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Pé no Mundo
Egito e Israel

Cairo e as Pirâmides…

Mudando um pouco de ares, fomos para o Egito e Israel. Estávamos um pouco receosos porque, na época, houve um atentado no restaurante de um hotel no Cairo. Mas, conversando com o cônsul do Egito, no Rio de Janeiro, a pergunta que ele nos fez foi crucial para a nossa decisão. Ele perguntou qual era a chance de sermos roubados e baleados, num sinal de trânsito em São Paulo? Decisão tomada, fomos de novo para Amsterdam e depois para o Cairo. Mas, compramos apenas a passagem de ida para o Cairo e a volta por Tel Aviv. Isso porque, planejamos viajar de ônibus entre o Cairo e Tel Aviv, para ver de perto o deserto e os povos nômades. 

E assim, chegamos ao Cairo por volta das duas da manhã. Tínhamos reservado um hotel, que nem sabíamos muito sobre ele, mas que teria um traslado. Desembarcamos e as nossas bagagens não apareceram. Depois de muita procura, os passageiros daquele voo terem ido embora e o aeroporto estar praticamente vazio, vimos as duas bagagens num canto, separadas. Achamos estranho. Na imigração outra situação estranha. Nós entramos no país, mas os dois passaportes ficaram retidos. Sem muita explicação, o policial da imigração disse que os passaportes seriam entregues no hotel no dia seguinte. Ficamos sem saber o que fazer. Na verdade, não tínhamos nada a fazer. O motorista do hotel estava esperando e nós o seguimos até um ônibus imenso para os dois únicos passageiros. 

 

Quando o dia amanheceu, acordamos com buzinas. Abrimos as cortinas das janelas do quarto e tivemos uma visão maravilhosa. As enormes pirâmides estavam bem à nossa frente. Ficamos num hotel em Giza. Em seguida o telefone tocou. Pensamos ser alguém falando sobre os nossos passaportes. Mas, era uma pessoa oferecendo os serviços de turismo. Dispensamos. 

 

Quando fomos tomar o nosso café da manhã, e saber se os passaportes já tinham chegado, a recepcionista nos entregou os documentos, sem nenhuma observação, mas com um visto para uma semana no país. Foi um grande alívio.

Já mais tranquilos, saímos do hotel e vimos um táxi em frente. Fomos para o Centro do Cairo, do outro lado da ponte. A partir daí, o Salaha, que era o motorista desse táxi, foi nossa companhia constante. Ele foi o nosso motorista, nosso amigo, nosso anjo da guarda. Com ele fomos conhecer todos os pontos turísticos da cidade – o fantástico Museu do Cairo, o Mercado Khan El Kalili, Citadel, Mesquitas, Sakkara, Memphis, ruínas, pirâmides... 

           

O Salaha nos mostrou as entranhas da cidade. Fomos a casa de um amigo, depois passamos na casa de outro amigo, na casa do primo e da família toda. Tudo isso, cruzando as vielas onde jamais teríamos entrado sem ele. Em todos esses lugares tinha alguém vendendo papiros, tapetes, perfumes e outras bugigangas. Eram pessoas muito simples, mas muito simpáticas. Pessoas boas. 

Conhecemos as pirâmides de modo não convencional. Um amigo do Salaha tinha uns cavalos e camelos num local perto das pirâmides. E lá fomos nós cavalgar no deserto. Chegamos até as pirâmides como dois “tuaregs”.  Só que tinha uma diferença entre os dois cavalos. A Vera com um cavalo árabe, puro sangue, preto, lindo e estava sempre emparelhado com nosso novo amigo. O outro, do Helinho, um autêntico pangaré árabe, que sempre ficava para trás. Isso não tirou nosso bom humor. Afinal, as mulheres tinham a preferência por aquelas bandas...

Alexandria é conhecida pelo Farol, uma das sete maravilhas do mundo antigo, e pela Biblioteca Real, que também era considerada a maior do mundo antigo. Além desses, outra maravilha do mundo medieval, o sítio arqueológico com as catacumbas de Kom e Shoqafa e muitos outros pontos de interesse. Vimos o que foi possível e voltamos ao Cairo. 

Enfim, visitamos também outras ruínas e pagamos o “mico”, como todo turista, de montar num daqueles desengonçados camelos. Essa foi, sem dúvida, uma experiência bem esquisita dessa nossa viagem.


Cruzando o deserto... 

Com o nosso visto de permanência de apenas uma semana, deixamos de conhecer o mercado de camelos no deserto, porque não daria tempo. Foi uma pena. Então, o nosso desafio foi achar um ônibus para Tel Aviv. O Salaha, mais uma vez, foi nos ajudar com a compra da passagem. Ele disse que o ônibus normal não seria muito seguro naquele momento. Fomos a uma pequena agência de turismo e, no dia seguinte, um ônibus sairia, exatamente, para o nosso destino. Teríamos que estar num determinado lugar à 05h da manhã. O Salaha, de novo, se prontificou a nos levar. 

