
Via Francigena Nord
(Canterbury) Calais - Aosta
A volta de um sonho...
O nosso sonho interrompido em 2020, pela pandemia, se realizou em março de 2023. Entretanto, os 1.200 km em 60 dias, começando por Canterbury (Inglaterra), precisou ser reduzido em duas etapas. Isso mesmo, na Inglaterra são apenas dois dias...
Depois do Brexit a travessia do Canal da Mancha, para pedestres, em direção a Calais, tornou-se um pouco mais complicada. Nem todos os ferryboats levam pedestres. Era preciso saber os dias e os escassos horários para essa travessia. Ou, como opção, comprar uma bicicleta, o que nos daria direito à travessia, e depois vender ou fazer uma doação do outro lado do canal. Non Sense total, mas era assim que funcionava. Com isso, resolvemos o problema indo diretamente para Paris. De lá pegaríamos um trem até Calais.
Quem viaja o mundo, tem amigos por todo lado. Então, ir para Paris foi uma ótima escolha porque encontramos a Anne, uma amiga francesa muito querida. O único problema era que a França estava um caos. Muitas greves e quebradeira nas ruas, devido as reformas na Previdência, decretadas pelo presidente Emmanuel Macron. Greves, passeatas não somente pacíficas, mas também violentas ocorriam pelas grandes cidades francesas. E foi em meio a todo esse caos que chegamos à “cidade luz”.
Aproveitamos para rever Paris. Ficamos três dias, encontramos a Anne e partimos de trem para Calais, onde começamos a nossa caminhada.
Como não conhecíamos Calais, aproveitamos para caminhar sob um vento gelado que vem do Canal. Providenciamos as nossas “Credenciais” e fizemos os últimos ajustes para partir.
Infelizmente, uma alergia bem forte deixou a Vera um pouco prejudicada. Como sempre estamos prevenidos, tínhamos o antialérgico, mas precisava de uma pomada que somente com uma receita médica local seria possível comprar. A alternativa foi “visitar” um hospital. O pronto atendimento estava lotado, o que demoraria muito tempo para a consulta. Então, resolvemos seguir adiante e tentar conseguir uma pomada que fosse satisfatória na próxima cidade. Graças a uma farmacêutica muito atenciosa, conseguimos uma pomada que aliviou muito as coceiras. E, ali, começava de fato a nossa jornada.
França - Pas de Calais – Somme – Aisne - Marne
Esta é uma região localizada no norte da França, Haute de France ou Altos da França.
Wissant é uma vila turística na costa, próximo a Calais, mas sem muito recurso. Na verdade, é um desvio longo entre Calais e Guînes, onde a caminhada não tem muito atrativo, a não ser a companhia da água e praia o tempo todo. Depois está Licques, que tem um pouco mais de recursos. Ficamos numa cabana, num camping muito bem organizado. Ainda estava bem frio, mas a cabana era muito aconchegante.
Nos primeiros dias de caminhada, mesmo estando preparados, o corpo sentiu um pouco mais. Por isso, dormir e alimentar bem foram duas coisas essenciais.
Continuava muito frio e resolvemos sair mais tarde pra Tourneheim-sur-la- Hem. Foi uma caminhada tranquila e o ponto alto foi a ruína de uma igreja, no alto de um platô, com uma vista super bonita. A cidadezinha não tinha muitos atrativos, a não ser o Café de La Maire, ponto de parada dos caminhantes. Fomos bem recebidos pela Nicole. Ficamos sabendo histórias das pessoas que passaram por ali. No dia seguinte, partimos para Wisques.
Em Wisques ficamos na Abadia Beneditina Notre Dame. Ficar nestas instituições religiosas é sempre muito interessante, não somente pela excelente comida, mas também para conhecer um pouco da vida do lugar, o trabalho das irmãs e seus rituais religiosos, que é o único lugar onde as irmãs enclausuradas são vistas.
Thèrouanne, a próxima cidade, era um pouco maior. Pela primeira vez encontramos um outro caminhante, um italiano. Aproveitamos para turistar. Fomos ao museu e a um sítio arqueológico que conta histórias bem interessantes da cidade. Descansados, partimos debaixo de chuva para Amettes.
Ficamos num pequeno sítio onde os proprietários ofereceram alguns ingredientes para que preparássemos a nossa própria refeição. Era Sexta Feira da Paixão. Fomos visitar a igreja de St. Benoit, que era um santo peregrino. Próximo à igreja, nos surpreendemos com um local que encenava a morte de Cristo. Era um grande espaço ao ar livre com as três cruzes, de Jesus e os dois ladrões, crucificados. Num semicírculo toda a representação da Via Crucis. Por ser Sexta Feira da Paixão, aquela exposição, que era permanente, soou para nós como um bom presságio. Sentimos que fomos agraciados e abençoados, mais uma vez. No outro dia, seguimos confiantes para Bruay-la-Bruissière. As duas cidades seguintes eram pequenas, sem muitas alternativas de hospedagem. Por isso, contamos com os hospedeiros para ajudar-nos.
Para chegar em Bruay-la-Bruissière caminhamos por uma floresta e vimos o que chamam de “terril”, que é o rejeito das minas de carvão que ali existiam. Hoje são montanhas reflorestadas pela polinização dos pássaros. Bruay-la-Bruissière é uma ótima cidade e ficamos hospedados no apartamento da Annie. Fazendo um parêntese, o melhor alojamento de todo esse caminho, era a casa de pessoas, que abrem suas portas para receber os caminhantes. A Annie era uma dessas pessoas. Muito simpática, prestativa e preocupada em nos atender bem. Ela fez um jantar maravilhoso, com direito a um aperitivo delicioso de groselha, vinho, queijos, sopa, ratatouille, massa, torta de maçã. E para completar, no dia seguinte um café da manhã delicioso com um bolo no formato de coelhinho, já que era Páscoa. Ficamos muito bem instalados num quarto que ficava no sótão. Super aconchegante. Ao sair, juntos fizemos uma oração em francês e português, numa capelinha que ficava ao lado do prédio. Mais uma vez, nos sentimos abençoados e partimos para mais um dia de caminhada.
Tinha muita neblina quando saímos, mas depois o tempo abriu e foi uma caminhada longa, mas muito bonita. Subimos o Mont Barafle no Parc d’Olhain, onde tinham muitas famílias passeando, fazendo pic-nic... Chegamos exaustos em Ablain St. Nazaire e erramos a casa. Não vimos muito da cidade, mas fomos reconhecidos por uma ciclista que nos acompanhava pelo Instagram.
