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Pé no Mundo
Monte Roraima

Avião, ônibus, barco, a pé - A Gran Sabana e a Região Amazônica

 

Aproveitando as belezas e o calor de Belém e da Ilha de Marajó...       

 

No dia 14 de março de 2004, depois de ir e voltar à Ushuaia e ao Alaska, com o nosso Land Rover Defender, sofremos um acidente na Rodovia Fernão Dias. Um caminhão, que estava na contramão, nos atingiu em cheio e fugiu. "Perda Total" do carro.  Perdemos o carro e perdemos o chão! Lá se foi o nosso sonho de continuar viajando o mundo. Na época, esse foi o nosso sentimento.            

 

Passado o susto, chegamos à conclusão de que não poderíamos parar de sonhar e realizar. Decidimos que viajaríamos de avião, barco, ônibus, a pé... E foi o que fizemos. Queríamos comemorar nossos 25 anos de casamento no alto do Monte Roraima, na Venezuela, junto aos cristais. Assim, primeiro pegamos um avião para Belém.            

 

Chegando ao aeroporto de Belém, fomos procurar um hotel. Nos foi oferecido hotéis dos mais caros aos mais baratos. Resolvemos ficar no intermediário, mas, ainda assim, fomos parar numa espelunca, com cheiro de remédio de matar baratas. Usamos nossa expertise de viagens e achamos um outro, com preço razoável, com vista para a Baia de Guajarás. Era o que precisávamos! Com um calor de 33 graus na cabeça, resolvemos caminhar pela cidade e redescobrimos uma cidade bem diferente da que conhecemos muitos anos atrás. O que continuava igual era a chuva que caia, diariamente, nos finais das tardes.            

 

O porto restaurado, fez das Estação das Docas, um lugar muito bom com restaurantes, bares e cervejarias. À noite, muitas pessoas iam para ouvir música ou para o teatro. Fomos para o imperdível Mercado Ver-o-Peso. Aproveitamos para ver e comer uma variedade de frutas e sentados num daqueles restaurantes simples tomamos o tacacá e comemos “filhote”, o peixe da região.             

 

Não poderíamos deixar de ir ao Mercado do Peixe, uma das atrações da cidade. De lá, resolvemos ir num passeio de barco, aproveitando o dia ensolarado. Passamos pelas comunidades ribeirinhas e nadamos numa praia de águas quentes na Baía de Marajó. E, como já tínhamos programado, fomos, dessa vez, para Ilha de Marajó.            

 

Foram três horas de barco até Camará, porta de entrada da ilha. Ficamos em Joanes, uma pequena praia, fugindo das mais conhecidas Salvaterra ou Soure.  Não imaginávamos que a Ilha de Marajó fosse tão grande e com um problema crônico de transporte público. Enfim, conseguimos ir, numa van, para a pousada que era muito agradável e num lugar bem especial.            

 

No dia seguinte, fomos conhecer Soure, a capital da ilha. Saímos cedo, na mesma tal van lotada, que iria para Salvaterra. O transporte de Salvaterra para Soure era o barco, que só saía com hora marcada e que parava na hora do almoço. Tínhamos um problema. A volta para Joanes, mas deixamos esse problema para ser resolvido depois.           

 

Caminhamos pelas ruas de Soure e seguimos até Barra Velha, uma praia bem distante do centro e sossegada. Era preciso passar dentro de uma fazenda. O sol estava forte, mas o visual era lindo. Os guarás, pássaros da região, num vermelho vivo e fluorescente, contrastavam com o verde da vegetação. E chegando ao nosso destino deparamos com uma praia de rio e areias branquinhas. Ficamos por ali com um francês que, coincidentemente, estava hospedado em Joanes. Lá pelas tantas, resolvemos voltar, debaixo de um sol de cozinhar miolos. De tão quente, as pessoas da cidade sumiram. Só ficaram os búfalos pelas ruas com altas mangueiras.            

