
Caminho do Norte:
Irún a Santiago de Compostela
Vamos ver o Mar Cantábrico...
Em abril de 2015 iniciamos a nossa nova caminhada. Desta vez, foi o Caminho do Norte, ou Caminho da Costa, porque vai ladeando o Mar Cantábrico, o País Basco, Cantábria, Astúrias, entrando na Galícia. A beleza é indescritível, mas a dureza do caminho é na mesma proporção da sua beleza. É um caminho bem mais vazio. Com isso, tivemos a oportunidade de caminhar com algumas pessoas do local e as amizades, com os outros caminhantes, se estreitam mais, porque parávamos sempre nos mesmos lugares. Esta é a vantagem de percorrer caminhos não muito movimentados.
Saímos de Irún, na fronteira França/Espanha, para San Sebastian (Donostia para os Bascos), Zarautz, Deba, Markina (Xémein). Foram estes os quatro primeiros dias, sempre avistando o mar.... subindo, subindo, subindo... descendo, descendo, descendo. De cara já percebemos como este seria um caminho difícil.
Dois fatos nos marcaram nesses quatro dias de caminhada. O primeiro foi a chuva de granizo que enfrentamos de Donostia a Zarautz. Caía muito granizo enorme na nossa cabeça até que uma pessoa do local passou de carro e nos socorreu. Não estávamos muito longe do nosso destino, talvez uma hora e meia de caminhada, mas não tinha como nos esconder da chuva e estava perigoso caminhar. Só lembrando, esses outros caminhos para Santiago têm menos infraestrutura do que o Caminho Francês.
Entramos num carro bem velho, com tanta tralha dentro, mas pelo menos nos salvamos das pedradas na cabeça. No meio do caminho, vimos uma coreana, sozinha que tínhamos conhecido mais cedo. Pedimos para o rapaz parar, mas não tinha como ela entrar no carro. Não cabia mais nada dentro daquela “lata de sardinha”. Seguimos adiante, e o remorso nos perseguiu. Depois comentando com ela, sorriu e disse-nos: “- não se preocupem. Eu sobrevivi”. E nos abraçou.
Dois dias depois, enquanto caminhávamos de Deba a Markina (Xeméin), paramos na Ermita Calvário da Maia. Uma gatinha veio nos acarinhar. Depois apareceu um cachorro, que corria na nossa frente, parecendo que queria mostrar algo. De repente, também apareceu um outro cachorro branco, enorme, e ficou ao nosso lado. Ele nos seguiu por 5 km. Num certo instante, já preocupados porque o cachorro não parava de nos seguir e, ao cruzar uma porteira, o deixamos do outro lado, sem que ele conseguisse atravessar e vir conosco. Ficamos com muito pesar, mas não podíamos mais seguir com ele. Mas, vimos que o cachorro tentava passar por baixo de um arame farpado. Voltamos correndo e, abrimos a porteira.
Mais a frente ele foi o nosso anjo da guarda protetor. Foi quando passamos num pasto com muitos touros bravos. A porteira estava aberta e um deles escapou. Estava do lado de fora. Ficamos parados com medo e pensando o que fazer, porque o touro estava bem no nosso caminho. De repente, nosso anjo da guarda se pôs na frente do touro para que pudéssemos passar.
Continuamos caminhando e o cachorro nos seguindo. Num certo ponto, paramos num pequeno bar de um lugarejo. Já muito preocupados, perguntamos a uma senhora, se ela conhecia aquele cachorro. Ela disse que não, mas que chamaria a polícia para identificá-lo. O cachorro se deitou e, de longe ficou nos olhando, enquanto tomamos um café... Depois, se levantou, deu a meia volta e sumiu no caminho...
A Guernica de Pablo Picasso e o Padre Ernesto...
Chegamos a Guernica, cidade que originou o nome de uma das famosas obras de Pablo Picasso. Esta obra, pintada a óleo em 1937, foi criada em resposta ao bombardeio na cidade. Era uma “declaração de guerra contra a guerra e um manifesto contra a violência”.
Nos dias seguintes fomos reencontrando os amigos pelo caminho e tivemos a oportunidade de conhecê-los melhor. A Sol (coreana), o Frank (alemão), o Anthony (um inglês, criado nas Astúrias), um espanhol local e outro ali, que iam nos ensinando um pouco mais sobre a região e os seus costumes. Passamos por Lezama, antes de chegarmos a Bilbao.