Apesar do cansaço, e depois de um reconfortante banho e uma cerveja gelada, o Marc, generosamente, nos levou de carro para conhecer o ponto alto do lugar, a Catedral de Lorette, o Cemitério dos soldados e o monumento com os nomes dos soldados de todas as nacionalidades que ali lutaram e morreram.
A Batalha de Lorette, durante a Primeira Guerra Mundial, durou 12 meses. Morreram 100 mil soldados. Um cemitério com 20 mil sepulturas foi construído e em oito ossários estão os restos mortais de quase 23 mil soldados não identificados. Uma parte do cemitério foi reservada para os soldados muçulmanos.
Era hora de partir para a Arras, a capital de Pas de Calais. Despedimos de Kléa e Marc e fomos até a ruína da Catedral de Ablain St. Nazaire. Seguimos pela rodovia indo em direção ao Mont Saint-Eloi para ver as ruínas de outra Catedral bombardeada durante a guerra. E, seguimos parando em cada cemitério e memorial de soldados tchecos, polacos, franceses, canadenses, ingleses, alemães… ficamos muito impressionados e pensativos sobre a humanidade. Guerras são estúpidas. Muitos soldados mortos mal tinham completado 18 anos. E o pior, as guerras continuam até hoje. Soldados jovens, pais de família continuam a morrer pela estupidez de homens inescrupulosos e com sede de poder.
A Revolução Francesa e as duas Guerras Mundiais destruíram muitos dos edifícios antigos de Arras. A cidade centra-se em duas praças com arcadas e empenas, a Grand Place e a La Place des Héroes (Petite Place). Algumas atrações incluem a Câmara Municipal e seu Campanário, listado como Patrimônio Mundial da UNESCO. Os "Boves", é um labirinto de 10 metros abaixo da cidade. Ainda tem o Teatro e o Hôtel de Guînes, a Abadia de Saint-Vaast e a Catedral. A Cidadela de Vauban e o sítio Nemetacum, que é a antiga cidade fundada pelo Romanos há 2.000 anos, também podem ser visitadas.
Em Arras, fomos diretamente para o Foyer Anne Frank, que é um local de acolhimento de adolescentes em vulnerabilidade, que estudam e/ou trabalham. O Foyer também recebe os caminhantes para estadia de apenas um dia.
Logo na chegada conhecemos a Clémentine, uma adolescente que nos ajudou a nos enquadrar aos costumes do Foyer. Com algumas demandas precisamos pedir para ficar mais um dia hospedados, o que não é corriqueiro entre os caminhantes que ali se hospedam. Foi concedido e foi o suficiente para estreitar a amizade com a Clémentine, o que ainda perdura pelas redes sociais.
Deixando para trás Pas de Calais, entramos no departamento de Somme. Chegamos à cidade de Péronne e depois em Trefcon, já no departamento de Aisne. A caminhada entre Péronne e Trefcon precisa ser mencionada porque teve de tudo. O dia começou ensolarado e terminou com uma tempestade de granizo. Passamos por uma cidade muito estranha, daquelas que dá arrepios e por uma outra linda, onde paramos à beira de um riozinho bem bucólico. Depois percorremos uma estrada barrenta e encontramos um alemão que parecia ter saído de algum livro de estórias. Enfim, chegamos a Trefcon, que tem apenas uma rua, ou a estrada, e ficamos na única hospedagem do local. A entrada era por uma imensa cozinha que tinha cheiro de curtume, porque o proprietário fazia celas para cavalos. O quarto era bom, mas pela manhã vimos que nossas mochilas estavam repletas de formigas. Tivemos que tirar tudo de dentro, mas conseguimos nos ver livres delas virando o quarto um verdadeiro cemitério de formigas. E partimos!
O dia estava bem frio, mas foi uma caminhada agradável até chegar em Seraucourt-le-Grand para uma nova experiência. A hospedagem foi numa “Caravan” (trailler) num camping muito bem cuidado e com banheiros muito limpos. Foi bem aconchegante ver a chuva de dentro da Caravan, tomando nosso vinho e improvisando um jantar. Depois, adormecemos com aquele barulhinho bom de chuva caindo. Foi uma noite reconfortante. Pela manhã acordamos, tomamos um café e partimos para mais um dia de caminhada. Ainda chovia bastante. Por isso, resolvemos mudar de planos. Caminhamos noutra direção, porque vimos que tinha uma estação de trem que nos levaria até Laon. Assim, roubamos no jogo, mas bem pouco. A distância até a estação era longa, mas por uma estrada asfaltada e não por entre a floresta e lama, como seria se fossemos pela trilha original.
Laon é uma cidade maior, com várias construções medievais. A Catedral Notre-Dame é linda, a capela de São Martinho, que já foi usada pelos Templários, era bem interessante e a Citadela tinha muito por descobrir. Gostamos tanto da cidade que resolvemos ficar um dia a mais para conhecer melhor. Tivemos alguns probleminhas na chegada. A água não esquentava e descobrimos que a caldeira estava em pane. Como era sábado o proprietário alegou que não teria como encontrar alguém para arrumar. Depois de muito blá-blá-blá e algumas tentativas de fazer funcionar, em vão, um encanador fez o conserto. Resolvido o problema, era hora de tomar pé da cidade, achar um supermercado, que ficava na parte baixa, e fazer grandes descobertas.
As ruas estavam cheias de surpresas, pinturas em cada beco e esquina da cidade, detalhes que somente com olhos atentos conseguiam enxergar. Tinham uns “bonequinhos” colocados em algum lugar, bem discreto, de fachadas dos prédios e adereços em ferro fundido que pendiam de outras fachadas. Parecia uma “caça ao tesouro”. A cada dessas “surpresas” parávamos para olhar e fotografar. Por outro lado, reencontramos o italiano, único caminhante que havíamos encontrado até então, e resolvemos como continuaríamos o nosso caminho. A próxima parada recomendada não tinha lugar para ficar. Fizemos então, mais um “detour” e caminhamos até St. Thierry, no Marne, já entrando na região de Champagne-Ardenas.
