
Via Francigena:
Aosta a Roma
As pedras do caminho...
A Via Francigena é uma antiga rota de peregrinação e de comércio que liga a França à Roma, daí o nome “Francigena”. Na verdade, o ponto oficial de partida é Canterbury (Inglaterra), seguindo pela França, Suíça e Itália. Esta via remonta a Idade Média, sendo uma das três importantes rotas de peregrinação. A primeira e mais conhecida é Santiago de Compostela, a segunda é a Terra Santa (Jerusalém) e a terceira é Roma, onde os peregrinos visitam os túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo.
Como esta é uma via com menos infraestrutura do que os Caminhos de Santiago, tem poucas pessoas caminhando, mas, aos poucos essa infraestrutura vem crescendo e, principalmente na Itália, já está muito bem estruturada. Foi por isso que escolhemos este trecho para caminhar.
A ideia era sair do Gran San Bernardo, que é uma passagem entre o Monte Mort e o Pico de Drône, nos Alpes Valaisanos, na fronteira Itália-Suíça. Essa passagem também foi utilizada pelo exército de Napoleão Bonaparte, em 1800, para derrotar o exército austríaco.
Do Gran San Bernardo a Aosta são dois dias de caminhada, mas quando chegamos ainda tinha muita neve e a passagem estava fechada. Então, decidimos começar o caminho em Aosta, uma cidade super agradável. Ficamos dois dias nos aclimatando. Aproveitamos para conhecer Courmayeur, que fica do lado oposto a Chamonix, e ambas no maciço do Mont Blanc.
No dia 22 de abril, num amanhecer frio e com um céu muito azul deixamos a cidade e começamos a subir e descer montanhas. De lá avistávamos todo o Vale d’Aosta. O sol esquentou muito e o clima, que estava bem frio nos dias anteriores, mudou de repente. Fez calor, o que nos desgastou muito.
Chegamos a Châtillon, depois de quase 30 km. No dia seguinte, fomos para Verrès, também num interminável sobe e desce. E, “no meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho”, de novo. Nessa pedra um tropeço fez a Vera se esborrachar no chão. Nada sério, apenas joelho, mão e dedos ralados.
Em Verrès ficamos numa Casa Paroquial, ao lado da igreja. Foi estranho termos que deixar as chaves atrás do altar para um próximo caminhante. Mas, o único que apareceu foi o Henry, um francês que de imediato nos identificamos. Um casal de italianos que encontramos em Châtillon, a Dora e o Gabriele, decidiram ficar num outro lugar.
Como sempre, começamos a encontrar nossa turma. Seguimos juntos, mas separados, para Pont San Martin, um caminho mais plano e um calor que não estava nos planos. O bom é que em todo o trajeto foi possível encontrar água fresca para beber, tanto nas fontes quanto ao preço de 0,05 cents nas máquinas instaladas próximas às cidadezinhas. Em San Martin, nos reencontramos e ficamos, os cinco caminhantes, no mesmo “Ostello”.
Fomos recebidos pelo senhor Baldo, já bem idoso, mas muito falante. Ele contou a sua história, do local, das pessoas, enquanto esperávamos a proprietária do Ostello. A partir daí estreitamos mais ainda a amizade com o casal de italianos e com o francês.
Pagar para usar garfo no jantar???
No quarto dia de caminhada fomos deixando Pont San Martin e o belíssimo Vale d’Aosta. Seguimos para Ivrea, já na região do Piemonte, terra da trufa branca e do Barolo, um dos vinhos nobres da Itália. O caminho foi lindo e alguns lugares mágicos. Passamos entre vinhedos que pareciam grandes anfiteatros, lagos e florestas.
Era o dia da comemoração da libertação da Itália do Regime Fascista. Ivrea estava em festa, por conta do feriado e de um evento de canoagem, mas conseguimos uma pousada, um pouco fora do centro da cidade, mas perto do nosso caminho.
No dia seguinte, seguimos para Viverone que mais parecia uma cidade fantasma. Então, resolvemos seguir até Roppolo, um pouco mais a frente. Hospedamos em La Casa del Movimento Lento onde Susanne e Alberto foram nossos anfitriões super gentis. O lugar é o sonho de consumo para quem caminha. Tranquilo, como o próprio nome diz. Jantamos e tomamos nosso vinho num belo jardim, conversando com dois bikersitalianos, o Giorgio e a Francesca. E, numa daquelas coincidências da vida, descobrimos que Giorgio, que fala português muito bem, tem uma empresa a 10 km de Belo Horizonte.
