
Via Francigena de Sicilia
Magna Vie Francigena: Palermo - Agrigento
Vie Francigena per le Montagne: Palermo – Messina
Quebrando o jejum de 3 anos...
Em 2020, preparamos uma caminhada pela Via Francigena Nord. Seriam 1.200 km em 60 dias, começando por Canterbury (Inglaterra), atravessando pelo Ferry Boat para Calais (França), cruzando parte da Suíça até atravessar o Gran San Bernardo, chegando em Aosta (Itália), que foi de onde partimos em 2018 em direção a Roma. De repente, fomos surpreendidos pela pandemia e tivemos que cancelar tudo em 10 dias. Diante de todo o caos que assolou o mundo recebemos um voucher da companhia aérea com uma validade de 2 anos, ou seja, até junho de 2022.
Foi um longo e triste período de jejum de encontros com familiares, amigos e de caminhadas. Presenciamos as mortes e as controvérsias do nosso país e tantas coisas que preferimos não relatar, por já ser de conhecimento de todos. Na verdade, para nós foram 3 longos anos, porque a última caminhada tinha sido em 2019. A Francigena Nord foi um sonho não realizado, até então.
Em abril de 2022, vimos que o nosso voucher venceria em breve. Por isso, a toque de caixa resolvemos viajar. Pesquisamos as condições sanitárias nos países que passaríamos e cada país tinha uma regra diferente. Com isso, desistimos, mais uma vez, da Via Francigena Nord. Buscamos alternativas daqui e dali e resolvemos ficar num só país, onde as regras haviam se afrouxado um pouco mais. E, dentro do país, procuramos um lugar “supostamente” mais tranquilo para caminhar. Escolhemos a Sicília, por ser uma ilha, presumivelmente com maior controle.
O caminho seria mais curto do que habitualmente, mas estávamos felizes de poder caminhar de norte a sul da ilha e pelas montanhas, conhecendo o povo, apreciando as paisagens e as praias da ilha. E fomos para Catânia, a segunda maior cidade da Sicília, no lado leste da ilha. E foi uma boa surpresa para nós, que não sabíamos nada sobre ela.
Chegamos tarde da noite ao aeroporto. Tomamos o último ônibus para o centro da cidade. Descemos num lugar ermo e caminhamos por entre casarios antiquíssimos, ruas estreitas e becos, até chegarmos numa grande praça com turistas nas ruas e nos restaurantes. Mais alguns poucos quarteirões e chegamos num lugar onde tínhamos reservado pelo Airbnb.
Fomos recebidos por uma família simpaticíssima, o Giacomo, a Dalila e o filhinho Santiago. Foi uma recepção calorosa, já quase meia noite, num lugar incrível com tudo que precisávamos. Foi um descanso merecido de uma viagem longa e cansativa.
No dia seguinte, quando acordamos, olhamos pela janela e vimos todos os carros empoeirados. Achamos que eram carros abandonados. Depois soubemos que era poeira do vulcão Etna que, de tão perto, deu origem ao nome da principal rua de cidade, Via Etnea, de onde podemos observar a sua imponência.
Ficamos na cidade dois dias, antes de partir para Palermo, no norte da ilha, onde seria o início do primeiro caminho rumo ao sul.
Catânia não é muito grande e o centro histórico era onde estávamos hospedados. Encontramos o Gino, um simpático siciliano, que nos entregou as “Credenciais” do caminho e deu algumas dicas da cidade. A credencial, é uma espécie de passaporte dos caminhantes, que abrem portas e descontos nos locais de acolhimentos, além de ser o que nos avaliza como pessoas confiáveis.
Fomos conhecer a Piazza Duomo e a Catedral. Depois seguimos para a Pescheria. Esse não era somente um mercado de peixes, mas é também onde encontram-se os melhores produtos da terra, que são adquiridos por pessoas locais, turistas e por donos dos restaurantes em toda a vizinhança. A Via Etnea é onde estão as lojas da moda. Conhecemos a Piazza dell’Universita, o jardim da Villa Bellini, a Via Crociferi, algumas das muitas igrejas da cidade, o Teatro Romano e a Porta Garibaldi. Enfim, passamos o dia caminhando e nos deliciando com o famoso Cannoli e Limoncello, próprios da região de Catânia.