Ainda estava escuro, quando fomos parados num controle militar. Tudo certo, e sem problemas chegamos no ponto onde deveríamos encontrar o ônibus. Não demorou e um microônibus, que levaria sete passageiros, chegou. Éramos nós, um holandês, dois ingleses e um casal que não sabíamos a nacionalidade, o motorista e um segurança armado. 

Em menos de 10 minutos de viagem, o ônibus foi parado numa barreira, já no deserto. Ainda estava escuro quando dois soldados chutaram a porta para abri-la e pediram, de forma rude, os passaportes. Perguntaram se tinha algum “americano” entre nós. Entregamos os passaportes e eles saíram com todos eles. Naquele momento, ficamos assustados sem saber se eram militares ou de algum grupo extremista. Mas, em alguns minutos eles liberaram os passaportes e a passagem do nosso microônibus e um outro ônibus grande. 

Em todo o trajeto fomos escoltados. Eram 6 soldados fortemente armados numa pick-up à frente e outros 6 soldados numa outra pick-up atrás dos ônibus. Eles foram se revezando com outros soldados que aguardavam no meio do caminho. De repente, um pneu do nosso microônibus furou no meio do deserto. Tentamos esticar as pernas e, quem sabe, fazer um xixizinho por ali, mas um dos soldados nos empurrou para dentro com a sua metralhadora. Depois dessa, resolvemos ficar quietinhos esperando que nada acontecesse durante essa parada.  Percebemos uma tensão ar. 

Finalmente, chegamos na travessia do Canal de Suez. Apesar de não ser uma distância muito longa, foram algumas horas de pura beleza e tensão. O cenário era maravilhoso. O deserto monocromático, os camelos, os homens e as mulheres do deserto com suas vestes coloridas. Um visual que queríamos ver e que jamais esqueceremos. 

A viagem seguiu seu curso, depois que atravessamos o Canal de Suez. Mas, pouco antes de chegarmos à fronteira, o holandês ao ver um ônibus com crianças, vindo na direção oposta, resolveu abrir a janela para saudá-las. E gritou: - “children”. O segurança, ao lado do motorista, assustou e levantou rapidamente apontando a arma na nossa direção. O silêncio foi geral. Tremedeira, susto, tudo ao mesmo tempo.  
 

Finalmente, chegamos à fronteira de Israel. Foram perguntas e mais perguntas, revistas e mais revistas, em nós e na nossa bagagem. 

Enfim, cruzamos para Israel, mas a tensão não foi menor. A demora para retomar a viagem do lado de Israel foi pela revista do outro ônibus que seguiria até Tel Aviv. Alguém perguntou por que estava demorando tanto e a resposta foi de que era preciso verificar se não tinha nenhuma bomba no ônibus. Hein?!?! Bombas??? Tudo bem! Dissemos que poderiam demorar o tempo que fosse necessário.

E a viagem ainda continuou bem esquisita por um longo caminho. Além de todos nós, os israelenses embarcaram no ônibus. E todos eles estavam armados. Normal para eles, mas muito estranho para nós. Bem, esse foi só o primeiro contato, porque dali para frente seria assim na rua, nos bares, nos mercados e até nas praias... Cada um com sua arma a tiracolo.

Uma certa tensão no ar...

       

Em Tel-Aviv foi muito fácil chegar ao hotel. A cidade era muito organizada e segura. O controle era cem por cento do tempo. Percebemos que quando jogávamos qualquer coisa no lixo alguém sempre ia checar o que era. O resultado de toda essa segurança, era poder ficar sentado na praia até altas horas da madrugada sem ser incomodado, caminhar tranquilos pela cidade, Old Jaffa e o seu Flea Market, Carmel Market, a Fonte de Fogo e Água – a Dizengoff Fountain etc. 

Não sabemos se porque entramos em Israel, vindos do Egito numa viagem não muito convencional para dois turistas estrangeiros, tínhamos sempre a sensação de estarmos sendo vigiados. Em Jerusalém, indo em direção ao hotel depois de um longo dia de caminhada, percebemos um rosto já conhecido. Na verdade, puxamos pela memória e lembramos que em todos os lugares, que estivemos naquele dia, aquele rosto estava presente. Resolvemos parar e, discretamente, checar se a nossa suspeita procedia. E, sim, estávamos sendo seguidos. 