No dia seguinte, saímos mais cedo e no caminho reencontramos os bikers. Combinamos um encontro com o Giorgio no Brasil, mas, infelizmente, quando ele esteve por aqui nos desencontramos. Hoje, ainda mantemos contato.
O Henry continuou no nosso ritmo e nos vimos em Santhiá, mas seguimos para San Germano Vercellese, um lugarejo bem pequeno, com poucas opções de hospedagem. Ficamos numa “locanda”, que é uma hospedaria em cima de um restaurante. Nesse lugar aconteceu um fato bem inusitado. Fomos cobrados pelo uso dos talheres ao comer uma pizza. Claro que usaram de má fé conosco. Os italianos costumam pedir uma pizza para cada pessoa e comem com a mão. Nós seguimos nossa tradição e pedimos uma pizza para dividir e pedimos os talheres. Ao final, a conta veio com uma taxa de uso de “forchetta”, o garfo.
Para Vercelli, o caminho era por entre campos irrigados com plantações de arroz. Uma planície fácil de se perder. Eram poucas as marcações do caminho e imensos quadrados limitados por água. Em caso de distração e erro, fazer o trajeto de volta se tornava uma longa caminhada. Por isso, seguimos bem atentos.
Vercelli é considerada “città d’arte” pelo seu conjunto arquitetônico e artístico. Ficamos hospedados numostello bem bonito, com pessoas muito legais e compartilhamos um ótimo jantar, feito com muito carinho por quatro simpáticos “hospedeiros”. Esses hospedeiros são pessoas que se predispõem a ficarem por um tempo nessas pousadas, recebendo os caminhantes, proporcionando a eles a limpeza do lugar, o jantar e o café da manhã. E porque não dizer, um bom papo também...
Ih, não pagamos o ostello....
Entramos na Lombardia. Passamos por Robbio, Mortara, Garlasso e chegamos em Pavia, sempre pelas planícies e plantações de arroz. Foram caminhos planos, mas um pouco chato, já que a paisagem não mudava.
Era primeiro de maio e a cidade estava bem movimentada. Chegando no ostello, uma pequena confusão sobre preços do quarto, mas tudo ficou resolvido com a ajuda de Carlo Gattoni, um suíço.
Pavia tem vários atrativos turísticos, mas vamos citar apenas a “Ponte Coperto”, que como o próprio nome diz é uma ponte coberta bem comum na Idade Média, mas com poucos exemplares hoje em dia.
Descansamos e lá fomos nós para Santa Cristina. No meio do caminho paramos num café e encontramos o Daniel, também suíço. Ele não estava sozinho, caminhava com a Lizzy, uma Golden Retriever muito dócil e adorável. Lizzy se tornou mais que a nossa mascote. No dia seguinte, de Santa Cristina para Orio Litta choveu muito. No caminho encontramos os dois suíços e a Lizzy. Caminhamos juntos, até que encontramos a Theresa, uma americana de San Francisco e que se juntou a nós.
Todos encharcados, resolvemos parar num café para descansar e aquecer um pouco. Parecia que nos conhecíamos há décadas. Elisabetta, uma jovem italiana, passou direto. Nesse momento, ela ainda seguia sozinha e bem compenetrada no caminho. Ficamos todos no mesmo ostello, quando chegou um casal de suíços, que se uniu à turma. Nesse dia teve até a visita do prefeito, que indicou um restaurante para o jantar.
Descansados e aquecidos, seguimos sem chuva, no dia seguinte. A “turma” atravessou para a outra margem do Rio Pó de lancha. Nós dois preferimos seguir por uma variante, que aumentaria 2 km. Foi um caminho bem monótono em direção à Piacenza, já na Emilia-Romagna. A exceção foi quando paramos numa única cidadezinha e fomos a atração do lugar.
A missa estava terminando e as pessoas curiosas queriam saber mais sobre o nosso caminho. Paramos para conversar e depois seguimos na nossa monótona estrada até chegar a Piacenza. Enquanto estávamos num café descansando e esperando o nosso ostello abrir, reencontramos o Carlo Gattoni, o Daniel e a Lizzy, a Theresa e a Elisabetta.