Por um tempo a cidade deixou saudades, mas voltaríamos ao final da nossa estadia na Sicília, retomando os contatos, as caminhadas pelas ruas e praias da cidade. Era ideia visitar o Vulcão Etna, mas não foi possível por ele estar em atividades e a visitação estava vedada...
Começando pela Magna Vie Francigena: de Palermo a Agrigento – 1º Caminho
Fomos de trem para Palermo, que é a capital da Sicília. A sua população é, praticamente, o dobro de Catânia. Apesar de ser uma cidade grande, não foi difícil nos localizar nos pontos de interesse. Ficamos dois dias, sem muita pressa porque, depois de Agrigento, que era o nosso destino final desse caminho, voltaríamos para Palermo antes de começar o segundo caminho. A surpresa desta vez, ficou por conta do nosso anfitrião que cantou o Hino do Brasil inteiro. Ficamos de boca aberta ouvindo... Sem entender, perguntamos como ele sabia. Ele disse que era professor de História, mas não explicou o interesse pelo hino.
Domingo foi um ótimo dia para conhecer o Mercado Ballaró, que atrai muita gente em busca dos produtos locais e turistas. A Catedral de Palermo é imperdível. Passamos o dia caminhando. Fomos até a Marina, a “Quatro Canti”, que fica numa das esquinas da badalada rua Vittorio Emanuelle. Vimos o Palácio dos Normandos, entramos e saímos de becos e ruas.
Iniciamos o nosso caminho no dia 09 de maio de 2023. Naquele dia, caminhamos 25 km até Santa Christina Gela. O tempo não era dos melhores. Começou a garoar, enquanto chegamos em Monreale, no Monte Caputo. Vimos todo o vale e a cidade sob neblina.
Monreale é uma cidade pequena e bonitinha. A catedral é um espetáculo. Quando passamos em frente vimos a porta aberta e entramos. Um senhor, que estava fazendo a limpeza, disse que não estava aberta à visitação, mas como já estávamos dentro tivemos a oportunidade de ver a riqueza do seu interior. Os mosaicos ilustram os três livros da Bíblia, o Gênesis, os Evangelhos e o Apocalipse. Não foi possível ver o claustro, mas valeu pela beleza e a paz de um lugar lindo e só para nós.
Seguimos caminhando, e num certo momento fomos abordados, no meio do nada, por dois homens que estavam num carro. Eles disseram que estavam fazendo uma filmagem sobre “caminhantes” e perguntaram se poderíamos ser filmados. Nem hesitamos e dissemos que sim. Enfim, fomos filmados, demos entrevista e nunca soubemos quem eram aqueles dois e para onde seria aquela filmagem. Simplesmente esquecemos desse detalhe. Estávamos concentrados no caminho e na chuva que caiu.
Chegamos ao nosso destino molhados e felizes. Fomos recebidos por uma senhora, que mais parecia a dona da cidade. Quando entramos no lugarejo, que estava com as ruas vazias, mas com um bar cheio, logo perguntaram se estávamos procurando pela Francesca. Acenando que sim e ela logo chegou. Fomos para um apartamento com cozinha disponível, o que nos possibilitou fazer o jantar e preparar para o dia seguinte.
A noite recebemos um comunicado de que o caminho do dia seguinte estava muito complicado. Com a chuva tinha muito “fango”, praticamente intransponível. Como já conhecíamos, de outros caminhos o tal do “fango”, que é uma lama pegadora que impossibilita cinco passos sem ter que limpar o excesso, nos preocupamos. Além disso, havia um trecho em que teríamos que fazer um desvio porque ao lado do rio era um alagado e a água estava pela cintura naquele local. Fomos dormir e deixamos para decidir o que fazer no dia seguinte cedo.