 

Era hora de voltar para Joanes. Soubemos de um ônibus escolar que sairia as seis da tarde. Sentamos num bar para descansar e esperar. Mas, um nativo, que negociava uma carona, nos levou. E assim, tudo se resolveu. À noite, sempre tomávamos um ar fresco com os moradores, como se já fôssemos parte daquela comunidade. Joanes tinha uma igrejinha, um gramado e casinhas em volta, bem ao estilo Trancoso, na Bahia, de anos atrás. Até hoje é impossível esquecer o sabor de um simples bolo de abacaxi, que a Neide fazia todos os dias, e daquele lugarzinho bucólico com sua gente tão simples.          

 

Pois é, muitas vezes, é nessa simplicidade que encontramos as maiores felicidades da vida. Gostaríamos de ter ficado mais tempo, mas teríamos que seguir viajando para o nosso destino, o Monte Roraima, na Venezuela. Assim, voltamos a Belém para pegar um barco que nos levaria a Manaus, numa viagem que demoraria cinco dias, rio acima... ​​

 

A mágica viagem de barco de Belém a Manaus...            

 

De volta a Belém, fomos para o porto e deixamos nossa bagagem no barco “Santarém”, que já estava ancorado. Na verdade, o Santarém é chamado de navio, porque ele é uma embarcação toda em ferro. As embarcações em madeira é que são chamadas de barco. A capacidade máxima é de 350 pessoas. No porão são acomodadas as cargas. No primeiro andar, tinha uma pequena lanchonete, a cozinha, o refeitório, somente para os que viajavam nas redes, e banheiros. No segundo andar, tinha também o espaço para redes, mas com ar condicionado, banheiros, minúsculas cabines com beliches e o refeitório, que serve aos passageiros deste andar e do andar superior. No terceiro andar, além das minúsculas suítes, tinha um bar e um espaço aberto com som altíssimo, que tocava a Banda Calipso das oito da manhã até tarde da noite. Todos os dias.            

 

Foi bem aí que ficamos. Só para ter ideia, a cama era tão pequena que nossos pés quase ficavam para fora. E ainda tinha horário fixo para as refeições. E quem perdia o horário, perdeu!            

 

E foi assim que, no início da noite, a sirene tocou e a embarcação partiu para cinco dias no rio. De início, navegamos pelo Rio Pará, mais estreito, até encontrarmos o Rio Amazonas. Era possível ver de perto como vivem os ribeirinhos, suas casas e a habilidade das crianças que nascem e vivem, praticamente, dentro do rio. Quando o barco se aproximava de alguma comunidade era uma festa. As crianças ficavam em suas canoas e os passageiros jogavam presentes, enrolados em sacolas plásticas. Elas ficavam felizes com os presentes ou com um simples aceno e com o “banzeiro”, que são as pequenas ondas que o barco provoca.           

 

É surpreendente e impressionante a habilidade desses ribeirinhos. Com a nossa embarcação em movimento as crianças e adolescentes são capazes de amarrarem suas canoas e entrarem para vender alimentos e quinquilharias. Chegamos a contar nove canoas amarradas. Essa era uma das atrações da viagem. Fora isso, era ler, descansar e conversar com as pessoas, que depois do primeiro dia já estávamos familiarizados.            

 

Além dos passageiros locais, tinham também, como nós, alguns “gringos”.  Stefano, um italiano, o Robert, um inglês, que viajava com a Zana, que era de Latvia, o Trent, americano e a Christin, da Nova Zelândia. Ainda tinha a Mie, uma japonesa, o Benjamin, que era chinês e a Patrícia, do Espírito Santo. Juntos, nós formamos um grupo de amigos. O Stefano virou “Empório Armani”, o Robert o “James Bond”, a Zana virou Xuxa, nós éramos “Mr. President & First Lady”, e assim, nos divertíamos entre uma e outra parada nas cidadezinhas. Quando era possível, descíamos para tomar cervejas no porto mesmo, enquanto o barco era descarregado e carregado de mercadorias.            

