
Pé no Mundo
1a vez na Europa
Não desista, insista...
Desta vez, resolvemos voar mais alto, a Europa. Mas, tudo começou com a seguinte história.
Em 1988, a Vera estava pleiteando uma bolsa para estudar cinema na Agfa Gevaert, uma multinacional belga que era uma das maiores fabricantes de material fotográfico. Na época, enviou uma carta – isso mesmo, uma carta –, para a empresa e recebeu uma resposta bem animadora. Disseram para procurar a Agfa Gevaert Argentina. Foi feito o que recomendaram e veio um retorno positivo.
Nesse meio tempo, a empresa contratou um representante em São Paulo. Marcaram uma reunião. O representante, muito solícito e simpático, disse que achava muito bacana a disponibilidade de largar tudo no Brasil para estudar fora. E, finalmente, a bolsa de estudos saiu... Mas, não para Vera. Saiu para o filho desse mesmo representante que fez a entrevista, aquele que teceu mil elogios. Ficamos desapontados. A vida seguiu seu curso. Ainda decepcionados com o resultado final, decidimos ir para a Europa assim mesmo.
Na época, o governo brasileiro permitia a compra de apenas mil dólares por pessoa. Mas, também não tínhamos mais do que isso. Vendemos até um telefone – pasmem, na época a gente comprava e vendia linha de telefone fixo. Com o dinheiro, compramos o Eurail Pass, que valia por 30 dias, a partir da primeira viagem. Era possível subir e descer dos trens, em viagens de primeira classe, quantas vezes quiséssemos e para onde quiséssemos ir dentro da Europa.
Assim, decidimos começar pela Holanda. Chegamos lá com um guia do tipo “Europa a 20 dólares p/dia” e com a nossa pouca fluência em inglês, mas com uma cara de pau invejável. Foram trinta dias comendo Big Mac, porque era o mais barato. Depois de alguns dias no país, partimos para Londres.
Descemos no aeroporto de Heathrow e fomos para as “Informações Turísticas”, como já tínhamos feito em Lima, no Peru.
Chegando lá, fomos informados que os hotéis estavam lotados por causa de vários eventos na cidade. A atendente ligou daqui e dali até conseguir um hotelzinho. Um rapaz africano, que estava na mesma situação, pediu para ver se tinha vaga para ele nesse mesmo hotel. Depois de conseguir a reserva, quis dividir um táxi. Prontamente, dissemos que iríamos de metrô. E ele disse: - “me too”.
Seguindo a máxima de que, “quem tem boca vai a Roma”, pegamos o metrô e chegamos ao nosso hotel. Era uma espelunca, mas já era noite. No dia seguinte cedo, fomos para a Victoria Station procurar outro lugar. Ficamos em Gloucester Road, num hotel que, por coincidência, trabalhavam alguns brasileiros. O nosso café da manhã era sempre muito farto. Eles colocavam fatias de bacon e vários ovos, um por cima do outro, para que o dono do hotel não visse. Os quartos deles ficavam no porão do hotel. Eram bem apertados. Às vezes, eles nos chamavam para conversar, beber alguma coisa e ríamos muito da situação. E assim, passamos dias e noites bem divertidas em Londres. Conhecemos os pontos de interesse da cidade, bebemos muitos pints de cerveja nos pubs. E, numa decisão destrambelhada resolvemos conhecer Bournemounth e a sua praia mais sem graça que já vimos até hoje. De lá, fomos para Dover e, de ferryboat, seguimos para Oostende, já na Bélgica.
Mais de mil quilômetros, visitas e litros de cervejas...
Com a grana curta, a nossa tática, para economizar hospedagens, era fazer as viagens mais longas a noite, assim dormíamos no trem. Sentávamo-nos na cabine, um de frente ao outro e puxávamos os assentos que virava quase uma cama.
Numa dessas histórias, fomos para Munique, na Alemanha. A estação estava lotada. Muitas pessoas descansavam sentados nos bancos e no chão do saguão. Nós, que viajamos a noite toda, fomos direto às Informações Turísticas para conseguir um hotel. Uma atendente bem mal-humorada sugeriu um hotel fora da cidade. Não entendemos e perguntamos “- por que fora da cidade?”. Queríamos um hotel mais central. E ela, grosseiramente, respondeu alguma coisa em alemão. Claro que não entendemos, mas sabíamos que boa coisa não era. O sangue ferveu e falamos um monte de bobagens e palavrões, em português, claro. Ela conseguiu nos tirar do sério. Saímos dali possessos. Nesse momento, um brasileiro que viu a cena de longe, perguntou o que tinha acontecido. Explicamos e ele nos disse que, no dia seguinte, começaria a Oktoberfest. Por isso, aquele movimento todo na estação. E indicou um hotelzinho, bem perto, que ele mesmo estava hospedado. Agradecemos e, realmente, conseguimos a hospedagem por uma noite. Nos acalmamos, rimos da situação e aproveitamos para conhecer a cidade.
No dia seguinte cedo, voltamos a estação e deixamos nossa bagagem no maleiro. Depois, fomos ver o desfile de início da Oktoberfest. A festa acontecia numa grande área, com um enorme parque de diversões e muitas cervejarias. Os alemães e turistas brindavam ao som das músicas típicas da região. Sentamos ao ar livre, apesar do frio, para ver o ir e vir das pessoas. Quase fomos “batizados” por um bêbado que veio cambaleando em nossa direção. Ele deu uma vomitada daquelas, caiu em cima do que ele mesmo produziu e desmaiou. Por sorte, previmos a situação e deu tempo de saltar para outro lado. Ele foi, literalmente, “rebocado” pelos paramédicos.
Resolvemos entrar numa daquelas enormes cervejarias. Enquanto procurávamos lugar para sentar vimos alguém acenando. Nos juntamos a um alemão e a sua mãe, três australianas e um outro rapaz do Tenerife. Quando dissemos que éramos brasileiros o alemão ficou empolgado. Ele tinha visitado o Brasil havia pouco tempo. Ficamos bebendo e conversando. A cada litro de cerveja falávamos melhor o inglês, o portunhol e até o alemão. Até hoje não sabemos como conversamos com a mãe do alemão, que só falava o alemão. Mas, o melhor ficou para o final. A cena foi hilária. Já era noite e tínhamos que pegar um trem para Viena. Era hora de despedir. O alemão comprou aqueles corações de chocolate para cada um de nós e terminamos a noite abraçados e chorando porque nunca mais nos veríamos. Tinha que ter sido filmado!
Depois embarcamos para Viena. Quando chegamos, meio desentendidos ainda, rimos muito da cena do dia anterior. Aos poucos fomos rememorando a nossa trajetória em Munique. O Helinho reclamou que o braço estava doído. Foi aí que lembramos que a causa nada mais era do que uma disputa de um “braço de ferro” que ele se meteu, resultado da empolgação e do efeito de muita cerveja.
Na verdade, quem vai a Oktoberfest sempre tem histórias a contar. Conhecemos um brasileiro que, de tão bêbado, se perdeu ao ir ao banheiro. E, perdeu todos os documentos, além de perder o rumo do hotel. Só conseguiu voltar, depois que a polícia local ligou para o filho no Brasil, perguntando onde o pai estava hospedado.