Esses são os percalços do caminho. Seguimos em meio ao fango, mas, infelizmente, não conseguimos ir adiante e tivemos que apelar para uma carona.
A próxima cidade foi Corleone, que ficou conhecida pela máfia. Mas, para além da máfia e do Museu da Máfia, Corleone é uma cidadezinha bem interessante. As pessoas que encontramos foram muito simpáticas e prestativas, como a Marialice, que foi quem nos acolheu.
Prizzi era a nossa próxima parada. No caminho ganhamos de um senhor algumas favas, que eles comem crua. Além de saborosas são bem nutritivas. O sol estava muito quente e o calor já tinha se manifestado. Paramos numa fonte para pegar água e encontramos um outro senhor que trabalhava na região. Enquanto estávamos conversando com ele, chegaram duas outras caminhantes italianas. Eram a Marta e a Luiza, que moravam no Valle d’Aosta. De imediato nos tornamos companheiros de caminhada e amigos. Nós quatro éramos os únicos caminhantes de toda essa jornada.
Nesse dia, aconteceu um contratempo. Enquanto fomos atravessar uma fazenda apareceram três cães que nos cercaram. Além do susto, tivemos que retroceder. Mas, aquele era o único caminho para passar. Era uma trilha estreita. Tivemos a ideia de passar pelo mato, bem perto da cerca, e tentar enganar os cachorros. Observamos que quando cruzávamos a cerca, para o lado de fora da fazenda, eles paravam de latir. E assim fizemos, demos uma enorme volta, contornando a cerca, mas quando já estávamos chegando perto da porteira um deles apareceu latindo e nos cercando novamente. Felizmente, os outros não apareceram e tivemos que encarar o problema de frente. Atravessamos a porteira e, aliviados, seguimos.
Mais a frente encontramos a Marta e a Luiza e contamos o que tinha acontecido conosco. Elas passaram no mesmo caminho, mas sem serem atormentadas por aqueles cães. Foi aí que elas comentaram que tinham o apito para espantar cachorros, porque naquela região muitos cães ficavam soltos. Já tínhamos lido algumas reclamações sobre isso, mas não tínhamos ideia o que enfrentaríamos pela frente. De fato, dois dias depois fomos cercados por 3 cachorros enormes e aconteceu mais algumas vezes. Os cachorros foram um tormento para nós. Apesar dos riscos, porque nunca sabíamos qual seria a reação dos caninos, não nos deixamos abalar e fomos em frente. Com medo, mas fomos assim mesmo
Esse foi um caminho duro, pela secura do clima, que sofre influências da África, e pelas longas e íngremes subidas. Apesar disso, tivemos muitas surpresas agradáveis. O povo siciliano é muito receptivo e brincalhão. Num desses dias, paramos numa cidadezinha bem no alto de uma montanha. A subida foi difícil, mas a visão de um Café com mesinhas na calçada foi ótima. Sentamos para descansar e refrescar do calor escaldante. O dono do local viu logo que éramos “caminhantes” e se interessou em saber mais sobre nós. As duas amigas italianas chegaram e perdemos a conta do tempo que ficamos naquele lugar super agradável. A caminhada ainda seria longa, mas não nos incomodou aquela longa parada estratégica.
Ficamos sabendo de muitas histórias locais. Uma delas, que um argentino tinha comprado uma casa por apenas 1 Euro. Isso mesmo, 1 Euro! Fomos apresentados ao argentino e a esposa.
Em algumas cidades italianas a população diminuiu ou quase desapareceu. Os pais já faleceram ou os filhos vão morar nas cidades maiores. O fato é que as casas ficaram vazias. Com intuito de trazer de volta mais moradores, algumas dessas casas foram vendidas por valores simbólicos, mediante o compromisso de o novo proprietário restaurá-la, o que não fica barato. Além disso, é preciso morar no local. Já tínhamos ouvido falar, mas duvidamos da veracidade. No entanto, pudemos constatar que é verdade. Inclusive tinham outras casas na mesma situação.