Em St. Thierry tem um Monastério que hospeda quem caminha. A nossa intenção era ficar lá, mas ligamos insistentemente sem que ninguém atendesse ao telefone. Por isso, buscamos hospedagem na casa da Isabelle e Frèderic. Chegando à cidadezinha visitamos o Monastério. Lá entendemos a falta de comunicação. A irmã que estava na recepção tinha uma idade muito avançada. Foi muito simpática, deixou que fizéssemos uma visita aos jardins e a capela. Nessa altura nem precisava dar explicações porque o telefone não foi atendido.
Encontramos o italiano Marco, que conseguiu se hospedar no Monastério. Nós fomos para a casa do casal. A nossa escolha foi muito boa. Aliás, coincidências não existem… Nós fomos os primeiros hóspedes da casa e descobrimos que Isabelle era uma caminhante, também. Jantamos, conversamos muito e depois ficamos sabendo que a nossa visita acendeu nela a “chama peregrina”. Isabelle voltou a caminhar, o que tinha parado por algum tempo. Ainda levamos “sorte” para o casal, que hospedou várias pessoas interessantes depois de nós. Dentre eles, um suíço, que Isabelle comentando sobre a decisão de hospedar caminhantes citou nosso nome. De pronto, o suíço lembrou de nós. Eta mundo pequeno… Isso porque, não são muitos os brasileiros que viajam a pé por aquelas bandas . Ainda falamos com Isabelle, que é grata por termos incentivado o retorno dela às trilhas e por ter trazido “sorte” nas hospedagens.
França - Champagne-Ardenas - Marne
Reims, que pronuncia “Hans”, é a capital não oficial da região de Champagne. É uma cidade grande, movimentada, fugindo um pouco da calmaria que estávamos acostumados até o momento. Apesar disso, foi bom estar ali e desfrutar o que a cidade oferecia. A Catedral Notre-Dame é um espetáculo, a Promenade também é linda e a rua do comércio muito movimentada. Novamente, encontramos o italiano Marco e nos despedimos. Marco tinha a intenção de ir mais rápido e nós não tínhamos muita pressa. Aliás, uma das lições que aprendamos caminhando é que o “caminho” é muito mais interessante do que a chegada. Passamos o ano todo programando e sonhando com a próxima viagem. Por isso, não faz sentido sair em disparada. A idade nos ensinou a ter mais paciência, ir devagar aproveitando cada minuto e cada paisagem.
Dito isso, e já na região de Champagne, dispensa dizer que aproveitamos para degustar algumas marcas conhecidas e não conhecidas. Em Verzy, nosso próximo destino, ficamos hospedados na casa da Odila e Alan Lallement, que são produtores de champagne. Ali tivemos a oportunidade de acompanhar o envasamento, ter uma aula sobre a produção e tomar algumas taças do produto local. Mas, vale a pena contar como foi a nossa chegada em Verzy, antes de seguir adiante.
Saímos de Reims, caminhando pelo canal, com um dia maravilhoso e ensolarado. Encontramos uma francesa que perguntou qual seria o nosso destino. A pergunta fez sentido porque ali cruzam dois caminhos: Via Francigena, que vai a Roma, e o Caminho que vai a Santiago. Ficamos conversando por um tempo e seguimos. Numa certa altura, começou uma chuva fina e fria, contrastando com o clima da saída de Reims. Nos agasalhamos, mas pensamos que a chuva fina passaria logo. Não colocamos as calças impermeáveis para nos proteger. A chuva caiu forte e com pedacinhos de gelo no meio do caminho. Em meio aos vinhedos começou a cair um pouco de neve. Ficamos literalmente encharcados. Ainda assim, vimos as marcações das mais renomadas marcas de champagne, mas não tinha onde esconder. De repente, não estávamos mais sentindo as pernas frias. Pelo contrário, a sensação era de calor e com muito vermelhidão. Estávamos congelando. No meio da plantação, que resolvemos que precisávamos nos aquecer, trocando as roupas por outras secas para continuar caminhando. Uma mistura de roupas molhadas e argila foi para dentro das mochilas, o que deu muito trabalho quando chegamos. Mas, para compensar depois de toda essa saga, passamos por uma floresta muito bonita, o que nos fez esquecer todo o perrengue. Além disso, ainda tivemos a oportunidade de chegar no momento do envase do blend (Tirage) da champagne “Lallement”. Foi lá que aprendemos todo o processo de fabricação.
Depois dessa fase de maturação, a Remuage e o Dégorgement, que são a concentração de borras no gargalo da garrafa e a sua retirada, o processo passa pela adição de licor para finalizar o perfil do champanhe (Dosage) e só então será colocada a rolha, o envólucro da rolha e os rótulos (Bouchage et Muselage – Habillage) que é como compramos. É trabalhoso. Por isso, o preço alto das boas marcas. Mesmo onde são produzidos os valores não são amenizados. É preciso desembolsar altas quantias pelo precioso líquido.
Depois dessa experiência, e com tudo em ordem partimos, logo cedo, para Condé-Sur-Marne. O dia estava lindo. Caminhamos em meio a floresta, plantações de grãos, videiras e terminamos ao lado de um canal com uma paisagem e clima muito agradáveis. Logo, na chegada, o Sr. Denis, proprietário da hospedagem, foi muito simpático e nos brindou com uma cerveja bem gelada e um punhado de aspargos brancos da sua produção. Nesse dia, tivemos mais um jantar delicioso. 😋
O bom de caminhar é a imprevisibilidade. Cada metro do caminho é uma surpresa. Tudo é absolutamente possível e impossível. O dia seguinte foi de muita chuva. Caminhamos ao lado do canal. Uma caminhada totalmente sem graça e monótona. Num certo momento, vimos a tentativa de salvamento de um pequeno cervo que caiu no canal. Dois homens tentavam, desesperadamente, salvá-lo. Não sabemos o desfecho, mas ficamos torcendo para que tenham conseguido tirar o bichinho assustado de dentro da água.
No final, fomos compensados com a chegada em um albergue muito bom em Chalon-en-Champagne. Éramos os donos do prédio. Não tinham hóspedes e nem funcionários. Fomos orientados, por e-mail, como entrar, onde ficaríamos, o que tinha na cozinha. Enfim, era tudo nosso…
Chalon-en-Champagne é a capital da região do Marne. Embora seja uma cidade pequena, é muito simpática. Dentre outras igrejas da cidade, destaca-se a Igreja Notre-Dame-en-Vaux, que foi eleita Patrimônio de Humanidade pela UNESCO. Le Cirque, antigo anfiteatro da cidade (1899), abriga o Centre National des Arts du Cirque (CNAC) e o Camp de Mourmelon, antes conhecido como Camp de Châlons, é um acampamento militar a 22 km ao norte. Foi criado a pedido de Napoleão III para a prática de manobras militares. Atualmente, é usado para manobras militares e treinamento de cavalaria. Apesar da chuva, conseguimos ver e sentir o clima da cidade.