Bilbao é uma cidade portuária linda. O Museu Guggenheim é um dos lugares mais visitados da Espanha. Seu projeto teve como objetivo a revitalização da cidade e, hoje, recebe visitantes de todas as nacionalidades. De Bilbao seguimos para Portugalete, atravessamos o rio numa espécie de “ferry-boat suspenso”. Do outro lado, as “rampas rolantes” na subida de suas ruas íngremes foram um bálsamo para o nosso cansaço.
Começamos a deixar o País Basco. Entramos em Castro-Urdiales, já na Cantábria, depois Laredo e, no meio do caminho, encontramos o Eduardo, um local, que nos sugeriu que o acompanhasse por um caminho que não era o que tínhamos programado. Seguimos Eduardo e não arrependemos. Foi uma ótima caminhada com uma paisagem linda.
No dia seguinte, em direção a Güemes, o caminho foi bem diferente. Para seguir adiante era necessário fazer uma travessia de barco. Nesta travessia encontramos o Othman, um suíço que tinha um irmão gêmeo. E pasmem, o irmão era dentista e morava em Belo Horizonte. A afinidade foi instantânea. Trocamos números de telefone, mas quando voltamos para BH nunca encontramos o irmão dentista. Mas, isso por um descuido nosso...
Pois bem, já sabíamos que o caminho até Güemes era muito longo. Descemos do barco conversando com a Cindi, uma norte americana de Ann Arbor, local que costumávamos ir fazer compras na Cabela’s, quando vivemos em Ohio. Mas, um fato bem estranho aconteceu. Erramos o caminho original, mas encontramos um outro caminho muito mais curto para Güemes, que não constava em nenhum dos mapas que tínhamos.
Enfim, chegamos num lugarejo especial, com pessoas especialíssimas. Era domingo e a missa estava terminando. Entramos na igreja e o padre Ernesto veio falar conosco. Pegamos o carimbo na nossa credencial e o padre perguntou se ficaríamos no albergue da igreja. Dissemos que já tínhamos marcado com a Maria e o Thomas para ficar na casa deles. Como todos por ali eram conhecidos disse que ficaríamos bem acomodados. E, nos convidou para jantar no albergue. Aceitamos e fomos para a pousada.
O lugar, a casa e o casal era tudo muito legal. Não poderíamos ter feito escolha melhor. Já fomos recebidos com uma cerveja bem gelada. Ficamos ali conversando até que eles nos levaram até o albergue para o jantar.
O padre Ernesto, simpatizante da “Teologia da Libertação”, era amigo do bispo catalão que vivia no Mato Grosso (Pedro Casaldáliga), desde 1968. O padre era um viajante compulsivo e nômade como nós. Já tinha visitado o Brasil. E como nós, tinha um Land Rover Defender, Série I, muito antigo e conservadíssimo. Junto com outros viajantes ouvimos histórias, vimos fotos e conversamos até muito tarde. Já passava da meia noite quando voltamos para a pousada.
No dia seguinte, bem cedo, acordamos sem nenhum cansaço, tomamos o café da manhã, nos despedimos e seguimos felizes por tanto carinho daquela gente, daquele lugar no meio do nada chamado Güemes.
Santander sem brilho...
Seguimos para Santander numa paisagem linda. Encontramos com o Fernando, um argentino, e o José, espanhol de Ceuta, mas que vivia em Algeciras. José nos divertia com suas histórias sobre a Andaluzia. Como nesse caminho as opções de paradas para um café eram poucas, passamos o dia de caminhada procurando um bar. Mas, quando avistávamos algum lugarejo, a sinalização, que indica o caminho, sempre apontava para o lado oposto. O argentino xingava muito, o que nos fazia rir bastante.
Para chegar a Santander tínhamos que atravessar a baía num barco. Por isso, a única preocupação era chegar a Somo em tempo suficiente para não perder o barco. Como este caminho tinha poucos caminhantes, fomos relaxando com as reservas de pousadas, albergues etc. Tínhamos uma lista de locais para ficar, mas ligávamos sempre perto ou quando chegávamos no lugar. E não foi diferente em Santander, que era uma cidade grande.