No dia seguinte, decidimos enviar para o Brasil algumas roupas. O frio já não estava tão intenso que justificasse uma mochila pesada. E seguimos para Fiorenzuola d’Arda. Lá encontramos um padre, Dom Giuseppe, que morou muitos anos no Brasil e a Gisela, uma alemã. E foi neste ostello, que os laços se estreitaram mais e fomos todos jantar num restaurante. Lá, nos demos conta de que esquecemos de pagar o ostello em Santa Cristina. Não somente nós dois, mas o Carlo Gattoni também tinha esquecido. Ficamos pensando como faríamos para enviar o dinheiro. Depois, chegamos à conclusão de que, o que passou, passou... E seguimos adiante... Talvez tenhamos sido perdoados... Talvez...
Pensa num ostello antigo...
Saindo de Fiorenzuola d’Arda, passamos por um pequeno sítio, a beira do caminho. Este sítio era de um professor, o Massimo, que estava de férias escolares e fazendo alguns reparos na pequena propriedade. Cumprimentamos e ele nos convidou para tomar um café. Aceitamos. Ficamos, pelo menos uma hora, conversando sobre a política no Brasil.
Saindo do sítio, encontramos a Theresa. Seguimos conversando até Fidenza, onde reencontramos o Daniel e Lizzy, Elisabetta e Carlo Gattoni, que resolveu seguir adiante. Era sempre assim, às vezes, caminhávamos juntos, separados, nos encontrávamos todos ou parte do grupo. De manhã cedo, nós sempre saíamos depois de todos, porque tomávamos nosso café da manhã com calma, mas chegávamos antes, porque eles sempre paravam num café ou descansavam mais tempo em algum lugar. Cada um tinha o seu ritmo.
Em Fidenza, tivemos o convite para nos hospedar na casa da Dora e do Gabriele, que encontramos no início desse caminho. Eles moram em Parma, que fica perto de Fidenza. Achamos complicado a logística. Era preciso ir a lavanderia, organizar as compras para o dia seguinte. Enfim, não conseguimos nos encontrar, mas o casal entendeu. Depois disso, já nos encontramos em outro caminho e nos falamos regularmente por WhatsApp.
Na manhã seguinte, subindo e descendo, fomos para Medezano. Saímos juntos com a Gisela, mas num certo ponto nos separamos, depois de um descanso numa tratoria de uma pequena cidade.
Nesse trecho teríamos que cruzar um rio, molhando os pés, mas um senhor deu uma dica valiosa para evitar essa travessia. Mais a frente tinha uma ponte. Não molhamos os pés, mas nos deparamos com um imprevisto, uma cobra enorme no meio do caminho. Deixamos que ela passasse e seguimos nosso caminho.
Medezano só tinha um albergue para 4 pessoas. Chegando lá, encontramos o Daniel, a Elisabetta e a Odete, que era belga. Acontece que tinha lugar somente para os que fizeram a reserva. Nós, o Daniel e a Gisela, que ainda não tinha chegado, ficamos nesse albergue. Os outros se ajeitaram num hotel fora da cidade. E ficaram muito melhor que nós.
O lugar que ficamos, era uma escola. Tinha um salão com uma mesa enorme. E, um quarto, onde já dormia um senhor que ao entrar, já bêbado, exalava cheiro de álcool e cigarro por todos os poros. O Daniel foi para o salão. E nós, na mesma hora decidimos que não dormiríamos naquele “cinzeiro alcóolico”. Pegamos os colchões e nos ajeitamos também no salão. O mesmo fizemos para a Gisela, quando ela chegou.
No outro dia, fomos para Sivizzano. Já era sabido que o lugar não tinha nenhuma infraestrutura. Só tinha um ostello que era onde todos nós ficaríamos. Compramos alimentos num ótimo supermercado em Fornovo, que ficava a alguns quilômetros antes de Sivizzano.
Sivizzano é uma aldeia minúscula nos Apeninos, que é uma cordilheira que percorre mil quilômetros ao longo da Itália (central e costa leste), formando a coluna dorsal do país. O ostello era uma construção de 1098. Ao lado tem a Igreja de Santa Margherita e um pequeno monastério. Um lindo e peculiar lugar. Foi um jantar comunitário, com muita conversa e vinho. Depois fomos todos descansar para um novo dia de caminhada.
Despedindo de alguns amigos...
Este foi o nosso décimo sétimo dia de caminhada. Saímos cedo de Sivizzano porque sabíamos que seria um dia difícil, caminhando no meio das montanhas. No topo, numa vista deslumbrante, encontramos a versão italiana do famoso Shangri-La, do Himalaia. Ficamos algum tempo observando. Nos emocionamos... Foi um verdadeiro presente divino...