       

Num certo momento, entramos num prédio por uma porta, saímos por outra e, numa confusão de pessoas, cruzamos um beco. Fomos corajosos, mas, sinceramente, acho que nada adiantou. Provavelmente, só trocaram o rosto no dia seguinte. E, se a nossa suspeita for verdade, devem ter ficado um pouco decepcionados porque só éramos dois viajantes muito curiosos. Tão curiosos que resolvemos entrar no bairro dos judeus ortodoxos. E só abandonamos essa ideia maluca quando vimos muitos deles saírem de suas casas, com caras nada amigáveis. Percebemos que não éramos bem-vindos.

Jerusalém é uma cidade intrigante. Nos emocionamos muito com a visita ao Santo Sepulcro. Um fato para não esquecer jamais foi o perfume que persistiu, depois de passarmos a mão na pedra onde Jesus foi colocado depois de morto. Acreditem, esse perfume ficou o dia todo. Depois, andando pela Via Dolorosa, encontramos um padre brasileiro, e mineiro de Mariana. Com ele explicando o percurso, percorremos toda a via. Chegando perto do Monte das Oliveiras, nos recomendou entrar num templo ortodoxo. Numa escadaria de pedra descemos até o interior do templo, numa caverna. Dentro, vimos apenas um monge sentado num banco. Uma emoção incontrolável tomou conta de nós. Ao lado desse templo, estava a gruta onde Jesus tinha sido preso. Foram experiências muito impressionantes e inexplicáveis. 

       

Depois dessa catarse, seguimos para conhecer o lado judeu, Islâmico e Armênio. Fomos ao Túmulo do Rei Davi, ao Muro das Lamentações, vimos a belíssima Cúpula da Rocha e a Mesquita Al-Aqsa. Enfim, visitamos toda a velha Jerusalém. 

       

Fomos também para Qumram, a gruta onde foram encontrados os Manuscritos do Mar Morto, uma coletânea dos mais antigos textos bíblicos.  

No Mar Morto, não poderíamos deixar de experimentar a sensação de flutuar em suas águas. Por causa da grande concentração de sal, flutuar é muito fácil e uma sensação muito boa. Depois, seguimos para Tiberíades, às margens do Mar da Galiléia, vimos as Colinas de Golã, Nazaré e a igreja da Anunciação. 

​​Enfim, chegou a nossa última noite em Tel Aviv. Dessa vez, tivemos que procurar um outro hotel. Como tinha um pequeno hotel ao lado do que já tínhamos nos hospedado, e seria apenas aquela noite, resolvemos ficar por ali mesmo. Um senhorzinho, muito simpático, nos atendeu. Achamos tudo muito estranho, mas já estivemos em tantos lugares estranhos que nem nos demos conta de que aquilo era um bordel. Sim, dormimos num bordel. Ou melhor, ficamos acordados com os “arfs-arfs” do lugar. 

         

E, chegou a hora de partirmos. O avião sairia às três da madrugada. Mas, fomos cedo para o Aeroporto Internacional Ben Gurion. Ficamos por ali, sentados, segurando sempre a bagagem, por recomendação da segurança. Bagagem solta é bagagem suspeita! Mas, o que pensamos ser tranquilo foi o lugar mais estressante de Israel. Os procedimentos de revista e segurança são extremos. Fomos revistados, nossa bagagem foi revistada, revirada, mexida, passamos por RX quatro vezes. Perguntaram tudo o que tinham direito. Depois dessa maratona, nos liberaram para embarque. Mas, somente em pequenos grupos de dez pessoas, levadas num ônibus, para o avião que estava bem longe na pista. Tudo isso em nome da segurança. 

           

Tínhamos presenciado em nossas andanças por Israel, duas vezes, equipes especializadas desarmando bombas. A primeira vez foi num hotel de uma rede americana e, pela segunda vez foi na rua. Mas foi no aeroporto que levamos um susto maior. O alarme soou, todos correram. E nós corremos para perto de um grupo de pessoas que identificamos como sendo da ONU. Felizmente, foi um alarme falso, somente uma suspeita. Mas, vimos que muitas das pessoas que estavam no aeroporto eram seguranças disfarçados de passageiros. 

           

Sustos à parte, voltamos para Amsterdam, numa aeronave da KLM toda enfeitada para o Natal. Só aí nos demos conta da data, 22 de dezembro. Passamos o Natal e Ano Novo em Amsterdam. Mas, o mais engraçado foi que depois do Natal mudamos de hotel. Tivemos um upgrade da KLM e ficamos no Hotel Krasnapolsky, um belíssimo 5 estrelas, por 3 dias no réveillon. Chegamos de mochilas e fomos recebidos como clientes VIPs. Um português muito simpático, que nos recebeu, curioso quis saber sobre nós. Contamos brevemente a nossa história de viagem pelo Egito e Israel. Viramos celebridades! Pelo menos para ele.

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