 

Em Santarém, a parada seria mais longa. O Comandante disse que ficaríamos ancorado das 8 da manhã às 4 da tarde. Comentamos com os amigos que nós iríamos a Alter do Chão, que ficava 32 km de Santarém. Eles decidiram nos acompanhar. Negociamos com o motorista de uma caminhonete velha, que fazia carretos. Subimos todos na caçamba e fomos para a praia de rio. Tomamos cerveja, almoçamos e voltamos a tempo de embarcar, novamente. O barco seguiu em frente. Parou em Parintins, um dia antes de começar a “Festa do Boi”. O porto estava cheio de barcos e visitantes. Isso porque, a cidade não comporta os mais de cem mil visitantes esperados. Por isso, muitos ficavam nos barcos.            

Depois de quase seis dias de viagem, finalmente, chegamos a Manaus. Foi um misto de excitação pela chegada e de tristeza por ter terminado a viagem. Tudo era igual no barco, mas ao mesmo tempo diferente. As pessoas, as histórias e as coisas engraçadas, como no último capítulo de uma novela em que as pessoas se revezavam, segurando uma antena no alto para que a televisão funcionasse.            

 

Tivemos experiências únicas, inclusive de quase o navio ficar encalhado num banco de areia. Aprendemos um pouco sobre o rio e descobrimos que é misterioso e diferente a cada dia. Escutamos lendas e aprendemos sobre as estrelas. Conhecemos os ribeirinhos... Essa, foi uma viagem mágica e que muito nos enriqueceu como pessoas e como brasileiros.  ​Revendo Manaus e conhecendo Boa Vista...           

 

Nós já tínhamos visitado Manaus em outra época. Temos amigos na cidade e foi ótimo reencontrá-los. E os amigos do barco? Ficamos hospedados em lugares diferentes, mas no final da tarde reuníamos num bar para conversar e contar as novidades do dia.            

 

Nos dias que estivemos em Manaus fomos ao Palácio Rio Negro, ao Teatro Amazonas, a museus, caminhamos pelo centro da cidade, Igreja Matriz, ao Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA), ao Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS), com seu zoológico. Também fomos em alguns igapós, à Reserva Ecológica de Janauari, ao encontro das águas do Rio Negro e Solimões, onde aprendemos porque as águas dos dois rios não se misturam.  O que acontece é que a densidade da água do Rio Negro é menor do que do Rio Solimões, assim como a sua velocidade e a temperatura que tem cinco graus de diferença.            

 

Além disso, vimos as casas flutuantes, navegamos nos igarapés, nos “paranás”, que são os rios formados somente nas cheias, e nos “furos”, menores que os paranás e que, na verdade, nada mais são do que a floresta inundada. Conhecemos a samaúma, a “árvore rainha da floresta”, com suas raízes tão longas que permite a sua estabilidade nas grandes ventanias. É uma das árvores mais altas da floresta, uma espécie de “telefone indígena”. Isso porque, em época de seca, o som de uma batida em seu tronco pode ser ouvido até 5 km de distância.           

 

Também tomamos o Café Regional, com uma variedade de sucos de frutas, como o taperebá, murici, cupuaçu, abacaxi, acerola e outros. Comemos o sanduíche com tucumã e queijo de coalho, a pupunha e muitas outras coisas.  Nos deliciamos comendo a costela de tambaqui e outros peixes da região, como o tucunaré, pirarucu, jaraqui. Uma festa de sabores.            

 

Aproveitamos para conhecer algumas das quarenta cachoeiras, que ficam perto da cidade de Presidente Figueiredo, a 107 kms de Manaus. Conhecemos Iracema, o Santuário, as corredeiras do Urubuí, mas, infelizmente, não vimos tudo que gostaríamos. Era hora de partir. Fomos de ônibus para Boa Vista.            

 

Passamos pela reserva Indígena Waimiri-Atroari. Era proibido fotografar e o tráfego só poderia ser entre as seis da manhã até as seis da tarde, quando a estrada era fechada. Era uma estrada estreita, sem acostamento e com muitos buracos na pista, o que obrigava o motorista do ônibus a “ziguezaguear” para fugir das crateras. A sorte era não ser muito movimentada, apesar da presença das fazendas de gado. Além das fazendas, a mata era fechada. Vimos até Tamanduás que circulavam tranquilamente por ali.            