Em Cassio, ficamos num ostello, no mínimo perturbador. Para os glutões seria o paraíso. Tudo remetia a comida. No quarto, uma geladeira antiga servia como armário. Do lado de fora do quarto, mesa posta como decoração. E na copa/cozinha uma quantidade infinita de comida: pães, queijos, vinhos e cervejas de todos os tipos, massas e molhos variados, geleias, cafés, chás, biscoitos, bolos e frios à vontade, os mais diversos temperos, frutas e sucos, e muito mais coisas que nem conseguimos lembrar mais.
Enfim, tudo para fazer a festa dos comilões. E o pagamento de tudo isso? Donativo, a ser colocado num porquinho. Nunca vimos nada igual.
Era hora de cruzarmos o Paso della Cisa. O dia começou com muita chuva. No meio do caminho, uma paradinha para um café, em Berceto, onde encontramos a Maricho, uma mexicana, que também estava em Cassio, junto com uma suíça. Seguimos uma trilha, que era, praticamente, impossível de caminhar. Era muito escorregadia. Chegamos, enlameados e patinando no barro... Mas, o ostello já nos esperava com um banho quentinho, uma lareira acesa, vinho, salsichão, pão e um final de tarde gostoso em meio a amigos e com muita música.
A Maricho foi a responsável pela música tocada no violão que o Daniel carregava, mas que nunca vimos ele tocar. Ela fez a festa, cantando em quase todos os idiomas das pessoas que estavam ali. E não parou por aí, o jantar foi, igualmente, gostoso. E não faltou mais vinho e muita risada.
Como ainda estávamos traumatizados com a lama do dia anterior, e a chuva ainda não tinha parado, tínhamos duas opções para chegar a Pontremoli. A primeira era seguir pela estrada. A segunda era cruzar a montanha, com mais barro escorregadio. Dessa vez, ficamos com a primeira opção e mais fácil. Descer pela estrada foi muito bonito, mas, sinceramente, nos arrependemos. Teria sido melhor seguir pela montanha, onde fica a divisa entre a Emilia-Romagna e a Toscana. Hoje a nossa escolha teria sido diferente.
Em Pontremoli ficamos num convento franciscano enorme. Como tinha uma cozinha a disposição, foi dia do Helinho cozinhar para todos. Ele fez um prato espanhol, o delicioso “revuelto de setas com huevos”. A Theresa comprou testaroli, uma massa típica da região, e a Gisela comprou os vinhos. Esse foi um jantar de despedida de alguns dos amigos. Uns, iriam adiante mais rápido, a Theresa passaria uns dias com uma amiga, e outros ainda nos fizeram companhia até Aulla e Sarzana.
Depois de Sarzana, num domingo, resolvemos caminhar um pouco mais e parar em Avenza, que ficava logo depois de Carrara, cidade onde é extraído o famoso mármore. Descansamos, conhecemos outras pessoas e ainda vimos uma das etapas do Giro d’Itália, a famosa corrida de bicicleta.
Sob o sol da Toscana...
Agora estamos na metade dessa Via Francigena, “sob o sol da Toscana”, ma non tanto per ora... Mas, calma!
Foram quatorze dias na Toscana, tempo suficiente para ver o sol e perder o fôlego, tanto pela beleza quanto pelo sobe e desce nas montanhas. Foram muitas cidades lindas, medievais, intrigantes, cheias de turistas ou tranquilas.
Fomos para Massa. Mike, nosso amigo inglês, que estava passando uns dias na Itália com a namorada Connie, resolveu nos encontrar. Foi um encontro muito delicioso. O Daniel juntou-se a nós para um jantar e uma boa conversa até tarde da noite. No dia seguinte, fomos para Pietrasanta numa caminhada curta. Pietrasanta é reduto dos artesãos e escultores. É uma cidade pequena, mas cosmopolita ao mesmo tempo. Foi bom chegarmos cedo, aproveitar a atmosfera cultural do lugar, encontrar mais uma vez com Mike e Connie. Almoçamos e nos despedimos. Eles continuaram de carro em direção norte e nós seguimos caminhando para Valpromaro, com uma paradinha estratégica para um café em Camaiore.
Valpromaro é um lugarejo que fica, literalmente, numa curva da estrada. Um lugar charmoso. O ostello tinha dois hospedeiros bem divertidos, a Rosa, porto-riquenha e o Carlo, que era italiano. Encontramos a Mirella e o Piero, que conhecemos em Avenza e um francês, que ainda não conhecíamos. Sentamos todos na porta da pousada para tomar um solzinho e trocar informações sobre o caminho. A noite tivemos um jantar regado a muito vinho.
