
Caminho Le Puy:
Le-Puy-en-Velay a Saint Jean Pied de Port
Primeiro dia. Perdidos...
Em primeiro de abril de 2017 chegamos à cidade de Le-Puy-en-Velay. Começaríamos o caminho, também conhecido como Via Podiensis ou GR65. Este caminho parte de Le-Puy-en-Velay, no Alto Loire, indo até Saint Jean Pied de Port, onde começa o Caminho Francês. Como já tínhamos feito o Caminho Francês, decidimos que, chegando em Saint Jean Pied de Port, iríamos para Zamora para fazer o Caminho Sanabrês até Santiago de Compostela, pela quinta vez.
Ficamos 2 dias na cidade para aclimatar e preparar a nossa caminhada. No terceiro dia saímos, bem cedo debaixo de uma chuva fina e muito frio em direção a St. Private d’Allier. Fomos seguindo os sinais, vermelho e branco, até que, numa encruzilhada, vimos o sinal à direita e fomos caminhando. Sabíamos que a cidade estava uns 5 km dali. Mas, a cidade não chegava nunca. Desconfiamos do nosso erro. Lembramos que na encruzilhada, do lado oposto ao que entramos, tinha uma placa. Não fomos até lá conferir. Seguimos, o que pensamos ser o óbvio. O excesso de confiança nos levou a cometer este erro.
Depois de muito andar chegamos numa cidade fantasma. Não encontramos ninguém e vimos, numa placa, que ali não era St. Private d’Allier. As casas estavam todas trancadas, sem sinal de moradores e nenhum comércio. O sinal do celular não existia. Fomos para uma pequena estrada e ficamos pensando o que fazer. No primeiro dia de caminhada estávamos perdidos na França, num lugar qualquer...
De repente, vimos um carro vindo na estradinha. Era nossa única esperança. O motorista parou e informou que St. Private d’Allier ficava a 5 km na direção contrária da que viemos. Pegamos uma carona e voltamos alguns quilômetros para chegar ao nosso destino. Enfim, chegamos no “gîte”, ou pousada, conhecemos dois franceses de Paris, com quem jantamos. Estava muito frio, mas o lugar era bem aquecido. Na manhã seguinte partiríamos para Sauges.
Quando acordamos, uma alergia tomou conta do rosto e braços da Vera. Bem, isto é uma história a parte. A Europa tem muita infestação de “bed bug”, que nada mais é do que o nosso “percevejo”. No caso da Vera, basta uma picada para desencadear uma alergia muito forte pelo corpo. Não foi a primeira vez. Já tinha acontecido numa outra viagem e no trem de Lisboa a Hendaye (França). Por isso, carregamos sempre um bom estoque de antialérgicos, por recomendação médica. Na França, algumas vezes, é preciso deixar as mochilas do lado de fora das pousadas, por precaução e para evitar a contaminações. É um problema endêmico que ocorre em locais indeterminados, mesmo nas grandes redes de hotéis de cidades grandes ou nos transportes públicos.
O caminho para Saugues era de sobe e desce. Estava muito frio e com uma chuva bem fina. Num determinado ponto, encontramos a Kersting, uma alemã que se tornou nossa companheira de caminhada naquele dia e no dia seguinte. Chegando a Saugues um outro francês de Paris, o Phillipe, estava procurando um lugar para se hospedar. Com uma indicação que já tínhamos seguimos, os quatro, para a pousada de um casal, que fez um belo jantar com cogumelos selvagens. Afinal, estávamos bem na região desses cogumelos e esse casal os colhia, secava e vendia. E assim, passamos mais uma noite agradável, nos aquecendo ao lado de uma lareira acesa e tomando um bom vinho.
No dia seguinte, fomos para Le Sauvage, um lugar que como o próprio nome diz é, selvagem, cheio de mistérios e muitas histórias.
A Besta de Gévaudan e o “besta” do holandês..