 

Cruzamos a linha do Equador. Uma grande pedra demarcava o “marco zero” ou “latitude zero”. E, depois de 12 horas de viagem, chegamos a Boa Vista.            

 

Apesar de pequena, Boa Vista era uma cidade limpa e bem planejada. Não tinha shopping e tinha apenas um cinema. As pessoas eram muito educadas. Os pedestres tinham prioridades. As avenidas eram largas e compridas. No canteiro central, de uma das avenidas que liga o centro ao aeroporto, no Complexo Ayrton Sena, tinham bares, lanchonetes, sorveterias, pistas de motocross, espaço para exercícios físicos e para crianças. À tarde e à noite era bem movimentado. Outro lugar de interesse era a “Orla Taumanan”, um calçadão com bares e restaurantes, às margens do rio Branco. Ficamos hospedados no hotel recomendado pela Ana Ruth, nossa amiga manauara. Ana já tinha entrado em contato com Eliana, que se tornou amiga comum. Fomos apresentados a toda família, inclusive ao proprietário do hotel que era seu irmão. Passamos dias bem agradáveis na cidade, mas já estávamos ansiosos pela subida ao Monte Roraima. Ao mesmo tempo, começamos a ficar um pouco apreensivos. Os termômetros estavam na casa dos 33 graus e o alto volume de chuva previsto era preocupante para os nossos planos. Pacaraima, na fronteira com a Venezuela, ficava apenas a quatro horas de Boa Vista. Era hora de pegar estrada novamente...  ​

 

Dessa vez não deu certo...           

 

Nosso destino, antes de subir o Monte Roraima, foi Santa Elena de Uairén, já na Venezuela. Saímos de Boa Vista debaixo de chuva. A estrada continuava estreita e sem acostamentos. Um passageiro pediu para parar no “oásis”. O motorista parou, olhamos e não vimos nada que se parecesse com um oásis. Depois, outro pediu para parar na “placa branca”. Tentamos achar a tal placa branca e não tinha nada. Desistimos de tentar entender e nos deixamos levar pelo encanto da paisagem. Como o ônibus não ia até Santa Elena, ao chegarmos em Pacaraima, já na fronteira Brasil e Venezuela, fizemos a imigração e um táxi nos levou até Santa Elena, que ficava somente a 15 km de onde estávamos. As ruas da cidade estavam alagadas. Fomos direto para uma pousada de um casal muito simpático e bem alternativos. O marido, Roberto Marrero, escreveu livros sobre OVNIS, viagens místicas, fenomenologias e mistérios da Gran Sabana.Ansiosos, fomos saber mais sobre a nossa subida ao Monte Roraima. Afinal, era para isso que estávamos ali. Planejamos subir os seus 2.700 metros de altitude até o “Mundo Perdido”, chamado assim por causa das suas formações geológicas peculiares e o seu isolamento. O percurso seria feito a pé, guiado pelos indígenas. O acampamento era em pequenas cavernas. Seriam seis dias e cinco noites. Tínhamos planos de ir ao Vale dos Cristais e às piscinas naturais. Mas, infelizmente, toda essa programação não pode ser realizada. Com as chuvas fortes, o rio Kukenan estava muito cheio e intransponível. Os guias locais não queriam arriscar. Ficamos decepcionados, e tivemos que nos reinventar. O sonho de subir o Monte Roraima teve que ser postergado.

 

Apesar da decepção, não nos deixamos abater pela situação e fomos conhecer a Gran Sabana com o Roberto Marrero, o dono da pousada. Aprendemos sobre as minas de ouro e diamantes da região e sobre as montanhas que afirmam ter aparições de OVNIS. Com muita imaginação, vimos as montanhas das três mulheres grávidas dando à luz. Mais adiante vimos o perfil de um homem deitado que, segundo os indígenas, quando se levantar “cabeças vão rolar”. E vimos as montanhas “vaginales”, chamada assim pela forma triangular, com vegetação rasteira e reentrâncias com vegetações altas, formando tufos como se fossem os pelos pubianos.            