Isso nos ajudou a relaxar e dormir muito bem para na manhã seguinte seguir até Lucca. Em Lucca reencontramos a Theresa, nossa amiga americana e o Henri, o amigo francês, que não víamos há muitos dias.
O dia seguinte foi cheio. Acordamos com a ideia de dar uma escapada no caminho. Pegamos um trem e fomos para Pisa, que era muito perto dali. Paramos numa estação, perto da Torre e deparamos com uma multidão de turistas. Ainda assim, aproveitamos para umas fotos e seguimos caminhando para San Miniato.
Chegando em San Miniato todas as hospedagens estavam ocupadas. Estava acontecendo a “1000 Miglia”,que é um grande desfile de carros clássicos e antigos com muita festa por onde passam. Na verdade, a “1000 Miglia”, já foi uma corrida de longa distância no trajeto entre Brescia e Roma. Hoje é apenas um evento que conta com muitos adeptos e com pessoas locais que esperam a passagem dos carros antigos.
Enfim, apesar da dificuldade, teve uma indicação, de uma pessoa de um dos ostellos que visitamos, e conseguimos um lugar super bacana. Era uma construção do século XV, com pequenos apartamentos. Os móveis eram originais. Era bonito, mas um pouco assustador porque em todo o prédio somente nós dois ficamos hospedados. Achamos que até ouvimos umas correntes sendo arrastadas... Mas, ainda bem que conseguimos ficar ali, porque não teríamos mais nenhuma chance de continuar a caminhada.
E a Toscana continua linda...
O cenário que se seguiu foi de uma beleza indescritível. De San Miniato seguimos para Gambasi Terme, debaixo de um sol escaldante, sem nenhuma sombra. Quase tivemos uma insolação. Mas, fomos recompensados com um encontro com a Maryam, nossa amiga iraniana lá do Caminho Le Puy. Ela estava na Itália com um amigo holandês, o Roger. E, estando por perto, foram nos encontrar. Brindamos com algumas cervejas locais bem geladas e revigorantes. Falamos sobre os nossos planos futuros, lembramos a nossa caminhada no Le Puy e matamos as saudades. No dia seguinte, fomos para San Gimignano.
Nós tínhamos muita expectativa e não víamos a hora de chegar naquela cidade e tomar um sorvete na Gelateria Dondoli, que dizem ser os melhores sorvetes cremosos do mundo. Mas, ficamos um pouco decepcionados, não com o sorvete, mas com a cidade lotada de turistas, o que descaracterizava a atmosfera medieval do lugar. Para nossa sorte, ao sairmos, bem cedo no dia seguinte a cidade estava vazia. Aí sim, pudemos senti-la como queríamos e tirar umas fotos para a nossa recordação. E seguimos para Colle di Val d’Elsa.
As nuvens formavam um tapete branco no vale. Andamos por uma estradinha e entramos num bosque com muito barro e travessias de rios. Chegando à cidade, ficamos surpresos. A parte medieval, que era linda, ficava no alto. Na parte baixa, que podia ser alcançada por um elevador, ficava a cidade mais moderna, com todo tipo de serviços.
Nós ficamos num mosteiro enorme na parte medieval. Apenas nós ocupávamos um dos quartos destinados a quem caminhava e aos seminaristas. Um padre nos acomodou e foi embora. Todo aquele gigantesco prédio do monastério era nosso. Foi muito bom, mas um pouco solitário por não ter alguém para dividirmos as nossas experiências.
De Colle di Val d’Elsa a Monteriggioni foi debaixo de muita chuva. Monteriggioni é uma pequena cidade medieval, totalmente murada. A cidade foi citada na “Divina Comédia” de Dante. Outra curiosidade é que, Monteriggioni aparece também na sequência de jogos Assassin’s Creed. Era a principal cidade de em domínio dos assassinos, inimigos dos templários. Mas, isso é uma outra história, que só ficamos sabendo depois.
E seguimos para Siena, cidade que dispensa apresentações. Neste dia, andamos o dia todo num verdadeiro lamaçal. Ao entrar na cidade, cheia de turistas, estávamos com calças e pés cheios de barros. Éramos duas pessoas totalmente estranhas ao ambiente, contrastando com os turistas bem-vestidos e lojas elegantes... Mas, o bom foi ficar num lugar legal, bem no centro da cidade. Com isso, aproveitamos para visitar os pontos turísticos e preparar para o dia seguinte. Saímos muito cedo, porque a caminhada era longa para San Quirico d’Orcia, cidade que, quando estávamos programando a caminhada, elegemos para passar o dia de mais uma aniversário da Vera.