Por falar na receptividade do povo siciliano, no caminho entre Sutera e Grotte está Rocalmuto, terra de Leonardo Sciascia, que foi escritor, novelista, jornalista e ativista político. E, por consequência, muita coisa na cidade gira em torno dele.
Nessa cidadezinha, paramos num Café para descansar e ficamos distraídos vendo um cachorro lindo, daqueles brancos e enormes que nos cercam quando estamos caminhando, mas que ali era uma doçura em forma de cão. Ele chegou com duas crianças, que entraram na igreja para assistir a missa de domingo. O cãozinho ficou na porta esperando a missa acabar. Cada pessoa que entrava na igreja ele olhava com cara de coitado para que o deixasse entrar. Mas, as tentativas não deram certo. Por fim, ele se deitou no portal e aguardou pacientemente.
Fazendo um “a parte”, esses cachorros da raça o Maremmano, é genuinamente italiano. São dóceis, mas são guardiões de ovelhas e do gado. Por isso, eles tentam afugentar quem chega próximo da área que eles vigiam. Só não sabemos se eles atacam, caso haja alguma reação que eles se sintam ameaçados. O certo é que eles nos assustavam pra valer. E o pior, é que nem sempre tinha somente o Maremmano. Às vezes, tinham outras raças mais agressivas. Vimos até Pitbull, que felizmente estava dentro de um cercado.
Continuando, enquanto estávamos no Café fomos abordados pelo Sr. Pina. Era um homem de meia idade, falador e que se interessou em nós, por sermos brasileiros. Ele já tinha vindo Brasil. Conversamos um pouco e decidimos despedir do Sr. Pina e continuar a nossa caminhada. Mas, ele se ofereceu para mostrar a cidade. Resolvemos aceitar a gentileza. Ele nos levou ao Teatro construído entre 1870 e 1880, que era realmente muito bonito. Vimos a casa do Leonardo Sciascia, que era obrigatório por aquelas paragens, e o Museu do Sal. Nessa última parada, o senhor que tomava conta do museu resolveu nos fazer uma oferta, uma pedra enorme de sal. Agradecemos e dissemos que já tínhamos uma carga pesada para carregar nas costas, mas ele sugeriu que amarrássemos a pedra na mochila. Diante da insistência, tivemos que andar até Grotte com o peso extra. Era uma pedra linda, mas ficou de presente na pousada onde hospedamos para quem quisesse apreciar a sua beleza.
Andamos mais alguns dias, ora acompanhados pelas amigas italianas, ora sozinhos, sob o sol escaldante e a secura do clima siciliano naquela primavera. Porém, no último dia, propositalmente, nos encontramos pelo caminho, o que foi a nossa sorte. Já tínhamos sido avisados dos cachorros soltos nessa última etapa. De nada adiantava pedir aos donos para prendê-los. E não deu outra. Num certo momento, tivemos que parar e ter calma. Com ajuda do apito para acalmar e espantar os cães conseguimos superar o problema por duas vezes, A primeira na estrada e a segunda em meio a um matagal.
Estávamos chegando a Agrigento, a última cidade desse caminho. E para a nossa alegria, entramos na Catedral enquanto os sinos batiam 12 horas. Nos abraçamos e nos emocionamos. Foi um caminho muito árduo, não pela distância, mas pelo desnível geográfico, pelo calor e tempo seco, próprios da região naquela época, e pelos cachorros que não davam sossego. Um caminho que começou com muita chuva e terminou com um calorão insuportável. Um caminho que nos trouxe novas amizades, nos ensinou a lidar com os medos e entender os nossos limites.
Vie Francigena per la montagne: de Palermo a Messina – 2º. Caminho
Depois de conhecer Agrigento, pegamos um trem para Palermo, de onde sairíamos para o nosso segundo e mais longo caminho. Em direção à estação ferroviária encontramos Marta e Luiza, nossas amigas italianas. Nos despedimos e ali deixamos marcado o próximo encontro para quando fôssemos realizar o caminho da Francigena Nord, que terminava no Vale d’Aosta, local de origem das duas amigas.
