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Caminho Primitivo:

Oviedo a Santiago de Compostela

Tudo era lindo, maravilhoso... com chuva, barro, neblina, frio...

No ano seguinte ao “Caminho do Norte” ou “Caminho da Costa”, mais precisamente, no dia 09 de abril de 2016 partimos de Oviedo, na Espanha, para o “Caminho Primitivo”, decisão esta tomada na bifurcação de Villaviciosa, no ano anterior. 

No ano seguinte ao “Caminho do Norte” ou “Caminho da Costa”, mais precisamente, no dia 09 de abril de 2016 partimos de Oviedo, na Espanha, para o “Caminho Primitivo”, decisão esta tomada na bifurcação de Villaviciosa, no ano anterior. 

Como este era um caminho mais curto, resolvemos também caminhar na Costa Alentejana e Algárvia em Portugal, a Rota Vicentina/Trilho dos Pescadores, que relataremos em outro tópico. 

Às vezes, as pessoas perguntam qual caminho é o mais bonito. Todos os caminhos são bonitos. São diferentes, mas esse Caminho Primitivo, estranhamente, nunca conseguimos entender muito bem. Foi muito duro e ainda mais difícil por causa da chuva, frio, neblina, barro e bem solitário. 

Seguimos pelas montanhas, entre a Cordilheira Cantábrica e a Baía de Biscay, nas Astúrias, entrando pelo noroeste da Galícia, na zona rural de A Fonsagrada. 

A saída de Oviedo foi bem confusa. Houve um incêndio, no dia anterior, e onde tinha a sinalização do caminho, a rua estava fechada, inclusive para pedestres. Depois de muitas idas e vindas pela cidade, tentando achar a saída, um senhor nos levou até o lugar onde estava a sinalização. Caminhamos debaixo de chuva até Grado. No dia seguinte, foi debaixo de neblina, frio, chuva, sol, lama, subidas, mas com uma paisagem linda até Salas. Nesses dois dias encontramos um único caminhante, o Emily, de Mayorca. 

O mais engraçado era que, em meio aquele visual de muita neblina, Emily sempre aparecia de algum lugar. Parecia uma visão de outro mundo. Quando pensávamos que ele vinha caminhando atrás de nós aparecia na nossa frente e nos assustava. Começamos a chamá-lo de “flutuante”. E assim, entre as visões do nosso amigo “flutuante”, dos picos nevados e de uma paisagem deslumbrante seguimos até Tineo, um lugarejo lindo e bucólico.

A partir dali, já estávamos completamente no clima do caminho, sem noção do tempo, sozinhos, passando entre florestas e rios, frio, chuva, subindo e descendo montanhas em meio a névoa, numa paisagem misteriosa, mas cheia de vida! 

O alemão e o fantasma flutuante...

O ar misterioso da neblina, de vez em quando, dava uma trégua, o que nos permitiu algumas boas fotos. O caminho de Pola de Allande a Berducedo nos fascinou. Andamos por muitos quilômetros no leito de um pequeno rio. Os cristais e as pedras cobertas com musgos eram verdadeiras esculturas da natureza. Um espetáculo! Um cenário, igualmente lindo, foi quando subimos uma montanha enorme com muitas pedras e pinheiros. 

Íamos em direção a Grandas de Salime sob muita chuva e um vento fortíssimo. Num certo instante, tivemos que nos abrigar num pequeno albergue, onde encontramos alguns caminhantes que não estavam dispostos a enfrentar aquele mal tempo. Como já estávamos muito molhados, resolvemos seguir adiante. Mais tarde, com a chuva já parando, fomos tomar um café num restaurante ao lado de uma represa, a Embalse de Salime, quando entrou um senhor alemão. Pediu uma cerveja e ficamos conversando, ele em alemão e nós em português. O alemão não falava uma palavra em inglês ou espanhol. Mas, foi amizade à primeira vista. Fomos nos encontrando pelo caminho, trocando ideias geniais, cada um na sua língua. Conversa de malucos. 

Enfim, chegamos a Fonsagrada, já na Galícia. A chuva era tão intensa, que acabamos nos perdendo porque não vimos a sinalização. No dia seguinte, foi igual, chuva, neblina, pé molhado, barro, encontro com o alemão, encontro com o “flutuante” ... Nosso destino era O Cádavo. Às vezes, São Pedro achava que éramos merecedores de uma trégua da chuva. Mas, a chuva já fazia parte do cenário e não nos incomodava mais. 

Chegamos em Lugo, uma cidade grande, que conserva a sua muralha romana em todo o seu perímetro. Apesar de cansados, ainda caminhamos muito para não perder nada daquela cidade histórica. No dia seguinte, com um frio de 2 graus, deixamos a cidade rumo a San Roman de Retorta, sempre encontrando o nosso amigo “flutuante”, que aparecia e desaparecia do nosso caminho, o que nos fez crer que ele era mesmo um fantasma... Esse era o último trecho antes de, mais uma vez, encontrarmos com o Caminho Francês, agora em Melide... 

Fim de um caminho intenso...

San Roman de Retorta tem apenas um albergue e uma paisagem maravilhosa. Nada mais. É um lugar que reúne todos caminhantes. De lá, o nosso destino foi Melide, cidade conhecida pelos restaurantes que serviam o “melhor polvo” do caminho. Apesar do encontro com o Caminho Francês, dessa vez, não foi desgastante para nós. Não estava muito cheio como no ano anterior. Talvez, por ainda ser o mês de abril, começo da temporada das caminhadas na Europa. 