Mais um rico aniversário caminhado...
Um dia uma amiga perguntou se nós éramos ricos, já que desde 2013 viajamos todos os anos para caminhar. Na verdade, nós viajamos há mais de 45 anos. Abrimos mão do que consideramos menos importante, para viajar. Então, a amiga contou que pagou muitos euros por uma água mineral num hotel em Paris. Bem, cada um tem seu estilo de viagem. Depois que ela contou a viagem dela, nós temos certeza de que com o dinheiro gasto numa semana em Paris, na nossa mão renderia muito mais tempo de viagem. Mas, se essa pergunta fosse feita agora, nossa resposta seria outra. Responderíamos que “- sim, somos ricos! Porque, para nós, a riqueza não está no dinheiro e nas posses, mas nos lugares, nas pessoas e nas histórias que temos pra contar”.
E neste ano de 2018, também tivemos muitas histórias a contar. A comemoração de aniversário da Vera, em San Quirico d’Orcia, foi simples, como todos os outros anos em que passamos caminhando. Mas, estar naquela pequena e charmosa cidade foi um presente maravilhoso. Além disso, a comemoração continuou em Radicofani e Acquapendente, já na região de Lazio.
De Acquapendente saímos cedo, tendo como companhia mais de dois mil caminhantes, em direção a Bolsena. Era uma “maratona”, não de corrida, mas de caminhada. Tivemos que responder inúmeras vezes quantos quilômetros já tínhamos caminhado. Fomos convidados a parar em todos os pontos de apoio para pegar água, sanduíches e frutas. Os participantes não tinham muita pressa, apesar dos 42 km que teriam que percorrer até Montefiascone. Foi uma verdadeira festa!
No meio do caminho, um senhor, vestindo uma camiseta verde se destacou dos demais, que vestiam a camiseta oficial na cor laranja. Ao passar por nós, perguntou de onde estávamos vindo e se iríamos até Roma. Dissemos que saímos de Aosta e que, sim, iríamos até Roma. Mas, que estávamos preocupados porque faltava uma semana para chegarmos e o Spedale Della Divina Providenza di S. Giacomo e S. Benedetto Labre, o ostello que recebe caminhantes em Roma, não fazia reservas, e nós ainda não tínhamos pensado em nenhum outro lugar. A nossa chegada era num domingo, dia da celebração do Corpus Christi. A cidade estaria cheia, inclusive os hotéis. Então, ele riu e nos disse, “- vão para o ostello dos peregrinos, e serão muito bem-vindos”. Disse que tudo se resolveria a seu tempo. Achamos estranho. Relaxamos desse assunto que nos preocupava, e seguimos. E não é que quando chegamos a Roma fomos ao ostello e, acreditem, pegamos os dois últimos lugares... Coincidência?!?!?
Nunca tinha visto uma plantação de Nutella... ops, de avelãs...
De Bolsena fomos para Montefiascone, dessa vez, sozinhos. Se Bolsena é famosa pelo seu lago, considerado o maior de origem vulcânica na Europa, Montefiascone é conhecida pelo seu vinho Est! Est! Est!
São muitas as lendas sobre a origem deste nome. Uma delas, diz que um bispo alemão teria gostado tanto do vinho ali fabricado que resolveu ficar na cidade. Quando ele morreu, o seu copeiro, Martino, colocou em sua tumba uma lápide com a inscrição: “Est est est propter nimium est hic Johannes DeFuk dominus meus mortuus est”, ou seja, “por ter demasiado ‘est’ aqui jaz o meu mestre Johannes DeFuk”. Dizem que o bispo deixou uma boa herança para a vila, na condição de que em todos os aniversários de sua morte fosse derrubada uma barrica de vinho em sua tumba. O fato é que, todos que vão a Montefiascone tem que provar o vinho. E assim o fizemos.
No dia seguinte, com o sol nascendo, saímos para Viterbo, passando pela Rocca dei Papi, que é uma fortaleza no topo da colina. Foi uma caminhada tranquila. Viterbo ficou conhecida como a “cidade dos Papas” porque muitos pontífices tinham ali as suas residências de campo. Depois, deixamos Viterbo para trás, com o tempo bem carrancudo, céu escuro e muitos trovões. Passamos pela Catedral, pelo Palácio dos Papas e descemos umas escadarias, entrando na Via Cava etrusca, um cenário estranho e fascinante ao mesmo tempo. Aquilo nos remetia a um passado muito distante. O dia escurecido pela ameaça de chuva deixou tudo muito mais bizarro.