Estava muito frio e o tempo chuvoso, quando atravessamos a baía de Santander. Em frente ao porto tinham restaurantes, bares e um mercado. Enfim, era nossa hora de achar um lugar para passar a noite. Estava tudo lotado. Finalmente, encontramos uma pousada, não muito distante dali. Depois de vai e vem pelos quarteirões adjacentes, achamos a tal rua. Chegando perto do hotel, vimos que era um prédio muito, mas muito velho. Tinha uma mulher muito esquisita na janela que, ao avistar-nos, já foi logo gritando: “- é aqui... é aqui...”. Não tínhamos como desistir.
Subimos as escadas e... Putz, era muito ruim. Mas, onde ficaríamos, se todos os lugares que procuramos estavam cheios. Só sobravam os hotéis muito estrelados e aquela espelunca.
A mulher fez as recomendações, deu as chaves. Não tinha ninguém na pousada, e nem no prédio. Estendemos o nosso saco de dormir na cama e “listo”. Tomamos um banho bem mais ou menos, num banheiro improvisado dentro do quarto, e fomos conhecer um pouco da cidade.
Antes de voltar, passamos num supermercado. Sentimos que toda aquela alegria do dia anterior e da caminhada tinha acabado ao chegarmos em Santander. Fomos seguidos pelo segurança dentro do supermercado. Estávamos com uma pequena mochila, que sempre carregamos com documentos e dinheiro, e colocamos as compras. A moça do caixa pediu para revistar a mochila. E o segurança ao lado. Subiu uma raiva... Depois de muita briga, quase fomos parar na Polícia. Só não fomos porque o Helinho achou que seria muito estresse e que passaríamos por uma situação ainda mais desagradável. Fomos embora, putos, e ainda tivemos que passar a noite na espelunca vazia, que mais parecia um “puteiro”.
Ainda bem que estava vazia, porque não sabemos que tipo de hóspedes estariam dormindo ao nosso lado... Santander ficou nos devendo... Um dia teremos que voltar para tirar a má impressão.
Avistando os Picos da Europa e um estranho caminhante...
Deixando para trás os contratempos de Santander, o caminho continuava lindo. E, o ponto alto foi avistar os Picos da Europa. Em meio à paisagem verde das florestas e as águas verde azuladas do mar, erguem-se os Picos da Europa, uma formação montanhosa calcária, que atingem altitudes acima de 2.500 metros, com neve permanente.
De Santander à Santillana del Mar, apesar de caminharmos num terreno mais plano, a distância era longa, mais de 40 km. Chegando em Santillana, ficamos numa pousadinha que era, praticamente, um museu. Super bacana, assim como toda pequena vila medieval. Encontrando os nossos companheiros de caminhada percebemos que estávamos muito bem, depois de 12 dias caminhando, sem bolhas nem dores, ao contrário de alguns deles.
Assim, seguimos no dia seguinte, numa manhã linda, até Comilla, outra cidadezinha interessante que convive, harmoniosamente, com construções medievais, barrocas e modernistas, à beira mar. No outro dia, fomos para Unquera e no caminho ficamos maravilhados com o cenário fantástico dos picos nevados. Unquera é uma pequena vila à beira de um braço do mar. A partir dali começamos deixar a Calábria e entrar no Principado das Astúrias.
Nosso décimo quinto dia começou com chuva e uma subida íngreme. A paisagem era bucólica. No meio do caminho, paramos para um café numa pousada, bem num cruzamento do “Camiño del Norte” e de uma GR (GR, na Espanha, Gran Recorrido. São trilhas numeradas que cruzam, não só a Espanha, mas toda a Europa). Aconselhados pelos donos da pousada, seguimos pela GR. O caminho era um pouco mais longo, mas era mais bonito e ambos chegariam a Lhanes, nossa próxima parada.
No dia seguinte, fomos para Ribadesella. No meio de uma trilha bem estreita, encontramos um caminhante e paramos para conversar. Ele tinha um papo bem esquisito. Queria saber quanto estávamos gastando, quanto tínhamos de dinheiro... Disse achar estranho uma mulher caminhando. Enfim, muito diferente de todas as pessoas que tínhamos conversado até então. Não fomos muito com a cara do sujeito. Desconversamos e procuramos andar mais rápido e distanciar. Acho que foi a primeira vez que ficamos bem incomodados com alguém. Não sabemos qual era a intenção dele. Depois, conversando com outras pessoas que o encontraram, a sensação que eles também tiveram batia com a nossa. Depois disso, não o vimos mais, mas tivemos a certeza de que a nossa desconfiança foi um sinal de alerta.