Foi ótimo ter retornado a Palermo. Tivemos oportunidade de conhecer mais a cidade e visitar outros pontos turísticos. Dessa vez, a cidade parecia estar com mais turistas. Eles desembarcavam dos enormes navios, uns para ficar e outros só para conhecer durante o dia.
Era hora de partir para o novo caminho. No primeiro dia, decidimos contrariar as sugestões de pegar um trem até uma cidadezinha próxima. Resolvemos andar em meio ao caos da periferia e estradas movimentadas. Paramos para tomar um café numa cidadezinha próxima. Foi o café mais caro que já pagamos até hoje. E nem foi o melhor café. Mas, um fato engraçado aconteceu. Enquanto descansávamos um senhor passou e perguntou se éramos refugiados ucranianos. Achamos graça e dissemos que não. Explicamos que caminharíamos até Messina. Ele olhou com uma cara bem desconfiada. Não entendeu nada. Isso porque, diferente do primeiro caminho, essa rota ainda era desconhecida. Por ser uma rota nova não tinha sinalização em alguns trechos. O GPS foi a nossa salvação em alguns momentos, principalmente enquanto atravessávamos campos, montanhas e muito mato alto.
Esse primeiro trecho até Bagheria e Altavilla ainda é bem próximo ao mar. Altavilla, como o próprio nome sugere fica no alto e tem um visual lindo. A próxima parada já seria em meio às montanhas. De última hora, resolvemos dar uma guinada e ir para uma praia e passar o aniversário da Vera. Conseguimos um Airbnb em Cefalù.
Cefalù deveria ser um capítulo a parte. A cidade é encantadora. Como em outras partes da Sicília, os indícios pré-históricos também estão em Cefalù. Por ali, também passaram os bizantinos e árabes. Além do Centro Histórico, com a Catedral e a Piazza del Duomo, o Lavatoio Medievale e muitas outras atrações, separamos um tempo para subir até a Rocha para ver o Templo de Diana, as Citernas e outros pontos, além do visual deslumbrante.
Apesar da água gelada do mar, a praia era uma delícia, principalmente no final de tarde com o sol ainda a pino. Depois, era sentar na sacada do nosso apartamento, que ficava numa das ruas principais do centro histórico, e apreciar o ir e vir dos turistas. Tudo isso regado a um bom vinho ou de umas cervejas.
Depois de três dias na praia, retomamos o nosso caminho rumo as montanhas. As saídas precisavam ser bem cedo com o tempo ainda fresco. As nove horas o calor já estava insuportável e o suor descia em bicas.
Alguns curiosos queriam saber sobre nós. Outras vezes “tentávamos” conversar com alguns locais, mas sem entender o dialeto, desistíamos. A sinalização do caminho era insuficiente e o GPS continuava sendo a nossa salvação para chegar ao destino. Às vezes, a cidade se destacava à distância, mas sabíamos que até lá ainda faltava muito sobe e desce. Ao chegar ainda tinha muito para subir, porque a maioria das cidades ficava no alto.
O cansaço começou a ficar cada vez maior, o calor também. Até que começamos a perceber que a água que tomávamos não era suficiente. Não tínhamos a menor vontade de fazer xixi. Só então percebemos que estávamos entrando num estresse térmico. Estávamos desidratando. Foi aí que tomamos a decisão de interromper a caminhada.
Foi uma decisão muito difícil para nós que projetamos nossa chegada a Messina. Estudamos o caminho. Sabíamos que era difícil, mas não tínhamos o conhecimento do clima. Enfim, o caminho nos venceu dessa vez. Mas, o que aprendemos foi muito importante. É preciso saber os nossos limites e saber parar quando necessário.
Num primeiro momento ficamos tristes e chateados, mas depois assimilamos. Fizemos o que foi necessário. Assim como na vida, o caminho e a caminhada nem sempre são fáceis e nem sempre sai como planejado, mas é preciso tirar da experiência outras motivações. E assim foi conosco, reinventamos uma outra viagem...
