
América do Sul
Volta
Indo em direção ao nosso Brasil...
Depois de ter certeza de que o navio já tinha partido do porto com o nosso carro, era hora de deixar a América Central. Nosso destino foi Santiago do Chile.
Santiago é uma cidade bonita e elegante. Começamos a conhecê-la pela parte histórica central. Fomos ao Passeo Ahumada, Plaza de Armas, La Moneda e alguns outros pontos turísticos. Depois seguimos até a vista do Cerro Santa Lucia, do Cerro San Cristóbal, passeamos pelo Parque Florestal e pelo bairro Bela Vista. Providencia e Las Condes são algumas das regiões mais modernas da cidade e onde estão os melhores restaurantes, cafés e lojas.
Como o carro demoraria dez dias para chegar ao Chile resolvemos ir para Viña del Mar. Apesar de não ser temporada das férias chilenas, tinham muitos estrangeiros, que preferiam viajar numa época mais tranquila. O tempo estava ótimo e aproveitamos para tomar sol em Reñaca e Concón, praias ao norte da cidade. Entrar na água era impossível de tão fria, mas ficar estirados nas areias só observando o lindo visual já valia a pena.
Viña del Mar tem seu charme. A orla marítima é muito bonita e a rua Valparaíso é onde as pessoas vão caminhar, olhar vitrines, comer alguma coisa nas confeitarias, tomar um café ou jantar nos seus vários restaurantes.
Aproveitamos a proximidade de San Antonio, porto onde o carro chegaria, para ir até a empresa de navegação e saber sobre as burocracias e procedimentos de retirada do carro. Ficamos sabendo que no Chile a "desconsolidação", ou seja, o desembaraço do carro no porto, teria que ser feito por uma empresa especializada. Fechamos o orçamento com uma empresa, nos informamos sobre todos os processos, a fim de evitar futuros problemas.
No dia que o carro chegou fomos para o porto bem cedo, mas ficamos decepcionados porque, por um problema interno da companhia de navegação, não seria possível retirar o carro naquele mesmo dia. Depois de todas as precauções e conversas que tivemos, a empresa esqueceu de pedir "prioridade" no desembarque do nosso container. Mais uma vez, foi hora de ter paciência, bom humor, muita conversa e argumentações... Mas, no meio da tarde conseguimos ter o nosso carro novamente. Foi um alívio! Voltamos para Viña del Mar e no dia seguinte pegamos a estrada em direção a Mendoza, na Argentina.
Los Caracoles, era um trajeto que pensamos fazer em outras ocasiões. Várias vezes, antes de decidir por essa expedição, fomos ao Ceagesp em São Paulo para conversar com os caminhoneiros que faziam a rota Brasil, Argentina e Chile. As informações que obtivemos com eles foram muito úteis. Com isso, seguimos para a cidade de Los Andes e começamos a subir a estrada que nos levaria à Los Caracoles.
A Cordilheira dos Andes já era familiar. Já havíamos cruzado as montanhas nos seus quase 5 mil metros de altitude indo para o Deserto de Atacama. Também viajamos pela sua parte sul, um ano antes de ir para o Alaska. E, dessa vez, subimos na sua parte central, num zigue-zague sem fim. No alto dos seus três mil metros cruzamos para a Argentina. Atravessamos um túnel de 3 km, o Cristo Redentor, e tivemos a oportunidade de ver bem de perto o Monte Aconcágua, que desafia os amantes do montanhismo.
Na Argentina, seguimos até Mendoza e no dia seguinte até Pergamino para pernoitar. A parada nessa cidade foi estratégica por dois motivos. Primeiro, por causa das fortes chuvas tivemos que fazer um desvio de 100 km, o que atrasou nossa viagem. Segundo, porque no caminho, perto de Pergamino, fomos abordados por um guarda que pediu uma "contribuição". Dissemos não ter nada naquele momento. Então, ele pediu por "qualquer coisa". Ele aceitaria lápis, caneta ou qualquer outro objeto, mas decidimos não “contribuir” com nada e achamos melhor não seguir em frente. Ficamos com receio porque as estratégias dos policiais nas estradas eram velhas conhecidas.