 

As montanhas, ou Tepuis, mais conhecidas da região são a Chirikayen, Roraima e o Kukenan que podem ser vistas lado a lado. Paramos nos vales de Kukenan e no Vale de Aaka, que segundo a lenda, se você gritar e ouvir o eco, você já viveu nesse vale ou viverá noutra vida. Claro que gritamos e ouvimos o eco. Mas, o mais engraçado é gritar e ouvir de volta alguém gritando “locoooo”. Esse é o divertimento de um morador local que grita de volta sempre que alguém resolve testar a lenda.            

 

Paramos para um banho na Quebrada de Jaspe, atrativo único e insólito. O lugar era de tirar o fôlego. As pedras muito lisas de jaspe brilham sob a água num tom avermelhado. Dizem que o lugar tem uma energia muito grande e que em muitas fotos apareceram pontos luminosos. O único incômodo eram os “puri-puri”, aqueles mesmos mosquitos que conhecemos como mutuca ou borrachudo.            

 

Vimos também o Rio Yuruani, o Salto Arapená, Soroape, Quebrada de Pacheco, Valle de Los Quatro Vientos, Mirante Piel Del Abuelo, Salto Kamá ou Kamá-Merú.            

 

A Gran Sabana reserva muitas surpresas. Paramos para ver os “minis tepuys”, que são formações arenosas em miniatura dos tepuys, do Gran Cannyon e do Salto Angel. Fantástico também foi observar uma floresta e perceber que, bem em frente, existia uma minifloresta, verdadeiros “bonsais”, que eram exatamente iguais à floresta original.           Almoçamos numa comunidade indígena e experimentamos o “picante”, pimenta com molho de formigas ou cupim. Bem, o picante era bom, mas as formigas e os cupins foram difíceis de engolir.            

 

Visitamos a casa de um indígena que tinha três filhos pequenos. Geralmente, a parte da frente da casa é usada para fazer trabalhos de artesanatos. E o cômodo onde são colocadas as redes fica na parte de trás. Uma peculiaridade desde povo indígena é que eles jamais olham os brancos nos olhos. Dizem que os olhos mentem e a palavra não mente. Numa negociação eles sabem, através da voz, se a pessoa está blefando ou não. Graças ao nosso novo amigo venezuelano, que nos acompanhou pela Sabana, aprendemos muitas coisas sobre o povo, sobre os lugares e ouvimos muitas lendas indígenas, como a lenda do *Beija-Flor, do Tigre e do Caranguejo e outras.            

 

Era hora de decidir o que fazer. Tentamos um trekking de 3 dias até um “tepuy” menor, o Cherikayen, mas também não deu certo. O guia teve um problema de saúde do filho. Diante disso, decidimos pegar o ônibus de volta até Boa Vista e seguir novamente para Manaus. Precisávamos fazer alguma coisa diferente e ousar um pouco mais. Nos sentimos frustrados por não subir o Monte Roraima. E, para que essa sensação não nos perseguisse pensamos num outro desafio. Foi aí que resolvemos seguir para a selva e fazer um verdadeiro “programa de índio” ​

 

*A Lenda do Beija-Flor:​

 

Existiam duas tribos morando à beira de um rio. A tribo menor plantava e pescava com muito afinco. Com isso, começou a ter mais peixe e maior abundância de alimentos. Isso gerou inveja na outra tribo, que começou a hostilizar seus vizinhos, primeiro com palavras, depois com gestos. E, por fim, declararam guerra àqueles que, mesmo em menor número, eram mais trabalhadores e eficientes.             

 

Indiferente a essas questões, dois jovens se apaixonaram. Mas, cada qual pertencia a uma tribo. O rapaz pertencia à tribo menor e a jovem à tribo maior. Apesar da guerra, os dois se encontravam às escondidas. Um dia, os guerreiros da tribo da jovem a seguiram e os encontraram namorando. Depois de espancar o rapaz, e pensando que ele já estivesse morto, levaram a jovem de volta à tribo. O Conselho dos Anciãos foi convocado para o julgamento da pobre jovem. A acusação era de traição e a sentença era de morte. Mas, por ser muito jovem e bela, os Xamãs resolveram transformá-la numa flor.            

