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Caminho Francês

Saint-Jean-Pied-de-Port a Santiago de Compostela

 

A subida dos Pirineus...

            

Iniciamos o nosso segundo caminho a Santiago de Compostela em abril de 2014. Voamos de São Paulo a Lisboa. De Lisboa fomos de trem até Hendaye, na França. E de lá, fomos de ônibus até Saint Jean Pied de Port, que fica aos pés dos Pirineus e é onde começa o Caminho Francês. Este caminho é o mais famoso, mais cheio e o mais festivo dos caminhos que levam a Santiago de Compostela. Não faltam restaurantes, bares, cafeterias, pousadas, albergues e caminhantes. Nesta época, o caminho já tinha muita gente. Isto nos causou um certo estranhamento. O Caminho Português foi um caminho vazio e curto, mas denso. Ouvimos dizer que hoje em dia, para reservar algum lugar em Saint Jean Pied de Port ou na Colegiata em Ronsesvalles, que é a primeira parada do caminho, é preciso fazer com muita antecedência. 

            

Algumas lendas explicam o Caminho Francês. Uma delas é que os povos ancestrais, provavelmente celtas, peregrinavam até Finisterra, ou Fisterra para purificarem a suas almas. Em Finisterra, onde acreditavam ser o final da terra, esses peregrinos se despiam e realizavam o ritual da queima de roupas, substituindo-as e dando por concluída a peregrinação, retornando às suas casas mais leves e felizes. O nome “Compostela” é uma derivação do latim Campus Stellae, "campo da estrela", ou Via Láctea, que dizem que percorre todo este caminho.

 

Desta vez, já mais preparados, resolvemos ficar um dia a mais em Saint Jean Pied de Port para conhecer a cidade. Os “peregrinos” de todo o mundo percorrem suas ruas, ansiosos para partir rumo aos Pirineus. Assim, pegamos as nossas “credenciais”, um "passaporte" do peregrino, que são carimbados por onde passamos, comprovando a peregrinação. 

            

Apesar do frio intenso, chegou o dia de subir os Pirineus. Assim como todas as outras pessoas, acordamos cedo. A nossa anfitriã serviu um bom café da manhã e ainda nos presenteou com croissants para levarmos na mochila. 

 

Antes de sair para a caminhada, foi preciso passar na “Oficina dos Peregrinos” para saber sobre as condições climáticas na montanha. Se não estiverem boas condições, os caminhantes deverão aguardar mais um dia na cidade, ou atravessar os Pirineus pela estrada, dividindo espaço com os carros. Por sorte, neste dia, o clima estava bom. 

Foram 25 km montanha acima e apenas 4 km de descida. No caminho, tem somente um pequeno albergue/restaurante, não muito longe de Saint Jean Pied de Port. No alto da montanha só existe um pequeno abrigo para meia dúzia de pessoas, em caso de emergência. Por isso, é preciso levar água e alimento suficientes para essa travessia. O tempo estava frio. Paramos para tomar um café nesse único lugar e lá encontramos gente de todo o planeta. Uns se aquecendo com sopa, café ou outra bebida quentinha e outros se bastando de cerveja e vinho àquela hora da manhã. E assim, subimos, subimos, subimos e passamos por todo tipo de clima. De sol a vento, chuva e um pouco de neve. Apesar da brutalidade daquela travessia, com subida infindável, cansaço e falta de estrutura, a sensação e a beleza dos Pirineus é capaz superar toda essa dificuldade. 

            

Nos 4 km finais de descida existem dois caminhos. Um deles é mais fácil e o outro mais difícil, com uma descida bem mais íngreme. E, claro, o segundo foi a nossa opção. Passamos pela Floresta das Bruxas, nome que demos a este caminho. 