De Messina a Taormina, Siracusa e de volta a Catânia
Não chegamos a Messina caminhando, como planejado, mas chegamos de trem.
Aliás, uma coisa nos intrigava bastante. Vimos trens que indicavam Roma-Palermo ou Milano-Palermo e vice-versa. Estranhamos pelo fato de que chegar à Sicília, implicava cruzar o mar para entrar em Messina. Ficamos pensando em como seria a logística. Os passageiros desciam do trem? Cruzavam de ferryboat e depois pegavam um outro trem em Messina para continuar viagem? Não! Somente chegando em Messina, vimos que os passageiros não trocavam de trem, mas que o trem entrava num grande ferryboat e atravessava o mar em direção à Messina. Desembarcavam já na ferrovia, continuando a viagem. Foi preciso ver para crer. Depois dessa grande descoberta, visitamos toda a cidade.
Há quem diga que Messina é a cidade mais bonita da ilha. Messina é uma cidade portuária bonita e moderna. Ela foi reconstruída por conta de guerras e o terremoto de 1908, que matou quase metade da população e encobriu a sua história milenar. Pouco sobrou do Centro Histórico. Conhecemos a Chiesa dei Catalani, a Coluna Madonna dela Lettera, padroeira da cidade. Dentre os santuários, destacamos a Torre do Relógio que fica ao lado da Catedral. Ao meio-dia aciona um mecanismo complexo e várias estátuas de bronze se movem dando um show de 12 minutos.
Algumas pessoas preferem ficar nas praias nos arredores da cidade. Um passeio interessante é conhecer o Capo Peloro, a Torre Faro, que são acessíveis de ônibus. Nós, aproveitamos para explorar e conhecer a cidade e apreciar a vista do outro lado do Estreito, já no Continente, a partir da Marina de Netuno. Cruzamos para Reggio Calabria. Valeu muito pelo passeio de barco e a vista de Messina pelo Estreito. E, também, valeu por conhecer Reggio Calabria, uma cidade com um grande promenade, ruas de comércio bem movimentadas. Enfim, uma cidade super agradável.
Já era intenção ficar alguns dias em Taormina, uma das cidades mais visitadas por turistas estrangeiros na Sicília. Chegando à estação Taormina-Giardini nos encantamos. A estação ferroviária é muito bonita e já foi cenário de um dos filmes da trilogia do Poderoso Chefão.
Taormina fica no alto da montanha. É uma cidade quase vertical. A sua praia mais famosa é a Isola Bella. A cidade e o visual lá de cima são, sem dúvida, espetaculares. Mas, nós preferimos ficar mais pertinho do mar, em Giardino-Naxos. Foram seis dias naquele paraíso descobrindo os lugares mais interessantes.
Além de explorar as praias da região, resolvemos explorar também os caminhos até Taormina e depois até Castelmola que fica bem no alto. Os turistas costumam subir até Taormina de ônibus, mas nós enfrentamos uma subida íngreme até a vila. Poucos se aventuram até Castelmola. Nós não resistimos a tentação e subimos até lá. Uma longa escadaria nos levou até uma Capela na rocha. Sentamos para descansar um pouco, aproveitar aquela paz e acalmar o calor intenso que fazia do lado de fora. Por ter sido escavada na rocha era bem frasquinho. Sem trocadilhos... divinamente providencial!
Continuamos a nossa subida e bem na nossa frente, nos deparamos com um cenário indescritível e assustador ao mesmo tempo, o vulcão Etna. Por sorte nossa, vimos um fenômeno raro. O Etna abriu uma segunda boca. Foi fantástico presenciar o fenômeno, mas um pouco sinistro também. Ele estava em atividade e dali era possível ver bem. Pena que não vimos as chamas a noite, o que deve ser lindo e assustador ao mesmo tempo.