Quando caminhamos nossos sentidos ficam aguçados para observar, admirar, sentir... Enfim, vivenciar o caminho. E, qualquer situação dissonante é um sinal de alerta. Certamente, foi o que aconteceu.
Peregrinos perdidos...
Além de deixar a Cantábria para trás, deixamos também o mês de abril. E, a primavera já começava a dar o ar da graça. Apesar das chuvas, dos primeiros dias de caminhada nas Astúrias, as flores pipocavam por todos os lados.
Na saída de Ribadesella para Colunga, o cenário estava lindo com uma fina camada de neblina encobrindo o rio. Nesse dia reencontramos várias pessoas, um casal de holandeses, o casal de alemães, o argentino, o espanhol de Ceuta. Aproveitamos a caminhada para nos divertir, contar piadas, dar risada. Aquela poderia ser uma das últimas vezes todos juntos, naquele caminho. Depois de Colunga viria Villaviciosa, um entroncamento do Camiño del Mar e Camiño Primitivo. Alguns continuariam pela Costa, chegando em Gijón. Outros iriam para o Camiño Primitivo, passando por Oviedo. Nós não sabíamos ainda o que iríamos fazer. Deixamos passar o tempo para decidir depois.
Algumas pessoas diziam que o Caminho Primitivo era um caminho duro, mas muito bonito. Já o da Costa, não mudava muito a paisagem até entrar para a Galiza. Naquele momento, a nossa preocupação era não ter que enfrentar muito barro. As Astúrias são bem úmidas e as últimas chuvas deixavam muito barro no caminho.
Chegamos, no outro dia, em Villaviciosa e era hora da decisão. Dormimos, ainda sem saber por onde iríamos. Mas, pela manhã nós dois acordamos decididíssimos a continuar pelo Caminho do Norte. O nosso raciocínio foi que, se seguíssemos para o Primitivo, não voltaríamos mais para continuar o Caminho do Norte. Foi aí que decidimos que, no próximo ano, voltaríamos a Espanha para fazer o tão falado, lindo e duro Caminho Primitivo.
Seguimos para Gijón, uma cidade grande, mas muito bonita. Gijón é daqueles lugares que a gente tem vontade de ficar mais um pouquinho e depois voltar... Mas, no dia seguinte seguimos em frente, para Avilês que ficava 22 km dali.
Saímos cedo, como de costume. O clima era agradável. Paramos no caminho para bater um carimbo na credencial, que ficava numa mesinha fora de uma casa. Seguimos adiante. Num certo instante, achamos que a sinalização estava mal-feita, mas continuamos o caminho. Chegamos no topo de uma montanha, numa área de reflorestamento de Eucalipto. A paisagem era sempre igual. A sinalização sumiu completamente. Começamos a descer a montanha. Vimos umas poucas casas.
Paramos e perguntamos se estávamos muito longe de Avilês. Uma senhora e um senhor, bem velhinhos, nos disseram que estávamos muito longe e apontaram para a montanha, dizendo que teríamos que cruzá-la. Não fazia sentido porque estávamos vindo de lá. Continuamos a andar e vimos um rapaz de moto. Perguntamos para ele qual era a distância até Avilês. Ele respondeu que seria uns 26 km. Não acreditamos porque Avilês ficava 22 km de Gijón. Como poderíamos estar a 26 km de Avilês? O esclarecimento veio depois. Estávamos próximos a Gijón...
Quando carimbamos a nossa credencial, perdemos a sinalização correta e seguimos outra sinalização da empresa de reflorestamento. Cruzamos a montanha reflorestada e retornamos para Gijón... Ou seja, fizemos um caminho circular e o jeito seria começar tudo de novo. No dia seguinte, seguimos para Avilês, pela segunda vez...
O Mestre Sr. Higino...
Desta vez deu certo e chegamos a Avilês. A cidade é muito agradável, mas erramos, desta vez no lugar de ficar. Hotelzinho muito ruim, para não falar outras coisas. Mas, o dia seguinte foi compensado com uma caminhada que começou com chuva rápida, um reencontro com o espanhol de Ceuta, o argentino e uma alemã que da mesma forma que apareceu sumiu de novo. Só nós resolvemos ficar em Muros de Nalón.