 

Não sabemos se pelo cansaço físico e psicológico, parecia que estávamos sendo seguidos, apesar de ser este o único lugar em que estivemos sozinhos. A sensação era de ter algo passando entre as árvores, mas que não víamos o que era. Por isso, demos o nome de Floresta das Bruxas. Na falta de explicação para essa sensação, pensamos ser alguma bruxinha boa nos ajudando a vencer a dificuldade do caminho. Assim, foi uma descida dura, mas numa floresta encantada... Finalmente, conseguimos... chegamos a Roncesvalle, já na Espanha... Dali, sem contar os quase 30 km caminhados ainda nos restava 790 km até Santiago de Compostela. 

 

E agora, onde dormir...

            

O albergue que fica na Colegiata Santa María de Roncesvalles é muito organizado e limpo. Jantamos e trocamos informações com outros caminhantes. As luzes se apagaram as dez da noite e às seis da manhã fomos acordados ao som de “Wake up little Suzie”, tocado e cantado por um grupo de hospedeiros. Foi, no mínimo, inusitado e divertido. Só os adeptos do mal humor matutino que, provavelmente, não tenham achado nenhuma graça. 

            

Depois de um bom café da manhã, seguimos, debaixo de chuva para Zubiri. A descida para a cidadezinha era um verdadeiro tobogã enlameado, que somente graças ao apoio no bastão de caminhada não batemos de bunda no chão. Mas, vimos muita gente despencar na lama, sem nenhuma gravidade. No caminho, a maioria das pessoas estão dispostas a ajudar, dar informações, conversar e já de início começamos a fazer algumas amizades. Algumas duram até hoje. Quando estamos disponíveis e abertos a novas amizades, as aproximações fluem. 

 

De Zubiri seguimos para Pamplona, ainda com chuva e muito barro. Foi somente quando chegamos ao nosso destino que o sol apareceu. As boas-vindas vieram de um morador local, que nos abordou na entrada da cidade. Disse ter um amigo no Brasil e ficamos um tempo conversando. Chegamos cedo o suficiente para aproveitar um pouco da cidade. Às vezes, dá vontade de ficar mais um pouquinho em algumas cidades, mas o caminho nos chama e temos que seguir. 

            

No dia seguinte, fomos para Puente La Reina. Nessa altura, já conhecíamos o Torsten, que era de Dresden na Alemanha, o Olivier e uma prima da Martinica, dois amigos franceses (Jean Marie e Jean), e algumas outras pessoas... Chegando na cidade encontramos o Oliver muito preocupado porque a prima, que era mais lenta, não tinha chegado ainda. Depois de encontrá-la e mais aliviado, contou rindo muito, que a prima decidiu voltar a Paris, onde moravam. Isso porque, ela pensou que aos domingos ficariam descansando, mas se irritou ao saber que na caminhada não teria dia de descanso. E, como todos, Oliver iria caminhar. 

            

De Ponte La Reina seguimos um duro caminho para Estella. Ao chegar exaustos na cidade não achamos nenhuma hospedagem. Um senhor sugeriu caminhar mais 5 km adiante, onde tinha um camping com cabanas. Mas, e se não tivesse lugar? Foi o que pensamos. Por ser um feriado prolongado, dia do Trabalho, estava tudo lotado. Tivemos a ideia de parar num hotelzinho, que também já estava lotado, e pedir ajuda. Os proprietários, Carlos e Maria Cruz, foram a nossa salvação. Ligaram no camping, em outros hotéis, albergues e pousadas e nada... tudo estava lotado.  Eles só encontraram um hotel rural que ficava a 4 km antes de Estella. Ou seja, tínhamos que voltar 4 km para nos hospedar. Desanimados de ter que retornar, mas sem nenhuma outra opção, voltamos. E, acatamos a sugestão do casal de reservar um lugar nas 3 cidades seguintes, Torres del Rio, Logroño e Nájera. A partir daí, aprendemos que nesse Caminho Francês seria necessário garantir um lugar. Assim, sempre tínhamos uma reserva garantida para o dia seguinte. 

 

E a “lotação esgotada” continua...