Chegando em Castelmola ficamos pensando como seria viver naquelas alturas. Foi impossível imaginar. Mas, a vida ali corria normalmente. As pessoas eram divertidas.
Já tínhamos sido recomendados, pelo Ettore, que era o dono de uma das pousadas que ficamos, para conhecer o Bar Turrisi. O bar inteiro é decorado com partes íntimas femininas e masculinas. De tão divertido que é, parte da vila seguiu a decoração do Turrisi.
Dizem que para baixo todo santo ajuda, mas não é bem assim quando temos o sol escaldante na cabeça. Na volta, mais uma paradinha na capela da rocha e devagar chegamos de volta a Taormina e Giardino-Naxos a tempo de um bom mergulho no mar.
O apartamento que ficamos hospedados em Naxos era muito bom. Tinha uma varanda grande onde encerrávamos o dia tomando um vinho e olhando as nuances de cores do pôr do sol. Os turistas e moradores andavam pela orla em busca de restaurantes, gelaterias ou apenas tomar a fresca da noite.
Diante do receio de que o Etna entrasse em erupção, Vera traçou planos mirabolantes, e inexequíveis. Seria uma fuga que nunca conseguiríamos executar... Ela ficava observando as pedras vulcânicas das praias e concluiu que, se o vulcão erupcionasse as lavas chegariam até nós... Tudo isso motivada pelas notícias de que no início daquele ano o Etna cuspiu fogo e as lavas desceram, o aeroporto de Catânia foi fechado e a presença de uma nova boca poderia ser um risco. De fato, esta nova boca explodiu logo depois que saímos, mas não foi necessária nenhuma evacuação de moradores e turistas.
Nesse clima de devaneio, acordamos certa manhã com cheiro forte de fumaça. Abrimos a porta da varanda e a fumaça era intensa. Vimos alguns vizinhos abrindo as janelas e olhando sem saber o que acontecia. Isso já foi motivo para pensar que o vulcão tinha entrado em erupção. Vimos o nosso anfitrião, que morava no andar de cima, sair apressado e virar a esquina. Pensamos, deve existir alguma orientação e procedimento numa situação dessas, mas nós desconhecíamos. Em pouco tempo ele voltou e ficamos sabendo o que se passou. Um homem tinha colocado fogo numa árvore. A ação foi interrompida, a fumaça se dissipou, nos acalmamos e a vida continuou tranquila naquele paraíso.
Como ainda tínhamos alguns dias sobrando, até o nosso embarque em Catânia, fomos para Siracusa, a cidade mais grega da Sicília.
Siracusa é uma cidade para ser descoberta a pé. Ortigia, que é uma ilha, ligada por uma ponte ao continente, é a parte mais antiga e histórica da cidade. Ali encontram-se tesouros arqueológicos, o porto, mercados, bares e restaurantes. Siracusa tem pouquíssimas faixas de areia. É uma cidade portuária. Algumas praias, próximas à cidade, são acessíveis por trem. Uma delas é a Fontana Bianchi, que fica a quinze minutos de Siracusa.
Além do Templo de Apollo, a Fontana di Diana, Duomo, Belvedere do Largo Aretusa, o Castelo Maniace, o parque Arqueológico abriga o Templo dedicado a Zeus, Orelha de Dionísio, as Necrópoles, o Teatro Grego e muito mais, o que é preciso metade do dia, pelo menos, de visitação.
Mas, o imperdível mesmo era o pôr do sol visto da Marina, em Ortigia. No último dia sentamos para tomar um vinho num banco bem de frente ao pôr do sol. Tinham vários veleiros atracados, quando vimos uma bandeira brasileira tremulando num deles. Era do casal Mário e Marina, o filho e um amigo que estavam navegando. Nos convidaram para entrar e ficamos trocando experiências, nós de nossas caminhadas e eles de navegação. Foi uma bela despedida de Siracusa. Voltamos para Catânia. Exploramos mais a cidade, a praia, reencontramos amigos que fizemos e assim encerramos a nossa viagem a Sicília.