por um hotel distante do centro, evitando uma maior exposição do carro.

           

Enfim, não tínhamos como fugir dos processos e dos trâmites da aduana e do embarque do carro, que eram complicados e demandavam tempo. Fizemos pesquisa das empresas navegadoras, despachantes aduaneiros e foram várias idas e vindas ao porto para assinaturas de documentos, xerox, pagamento de taxas etc., etc... Tudo isso, com a ajuda da Capitania dos Portos. Apesar de muito bem recebidos, infelizmente, tivemos que enfrentar as falcatruas e tabelas de preços para estrangeiros. Depois de tudo pronto, ouvimos que o carro não embarcaria no dia combinado. 

           

Simplesmente a empresa navegadora contratada não tinha reservado o espaço para o nosso container. No dia seguinte, amanhecemos no escritório e tivemos uma inflamada discussão em “portunhol”, o que não adiantou absolutamente nada. Tivemos que procurar outra empresa que tivesse condições de embarcar o carro numa data mais próxima. E assim o fizemos. 

 

Mas, além de tudo isso, ainda restava uma pendência. Naquela época, era necessário o visto para alguns países da América Central. E o Panamá estava nessa lista. Ligamos para o Consulado e fomos muito bem atendidos. Em meio dia já tínhamos o visto, mediante o pagamento de cem dólares, claro! Isso porque, a “autoridade” local tinha morado no Brasil e blá, blá, blá... 

 

Bem, enquanto esperávamos para embarcar o carro, resolvemos relaxar e conhecer Salinas, o “Guarujá equatoriano”. A cidade tinha uma grande estrutura turística, com prédios altos e ficava mais movimentada nos finais de semana. O calor era escaldante, que só de ficar na sombra da barraca adquirimos um belo bronzeado. Ali aproveitamos para comer um "ceviche", típico da região, e outros mariscos e pescados. 

 

Voltamos para Guayaquil e chegou a hora de embarcar o carro. Fomos cedo para o porto. Chegando lá tivemos a primeira surpresa. O despachante disse que teríamos que pagar um valor extra para que o carro fosse vistoriado. Dissemos que queríamos o recibo da aduana. O assunto morreu por aí mesmo, sem o pagamento. Já estávamos espertos. Essa era mais uma tentativa de “morder uma grana”.

           

O container, finalmente, foi liberado, depois de uma hora e meia de espera. O carro estava pronto para ser embarcado quando veio a segunda surpresa do dia. Era necessário amarrar o carro dentro do container, como medida de segurança, para que ele não ficasse jogando de um lado para o outro. Até aí, tudo bem. Mas, tivemos que desembolsar mais dinheiro. As práticas extorsivas, comum nos portos, já eram conhecidas. Não é atoa que o nome "quadrilha" é usado por eles mesmos. Um nome bem apropriado para definir esses prestadores de serviços.

           

Depois de concluído essa saga do embarque do carro não adiantava sair correndo dali. O carro iria demorar uns bons dias até o Panamá. Por isso, fomos para Cuenca, a terceira maior cidade do Equador. 

Compramos nossas passagens para Cuenca numa empresa de ônibus que oferecia “ônibus com ar-condicionado, televisão a bordo e música ambiente”. Mas, a televisão era a paisagem vista pela janela mesmo. O ar-condicionado eram as janelas totalmente abertas. E a música ambiente era o rádio do ônibus sintonizado numa estação com uma música alta que se misturava com o barulho do motor do ônibus e do vento. Mas, tudo isso fazia parte da viagem e não nos fez perder o bom humor. As paisagens eram lindas, apesar das estradas um pouco “malogradas", por causa das recentes chuvas que caíram na região. 

           

Cuenca é uma cidade com arquitetura colonial, muitas igrejas, grandes praças e culturalmente muito ativa. Fica num vale, apesar de seus 2.500 metros de altitude, cercada por altas montanhas andinas, com muito verde. É considerada Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. Existe uma parte moderna ativa, mas que pouco nos interessou. 

 

A cidade estava em festa pela comemoração da sua fundação e pelas celebrações que antecedem a Semana Santa. O Domingo de Ramos foi especial. A Catedral da cidade ficou lotada. E foi interessante ver os vários povos indígenas, mestiços e brancos juntos, agitando seus ramos, dentro e fora da Catedral. As ruas estavam enfeitadas e após a missa teve um desfile com banda militar e muitos fogos de artificio.

 

Aprendemos sobre os vários povos indígenas do Equador. Em Cuenca vimos os Otavalos, que vêm do Norte, os Saraguros e os Cañarejos. Para nós eles se diferenciavam, principalmente, pelas roupas e adereços. Os homens Saraguros, usam calças mais curtas, parecendo bermudões, os cabelos amarrados em “rabo de cavalo” e um chapéu preto. Já as mulheres Otavalos usam vestidos longos, camisas brancas e muitos colares dourados no pescoço. As cañarejas usam roupas bem coloridas, saias rodadas, chapéu e um xale nos ombros. Estes povos indígenas, além do espanhol, tinham sua língua nativa, o quéchua, com pequenas variações entre cada povo.  