A região onde está Le Sauvage, antiga província de Gévaudan, é um lugar pleno de natureza e de mistério. Voltando no tempo, 1764-1767, contam que uma criatura misteriosa atormentou o povo deste local. Possivelmente, era um lobo enorme e com uma calda bem grande. Essa criatura foi chamada de besta de Gévaudan. Apesar dos constantes ataques dos lobos aos rebanhos locais, na época, nunca tinham visto ataque aos humanos, até que uma jovem foi morta. A partir daí, os ataques aos humanos começaram a ocorrer, fazendo muitas vítimas fatais. Dizem que ele atacava e arrancava a garganta de suas vítimas. Então, começou a caçada à besta de Gévaudan. Duas criaturas foram abatidas. A primeira, foi "empalhada" e levada para Versalhes. A segunda, contam que, enquanto o atirador rezava com seu grupo a fera apareceu, mas não fez nada. Depois a fera foi morta por uma bala de prata benzida por um padre.
E foi para estas bandas que fomos caminhando. No meio do nada, chegamos a uma grande construção. Ali funcionava um hotel e um gîte. Nos hospedamos no gîte e fomos descobrindo as histórias do local. Essa é uma região de fazendas onde o gado da raça Aubrac tinha sido, praticamente, extinto. Os fazendeiros da região juntaram-se e conseguiram recuperar a raça. Eles criaram uma cooperativa, de mais de trinta fazendeiros da região, que criam gado leiteiro e de corte, produzem e fornecem todo tipo de alimento.
Neste dia, éramos, mais ou menos, dez pessoas no gîte. Nós e a Kersting, a alemã, éramos os únicos estrangeiros. Os demais eram franceses, que fizeram questão de nos contar tudo sobre aquele lugar. Depois de um delicioso jantar, servido e com as devidas explicações sobre a procedência de todo o alimento que serviram, vinho e queijos produzidos na região, fomos homenageados por três dos franceses que cantaram, em português, “Mas que nada” do Jorge Bem Jor. E, claro, virou uma festa!
A região onde está Le Sauvage é muito pedregosa. Por isso, as construções em pedra são a maioria. É árido e não tem nada além de fazendas. As cidadezinhas são muito pequenas e, às vezes, sem nenhum morador. E, aqueles que pensam que caminhar além do aconselhado no famoso guia “Miam Miam Dodo” podem se dar mal. Um esclarecimento, "Miam Miam", remete a comida e "Dodo", remete a lugar para dormir.
E esse foi o caso de um holandês. Ele vinha caminhando conosco e, quando chegou a Le Sauvage, disse que ainda era cedo e que iria andar mais um pouco. Descobrimos, depois, que o próximo gîte estava fechado e não tinha transporte por ali. O "besta" teve estender o saco de dormir no meio do nada, num frio intenso, com fome, e passar a noite ao relento. Quase congelou.
Nos dias seguintes, nós seguimos por um terreno com muita pedra, raízes e muito irregular, o que foi uma verdadeira tortura para os nossos pés. Fomos para St Alban sur Limangnole, Aumont-Aubrac, Nasbinals, St Cheli d’Aubrac. Nosso círculo de amizades foi aumentando. Encontramos mais franceses, que em suas curtas férias gostam de caminhar. E, acreditem, fomos ficando “famosos”. Afinal, não tinham ainda encontrado brasileiros que viajam milhares de quilômetros, todos os anos, só para caminhar por lugares onde turistas nem sonham em passar...
O alegre povo francês...
Seguimos fazendo novos amigos. Trocamos informações sobre novos caminhos e sobre a vida. Todos com a mesma paixão: viajar caminhando.
Fomos coletando histórias de vida, como de um senhor japonês, que já passava dos 70 anos. Quando nos encontrou disse que já tinha ouvido falar “dos brasileiros”. Contou que quando aposentou começou aprender francês e resolveu caminhar pelo interior da França para conhecer a cultura do país. Também o Phillipe, aquele francês que encontramos no segundo dia de caminhada, estava recém aposentado e resolveu caminhar por lugares que nunca tinha passado. Mas, o mais interessante foi ele dizer que quando jovem gostava de caminhar na Espanha, porque as pessoas eram mais receptivas e alegres. E ainda disse que o povo francês era mais reservado. Dias depois, fez “mea culpa”, reconhecendo que ele próprio não conhecia o seu povo.
Assim, seguimos nosso caminho para St. Côme d’Olt, Espalion, Golinhac, Conques. Passamos por fazendas, estradinhas e lugarejos incríveis. Apesar do sobe e desce nos divertimos com os amigos de estrada e com os moradores que fomos conhecendo. Em Golinhac, conhecemos a Claude que ficaria 5 meses caminhando com os seus dois burros. Ficamos num bangalô, com uma bela vista, de um sugestivo lugar chamado Bellevue.