 

O rapaz, socorrido por seus guerreiros, sobreviveu ao espancamento. E, tão logo se recuperou passou a procurar, desesperadamente, pela sua amada. Ele chamou os anciãos e anunciou que iria até a outra tribo em busca de seu amor. Eles não permitiram tremenda loucura e tentaram, de toda forma, impedi-lo. Afirmaram que na sua tribo existiam lindas moças que poderiam ser boa esposa e dar-lhe filhos fortes e saudáveis.            

 

O rapaz estava irredutível e os anciãos, vendo tamanha decisão e tristeza do jovem, chamaram os xamãs para ajudá-los. Depois de muito pensar e sabendo que a jovem amada tinha sido transformada em flor decidiram transformá-lo em Beija-Flor.            

 

Segundo a lenda, é por isso que o Beija-Flor vai de flor em flor, sempre tentando achar a sua amada. Em toda lenda indígena existe uma moral. Essa é: nunca desista do seu objetivo.

 

"Um verdadeiro programa de índio” ...          

 

Voltamos a Manaus e encontramos um índio que organizava viagens pela selva amazônica. Acertamos tudo e pagamos, pasmem, em dólar. Estávamos prontos para nosso “programa de índio”. Nossa aventura começou, às cinco da manhã, quando encontramos o índio da tribo Wapichana em Manaus. Fomos de ônibus rumo a uma comunidade que ficava a três horas de Manaus. Depois, seguimos numa “voadeira”, uma canoa motorizada, quase uma hora pelo Rio Urubu, até chegar na selva. Sinceramente, até hoje não sabemos, exatamente, onde isso fica. Encontramos uma área aberta, com redes para dormir. O banheiro era improvisado, um buraco fundo no chão com uma cerca de palha que nos trazia um pouco de privacidade. O banho era no rio, dividindo o espaço com as piranhas e as cobras. Quem tomava conta do lugar era uma senhora e seu macaquinho, que mais parecia um morcego. A voadeira voltou para o povoado. Nesse mesmo dia, remamos uma “piroga” (canoa) pelo rio e aprendemos a pescar piranhas, somente com linha e anzol. As piranhas são rápidas. Por isso, era preciso ficar atentos quando fisgavam o anzol. Este seria o nosso jantar. Por isso, era bom caprichar na quantidade.            

 

O entardecer foi lindo e, rapidamente, tudo ficou muito escuro. O cheiro e os sons mudaram. Só tínhamos lanterna e velas, que mal paravam acesas. O banheiro ficou interditado, por causa das aranhas. E, o índio chamou para “focarmos jacarés”. Seguimos pelo igapó na piroga. Ele na frente, com uma lanterna, o Helinho atrás, protegendo a “dama” que ia ao meio. Era época de cheia e a água chegava quase nas copas das árvores. Com isso, às vezes, tínhamos que ajudar a atravessar a canoa entre os grossos troncos. As árvores balançavam e nós nunca sabíamos se o que caía eram folhas ou algum bicho.            

 

Num certo momento, a canoa ficou presa entre galhos de uma árvore. Nós tivemos que nos apoiar nos troncos para tombá-la e passar. De repente, vimos uma aranha gigante. Ficamos observando. Ela picou um sapo, igualmente grande. O sapo caiu morto na mesma hora. E o pior, tínhamos que passar justamente por aquele lugar onde a aranha estava. Ficamos com receio. Afinal, não fomos tão longe para ser comida das aranhas, nem dos jacarés. De repente, começamos a pensar que aquele índio estava perdido. Mas, depois de muitos sustos e apreensão, finalmente, saímos do meio daquela floresta inundada para um espaço aberto. A visão foi fantástica. O céu, que estava estrelado, refletia nas águas escuras do rio. Parecia possível pegar as estrelas com as mãos. O silêncio e a tranquilidade das águas eram profundos. E só foi interrompido quando nosso amigo índio nos alertou para o som de uma onça, próximo onde a canoa seria ancorada. Ai, ai, ai... lembramos que também poderíamos ser a comida de onça. Quando chegamos próximo da margem, finalmente, focamos um jacaré. Depois ele afundou nas águas do rio e sumiu. O índio fez a inspeção do local e nós saímos da canoa, cuidadosamente. Detalhe, era ali mesmo que passaríamos a noite.