           

Cuenca era uma cidade muito interessante e nós, já relaxados do estresse de embarque do carro, resolvemos ligar para a empresa navegadora na data prevista que o carro partiria. Foi aí que veio outra surpresa. O carro não tinha sido embarcado na data prevista. Depois de outra discussão, por telefone, voltamos para Guayaquil. A explicação foi que tiveram um "problema de calado", ou seja, o rio não estava cheio suficiente para permitir a entrada do navio no porto e nenhuma carga foi embarcada. 

 

Agora tínhamos outros problemas. O nosso voo para o Panamá já estava marcado e a aduana já tinha marcado no nosso passaporte o nome do navio que o carro estaria sendo transportado, o que mudaria com esse cancelamento de embarque. E, por fim, deixar o carro no porto era um risco porque os containers eram constantemente violados, segundo a própria empresa navegadora. 

           

Nossa primeira providência foi tentar falar com o Consulado Brasileiro para saber exatamente o que fazer naquela situação. No consulado disseram que não sabiam e sugeriram que ligássemos para a Embaixada do Equador, em Quito. Quem atendeu na Embaixada não sabia o que fazer também, pediu para ligar no Consulado do Panamá. Como já conhecíamos essa “autoridade” panamenha em Guayaquil, que concedeu o visto, fomos em busca das informações. 

           

Com calma, tudo foi se acertando. Conseguimos trocar as passagens, sem nenhum custo adicional. Na companhia navegadora pedimos que checassem o lacre do container e parecia estar tudo bem, só que, por incrível que pareça, a empresa não se responsabilizava se houvesse violação. A chefe da exportação da empresa somente disse-nos que pediu para colocarem um outro container junto ao nosso para dificultar a abertura do lacre. Só nos restava rezar e tentar, uma vez mais, relaxar. Como não adiantava nada permanecer em Guayaquil, resolvemos conhecer Quito. Pelo menos a viagem nos distrairia das preocupações. Seguimos oito horas, de ônibus, numa viagem entre as montanhas, no meio de uma floresta, incrivelmente maravilhosa. 

           

Chegamos em Quito, que fica num vale, situado a 2.850 metros de altitude. O verde predomina e as casas e os prédios são construídas morro acima e abaixo. Existe uma parte colonial muito antiga, com o casario bem preservado. Suas ruas estreitas e ladeiras predominam nesta parte, lembrando Ouro Preto e, fazendo jus também ao título de Patrimônio Histórico da Humanidade. O outro lado da cidade é moderno com grandes avenidas, prédios e casas luxuosas. 

 

Ficamos hospedados num lugar muito legal, com muitos turistas, bares, restaurantes, uma verdadeira festa. E mais, um lugar onde se podia andar e voltar a noite caminhando para o hotel, bem diferente de Guayaquil. Quito é, realmente, uma cidade incrível. 

           

Visitamos dois lugares interessantes, que ficavam próximos a Quito. Otavalo, 100 km ao norte, é uma cidade com a maior concentração do povo indígena, que leva o mesmo nome. Aos sábados, essa pequena cidade se transforma numa grande feira, com artesanato, roupas, tapetes, enfeites e, também, uma parte de frutas, verduras e legumes da região. Tudo muito colorido. 

 

O outro lugar que visitamos foi a Mitad del Mundo, onde passa a linha do Equador. Fica 22 quilômetros distante de Quito. Lá colocamos, literalmente, um pé no norte e outro no sul do mundo.  

           

Aproveitamos o tempo que nos restava na cidade e resolvemos passar nas Embaixadas do Panamá, da Nicarágua e de Honduras para entender melhor sobre a questão dos vistos e adiantar a "consularização" da documentação do carro. 

 

Na Embaixada do Panamá, enquanto esperávamos na recepção, olhamos o quadro de avisos e nos deparamos com uma informação que surpreendeu. Lá dizia que brasileiros não precisavam mais de vistos para entrar no Panamá. Ficamos sem entender e comentamos com um funcionário que tínhamos feito o pagamento dos vistos e mostramos os passaportes. Nesse momento, o Embaixador veio falar conosco. 

 

Essa não era a primeira vez que isso acontecia. Diante do fato o Embaixador pediu nossa colaboração para comprovar a falcatrua. Pensamos bastante e decidimos não entrar nessa confusão. Como viajantes, resolvemos não nos envolver com os problemas domésticos e políticos do país. Tínhamos um longo caminho a percorrer no Panamá e preferimos viajar tranquilamente, sem preocupações. Bem, a história é um pouco mais longa e complicada, mas preferimos não a deixar pública, por motivos óbvios. 

           

Depois desse “imbróglio” voltamos para Guayaquil. A empresa navegadora informou que o carro tinha embarcado e que chegaria ao porto, no Panamá, na data prevista. Finalmente, depois de 20 dias no Equador, pudemos continuar nossa viagem rumo ao Alaska. Ficar no Equador além do previsto, pelo atraso do embarque do carro, a princípio foi uma chateação, mas foi compensado pelas viagens onde pudemos conhecer melhor aquele país. 

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