            

Era o nosso sétimo dia de caminhada quando chegamos a Torres del Rio. O hotel reservado estava com a capacidade máxima de hóspedes, ou acima talvez. Tinha tanta gente que a água quente acabou e tivemos que tomar banho na água fria. A temperatura externa beirava os dez graus. Pagamos caro, em todos os sentidos, para ficar neste hotel. Os hóspedes estavam felizes demais, pelo feriado prolongado e pelo vinho. O jantar até que foi bom e divertido, mas nós estávamos bem cansados e querendo dormir, para seguir adiante no dia seguinte. Mas, foi muito difícil pegar no sono com toda aquela farra.

            

Cada um tem o seu ritmo no “caminho”. Nós acordamos bem cedinho e não abrimos mão do nosso café da manhã. Como os albergues e as pousadas quase nunca oferecem este serviço, sempre compramos algo no dia anterior, para o nosso dejejum. Esquentamos a água no nosso minúsculo “ebulidor”, comprado em uma destas viagens por aí. Sabíamos que um dia nos seria muito útil.  Com isso, demoramos mais ou menos uma hora e meia para sair, depois de todo o ritual matutino. Caminhamos cerca 9 ou 10 km antes de uma parada para um lanchinho e, se acharmos um bar aberto, tomamos um “café con leche” sempre muito delicioso.

 

Quando saíamos para caminhar, algumas pessoas já tinham partido. Com isso, as paradas eram sempre cheias. E os banheiros... ah, estes muitas vezes a gente dispensava. O “matinho” era melhor... Mas, como este Caminho Francês era cheio, não foi preciso preocupar em seguir as setas que indicam as trilhas. Sempre tinha alguém na nossa frente ou atrás. Quando fazíamos um “pit stop estratégico”, a gente precisava se afastar da trilha, pegando algum atalho. Só que, um de nós tinha que ficar na trilha avisando onde era o caminho original. Era tão automático seguir as pessoas que muitos iam atrás, no atalho do xixi. 

            

E os “turisgrinos”? Ah... estes eram aqueles grupos enormes que vão felizes, tagarelando e cantando pelo caminho... Uma Van os deixava na trilha e eles seguiam com uma pequena mochila falando igual papagaio... Mais a frente entravam novamente na Van, antes de chegarem à cidade.

 

Cada um faz o caminho como pode, mas, às vezes, estes grupos chegam aos bandos nas hospedarias e ficamos sem lugar. Apenas os albergues têm uma regra. A preferência é de quem caminha, depois para os “bicigrinos”, mas, algumas empresas de turismo reservam para os “turigrinos”. E aí, acontece o que aconteceu conosco em Estella. 

            

Ainda era feriado prolongado quando chegamos a Logroño, uma cidade grande e festiva. Depois, seguimos para Nájera, onde acontecia uma festa medieval. No caminho, nos bastamos de água e vinho na Bodega Irache, que é uma vinícola, onde duas torneiras, uma de água e outra de vinho, ficam à disposição de passa por lá. 

            

Chegando perto de Nájera, estávamos exaustos. De longe vimos a cidade, mas parecia que ela nunca mais chegaria. Paramos para descansar, tomar água e comer umas uvas passas. Juntamos as poucas forças que restavam, as pernas já não obedeciam a nosso comando. Ainda assim, alcançamos um casal que estava na nossa frente, em situação igual ou pior que a nossa. O cansaço deles era visível. O andar descontrolado deles nos causou uma crise de riso. Mal conseguíamos andar também... Era pura exaustão e o corpo já não obedecia aos comandos. E foi assim que chegamos em Nájera. Cansados, nos arrastando, mas felizes por chegar...

 

A Madre Superiora e o Galo de Santo Domingo de la Calzada...

            

Depois de descansar e aproveitar o dia de festa em Nájera, seguimos, no dia seguinte, para Santo Domingo de la Calzada. Lá, tivemos a sorte de ficar numa pousada que pertence à ordem das irmãs Cisterciense. A dica foi do Jean Marie e Jean, os dois franceses que conhecemos. O Jean Marie era muito organizado e, acreditem, tinha reservado hotéis e pousadas em todo o caminho. Isso mesmo, para os 31 dias de caminhada. 