No dia seguinte, já decididos a cruzar para o Uruguai pela fronteira de Fray Bentos, enfrentamos um congestionamento de 9 km. Resolvemos mudar de rumo e fomos para a fronteira que cruza a ponte General Artigas, unindo as cidades de Colón a Paysandú, já no Uruguai.
A pouco mais de 300 km do Brasil, não resistimos e seguimos em frente. Mas, quando faltavam 100 km para a chegada um sentimento nos abateu. Uma mistura de uma grande euforia, por estar chegando ao Brasil, e uma profunda tristeza de saber que dali a pouco tempo estacionaríamos nosso carro para um merecido descanso. Apesar disso, respiramos fundo e cruzamos a fronteira brasileira.
Em Santana do Livramento fomos recebidos por amigos gaúchos, que viajaram quase 600km para nos dar as boas-vindas, o que foi fundamental naquele momento para amenizar o que estávamos sentindo. Fomos para Quaraí com o Ricardo e a Ana. Nos sentimos acolhidos também pela Marjorie e pelo Marinho (in memoriam) e toda a família e amigos deles. Cerveja gelada, churrasco, fotos e histórias nos fizeram sentir em casa novamente.
Depois de alguns dias em Quaraí, subimos até Porto Alegre. De lá, seguimos para Florianópolis, Curitiba e Espírito Santo do Pinhal, já em São Paulo.
O motivo de ir para o interior de São Paulo foi encontrar com os nossos amigos de Bowling Green, Kathy, Zé Luiz e suas filhas Andréa e Isabel. Eles estavam passando uns dias de férias numa fazenda da família e nós não queríamos perder a oportunidade de vê-los. Por coincidência (ou não!!!) eles foram os últimos amigos que despedimos quando saímos de Bowling Green. Estivemos com eles 2 dias e aproveitamos para conhecer a beleza do lugar. Depois, partimos em direção a São Paulo.
Em São Paulo, fomos acolhidos também pelos nossos amigos. Foram vários dias de encontros e festas. Repetimos as histórias muitas vezes. Ouvimos deles que quando escutavam nossos boletins pela emissora de rádio, ficavam eufóricos. Ficamos felizes e tivemos a certeza de que tudo tinha valido a pena. Mas, era hora de ir para Belo Horizonte, e encontrar a família e os outros amigos.
Da mesma forma, em BH fomos recebidos com faixa de boas-vindas e carinho da família e dos nossos amigos mineiros. Enfim, pudemos matar a saudade de tanto tempo de ausência. Foram também muitos encontros, festas, histórias e mais histórias.
Enfim, depois de tanto tempo, cruzar fronteiras e países, conhecer muita gente, enfrentar todo tipo de situação social, política e adversidades de clima e, finalmente, chegar ao Brasil nos fez sentir afortunados. Fomos perseverantes e, em nenhum momento, pensamos em recuar diante das dificuldades. Seguimos sempre em frente, com determinação, precaução e segurança de que conseguiríamos vencer todas as etapas propostas. Atingimos o que era nosso objetivo, chegar com nosso Land Rover Defender a Proudhoe Bay, última cidade do Alaska. E ainda, voltamos ao nosso ponto de partida, São Paulo-Belo Horizonte. Muita coisa aconteceu. Muitas alternativas nos foram apresentadas. Essa expedição foi muito além de uma simples viagem. Ela nos apresentou uma outra percepção e concepção da vida. Foi um aprendizado e um “divisor de águas” para nós. Nesse tempo aprendemos, entre outras coisas, a sermos pacientes, respeitar e ser respeitado, a tolerar, negociar diante das situações, a ter bom senso e bom humor. Viver de forma simples, enxergar a natureza e respeitá-la acima de tudo. Aprendemos o valor de enfrentar um grande desafio. Aprendemos que valeu a pena interromper nossa vida profissional, naquele momento, deixar o conforto da nossa casa e sentir saudade da família e amigos em troca da realização de um grande sonho.
Afinal, para nós "OS SONHOS SÃO PARA SEREM VIVIDOS".