Ficamos numa pousada excelente. Lavamos toda a roupa, tênis, mochila e colocamos tudo para secar ao sol. Ficamos ali, lagarteando numa espreguiçadeira, num gramado enorme e com uma vista linda. Só saímos para fazer umas compras rápidas, num supermercado. Tivemos absolutamente tudo que precisávamos. Foi um dia muito agradável.
Seguimos, depois de um café da manhã delicioso. Saímos muito limpinhos, mas o caminho foi de muito barro. Quando chegamos em Oviñana, o endereço da pousada era num bar coberto com uma lona e cheio de homens. Paramos na porta e não queríamos acreditar que era ali que ficaríamos. Mas, uma senhora simpática veio nos receber. Só aí entendemos que a nossa hospedagem era num apartamento, no prédio ao lado. Tudo era muito limpo, com uma varandinha de onde curtimos o verde ao redor e tomarmos o nosso vinho bem sossegado...
Dia seguinte, pé no caminho, novamente. Dessa vez, encontramos um senhor que era de uma associação do Caminho de Santiago nas Astúrias, que nos recomendou ficar em Cadavedo, perto de Villa de Moros. Chegando próximo, encontramos um outro senhor que ofereceu a sua pousada para ficarmos. Decidimos ir para lá, mas o lugar não tinha nada por perto. Comentamos que precisaríamos passar num supermercado, o que foi prontamente providenciado. Fomos de carro e depois nos instalamos num lugar super bonito, com fogão, geladeira e tudo mais que precisávamos para um ótimo jantar.
De lá, fomos para Luarca. No caminho, quando cruzamos um matagal, passando debaixo de árvore caída, barro e galhos quebrados, avistamos, de longe, um senhor olhando em nossa direção. Pensamos que era o dono da fazenda que invadimos. Fomos chegando, meio ressabiados, quando o senhor veio falar conosco. O nome dele é Senhor Higino.
Ele já devia estar perto dos 80 anos. Perguntou por que estávamos passando pelo mato. E nós dissemos que estávamos seguindo a sinalização. Ele riu e disse, “- que povo imbecil. O caminho por cima é bem melhor”. E era a mais pura verdade.
Seguimos caminhando com ele que contou que todos os dias, antes do café da manhã, caminha 5 km para tomar um cafezinho num lugarejo e depois volta os 5 km para “desayunar” em casa. Trabalha no campo, inclusive aos domingos. Por volta das 4 da tarde vai a praia, que fica distante a uns 3 km. Fizemos as contas de quanto esse senhor andava por dia e entendemos a disposição do senhor Higino e, consequentemente, o bom humor.
Cada um faz o caminho como quer. Nós, fazemos o nosso caminho conversando e, principalmente, ouvindo e seguindo os bons exemplos das pessoas que vamos conhecendo. É por isso que até hoje priorizamos, sempre que podemos, uma boa caminhada. Seguimos o bom exemplo e conselho do “nosso mestre Senhor Higino”.
As três bruxas avarentas...
No nosso vigésimo quinto dia de caminhada, chegamos em Navia, última cidade das Astúrias. Ali já vimos as tradicionais casas de pedra da Galícia e ouvimos o galego. No meio do caminho, fomos abordados por uma repórter de uma emissora de TV, que perguntou sobre o que pensávamos da mudança repentina do clima. O Helinho se saiu muito bem ao responder. Isso porque, o galego é muito próximo do português. Agora, se foi ao ar, nunca soubemos...
Continuamos o caminho pela costa. No dia seguinte, chegamos em Lourenzá. Ao chegar na pousada, no meio da tarde, sentimos o cheirinho delicioso que vinha da confeitaria da proprietária. Paramos para nos apresentar e fomos recebidos com as deliciosas guloseimas.
De Lourenzá o nosso próximo destino foi Abadin. Este foi um dia duro. Dos 25 km de caminhada, a metade era só de subida. Apesar disso, caminhar alguns quilômetros com um morador das redondezas, muito divertido, ajudou a vencer este duro caminho. Depois seguimos nos distraindo com um cavalo dócil aqui, outro cachorro ali... até chegarmos a Abadin, um lugarejo bem pequeno, com uma tradicional paisagem galega.