 

Chegamos na hospedaria com esses franceses, mas vimos que era muito caro. Como dois bons "mineirinhos bons de papo", conseguimos um bom desconto e a Madre Superiora nos colocou num apartamento, que era reservado aos padres e irmãs visitantes. Um lugar incrível! Limpo, agradável e com uma bela vista. 

            

No dia seguinte cedo, partimos para Belorado, mas não sem antes passar pela igreja e pedir as bênçãos de Santo Domingo. 

 

Conta a lenda que um pai e seu filho, enquanto faziam o caminho para Santiago, pararam na cidade para descansar. O filho apaixonou-se pela filha do dono do albergue. A jovem, que tinha ódio no coração, colocou um garfo de prata junto aos pertences do rapaz para incriminá-lo, injustamente. Ele foi acusado de roubo e foi preso. Quando o pai foi buscar o corpo ouviu de um anjo que Santo Domingo havia poupado a vida do seu filho. Assim, o pai procurou o juiz, que estava jantando, e contou sobre o que o anjo tinha revelado. O incrédulo juiz disse: “- Solto o seu filho quando este galo e esta galinha cantarem novamente”. O juiz não acreditou até ver que o galo e a galinha, que estavam sendo servidos no jantar, cobriram-se de pena, cacarejaram e cantaram. O jovem foi libertado e, a partir daí, entre 25 de abril a 13 de outubro, uma galinha e um galo brancos são mantidos, num galinheiro, dentro da igreja. Eles são trocados a cada 20 dias.  Dizem que, se o galo cantar, quando for feito um pedido, este pedido será aceito. 

            

Bem, sabendo da lenda fomos pedir a Santo Domingo para ter uma boa caminhada e chegarmos bem a Santiago de Compostela. A igreja estava fechada por uma grade, mas com visão do altar. Pedimos com muita fé. Quando terminamos o galo cantou bem alto! O susto que levamos foi grande, mas a alegria foi maior. E assim, seguimos confiantes o nosso caminho para Belorado. No dia seguinte fomos para Agés e, no outro dia chegamos em Burgos... 

 

As Mesetas...

            

Burgos é uma cidade grande, com muitos atrativos turísticos, restaurantes, bares, lavanderias e supermercados. Foi muito bom rever a cidade que já conhecíamos, mas é sempre sacrificante entrar e sair de cidades grandes para quem caminha. 

            

A partir dali, entramos na região das Mesetas, uma área quente e seca, com paisagem uniforme e poucas sombras. As retas parecem infinitas e são cercadas de plantações de trigo e cevada. Por isso, alguns caminhantes preferem ir de ônibus até León e pular estes quase 200 km do caminho. Nós preferimos caminhar de Burgos até León. Na verdade, descobrimos que quem não faz este trecho perde a chance de conhecer um outro lado também bonito do caminho, apesar de estafante. 

 

Então, de Burgos fomos para Hornilhos del Camiño. O lugarejo só tinha uma Casa Rural, onde nos hospedamos, e um restaurante, que servia jantar por turnos. Enquanto aguardávamos nossa vez, ficamos sentados num bar, conversando com um casal de irlandeses e com um espanhol, que jurava que a Espanha seria campeã da Copa do Mundo daquele ano. Só lembrando, na Copa do Mundo de 2014 a Espanha foi desclassificada logo de início...

            

No dia seguinte, formos para Castrojeriz. Foi duríssimo! Passamos um longo tempo vendo a cidade ao fundo, que nunca chegava. Quando, finalmente, chegamos tivemos que atravessá-la para achar a nossa pousada. Por um erro qualquer, nossa reserva tinha sido cancelada. Mas, os proprietários nos recompensaram colocando num hotel, também deles. Que sorte! A pousada era um lixo, mas o hotel era um luxo! 