Para La Chaussée-sur-Marne, saímos com um dia de sol, bonito, por um parque que ladeava o rio. Não demorou muito e estávamos no lamaçal, resultado da chuva do dia anterior. No caminho, encontramos manobras militares, muitos tanques de guerra nas pontes ou outros lugares estratégicos. Mas, seguimos nosso caminho até chegarmos à cidadezinha e encontrar a Monique, uma senhora bem simpática e divertida. A filha Stella, que falava inglês, traduziu a maior parte da conversa para Monique. Depois que ela foi embora nos viramos bem com o nosso pouquíssimo francês. Fomos acomodados numa casa muito antiga no estilo da região. Esse era um sítio, que ficava no final da cidade. Monique cuidava de tudo que era produzido na terra. Cuidava também dos animais e ainda recebia os hóspedes com muito bom humor. A cidade não tinha nada de especial, mas foi bem agradável a estadia.
A próxima parada foi Vitry-en-François. Em relação às outras cidades, Vitry-en-François teve sua construção mais recente. Era mais moderna. Foi ali, que em 1961 ocorreu um ataque terrorista a um trem que fazia a ligação entre Estrasburgo e Paris. Embora não fosse nosso objetivo, por força maior, precisamos ficar na cidade por dois dias.
Tudo começou, porque na próxima cidade, que deveríamos ir, não tinha nenhuma hospedagem. O lugar que estávamos não estava disponível para o dia seguinte. Procuramos outras opções, mas no hotel que encontramos pela internet ninguém atendia o telefone. Não achamos nada mais na cidade. Por fim, conseguimos uma hospedagem a três quilômetros fora da cidade. Falamos com a atendente, que nos informou que não teria ninguém na recepção quando chegássemos. Por isso, orientou como fazer o auto check-in.
Depois de caminhar sob um sol escaldante, numa área industrial, chegamos ao hotel. Não conseguimos fazer o check-in. Ligamos para um telefone de emergência, que vimos num quadro de avisos. Só aí descobrimos que a nossa reserva tinha sido feita para Chalon-en-Champagne, cidade que tínhamos passado há 2 dias. Ligamos para o Airbnb, que foi por onde fizemos a reserva. No final, conseguimos o cancelamento, já que esse hotel estava listado, em Vitry-en-François e não por Chalon-en-Champagne, como deveria ser. O Airbnb reconheceu o erro e recebemos o dinheiro de volta. Mas, onde nos hospedaríamos? Resolvemos voltar os três quilômetros até a cidade.
Chegando, deparamos com o hotel que não tínhamos conseguido falar por telefone. Entramos e um senhor, muito solícito, nos atendeu prontamente. O hotel estava bem vazio e ali nos instalamos. No dia seguinte, fomos à oficina de turismo para tentar resolver o problema das próximas hospedagens, mas não conseguimos nenhum lugar onde pudéssemos reservar. Mudamos nosso trajeto e seguimos para Troyes, a capital do departamento de Aubes, ainda na região de Champagne.
Troyes era uma cidade maior, com um centro antigo e construções típicas da região, e uma parte da cidade bem moderna. Estava bem animado, bares cheios e mesas nas calçadas. Aproveitamos, mas não relaxamos, tentando voltar ao nosso caminho original.
Por fim, conseguimos um lugar em Bar-sur Aube. A pessoa que nos atendeu na “Oficina de Turismo” da cidade, disse-nos que teríamos uma acomodação numa pousada para caminhantes. Passou o endereço e disse que alguém nos encontraria na porta. Esperamos, mas ninguém apareceu. Uma mulher, a Josidette, passou de carro pela rua e nos viu na porta. Minutos depois voltou. Dissemos que uma pessoa, que não sabíamos quem, nos encontraria. Não era ela essa pessoa, mas resolveu o problema. Buscou a chave e nos acomodou num prédio totalmente vazio. Era limpo e tinha infraestrutura boa para receber quem caminhava. Relaxamos, e fomos conhecer a cidadezinha. Já estávamos de volta ao caminho original e no dia seguinte fomos para Cirfontaine-en-Azois.
O caminho foi muito longo. Primeiro, chegamos a Clarivaux Abbey, depois de muita subida e descida. O edifício original, fundado em 1115 por Bernardo de Claraval, está hoje em ruínas. A estrutura atual data de 1708. No terreno está a “Prisão de Clairvaux”, de segurança máxima.
Encontramos um casal da Bélgica, que fazia o caminho de bike. Depois de uma conversa rápida seguimos em frente. Atravessamos um pântano bem sinistro. Sabe aquela sensação de que alguém te observa de longe? Pois foi assim que sentimos ao atravessar o pântano escuro e de difícil acesso. Paramos diante de um pequeno lago, com uma formação de pedras em círculo dentro da água, e ficamos imaginando quem teria feito aquilo. E o buraco no meio das pedras, coberto por uma lâmina d’água daria onde? Sem respostas, e um tanto desconfortáveis, saímos daquele lugar bizarro.
Bem mais a frente, com uma vista fantástica, chegamos a Cirfontaine-en-Azois. Paramos em frente o endereço, e quando batemos à porta um casal muito simpático nos atendeu. Era uma casa grande, muito bem cuidada, e uma suíte muito confortável. À mesa de jantar estavam o casal, o filho e a nora. Os mais jovens falavam inglês e traduziam para os pais. Serviram um lanche, cerveja e conversamos sobre o nosso caminho e a nossa vida no Brasil. Mais tarde jantamos e dormimos o sono dos justos, depois da desgastante caminhada do dia.
Depois de um farto café da manhã, seguimos numa caminhada fácil para Blessonville, uma comunidade minúscula, mas com mais uma acolhida muito aconchegante. Ficamos num abrigo para caminhantes. Sem ninguém, o espaço era todo nosso. Aliás, esse foi um caminho muito solitário. Não encontramos ninguém, a não ser o italiano que, naquela altura estava muito a frente. O abrigo era equipado com tudo que precisávamos. Tinha um quarto espaçoso, máquina de lavar roupas, uma cozinha muito boa e todos os ingredientes para o jantar e café da manhã.