Nossa próxima parada foi Villalba. Chegamos na cidade e, na rua principal, vimos uma pousada, “Pensión Andoriña”. Da porta vimos que o chão era todo em mosaico, num desenho lindo. Entramos e uma senhora bem idosa nos recebeu. Ali, vendiam licores e tortas de amêndoas. O cheiro das amêndoas torradas, meio adocicado, era tentador. Não pensamos duas vezes e decidimos que ficaríamos lá. Pagamos a diária e a senhora idosa anotou num imenso livro de contabilidade. Ela chamou uma das irmãs, a mais velha, que estava na cozinha torrando as amêndoas. Eram 3 irmãs bem velhinhas. Apesar da idade, esta senhora que nos acompanhou até o quarto, era bem esperta. Subiu as escadas rapidinho e disse que nos daria um quarto grande e de frente.
De fato, o quarto era grande e de frente. A mobília era da idade delas, bem antiga. Pedimos a senha do WiFi e ela perguntou o que era isso. Ah, tudo bem... pensamos. Quando ela saiu, fomos vistoriar melhor o quarto. O banheiro não era um primor de limpeza. Debaixo da cama, tinha uma teia de aranha enorme. Ficamos incomodados e resolvemos dar uma volta e pensar o que fazer.
Ficamos com pena de sair da pensão. Pensamos nas três senhorinhas idosas... Foi aí que vimos, na esquina, um hotel novinho e resolvemos perguntar quanto era a diária e se tinha lugar. Contamos que já estávamos hospedados, na Pensión Andoriña, e a dona do hotel soltou uma gargalhada. Ela disse que as “três distintas senhoras” eram ricas, donas de muitos prédios e que eram muito avarentas. Cobrava sempre mais caro. Então, decidimos mudar para o hotel.
Pensamos como fazer e resolvemos dizer para as “senhorinhas avarentas” que não ficaríamos na cidade porque ainda era cedo, e que encontramos amigos que nos convenceram seguir caminhando com eles, bla, bla, bla... Elas ficaram com muita raiva, se transformaram. Reuniram, as três, na cozinha. Voltaram e disseram que não devolveriam o dinheiro. Usamos todos os nossos argumentos, até que elas aceitaram, mediante o pagamento de uma multa.
Não tivemos outra alternativa senão aceitar a condição. Colocamos as mochilas nas costas e elas foram para porta certificar se estávamos indo embora mesmo. Tivemos que ser firmes e dar uma enorme volta para entrar no outro hotel. A partir daí, não podíamos mais passar em frente a pensão, que ficava na rua principal. Passamos o dia nos escondendo delas... E, a toda hora tínhamos a impressão de que as três estavam nos espionando... Isso é que dá mentir! Isso é que dá ir pelas aparências. As três senhorinhas boazinhas, na verdade, não passavam de três bruxas avarentas que cruzaram o nosso caminho... (kkkkk)
O fim do Caminho do Norte...
Trigésimo dia de caminhada. Fomos para Baamonde, cruzando fazendas, tendo como companhia alguns cachorros bem dóceis. Reencontramos, em Sobrado dos Monxes, o nosso amigo inglês, que não víamos desde os primeiros dias de caminhada. No dia seguinte, foi bem difícil sair da cama. Estávamos bem cansados. Mas, era hora de seguir adiante. Sabíamos que já estávamos próximos de alcançar a nossa primeira meta, Santiago de Compostela.
Nos primeiros quilômetros desse caminho, encontramos um espanhol e um coreano que, enquanto pedíamos um “café con leche” eles já estavam com uma jarra de vinho. Foi o espanhol que nos ensinou que “con pan y vino se anda el camiño”, o que nunca mais nos esquecemos.
E continuamos nossa caminhada, até que, antes de chegar em Arzua, onde o Caminho do Norte se encontra com o Caminho Francês, vimos o totem de “km zero”. Bateu uma tristeza sem fim... Paramos ali e choramos. Parecia uma despedida. Um final. Uma saudade. Uma vontade que não tivesse acabado assim tão de repente. Dali para frente caminharíamos com muitas outras pessoas. Como na vida, caminhamos com e entre muitas pessoas, cada um com seus pensamentos e seus objetivos. Seguimos, juntando ou repelindo, mas indo... Não tinha como parar o tempo. Era isso mesmo. Encaramos e fomos adiante.