Já em Vetralla, no coração dos territórios etruscos, ficamos num monastério e conhecemos a Raffaella, que fomos encontrando nos dias que se seguiram. Na manhã seguinte, fomos para Sutri. Este foi um dia bom para caminhar. Passamos por um bosque lindo e por plantações de avelãs. Apesar do sol estar muito forte, caminhamos quase todo o tempo na sombra, ao lado de um rio num cenário mágico. Avistamos a cidade, mas, decidimos primeiro passar no sítio arqueológico. Vimos o anfiteatro romano, a necrópole etrusca, com dezenas de túmulos, paredes etruscas e muitas outras evidências do seu passado que remonta à Idade do Bronze. Descansamos em Sutri e chegamos à conclusão de que Roma estava apenas a 45 km.
Roma, cidade eterna...
Estávamos a dois dias de Roma, praticamente, em sua periferia. Pensamos que caminhar por ali seria um tédio, mas não foi. De Sutri a Campagnano de Roma a caminhada foi muito difícil, pelo calor intenso, mas ainda pudemos sentir a natureza. A cidade era agradável. Jantamos com a Raffaella no ostello, espantamos o calor com umas cervejas bem geladas e, no dia seguinte, partimos para La Storta, uma área rural ao redor de Roma. Neste dia, a mochila parecia ter aumentado o peso. Era resultado do cansaço físico dos 42 dias, já caminhados, misturado com a emoção de chegar a Roma.
Ficamos num convento, com uma área bem grande ao ar livre. O clima estava bem agradável. Comemos pizza sentados numa mesa de pic-nic, tomamos vinho e conversamos bastante com a nossa companheira dos últimos dias de caminho, a Raffaella, e com um rapaz de Milão. Estávamos todos bem ansiosos para a chegada. Acordamos cedo e saímos. Queríamos chegar a tempo de assistir a hora do “Angelus”, onde o Papa Francisco daria a benção de Corpus Christi.
Foi um caminho que começou entre carros, mas que, de repente, entramos numa enorme zona de mata, lindíssima e reconfortante. Era um parque imenso. Lá de cima avistamos o Vaticano. Ficamos algum tempo ali, observando e com o coração batendo forte. Nos emocionamos. Estávamos chegando ao nosso destino depois de 43 dias caminhando. Caminhamos muito tempo naquele cenário, sempre descendo. Quando saímos desse bosque, entramos numa longa avenida que daria diretamente no Vaticano.
Uma multidão de pessoas caminhava numa mesma direção. E lá fomos nós também. Na entrada da Praça de São Pedro encontramos muitos guardas e segurança reforçada. Quando dissemos que vínhamos a pé de Aosta, os guardas olharam um para o outro e nos deixaram passar com tudo o que tínhamos, sem revistar nada.
E, finalmente chegamos ao nosso destino, no centro da Praça de São Pedro. Lá nos esperava o Carlo Gattoni, que ganhou o carinhoso apelido de “Strong Man”. Ele chegou uns dias antes de nós e já aproveitava o que Roma tinha a oferecer. Finalmente, vimos o Papa, fomos abençoados, buscamos o nosso Testimonium, que é o comprovante de que fizemos toda a Via Francigena fomos aproveitar para rever a cidade.
Bem, sobre as outras pessoas que encontramos no caminho, o Daniel teve que levar a Lizzy, nossa mascote, para casa. Passando num matagal, ela foi picada por carrapatos e ficou doente. Mas, ela se recuperou e o Daniel voltou, no ano seguinte, para concluir o caminho. A Elisabetta fez uma parte do caminho de trem, chegou antes de nós a Roma e já tinha voltado para a sua casa. A Theresa, infelizmente, não pode concluir o caminho. Quebrou o pé em Siena. Precisou ficar muitos dias se recuperando na cidade. Ela não chegou caminhando a Roma, mas depois foi com um amigo para o Nepal, Myanmar e outros países asiáticos. Em 2024 concluiu o caminho. A Gisela não tinha planos de chegar a Roma, dessa vez. Depois, ela retomou o caminho e até tirou uma foto entregando um presente para o Papa Francisco.