Entre encontros e despedidas, porque poucas eram os que iriam até Saint Jean Pied de Port, seguimos para Conques, conhecida como uma das mais belas aldeias da França.
Conques é uma cidadezinha histórica e intrigante, pelo seu passado tenebroso, da época da inquisição. Contam que uma menina cristã de 12-13 anos foi colocada viva na fogueira, mas as chamas se apagaram. Então, foi decapitada. Tornou-se a mártir Saint-Foy. Suas relíquias estão guardadas na enorme abadia, do ano 1000. A cidade combina uma atmosfera medieval, o perfume insistente das glicínias, que florescem na primavera, e o vai-e-vem de turistas impressionados com a beleza do lugar. Um verdadeiro “anfiteatro natural”, com uma paisagem de tirar o fôlego dos que chegam caminhando.
A deliciosa culinária no interior da França...
Para quem gosta de gastronomia esta região é fantástica. É a região dos cogumelos, do Aligot, dos queijos Aubrac e azuis regionais, tipo Roquefort. É também a região do foie gras, trufas, salsichões, bons vinhos e do Armagnac.
Apesar de não sermos fãs do foie gras, por causa da sua cruel procedência, vimos muitas fazendas de criação de gansos. Como muitos gîtes oferecem a possibilidade de utilizarmos a cozinha, e com a facilidade de comprarmos todos estes produtos, não faltaram jantares deliciosos.
O único problema eram os finais de semana. Tudo fechava no domingo, por volta de meio dia, quando ainda estávamos caminhando. E na segunda feira, todos os mercados e boulangeries permaneciam fechados. Com isso, precisávamos nos manter abastecidos para dois dias, o que deixava nossas mochilas muito pesadas e as caminhadas muito mais cansativas.
Num domingo em Conques, tentamos nos abastecer com alimentos, mas, mesmo sendo uma cidade turística, o comércio fechou ao meio-dia. Improvisamos algo para comer e no dia seguinte só tínhamos pão, água e frutas secas.
Fomos para Livinhac, num caminho duríssimo. Logo de saída a trilha era quase uma escalada e sem muita sinalização. O sol esquentou muito e encontramos Delphine, uma chef de cozinha de Marsella, que se perdeu. Quase chegando ao nosso destino, como numa miragem, encontramos uma senhora servindo um kefir, com água gasosa, delicioso e refrescante para os que passavam. Ali encontramos a Maryam, uma iraniana e a Kat, uma americana que caminhavam juntas. Mais tarde conhecemos o Phil, também americano, e o Nels, um alemão sempre faminto. Formamos um grupo. Com exceção do Nels, ainda temos contato com os demais. Estamos sempre trocando informações sobre caminhos a percorrer e a caminhos já percorridos.
Enfim, chegando a Livinhac cada um foi para sua pousada. Nós chegamos no nosso gîte e na porta da casa encontramos um bilhete explicando qual era nosso quarto. Entramos sem problemas. Na maioria das vezes, as portas ficavam destrancadas. Encontramos “bombas de chocolate”, croissants e cervejas de boas-vindas, o que foi a nossa salvação. Estávamos famintos e não tínhamos mais pão nem água.
Por volta das seis da tarde a Christine, nossa anfitriã, chegou. Ficamos conversando e dissemos que iríamos sair para jantar. Ela ligou para o único restaurante da cidade e para a pizzaria para saber se estavam abertos. Estavam fechados. Era a maldita segunda feira. Christine ligou num outro gîte para saber se eles serviriam o jantar, mas informaram que o jantar era somente para os hóspedes. Mas, Christine deu um jeito na situação. Naquele dia jantamos com o casal, Gilbert e Christine. Foi um dos melhores jantares que tivemos. Comida ótima, conversa animada, muitos queijos e vinhos da região. Agradecemos muito. No dia seguinte, depois de um delicioso café da manhã, ainda saímos com frutas e croissants, oferecidos pelo casal. Ganhamos, além de uma noite agradável, novos amigos!
Santo Antônio Abade ou Merlin disfarçado?
Os dias seguiam felizes. Pouco a pouco fomos entrando na região do Vale do Lot, onde corre o rio com o mesmo nome. E, assim, passamos por Figeac, La Casagnole, Limogne-en-Quercy, Mas de Vers, Cahors.