Seguimos, por um tempo, com uma nova amiga de Málaga, Begoña ou Begô, como gostava de ser chamada. Foi divertido. 

A dois dias de Santiago de Compostela baixou um banzo nos dois. Cada um na sua, com seus pensamentos. De Arzua a Pedrouzo a caminhada foi boa, sem chuva, mas tentando entender o que estava acontecendo. A verdade é que perdemos o foco.

Como das outras vezes, acordamos bem cedinho em Pedrouzo, para passar na nossa floresta mágica, que se abre, no amanhecer, num horizonte incrível. A lua estava cheia. Linda! Caminhamos num silêncio absoluto. Nenhum comentário. Nada. Apenas quando chegamos a Santiago de Compostela não pudemos nos conter. A alegria e a emoção tomaram conta dos dois e, sem entender o que tinha acontecido, ficamos bem. Fizemos nosso ritual na Catedral, assistimos a missa dos peregrinos, que, de novo, teve o magnifico botafumeiro. Revisitamos nossos lugares preferidos, revimos amigos e ficamos felizes porque ainda tínhamos outro caminho pela frente, a Rota Vicentina/Trilho dos Pescadores, em Portugal. 

Enfim, um caminho que começou e terminou estranhamente nos ensinou que estarmos sozinhos, nas mais difíceis situações, sendo parte integrante daquele cenário, é vida. Uma vida que agradecemos todos os dias! Neste momento atual, o nosso aprendizado é que, assim como no caminho, se focarmos apenas nas dificuldades deixaremos de enxergar a beleza que é viver. Viver uma vida simples, uma vida plena, sem falsas expectativas e para além dos nossos egoísmos.

Uma esticadinha até a Inglaterra...

Depois da intensidade de um caminho enigmático, resolvemos “esfriar” a cabeça na Inglaterra. De Santiago de Compostela tomamos um avião para Londres. O clima londrino nos fez muito bem e já de cabeça fria, revisitamos a cidade como se fosse a primeira vez. Em três dias percorremos muitos dos lugares que já conhecíamos. Fomos aos locais mais conhecidos dos turistas, como a Tower Bridge, Convent Garden, Picadilly Circus, Trafalgar Square, Saint James Park, Big Ben, mas também nos aventuramos pela Brick Lane, no East End de Londres, um bairro conhecido também como Banglatown (Tower Hamlets), por concentrar a comunidade de bangladeshianos. Cruzamos desde o norte ao sul, passando pela parte mais movimentada, Spitalfields. Enfim, nos aventuramos por toda a cidade, percorrendo a pé cada canto que conseguíamos chegar. Mas, a nossa ida para a Inglaterra tinha ainda uma outra motivação, visitar nosso amigo Mike, que conhecemos a caminho do Alaska. 

Com o falecimento da Liz, o Mike resolveu se estabelecer em Devizes, uma pequena cidade próxima a Bath. Na Victoria Station pegamos um ônibus para Chippeham, onde o Mike nos encontraria. A viagem, apesar do conforto do ônibus, não foi muito tranquila. Isso porque, sentados na primeira fila para melhor apreciar a paisagem também vimos que o motorista estava muito cansado. Conseguíamos ver que os olhos dele fechavam e abriam lentamente. Ele sacudia a cabeça, passava água no rosto. Achamos que o pior aconteceria. Num certo momento, ele lançou mão do Gatorade que tinha em mãos para passar no rosto. Foi uma viagem muito tensa, mas que, felizmente, não terminou no pior cenário.

            

Chegando em Chippeham, o Mike já nos esperava. Ele estava muito feliz em nos encontrar, assim como nós. Sentimos a ausência da Liz. O Mike estava ainda muito abalado com a sua morte. Foi uma época muito dura para ele que, além de perder a esposa, também perdeu a mãe. Por isso, a nossa visita foi muito reconfortante naquele momento. No caminho para Devizes paramos num Pub para comer e beber, é claro! À noite, o Mike fez uma pequena recepção, convidando as duas filhas da Liz e os maridos. Foi bem divertido, principalmente, porque quase não entendemos o inglês de um deles que era de Wales. Mas, o Mike nos ajudou e riu muito da situação. 

            

Os dias que se seguiram foram igualmente super agradáveis, visitando Devizes, Bath, os Pubs, jantares e muito vinho. Visitamos também Lacock, cenário de filmes como “Orgulho e Preconceito”, “Cranford”, “Harry Potter e a Pedra Filosofal” e “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”. A casa da família de Harry Potter, também foi filmada nessa vila, em Godric Hollow, e nos claustros da Abadia. Fora isso, ainda andamos ao lado do Canal. E o mais interessante, era ficar vendo os barcos que navegavam e abriam e fechavam as suas 29 eclusas. Os barcos paravam em cada uma delas, alguém descia, abria, o barco passava e a pessoa fechava a eclusa. Um trabalhão, mas super curtido pelos residentes que passavam o dia nessa função. 

            

Depois desses dias, voltamos para Santiago de Compostela, depois Lisboa para fazer a Rota Vicentina/Trilho dos Pescadores e voltar ao Brasil.

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