No dia seguinte, seguimos com todos os “peregrinos”, “bicigrinos” e “turisgrinos” do Caminho Francês, em direção a Pedrouzo, nossa velha e boa conhecida última cidade antes de Santiago de Compostela. Lembramos que no ano anterior nós fazíamos parte daquela massa que seguia eufórica. Mas, desta vez, estava sendo diferente. Não queríamos chegar rápido. Fomos devagar. Saímos cedo de Pedrouzo, para passar ainda noite na floresta, porque era mágico. Quando saímos da floresta, abriu-se um horizonte, com o dia amanhecendo tão lindo e inesquecível... E fomos a passos lentos. Antes de chegar ao Monte do Gozo, paramos num café. Lá conhecemos uma francesa que nos falou de um novo caminho, o Le Puy. Achamos interessante e guardamos a dica.
De qualquer maneira, chegar a Santiago de Compostela é sempre uma emoção. E desta vez, a emoção foi quando vimos um caminhante, que havíamos encontrado dias antes, num caminho muito duro, difícil mesmo. Ele caminhava parecendo que estava com muita dificuldade. Nos preocupamos e, apesar de cansados, oferecemos nossa ajuda para carregar a mochila dele. Ele nos olhou, muito sorridente, com ar bem descansado e disse: “gracias. Estoy bien, muy bien”. Só aí vimos que ele tinha um grave problema físico, mas que não foi um empecilho. Ele queria seguir caminhando, por ele mesmo, sem ajuda.
Ali concluímos que “caminhar” não é nenhum mérito nosso. Por isso, quando alguém nos pergunta como conseguimos caminhar mais de mil quilômetros respondemos que é só ter vontade, dar o primeiro o passo e seguir. Nós conseguimos. Todos conseguem, se quiserem.
Chegamos a Santiago de Compostela, mais uma vez. Nos emocionamos novamente, cumprimos nossos rituais na Catedral. Mas, desta vez, Santiago não foi o final do caminho...
Caminhando até o “Fim da Terra”...
Aliviados das tensões e das confusões de sentimentos da chegada a Santiago, no dia seguinte, bem cedinho, saímos para caminhar até Finisterra, passando por Muxia. A cidade ainda estava vazia. De longe avistamos a Catedral, por outra perspectiva.
Pouco a pouco fomos percebendo outras pessoas que, como nós, ainda não estavam prontos para parar de caminhar. Como disse antes, este era um caminho Celta. O destino dos “peregrinos” era Finisterra (ou Fisterra). O caminho significava a viagem do sol, que ia do leste a oeste da Espanha, e que morrendo no oceano renascia no dia seguinte, significando o renascer da vida. Assim, os peregrinos, que por ali passavam, carregavam o seu próprio peso em direção ao final da terra (Finisterra). Ao chegarem lá, acediam suas almas ao céu e renasciam, voltando leves e felizes. Havia ainda o ritual de queimar as roupas usadas no caminho, o que significava romper com a velha vida e renascer para uma vida nova, rememorando a antiga crença Celta.
Bem, seguimos para Negreira e, no dia seguinte, para Olveiroa, onde o caminho bifurca em direção a Finisterra e Muxia. Nós seguimos para Muxia. Este é um lugar cheio de lendas. Dizem que onde está situado o Santuário da Virgem da Barca, foi onde ela apareceu para o apóstolo Tiago, num barco de pedra puxado por anjos. A partir daí outra lenda surgiu, ligado a um conjunto de pedras, Pedra de Abalar (corpo do barco), porque balança e é tipo um oráculo, a Pedra dos Quadris (a vela do barco), a mais famosa e que tem fins curativos. Se você passar debaixo dela 9 vezes se cura das suas enfermidades. E a Pedra do Timón (leme do barco).
Era o dia 24 de maio. O dia foi muito especial. Mais uma vez, o aniversário da Vera. Dessa vez em meio a tanta magia. Saímos cedo de Muxia, chegando, depois de 6 horas de caminhada, a Finisterra em meio à procissão de N. Sra. do Bom Sucesso. Mais significativo não poderia ser! Subimos até o Farol, o “KM Zero”, e, como os Celtas acedemos nossas almas ao céu e renascemos. Pegamos um ônibus, à tardinha, para Santiago. E assim, num só dia, tivemos a oportunidade de comemorar o aniversário, nas três principais cidades: Muxia, Finisterra e Santiago, onde jantamos e celebramos a nossa NOVA VIDA!