Cahors é a cidade mais movimentada da região. A Ponte Valentre, do século XIV, é a mais visitada. Mas, são as centenas de vinícolas da região, que produzem o Vin de Cahors, principalmente Malbec, que são as uvas mais recomendadas. E são, verdadeiramente, muito bons.
No domingo de Páscoa chegamos em Les Cabanes. Fomos convidados a assistir a missa e ficamos muito honrados por termos nossos pés lavados pelo padre local, Jean-Jacques Kerveillant.
Seguimos, no dia seguinte, para Lauzerte, uma vila medieval, que fica bem no alto de uma montanha. A vista é linda, mas a subida foi sofrida. Como os gîtes já estavam cheios ficamos, com a Pauline, uma francesa que é musicista, numa casa ainda em reforma. Fizemos ali mesmo o nosso jantar e pela manhã fomos para Moisac, uma cidadezinha bem agradável.
De lá, seguimos, sempre ao lado de um canal, passando por Pomevic até St. Antoine, um lugarejo com pouco mais de 200 habitantes. Foi um ponto de encontro bem divertido, com alguns “gringos”, com direito a jantar improvisado, já que o lugar não tinha nenhum comércio. Foi uma verdadeira mistura de “Torre de Babel” com “Festa de Babette”.
O nome dessa aldeia é uma homenagem a Santo Antônio Abade, que mais parecia o “Merlin”. E quem sabe, além de santo também não fosse um mago? Conta a lenda que ele viveu longe de tudo, no deserto do Egito, e fortaleceu o seu corpo, vencendo o maligno com a sua fé. Como ele, a nossa fé nos faz seguir nossos sonhos, não só nas nossas caminhadas, mas em toda a nossa vida. Fé e foco! Este é o nosso lema para superarmos as dificuldades, viver os nossos sonhos e sermos felizes.
E numa das coincidências da vida, encontramos um suíço, o Claude, que trabalhou com o Helinho, na mesma empresa, no Brasil, há muitos anos. Quando dizemos que o mundo é pequeno, é a mais pura verdade.
Os Três Mosqueteiros, que eram quatro...
Seguimos para o trecho histórico Lectoure, La Romieu, Condom. Saímos com a temperatura de quase zero grau e mais tarde o calor foi intenso passando por plantações e sem sombra.
Lectoure é uma cidadezinha medieval, com pouco mais de três mil habitantes. E La Romieu é bem menorzinha, mas muito bonitinha.
Apesar do ponto alto de La Romieu ser a Colegiata, construída no século XIV, o que faz sucesso na cidade são as esculturas dos gatos. Dizem que em 1342 uma fome avassaladora obrigou as pessoas comerem os seus gatos. Alguns foram salvos. E esses, no ano seguinte, salvaram a população de uma praga de ratos que devoravam as colheitas.
Continuando o caminho, saindo de La Romieu no dia seguinte, fomos para Condom. Isto mesmo! Tirando proveito do nome da cidade, o mesmo para preservativos em inglês, um dos seus prefeitos inaugurou um museu de contraceptivos, que permaneceu aberto até 2005. Pena que já não existia mais.
Estávamos na região da Gasconha. Para quem conhece “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas, vai se lembrar que D’Artagnan, que era da região, encontrou em Paris os mosqueteiros Athos, Porthos e Aramis. Pois é, os três mosqueteiros, que eram quatro, ali se tornam cinco, seis ou quantos quiserem. Isso porque, ninguém resiste a uma foto junto da escultura dos mosqueteiros, que fica na praça central da cidade. E por que nós resistiríamos?
Bem, ali nos despedimos de Josephine, que estava voltando para sua casa em Lyon. E seguimos para Larresingle, onde fica uma das menores fortificações da França. Além da visita a essa fortificação, fomos muito bem recebidos por Martina, e seu fiel amigo cão Gandalf, em sua casa. Neste dia jantamos um autêntico Cassoulet e uma sobremesa que jamais pudemos esquecer... Iogurte caseiro, com calda de ameixas curtidas no Armagnac e por cima de tudo, um pouquinho mais de tudo. Maravilhoso! Estávamos na região do Armagnac, a 27 km de Eauze, onde na entrada da cidade vimos uma placa que dizia: Ville d’Éauze – capitale del’ Armagnac.