 

Depois de uma noite reconfortante, fomos para Frómista. De novo, a mesma paisagem plana, quente e poeirenta. Chegamos num domingo. Na pousada pagamos a diária num bar/restaurante, mas quando entramos no quarto. Putz! Parecia um pardieiro, ou melhor, um puteiro mesmo. Ficava distante da cidade e na beira de uma linha de trem. Pedimos o dinheiro de volta. Mentimos dizendo que ainda era muito cedo para parar e que seguiríamos caminhando para a próxima cidade. O dono do pardieiro não gostou, mas devolveu o que pagamos. Caminhamos até o centro da cidade. Encontramos um hotel novinho, limpo e com direito a um jantar delicioso no restaurante ao lado. Foi o melhor bacalhau fresco que já comemos. 

 

E, continuamos nossa caminhada, sempre na mesma paisagem quente, poeirenta e estafante, mas parando em pequenos lugarejos, com suas belezas próprias e com amigos que fomos fazendo pelo caminho. Assim foi em Carrion de Los Condes, Terradillos de Los Templarios, Bercianos del Real Camiño, Masilla de las Mullas até que chegamos a León. 

            

León é uma cidade grande, agradável e, principalmente, sabíamos que a partir dali não teríamos mais o caminho com as retas infinitas, sem sombra e poeirento dos últimos 8 dias. Ficamos num hostel. Era sexta feira, e uma turma de adolescentes chatos chegou para um final de semana de quebradeira. Adolescentes sem noção, sem graça e bêbados. Mas, não seria isso que estragaria o nosso caminho. Depois de uma noite mal dormida, seguimos adiante e paramos em San Martin del Camiño, onde reencontramos a paz, amigos e conhecemos outras pessoas, num jantar delicioso regado a muito vinho. 

 

Na saída para Astorga, decidimos pelo caminho mais longo para evitar as estradas movimentadas. Chegando ao topo da montanha, que estava completamente florida, encontramos o David, um gringo que sempre deixava frutas e outras guloseimas em troco de donativos para repor o estoque. E seguimos caminhando e colecionando bons momentos, como em Rabanal del Camiño onde assistimos uma oração em latim e os cantos gregorianos, feitos pelos monges, num ambiente que nos transportou para uma época medieval.  

 

Para Molina Seca saímos bem cedo e com o tempo bem frio. A caminhada foi fantástica, apesar de muita subida e descida. A montanha estava inteira florida até que chegamos à “Cruz de Ferro”, um dos pontos altos deste caminho. É neste lugar que os caminhantes deixam as pedras que carregam. Deixá-las ali na “Cruz de Pedra” significa deixar tudo de negativo em sua vida. Nós não carregamos as pedras, mas cumprimos o ritual. Depositamos uma pedra aos pés da “Santa Cruz” ... Depois, seguimos leves, passando por Foncebadón, um lugar intrigante, antes de chegamos a Molina Seca. 

 

A casa que nos hospedamos em Molina Seca era linda. Tinha uma enorme lareira, bem no centro da sala. O vinho ficava à disposição dos hóspedes. Assim, aquecemos o corpo e a alma. Enquanto do lado de fora, a chuva e o frio nos alertavam para o difícil dia de caminhada que viria pela frente.  

 

Em direção ao O Cebreiro...

            

Como previsto, saímos de Molina Seca debaixo de muito frio, chuva e barro, o que continuou pelos dois dias seguintes. Passamos por Villa Franca del Bierzo e o clima continuava bruto. Com isso, a caminhada até “O Cebreiro” foi duríssima. Além da chuva e do barro, as subidas eram íngremes. Essa foi uma das etapas mais difíceis desse caminho, depois da subida dos Pirineus. Mas, a emoção, depois de caminharmos 26 dias e entrarmos na Galiza superava toda as dificuldades e o cansaço. 