E nós, que ouvimos falar de La Verna, com os amigos de Valpromaro, ficamos nos coçando para continuar caminhando até lá. Mas, depois de muito pensar, resolvemos conhecer os Açores, e descobrimos que também é um ótimo lugar para descansar e caminhar. Então, decidimos que voltaríamos, no próximo ano, para fazer o Caminho de Santo Antônio (de Pádua a La Verna), seguido do Caminho de São Francisco (de La Verna a Assis).
Uma pausa nos Açores...
Pegamos um voo em Lisboa para Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, nos Açores. Não sabíamos muito bem o que encontraríamos, a não ser que era um lugar muito bonito. A Graça, esposa do Gê, nosso amigo brasileiro, nasceu numa das ilhas açorianas e sempre que encontrávamos comentavam sobre as belezas dos Açores. Ainda no aeroporto fomos muito bem recebidos pelo simpático Henrique, um brasileiro que, com a família, decidiu colocar uma suíte da casa deles no Airbnb. Era uma casa muito grande e ficamos muito bem instalados e independentes.
Nos informamos como ir aos lugares mais bonitos da ilha e seguimos para as nossas aventureiras incursões. Primeiro, fomos para Sete Cidades, uma pequena localidade do lado oposto de onde estávamos. A estrada estreita era verde, com pinos, e florida pelas hortênsias. A Lagoa das Sete Cidades é caracterizada pelas cores azul e verde, atravessada por uma ponte de onde se vê as duas tonalidades. Subimos uma montanha e avistamos a paisagem exuberante. Na cratera do vulcão extinto surgiram o lago e a cidade. Vimos também o Lago Santiago, do outro lado da montanha. Descendo, tentamos ir ao túnel, que vai para o mosteiro, mas já era hora de voltar para Ponta Delgada.
No dia seguinte fomos para Vila Franca do Campo. Caminhamos pela vila e subimos até a Ermida Senhora da Paz, de onde tem uma vista e tanto. Vila Franca é um lugar de praia de areias vulcânicas e um Ilhéu com uma cratera que pegando um barquinho é um ótimo lugar para nadar. Outro lugar bem interessante foi Furnas. Subimos até o Pico do Ferro. É uma subida linda, mas bem íngreme, com um visual que compensa o esforço.
De volta ao lugarejo a atração fica por conta do famoso “cozido”, prato típico da região. Mas, este não é um cozido qualquer. É colocado uma panela enorme dentro de uns buracos na terra que chegam à temperatura de 100 graus. Lembrando que essa é uma ilha vulcânica. O momento de retirada desses panelões é uma atração para os visitantes. Cada restaurante desenterra o panelão com o “cozido”. O lugar cheira a enxofre o que, de uma certa forma, contamina o sabor da comida. Não nos apeteceu. Preferimos nos deleitar nas termas Poça de D. Beija, nos banhando nos diversos poços de águas quentes em meio à natureza açoriana.
Ribeira Grande, do outro lado da ilha é bem interessante para conhecer e desfrutar a beleza da Lagoa do Fogo, eleita uma das maravilhas de Portugal. Tem também outras atrações como as Caldeiras da Ribeira Grande, Cascata do Salto do Cabrito, Mata Dr. Fraga e Lagoa de São Brás, Gruta do Carvão e outros Miradouros. Era muita coisa para ver e, infelizmente, não deu tempo de conhecer tudo que gostaríamos.
Seria injusto deixar de mencionar que Ponta Delgada é uma cidade para caminhar e se perder entre as construções antigas e igrejas. Nos fez lembrar a nossa Minas Gerais. Das Portas da Cidade ao Forte São Brás, da Arte urbana ao Mercado da Graça, tudo pode ser visto com muita calma, já que é uma cidade pequena e bem interessante.
Era hora de voltar para o Continente. Pegamos um voo cheio. Tinham duas crianças, sendo uma delas muito irritante. Os avós com essa criancinha irritante ficaram no assento atrás do nosso. Tivemos que ouvir os gritos e sentir os pontapés durante toda a viagem. A irmãzinha, sentada com os pais, do outro lado do corredor, era um doce de criança. Mas, somente quando estávamos próximo ao nosso destino, resolveram trocar as crianças de lugar. Um alívio para nossos ouvidos. Na hora da aterrisagem um susto. Uma ventania muito forte jogava o avião de um lado para outro. A tensão era grande, quando de repente, o menino irritante, numa das balançadas bem forte gritou bem alto: “- olha o buraco”. Todos riram e o menino irritante virou nosso herói A tensão do momento se foi e o avião pousou tranquilamente na pista...