De Eauze fomos para Nogaro. O caminho foi tranquilo, passando por vinhedos e pelo Meridiano de Greenwich. Chegando lá, reencontramos o Phillipe, o francês de Paris, depois de muitos dias de caminhada. Ele estava feliz e animado, por já ter completado 24 dias do percurso.
Conversando com outras pessoas que estavam hospedados conosco e com o Christian e a Dominique, donos do hotel e gîte, Phillipe, que nos chamava de “globetrotters”, contou um pouco sobre as nossas viagens e andanças. O resultado foi que, mesmo reservando um lugar no gîte, fomos presenteados com a melhor suíte do hotel e com direito a um jantar nababesco. Foi uma noite e tanto. Fomos tratados com muita mordomia.
No dia seguinte, depois de um super café da manhã, e voltando à condição de caminhantes, seguimos para Aire-Sur-l’Adour, com chuva. Mas, no caminho de Aire-Surl’Adour para Pimbo, o inusitado aconteceu. Vimos três caças militares interceptando um pequeno avião.
Ouvimos o barulho ensurdecedor. Ficamos olhando e filmando a ação. Continuamos caminhando por um campo aberto. Depois de algum tempo, um helicóptero militar passou por nós. Foi adiante e voltou em nossa direção. Fez esta operação três vezes. Parecia que estavam nos checando. Depois viram que éramos apenas dois inofensivos caminhantes. Foram embora, mas deixaram esta história louca para contar.
Dias agitados se seguiram. De Pimbo para Uzan presenciamos 5 ou 6 javalis perseguindo um veadinho. Bem, o encontro com javalis não é nada interessante, mas desta vez o interesse deles era o pequeno veado e passamos despercebidos. Vimos coisas bem esquisitas nessa caminhada. Pelo menos nunca tínhamos visto um bidê móvel. Isso mesmo, no gîte de Maslacq, o bidê ficava debaixo da pia. Para usar era preciso puxar e depois voltar com ele para o mesmo lugar.
Terminando o Le Puy...
De Navarrenx para Aroue enfrentamos um vendaval terrível. De repente, escureceu. Virou noite. Galhos caíam das árvores, folhas vinham de todos os lados e a gente mal conseguia caminhar de tanto vento. Num certo ponto, entramos por um matagal para cortar caminho até a nossa hospedagem.
Foi a conta de chegarmos e a tempestade desabou. Um pouco depois chegaram duas suecas, encharcadas e assustadas com a chuva de granizo, trovões e raios. O Nels, o tal alemão faminto, também chegou, Igualmente encharcado e assustado. O lugar estava frio e os donos da casa convidaram a todos para ficarmos numa sala com uma lareira bem quentinha. Serviram um vinho e ficamos muito tempo uma boa conversa.
No dia seguinte, saímos ainda com chuva. Cortamos por um atalho para pegarmos a trilha. Num certo ponto encontramos um casal de australianos que estava voltando. Eles disseram que andaram duas horas e que, na direção que estávamos indo, não tinha absolutamente nada.
Estranhamos porque tudo indicava que aquele era o caminho correto. E seguimos. Mais a frente entendemos o erro que eles cometeram. O casal deu a volta na montanha, por um descuido num dos cruzamentos. Nós que já passamos por isso ficamos espertos e seguimos corretamente o caminho.
Seguimos para Ostabat. Tínhamos conseguido dois lugares para ficar, apesar do gîte estar lotado, por causa do feriado. O jantar foi uma festa, embalado por música basca, vinho e muita risada. No trigésimo segundo dia chegamos a Saint Jean Pied de Port. O caminho foi com muita chuva e frio, mas nem por isso deixou de ser bonito. O verde das matas, as casinhas brancas com portas e janelas vermelhas dos Países Bascos franceses são um charme.
Já em Saint Jean decidimos que cruzaríamos, mais uma vez, os Pirineus. No dia seguinte, atravessamos sem pressa o portal de saída da cidade e subimos em meio a um bando de peregrinos, começando o Caminho Francês.
A diferença é que já sabíamos das dificuldades que encontraríamos nessa subida. Mas, fomos curtindo todo o caminho. O tempo, dessa vez, estava lindo. E chegamos em Roncesvalles. Depois, fomos até Pamplona. De lá, seguimos de trem para Zamora e pegamos o Caminho Sanabrés, evitando o turbilhão de gente do Caminho Francês.