 

O Cebreiro é uma aldeia Celta, com as casas circulares, feitas de pedra e com o teto de palha, com uma inclinação que suporta os fortes ventos das montanhas e a neve. Está localizada a 1.300 metros de altitude. É um local que guarda lendas, histórias e milagres. Realmente, um lugar mágico! O único problema é que, apesar de ser um local turístico, as acomodações são restritas. Fizemos nossa reserva num hotelzinho dias antes e fomos, fortemente, aconselhados a ligar no meio da tarde da nossa chegada confirmando. Caso contrário, a reserva seria cancelada. Ligamos, como o recomendado, mas vimos alguns caminhantes, que não confirmaram, perderem as suas reservas. 

 

A noite fomos a uma missa dedicada aos peregrinos, nos aquecemos, tomamos uma gostosa sopa galega e vinho, e fomos descansar. Quando acordamos, fomos surpreendidos pela neve que caía. Mas, tínhamos que seguir adiante assim mesmo. Foi um dia muito duro para caminhar. Além da neve, tivemos que subir mais ainda. Paramos num bar, ainda próximo de O Cebreiro, para beber alguma coisa quentinha, porque estávamos congelando. Já aquecidos, entrou uma japonesinha recém-saído da adolescência. Ela estava toda molhada, com uma roupa inapropriada para a ocasião e suas mãos congeladas. Pediu ajuda para tirar a mochila. O estado dela era bem preocupante. A toalha e todas as suas roupas estavam também molhadas, menos uma blusa que conseguimos achar bem no fundo da mochila. Ela se trocou e ficou no bar, se recuperando, antes de seguir adiante. Nós seguimos em frente.  

            

Chegamos em Triacastela muito molhados e gelados. O caminho passava por fazendas com enxurradas de cocô de gado misturado com a água da chuva. O cheiro era tão forte que nem sabemos como o dono do albergue nos permitiu entrar. Começamos a tirar tênis e as roupas na porta do quarto, deixando tudo do lado de fora. Mas, o cheiro parece que nos perseguia.  Lavamos tudo e graças a um bom aquecimento, conseguimos secar as roupas e os tênis de caminhada. Depois de tudo limpo, cheiroso e seco, no dia seguinte, fomos para Sarriá, ainda na chuva, mas sem a neve do dia anterior.  

 

Mais um aniversário no Caminho e Santiago a vista...

            

Daqui para frente o caminho seguiu meio carrancudo, entre chuvas e pouco sol. Era dia 24 de maio, aniversário da Vera e vigésimo oitavo dia de caminhada quando chegamos a Sarriá. Se o Caminho Francês é cheio, a partir dali fica ainda mais cheio de caminhantes. Para receber a “Compostelana”, um certificado que os peregrinos/caminhantes recebem, precisam caminhar, pelo menos, 100 km. E, Sarriá está, exatamente, a 100 km de Santiago de Compostela. Por isso, é o lugar onde algumas pessoas começam o caminho. 

            

Quando chegamos ao hotel, que já tínhamos reservado para aquela data importante, o dono nos levou para outro hotel, bem distante do centro da cidade, que também era dele. Mas, nós tínhamos um motivo especial para querer ficar naquele hotel do centro. Aquele era um dia para comemorar o aniversário. Depois de muito estresse ganhamos a discussão. Ficamos onde planejamos. Descansamos um pouco e fomos conhecer a cidade. Encontramos uns amigos italianos, que estavam eufóricos com um jogo decisivo da Itália na Copa do Mundo. Tomamos vinho, jantamos... Enfim, no dia seguinte era hora de partir para mais um dia de caminhada. Dessa vez, com muitos mais caminhantes ao nosso lado e, dentre eles, muitos daqueles “turisgrinos” falantes. 