Dali para frente, tivemos que fazer mais um desvio, pela falta de hospedagem. Resolvemos ir até Chaumont. Assim, depois de uma foto com Frabrice, nosso anfitrião, paramos em Bricon e seguimos para Chaumont.
Como a cidade era maior, resolvemos descansar um dia a mais. Seria necessário fazer um reparo nos tênis. Um deles estava abrindo o bico, literalmente. Compramos uma super cola e aproveitamos para descansar e conhecer a cidade ensolarada. Corinne, que nos recebeu muito bem em sua casa, indicou todos os pontos interessantes para visitar.
Depois de Chaumont fomos para Marac, num caminho sem muitos atrativos. Chegamos cedo e ficamos esperando Elisabeth, nossa hospedeira naquele dia. Ela chegou e convidou-nos a entrar. Nunca tínhamos visto tantas coisas espalhadas para todo lado. A casa datava de 1800. Era enorme e construção típica da região montanhosa. Era tão grande e tão confusa que chegamos a nos perder. O quarto que ficamos tinha duas camas de casal. Uma delas era tão alta que precisava de uma escadinha para subir. Ao lado da nossa cama vimos um palhaço, que mais parecia amigo do “Chuck”, o boneco assassino. Tinha uma porta que, por curiosidade, resolvemos espiar. Era um sótão com tanta coisa que fechamos mais rápido do que abrimos.
Elisabeth era muito solícita e levou-nos para conhecer uma construção, que parecia uma torre. Era o Colombier, um lugar muito antigo que abrigava pombos. À noite, jantamos e tomamos um vinho. O rótulo do vinho era tão velho que ficou a dúvida se tratava de um vinho envelhecido ou se a garrafa estaria sendo reaproveitada. E, surpreendentemente, era um bom vinho.
Às vezes, julgamos mal os lugares. Apesar do susto inicial, foi ótimo. Elisabeth ensinou vários atalhos para chegar a Langres e ainda nos ajudou com as próximas hospedagens. Assim, a caminhada para Langres foi bem agradável, graças às dicas. Entrando na cidade uma chuva gelada despencou. Entramos num bar, tomamos uma cerveja, conversamos com as pessoas que lá estavam. Depois nos encontramos com os nossos anfitriões Catherine e Thierry.
Em Langres, caminhamos os 3 km de muralha da cidade, com uma dúzia de torres e sete portões. Visitamos a catedral de Saint-Mammès, que foi construída no final do século XII dedicada a Mammes de Cesaréia, um mártir do século III. A cidade também era a casa de Denis Diderot, o filósofo iluminista. E o melhor, era produtora de um queijo do mesmo nome da cidade e protegido por AOC. Nossa anfitriã era uma “fromager”, ou sommelier de queijos. Catherine nos fez degustar o queijo local e outros, vinhos e licores da região. E, conhecemos uma cava em sua casa, que mantinha a temperatura constante de 10 graus. Era uma verdadeira despensa de todo tipo de alimentos e bebidas, que conservavam como se estivessem num refrigerador.
De Langres, fomos para Torcenay, uma vila muito pequena. Ficamos hospedados na casa da Sylvie e Jean Louis. Era uma casa enorme, linda, com um jardim de filme hollywoodiano. E, de novo, tivemos que fazer mais um “detour”, pela falta de hospedagem no nosso caminho original. Fomos para Dijon, já na Borgonha...
França - Borgonha…
Dijon, não estava nos planos, mas como estava perto não seria nada mal fugir até lá para conhecer a cidade. Foi uma surpresa boa, porque apesar de grande, era uma cidade animada, bonita e ótimos restaurantes e bares. Aliás, é impossível deixar de ir ao Marché des Halles e a Cité Internationale de la Gastronomie & du vin.
Deixando Dijon para trás, era hora de conhecer Besançon, a cidade dos nossos sonhos, nesta caminhada. Explicando melhor, desde que resolvemos caminhar a Via Francigena Nord e vimos que passaríamos por Besançon, ficamos ansiosos para entrar na cidade, que foi o palco da Resistência Francesa numa série, “Aldeia Francesa”, que se passava na época da ocupação alemã na França. A Resistência foi um movimento de não aceitação de rendição frente ao nazismo. E, finalmente, estaríamos lá, no centro histórico, onde tudo teria acontecido.
Ao entrar na cidade, ao mesmo tempo que sentíamos aquela excitação de realizar um sonho, ficamos decepcionados. A cidade que vimos na série era uma vila pequena e Besançon de hoje é uma cidade grande com muitos atrativos. Depois do primeiro impacto, partimos para conhecê-la melhor. Percebemos que a cidade, apesar de grande, não tinha o que decepcionar. A Catedral, a Citadela, o Museu da Resistência e Deportação, a casa de Vitor Hugo… Enfim, valeu a pena ficar dois dias antes de seguir para Ornans, uma cidade pequena, mas que tinha o seu charme.
Em Ornans ficamos com um casal bem peculiar. Laurent, era francês e Karina era sueca, mas que vivia na França já por muito tempo. Selma, era uma cadela enorme que pulava sem parar. Não era da casa, mas estava “hospedada” na casa, enquanto a sua tutora trabalhava. O espaço era grande. Na verdade, era um sítio com um riozinho ao fundo. Ficamos num quarto separado da casa. O banheiro era um estilo “banheiro verde”, ou seja, daqueles fora de casa, que não usa água, mas sim serragem. O chuveiro, igualmente, era fora e frio, mas como o clima não estava quente usamos o banheiro de dentro da casa.
O casal era divertido e o Laurent bem curioso em relação ao Brasil. Queria saber opções de viagem, Selva Amazônica, praias mais inóspitas. Tomamos umas cervejas, vinho na hora do jantar. Comemos os tradicionais queijos e, de sobremesa, uma torta de maçã recheada de formigas. Isso mesmo, as formigas gostaram da torta tanto quanto nós. Foi uma situação engraçada, mas Laurent não ficou desconsertado, serviu a torta com formiga mesmo. A luta foi afastá-las para comer a torta.
No dia seguinte, depois do café da manhã, fomos para Mothier Haut Pierre, numa caminhada deliciosa, que começou ao lado do rio, passando por florestas e vilas, num visual muito bonito. Depois, descansados, seguimos para Ouhans.