 

Deitamos nas redes e tentamos dormir. Foi muito tenso. Na verdade, foi impossível dormir. Antes do amanhecer, os bugios começaram a fazer um barulho ensurdecedor. Logo em seguida, os pássaros começaram a cantar. Um alívio! O amanhecer na floresta surgiu lindo. Fomos para o rio e ouvimos o bater de asas dos pássaros. A água parecia um espelho, de tão lisa. E refletia a mata. Foi uma sensação incrível. Estávamos em perfeita sintonia com aquela exuberante natureza.            

 

Seguimos adiante, entrando mata adentro. No meio da floresta, tudo é intrigante. O som dos animais, o barulho das árvores que caem, a maciez do chão, por causa das folhas. A selva parece uma estufa. Ainda bem que tínhamos o nosso amigo índio para nos guiar, porque o GPS não funcionava. A única tecnologia que funcionava era o relógio da nossa câmera. E nem precisava, porque era só perguntar as horas que o índio prontamente respondia, quase que certeiramente. Pensamos até que o índio estivesse de sacanagem conosco. Que ele tivesse algum relógio escondido, mas não tinha.            

 

E o ouvido era também um fenômeno. Ele sempre parava quando ouvia o som de um animal, ou para matar uma mosca chata que insistia em ficar rodeando. O tapa era certeiro e fatal. Caminhávamos em silêncio. Era preciso atenção. A selva abriga pássaros lindos, araras, jabutis, bicho preguiça, mas também abriga onças, porcos do mato, tamanduás, cobras, formigas venenosas, aranhas e muito mais.            

 

Fomos aprendendo sobre as plantas medicinais. O “vick” que é bom para curar gripe, a “preciosa” cura a dor de estômago, o “pará” tem um leite que serve de alimento. Vimos frutas como, o já conhecido açaí, a bacaba, o buriti, dentre outros. E aprendemos que o “tapuru”, uma larva das palmeiras, era comestível.            

 

A floresta também tem riachos, cachoeiras, é escura, mas, às vezes, nos brinda com raios de sol. Chove com frequência, tem neblina, muitas árvores caídas, areia, formigueiro e cupins enormes. Tem muita coisa estranha e, histórias arrepiantes.            

 

O “espírito da floresta” está por ali, fogos azuis aparecem, chuva de folhas caem, a cobra grande, que juram existir... E, tudo isso, contado, obviamente, na escuridão da noite Na verdade, o cair da noite na selva é apavorante, na mesma proporção que o amanhecer é lindo.         

 

Dormimos em redes, cada dia num lugar. As redes eram amarradas nas árvores, protegidos da chuva por folhas de palmeiras. Ouvimos dizer que as onças atacavam no pescoço. Supostamente, estávamos protegidos. Tínhamos um mosquiteiro, o que, para nós, impediria que a onça soubesse para qual lado estava a nossa cabeça. Somente os povos da floresta podem tirar o proveito do que ela oferece. Nós, dentro da selva, sozinhos, morreríamos. Somos presas fáceis de animais grandes e dos pequenos como as aranhas, cobras, escorpiões ou formigas.            

 

O índio tinha o seu instinto apurado. Tinha o respeito e a prudência diante da selva e do rio. Mas, também tinha medo do boto, da cobra grande, de aproximar dos rios ao meio-dia e as seis da tarde... Depois desses dias, voltamos para onde começamos a nossa caminhada, felizes e nos sentindo mais ricos pela chance e a coragem de enfrentar o novo e presenciar toda aquela beleza intrigante, que é a selva amazônica.            

 

A comemoração dos 25 anos de casados não foi no Monte Roraima, junto aos cristais, como planejamos. Mas, foi de uma maneira inusitada. Do jeito que somos. Sempre curiosos, sempre buscando, sempre aprendendo e sempre diferente. Valeu a pena nosso delicioso e verdadeiro “programa de índio”.

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