            

A próxima parada foi Portomarim. Foi uma caminhada ainda com o clima bem frio. No outro dia, chegamos a Palas de Rei. Já estávamos muito cansados. Um cansaço acumulado dos trinta dias de caminhada. Distraidamente, fomos pegar um atalho e, sem querer, entramos portão adentro de uma casa. De repente, veio um cachorro enorme latindo. Levamos um grande susto e voltamos correndo. Estranhamente, quando passamos do portão para fora o cachorro parou. Ufa! Ficamos bem espertinhos, depois desta adrenalina toda. 

 

Já em Palas de Rei fomos para o apartamento reservado. Era um prédio de três andares, com apartamentos para alugar, mas somente uma senhora morava ali. Enquanto íamos tocar a campainha a senhora resolveu abrir a porta. Ela levou tanto susto conosco que gritou e, nós levamos um susto maior ainda com ela gritando que gritamos também. Quase saímos correndo. Cena de filme “pastelão”.  Apesar de tanta gente no caminho, somente nós ficamos ali. Depois descobrimos que na cidade tinha um novíssimo e lindo albergue. Mas, como já estávamos instalados e o lugar era bom, ficamos lá mesmo. 

 

No jantar reencontramos o Bu, um dinamarquês. A comida boa, o vinho e o “papo cabeça” mexeu tanto conosco quanto com o Bu. Coisas do caminho, que só quem caminha longas distâncias entende... Depois de tanto tempo caminhando, os sentimentos ficam a flor da pele. Não sabemos se o cansaço físico mexe com o nosso psicológico ou o que... Mas, não importa. O que importa é a sensação que nunca mais sai da gente. 

            

Seguimos para Arzua. Chuva e frio no caminho e muito cansaço e desânimo. Chegamos num hotel quentinho e mal saímos do lado de fora. Da mesma maneira, no dia seguinte, o trigésimo segundo dia, ainda cansados dos dias de caminhada, com vento e chuva, encontramos uma inglesa, a “Mina”, que caminhava toda animada. A disposição com que ela caminhava acabou nos contagiando e o nosso ânimo voltou. Afinal, Santiago estava bem perto. 

 

Depois disso, numa das paradas em um bar superlotado, encontramos um espanhol, o Isidoro que, toda vez que nos via dizia que tinha uma brasileira caminhando. Mas, nunca a vimos. E, desta vez, ele nos apresentou a brasileira. O mais engraçado foi que ainda nos Pirineus, no primeiro dia de caminhada, conversamos com o filho dela, o Matheus. Ele disse que a mãe, que já era bem de idade, estava com dor nos joelhos. Por isso, ele seguiria na frente, porque ela era muito lenta. Quando encontramos a Rose ficamos sabendo que era ela a mãe “idosa” do Matheus. Rimos muito contando essa conversa para ela. A Rose era muito mais jovem do que nós. Depois desse encontro, a amizade foi imediata. Rapidamente, já estávamos fazendo confidências do caminho.

            

E, finalmente, chegamos a Pedrouzo, última cidade antes de Santiago. Descansamos, dormimos cedo e ainda era noite quando saímos para caminhar. A ideia era chegar antes de meio dia, hora da “Missa dos Peregrinos”. Passamos pelo bosque ainda escuro, sem medo e muito ansiosos com o nosso último dia de caminhada. No Monte do Gozo avistamos Santiago de Compostela. Não é atoa que o lugar tem este nome. 

            

Na chegada a Santiago de Compostela o sentimento era de alegria, por termos conseguido chegar bem. Desta vez, a tristeza de terminar o caminho foi substituído pela certeza de que voltaríamos no ano seguinte, na mesma época. Decidimos fazer o Caminho do Norte. Assim, fomos, mais uma vez, à “Missa do Peregrino”, como programado, e vimos, outra vez, o Botafumeiro. Agradecemos a Santiago. 

 

Passeamos pela cidade. Reencontramos alguns amigos do caminho. Comemoramos a nossa chegada. Celebramos. Ali encerrava este Caminho Francês, mas tínhamos plena certeza de que não encerrava a nossa caminhada. Ah, e dessa vez fomos a Finisterra.

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