Resolvemos começar a caminhada um pouco mais tarde, porque a cidadezinha não era muito distante. Na saída, ficamos sem saber que caminho seguir. A sinalização e as informações estavam desencontradas. Por causa de uma pedra que rolou montanha abaixo, e interrompeu o caminho original, foi sugerido seguir um outro caminho. No entanto, alguns moradores diziam que era possível passar pelo caminho original e outros diziam que o caminho estava interrompido. Por isso, resolvemos seguir o nosso instinto e numa subida interminável chegamos ao topo da montanha, onde curtimos uma vista maravilhosa. A surpresa foi encontrar uma capela esculpida na rocha, mágica. Mais a frente encontramos o caminho original e o seguimos.
Chegamos em Pontarlier, cidade mencionada em Les Misérables, de Victor Hugo. Foi nessa cidade que o condenado Jean Valjean se apresentou para obter liberdade condicional, após ser libertado das galeras. Foi um caminho duro e com muita chuva forte na chegada. Paramos num shopping para esperar, por duas horas, o temporal passar. Foi tempo mais que suficiente para secar as roupas, comer um lanche e entrar na cidade sob uma chuva fina que só parou no dia seguinte.
Pontalier é uma cidade maior e já bem próxima da fronteira com a Suiça. Mas ainda tínhamos uma outra parada antes de mudar de país, Les Hôpitaux Neufes. Foi um dia muito bom para caminhar, com paisagens exuberantes, já sinalizando a proximidade da Suiça. Um pequeno contratempo não tirou o nosso bom humor.
Reservamos, pelo Airbnb, um quarto na casa da Valerie, que não estava quando chegamos. Esperamos muito tempo até que conseguimos falar com ela por telefone. Depois disso, ela chegou em casa e ainda teve que arrumar o quarto onde ficaríamos. Ficamos um pouco desapontados e saímos para ir a um supermercado. Na volta já estava tudo em ordem. Chegou mais um casal com quem jantamos e tivemos uma boa conversa.
Era hora de ir para a Suiça…
Tínhamos muita expectativa com a nossa chegada à Suíça. Marcamos encontro com dois amigos de caminhada, o Carlo Gattoni, que mora perto de Montreaux, e o Daniel que vive aos pés do misterioso Gran San Bernardo, na fronteira com a Itália. Assim, numa caminhada muito longa, com florestas, cruzando a fronteira da Suiça, descendo até o Gorge d’Orbe, ou a garganta do rio Orbe, caminhando muito tempo lado a lado com o rio, saindo numa estrada de asfalto e retornando, mais uma vez, à floresta, finalmente chegamos a Orbe.
Orbe era uma cidade pequena, com alguns poucos atrativos, e com uma fábrica de café Nespresso, que os moradores se orgulham. Resolvemos pegar um trenzinho bem antigo para ir a Charvonay e lá decidimos que não iríamos para Lausanne, mas sim para Montreaux diretamente.
Lausanne era grande demais e Montreaux, apesar de não ser pequena, era um lugar bem mais interessante. Chegamos, meio perdidos, entre o mar e a colina. Olhamos a localização do nosso endereço, mas estava muito confuso. Pedimos ajuda a uma argentina. Ela ofereceu uma carona. Aceitamos. Era caminho dela e muito gentil nos poupou toda aquela subida com mochila nas costas.
Depois que a moça argentina se foi, nos demos conta de que não tínhamos o número do apartamento, mas só o telefone. O nosso chip de telefone era da França, e que serve para toda a Europa menos na Suíça. Ficamos na porta do prédio tentando adivinhar qual seria o apartamento, quando uma ciclista passou. Pedimos para ela ligar para os anfitriões e funcionou bem. Fomos recebidos pelo casal que nos hospedaria.
Ficamos mais um dia em Montreux para conhecer a cidade. Caminhamos de um lado ao outro na Promenade, fomos conhecer o Castelo de Chillon, o Mercado Coberto, passamos por Vevey. Infelizmente, não vimos o Queen Studio Experience, que é um museu dedicado à banda. Isso porque, no dia em que o nosso amigo Carlo Gattoni foi ao nosso encontro, seria o dia que tomaríamos um drink no Cassino em companhia do Stėve, nosso anfitrião, que ali trabalhava como croupier. Aproveitaríamos para conhecer o museu, mas não deu certo. Ficou um bom motivo para voltamos.
A propósito, o casal Stève e Olga, donos do apartamento eram super simpático. Fomos os primeiros hóspedes e demos várias dicas, já que tínhamos experiência de 4 anos em aluguéis de apartamentos no Airbnb. Os dois se conheceram trabalhando em navio. Ambos no Cassino. Ele francês, teve licença para trabalhar no Cassino de Montreaux e Olga, ucraniana, aguardava a licença para também trabalhar como croupier.
Carlo Gattoni é uma pessoa fantástica. Caminhante e escalador tem vigor de um jovem, embora já tenha cruzado a casa dos setenta. Mora em Bulle, na região de Gruyère, e como diz, as montanhas são “o seu quintal”. Com ele, fomos até a casa de Françoise, sua amiga, depois seguimos à cidade de Gruyère para visitar o castelo. Vimos a apresentação de um grupo de tocadores do Le cor des Alpes, um instrumento com um som fantástico. Inicialmente, era utilizado para se comunicar à distância nas montanhas.
Tentamos subir de teleférico até uma estação de ski, mas pelo horário não foi possível. Nem precisou, a beleza estava por todo lugar por onde passávamos. À noite, Carlo Gattoni ofereceu um autêntico jantar suíço regional, o fondue de queijo Gruyère.
No dia seguinte, fomos à Gorges Jougne, passando por uma floresta mágica. Depois, seguimos para a Maison Cailler, a fábrica de chocolate que originou a Nestlé. O ponto alto do dia foi o Chalet du Soldat, que fica numa montanha com um visual espetacular.
Depois da subida e paisagem exuberante pelo caminho, seguido da explicação de todos os picos que Carlo e o filho escalaram, chegamos ao chalé. La estavam o Nicholas, um senhor muito simpático e a sua esposa. Quando soube que éramos brasileiros cantou “A Banda” de Chico Buarque, num português claríssimo, sem saber falar o idioma. A pedido do nosso amigo Carlo, tocou o Le cor des Alpes, em meio as montanhas. A música e o som que se espalhava pelas montanhas nos deixou muito emocionados. Foi um momento para guardar para sempre na memória. Descemos as montanhas em estado de graça e sem palavras para descrever aquele momento e tudo que Carlo Gattoni nos proporcionou na “sua Gruyère”, como ele mesmo diz. Depois de tudo isso, ele nos levou até Aigles, de onde seguiríamos nosso caminho em direção ao Gran San Bernardo.
Em Aigles, Yolande e Phillipe, nos receberam muito bem em seu lindo apartamento, com uma boa cerveja, um jantar maravilhoso, regado a um bom vinho e uma conversa que durou até bem tarde da noite.
Era hora de partir para St Maurice e depois Martigny, onde tínhamos mais um aniversário da Vera a comemorar. Foi o primeiro dia de muito calor, muita subida e uma errada, mas que resultou num caminho mais curto, apesar de nenhuma sombra. Em compensação, no dia seguinte resolvemos fazer o “nosso caminho”. Foi entre a floresta, o rio Rhône, as lindas paisagens e muita emoção e agradecimento pelas bençãos daquele dia especial. Martigny foi outro presente. Uma cidade bonita, acolhedora, animada, mas simples, do jeitinho que gostaríamos de comemorar um aniversário.
Martigny fica num entroncamento de estradas que ligam Itália, França e Suíça. Uma estrada segue para o Passo de Forclaz a Chamonix (França) e o outro através do Gran San Bernardo a Aosta (Itália), que era nosso destino. No inverno, a região de Valais destaca-se por suas inúmeras estações de esqui nos Alpes, como a Verbier. Estávamos com sorte, porque era dia de feira de rua, com degustações de pizza, vinho e a raclette, originária desse cantão. Uma curiosidade é que a origem da raclette data de mais setecentos anos, quando os camponeses que viviam nessa região, tinham o hábito de se reunirem em volta de fogueiras para se manter aquecidos e preparar essa comida.
Para Orsières foi um caminho duro, mas bonito. Aliás, o que se espera caminhando na Suiça são as subidas, descidas e vistas lindas. Estávamos ansiosos com a proximidade do Gran San Bernardo e com mais um encontro, desta vez com Daniel, outro amigo de caminhada. A vila de Orsière era bem pequena. Nada de muito interessante, a não ser a paisagem. A hospedagem foi muito boa e a recuperação do dia anterior foi excelente. Levantamos cedo e saímos em direção a Dranse, cidade que ficaríamos hospedados com o Daniel e sua esposa Stephanie.
A caminhada também foi boa, com paradas ao lado do rio “Dranse de Entremont”. Precisamos fazer uma “escalaminhada” até atingir o topo de uma margem, que ficava muito acima de onde o rio corria, e que seria o nosso caminho natural. Apesar do peso das mochilas conseguimos subir sem problemas e mais um pouco de caminhada chegamos a Dranse.
Logo que avistamos a casa do Daniel o vimos na porta. Ao lado estava Lizzy, uma Golden Retriever que fez parte do caminho Via Francigena em 2018, portanto, há 5 anos. Assim que chamamos por ela, veio correndo e pulando feito louca. Incrivelmente, tinha nos reconhecido. Ficamos emocionados! Foi uma tarde deliciosa, com muita conversa com o casal, o filho e a namorada.
A casa ficava num vale indescritível. Verde por todos os lados. Na parte de cima da montanha estava Liddes, uma vila onde tinha uma pequena infraestrutura. Fomos até lá para conhecer e comprar alguns poucos alimentos. Dali seguiríamos, no dia seguinte, até Bourg St. Pierre, que fica no sopé do Gran San Bernardo. Como de carro tudo fica perto, a noite o Daniel e Stefanie nos convidaram para jantar num restaurante justamente em Bourg St Pierre. Pudemos ver um pouco do que nos esperava no dia seguinte. Pernoitaríamos na vila, antes de subirmos a montanha e cruzar a fronteira mais famosa desse caminho.
Daniel e Stefanie resolveram seguiram conosco até Bourg St Pierre. Buscaram as duas mulas e levaram também os dois cães, Lizzy e Valy. Como esse último era muito novo, não tinha limites. Sorrateiramente comeu o pão que compramos para levar. Foi muito engraçado. Durante o café da manhã, Valy subiu as escadas para o quarto que dormimos e comeu todo o pão que estava em cima da mochila. Deixou apenas a embalagem plástica.
Nesse dia, a caminhada foi muito divertida e animada. A Lizzy era muito bem comportada e sabia o caminho. Já o Valy sumia, corria atrás das marmotas e depois voltava com jeito de quem tinha aprontado alguma coisa. As mulas carregavam nossas mochilas. E assim chegamos a uma hospedagem interessante. Encontramos um francês, que fazia o caminho ao contrário, e o Tommy, um alemão que depois seguiu conosco. Daniel, Stefanie, as mulas e os cães voltaram para casa. No dia seguinte, encontrariam conosco, novamente, para subirmos o Gran San Bernardo.
Finalmente, o Gran San Bernardo…
Este foi um dia muito esperado. Esta é uma passagem entre a Suiça e a Itália que traz muita apreensão para quem pretende cruzar. Nem sempre é possível, pelas situações climáticas. Enquanto estávamos nos aproximando dessa etapa, a notícia era de que a passagem ainda estava fechada. O “Giro d’Italia”, conhecida competição de ciclismo, que passaria por ali, tinha mudado o seu percurso pela insegurança e riscos de avalanches. Ficamos na expectativa de como seria a travessia. Mas, Daniel e Stefanie tinham muita experiência na região e decidiram cruzar conosco.
Bem cedo, o casal de amigos chegou trazendo as mulas e os dois cães. As mochilas foram colocadas nas mulas. Combinamos um lugar para encontrarmos no meio do caminho. E eles partiram.
Nós fomos nos abastecer de água. Na fonte encontramos Tommy, o alemão, Darren e Jolene, um casal de americanos, Sthéphane, um suíço e Rijk, um holandês. Subimos todos juntos, com ansiedade e expectativa do que viria pela frente. No local combinado o Daniel e a Stefanie nos encontraram. E, a partir dali, foram os nossos guias.
Parte do caminho foi feito por trilha e parte por estrada, que ainda estava fechada para os carros. Os perigos do caminho eram a neve dura que derretia e o gelo das encostas que caía em avalanche. Com toda cautela seguimos vendo a imponência das montanhas nevadas, o gelo que derretia formando rios e a nossa pequinês diante daquele cenário inóspito. Depois de uma longa caminhada, chegamos na parte mais íngreme e estreita, com neve e gelo por todo lado.
Era inacreditável que estávamos ali realizando mais esse sonho. E, chegamos ao abrigo à tarde, com tempo frio e uma fina chuva começando a cair. Daniel e Stefanie, fizeram o caminho de volta sob a chuva fria e nós entramos para nos aquecer. Este abrigo é a única alternativa por ali. Fica na passagem e fronteira dos dois países e como o próprio nome diz, é a “casa” dos cães com o mesmo nome, São Bernardo. Porém, em época fria, até os cães são retirados da montanha, só voltando com o clima mais ameno. E, foi a nossa frustração, chegamos antes do retorno deles.
Estávamos muito emocionados. Depois que a chuva parou resolvemos caminhar um pouco mais e ver aquela montanha que tanto fascínio causa aos caminhantes. O silêncio, a calma, o lago congelado, a neve, o gelo derretendo, o branco, tudo isso nos deixou em estado de êxtase. Depois, convencidos de que, realmente, tínhamos conseguido subir até ali nos juntamos aos outros caminhantes para um jantar, com muita conversa, vinho e troca de experiências. Foi uma noite para não esquecer.
No dia seguinte cedo, partimos para cruzar a fronteira, que ficava a pouco metros do abrigo. Mas isso foi depois da benção dos caminhantes/peregrinos.
Enfim, chegamos à Itália. Era hora de descer o outro lado da montanha, num cenário maravilhoso. No início estávamos em grupo, mas com o tempo fomos nos distanciando. Queríamos curtir aquele momento único. Não era preciso correr, mas sim aproveitar passo a passo tudo aquilo que estávamos vivenciando.
Já embaixo o cenário não era muito diferente. Saint Rèmy-en-Basses era daqueles lugares que moraríamos para sempre. Um dos moradores veio cumprimentar. Ficamos apreciando a vista das montanhas. É uma beleza difícil de descrever.
Caminhamos por florestas, ao lado de rios de degelos, que corria com todo vigor até chegar em Etroubles, no Vale d’Aosta. Lá dormimos numa cabana, num camping bem sugestivo. Etroubles foi uma das vilas por onde passou Napoleão Bonaparte, em março de 1800, em direção a Marengo, onde obrigou os austríacos a aceitarem a derrota e retirarem-se do norte da Itália.
Mais uma vez, caminhamos com os nossos novos amigos parte da trilha em meio a floresta e ao lado de um canal. Depois, cada um seguiu no seu ritmo. Paramos numa pequena cidade para descansar, tomar um café e nos despedimos. A partir dali cada um seguiria o seu caminho.
Finalmente, com muita emoção avistamos a placa que sinalizava a nossa chegada: AOSTA. Como sempre, foi um misto de alívio e de tristeza por acabar o caminho. Como já passamos por essa sensação diversas vezes, resolvemos reconsiderar o sentimento e apenas curtir aquele momento. Afinal, nossa viagem não terminaria ali. Tínhamos planos de reencontrar a Luiza, que conhecemos caminhando na Sicília, e descansar por alguns dias em Cinque Terre…
Cinque Terre…
Depois de um descanso de três dias em Aosta, revendo o lugar, reencontrando a Luiza e aproveitando a cidade, que é incrível, partimos para mais uma aventura. Desta vez, de trem. Aventura porque a distância e o troca-troca de trens, tomou quase um dia inteiro. Chegamos em La Spezia, cidade que ficaríamos, com um trem abarrotado de gente que entrou no meio do caminho e “supitou”, como dizem em Minas Gerais, em Monterosso al Mare.
Explicando melhor, Cinque Terre fica na costa da Riviera Ligure. Está situada entre Punta Mesco, próximo a Levanto, e o cabo de Montenero, próximo a Portovenere. Compreende as comunidades de Monterosso al Mare, Vernazza, Riomaggiore, Corniglia e Manarola, daí o nome de Cinque Terre, ou Cinco Terras.
La Spezia, é a segunda maior cidade da Liguria, depois de Genova. Fica próxima das Cinco Terras mais visitadas da região. Escolhemos esse lugar estratégico por ser mais calmo e mais barato do que hospedar em hotéis, pousadas ou Airbnb das cidades mais badaladas e procuradas. Na verdade, fomos além, ficamos em La Spezia Migliarina, que era uma localidade ainda mais tranquila e com fácil acesso de trem ou caminhando. O Airbnb era muito aconchegante, com um jardim delicioso para um happy hour.
O nosso anfitrião foi quem nos explicou toda a dinâmica do lugar. Era melhor comprar uma espécie de passaporte de trem para visitar as comunidades. Ainda tínhamos a opção de ir de barco ou a pé pelas montanhas. Resolvemos comprar o tal do passaporte, mesmo porque para ir a pé pelas montanhas era preciso mostrar o tal “pass”.
Saímos bem cedo para tentar evitar a multidão. A ida foi bem tranquila. Achamos melhor ir para Monterosso al Mare, a comunidade mais distante em primeiro lugar. Depois seguimos para Vernassa. Lá, a "turistada" já tinha tomado conta da pequena cidade. Depois de conhecer, resolvemos ir a pé para Corniglia. Não precisa dizer que o visual era lindo e que vale muito a caminhada, mas o caminho também estava cheio de turistas. Era preciso desviar das pessoas o tempo todo.
E assim, seguimos pelas Cinco Terras, curtindo a natureza, desviando de turistas e pedindo licença para fazer algumas fotos. Foi bem cansativo, mas valeu a pena pela beleza do lugar. Muitas pessoas repetem o percurso ou visitam uma a uma, mas nós que caminhamos por trilhas desertas e cidades pequenas, ficamos um pouco desconfortáveis com a quantidade de pessoas.
Resolvemos ir até Sarzana, uma das cidades por onde passamos quando fomos de Aosta a Roma. Refizemos um trecho do caminho, andamos em outros espaços menos cheios de turistas. Fomos a Portovenere e caminhamos por La Spezia, conhecendo a sua história, visitando o túnel construído para abrigar a população na Segunda Guerra Mundial e outros locais. Tudo isso em horários alternativos, enquanto os turistas se esmagavam no trem para conhecerem as Cinco Terras .
Era hora de partir. Fomos para Lisboa, onde tudo tinha começado. Chegamos em meio a festa de Santo Antônio. Ficamos bem no centro de todos os festejos. Aproveitamos a festa, reencontramos amigos e depois de alguns dias era hora de voltar para casa e começar a pensar na caminhada do próximo ano.