
Pé no Mundo
Peru
Fábio Junior, o bonitão...
Depois de conhecer o Brasil, porque isso era importante caso alguém perguntasse alguma coisa sobre o nosso país, resolvemos que conheceríamos o Peru, e foi essa a nossa primeira viagem internacional. Como naquela época ainda não tinha internet disponível, procuramos informações em revistas de viagens, guias e consulados. Com algumas informações em mãos, compramos as passagens para Lima pela Aero Peru.
Arrumamos as mochilas e fomos nós, num avião DC8 com o encosto, de um de nossos assentos, quebrado. Dependendo do movimento o assento quase virava uma cama.
Chegamos quase meia noite em Lima, sem nenhuma reserva de hotel. O saguão do aeroporto estava movimentado, com repórteres e muitos taxistas que abordavam os passageiros. Mas, para onde ir? Ainda não sabíamos. Por sorte, vimos um balcão das Informações Turísticas aberto. Conseguimos um pequeno hotel em Miraflores. Depois disso, descobrimos o motivo de toda aquela movimentação àquela hora da noite. Na época, a novela “Roque Santeiro” era um sucesso e o Fábio Júnior era o galã da novela. Ele estava no nosso voo porque faria um show em Lima. Esse era o motivo de tantos repórteres.
Com o hotel agendado, nós pegamos um táxi daqueles enormes, bem velho e barulhento. No dia seguinte, saímos para conhecer um pouco da cidade. Andamos por Miraflores e San Isidro. Fomos também ao centro da cidade, na Plaza de Armas. Vimos muitos policiais armados e tanques de guerra enormes. A segurança no país estava reforçada porque era um período conturbado, por causa do grupo guerrilheiro Sendero Luminoso. Mas, não nos deixamos impressionar e fomos conhecer algumas “peñas”, que são os bares com música ao vivo.
A nossa ideia era ir para Cuzco, mas ainda precisávamos saber como ir. Descobrimos que a melhor maneira seria comprar passagens de avião, que era bem barata. E lá fomos nós, num aviãozinho bem mequetrefe. Chegamos e, quando descemos do avião na pista, sentimos a cabeça girar. Uma sensação ruim por causa da altitude.
Ficamos num hotel bem central, na Plaza de Armas. Serviram um “té de coca” para passar o mal-estar das alturas logo na chegada. Descansamos um pouco e já estávamos prontos para conhecer a cidade.
No início da noite fomos num bar, com música criolla, o “El Tronquito”. Era música ao vivo. Bem divertido! Bebemos o nosso primeiro pisco sour. Depois bebemos outros e partimos para o pisco puro. Conversamos, rimos, ensinamos fazer caipirinha, com direito a gafes linguística – nunca fale “pinga” por lá, fale cachaça! Enfim, saímos “borrachos”. Pegamos um táxi bem em frente ao bar, demos o nome do hotel e o taxista deu a volta na praça, parando quase ao lado do bar onde estávamos. Avisou que tínhamos chegado. Nem acreditamos, mas era lá mesmo. Provavelmente, essa foi a corrida mais curta desse taxista. Mas, tudo isso foi culpa do “pisco”.
Machu Pichu e nosso amigo Cesar...
Depois de curar a ressaca, fomos conhecer Saqsaywaman, uma fortaleza Inca que, supostamente, tinha propósitos militares. Pegamos a estrada que une Cuzco ao Vale Sagrado, com um taxista indígena, num daqueles carros antigos. Ele falava quechua, a língua nativa, e no seu castelhano que era bem difícil de entender nos ensinou um pouco sobre a história Inca.
A maioria dos turistas visitavam as ruínas bem cedo. Como fomos mais tarde, não tinha turistas. O silêncio só foi quebrado por uma música tocada na “zampoña”, a flauta peruana. A cena foi inesquecível. Uma família indígena fazia o plantio de batatas no morro. O músico ia à frente tocando. As mulheres e homens iam colocando as batatas na terra. Ali, entramos no clima do país e da viagem, que só estava começando.
Com esse mesmo taxista, conhecemos Ollantaytambo, que é um parque arqueológico, o rio Urubamba e outras ruínas e cidadezinhas vizinhas.
Depois, fomos para Machu Pichu de trem, porque era mais seguro naquele instante. O Peru tinha acabado de passar por uma reforma agrária e a situação não estava muito calma, além do Sendero Luminosoque ameaçava a tranquilidade do lugar. A visão da cidade perdida, no Alto das Cordilheiras dos Andes, foi uma das mais impressionantes. Uma sensação de calma, mistério e inquietação ao mesmo tempo. Passamos o dia e fomos embora à tarde, prometendo que um dia voltaríamos. Ficamos um pouco frustrados, porque queríamos ir pelas trilhas, mas era impossível no momento. Além disso, ir de trem nos proporcionou um encontro e uma amizade que ainda dura até hoje.
No trem conhecemos o Cesar Orbegoso, já mencionado nas nossas aventuras pelo Alaska. O Cesar é o peruano que mora há muitos anos no Arizona e que fizemos questão de visitar durante a nossa Expedição Alaska 2001. Conversamos durante toda a viagem. E, combinamos de jantarmos juntos no nosso bar preferido, o El Tronquito. A música criolla, os piscos e as cervejas rolavam soltas, quando entrou uma dançarina. Ela tinha uma saia bem curtinha, uma fita atrás da saia e uma vela acesa na mão. A tradição era de que um convidado, que recebia essa vela precisava queimar a fita. Ela quase sempre apagava com um gingado e com um golpe com a saia. Todos vibravam.
O que aconteceu a seguir foi muito engraçado. O Helinho foi o escolhido para a tal dança, ou ritual. A cena foi hilária. Pena, que naquela época, não tínhamos um celular para filmar. Todos choravam de rir. E o Helinho, como todos os outros, não conseguiu queimar a fita da saia da dançarina. Apesar disso, valeu pela diversão.
No dia seguinte cedo, vimos um bilhete debaixo da porta do nosso quarto. Era do Cesar se despedindo e deixando o endereço. Mantivemos contato com ele por todos esses anos e somente 15 anos depois, nos reencontramos em Safford, nos Estados Unidos. Hoje nos falamos via WhatsApp.
Helinho, o bonitão...
Viajamos pelo Peru de avião, trem e ônibus. Fomos para Arequipa e vimos os três vulcões - El Misti, Pichu Pichu e Chachani. Arequipa tem uma bela arquitetura, toda em pedra vulcânica branca. Sentimos o famoso “temblor”, que são os frequentes pequenos tremores de terra.
Visitamos o Vale del Coca e seguimos para Puno. Conhecemos os Uros, que são as ilhas flutuantes feitas com “totoras”, ou juncos, retirados do Lago Titicaca. O povo é muito receptivo. Eles sobrevivem da pesca, caça de aves e coleta dos seus ovos. Mas, o turismo também é uma fonte de renda. As crianças são lindas. As carinhas redondinhas e as bochechas bem vermelhas, queimadas pelo frio e pelo sol.
Depois retornamos para Lima. Dessa vez, ficamos bem no centro da cidade, onde conhecemos uma policial muito bonita, que se encantou pelo Helinho. À noite, ela foi ao nosso hotel levar um presente. Eram uns brincos. Achamos estranho, mas o presente foi aceito e agradecemos. No dia seguinte, alguém alertou que aquilo era uma bruxaria. Os brincos foram para o lixo, mas o Helinho até hoje jura que joguei fora por ciúmes. Helinho, o bonitão...
Nessa nossa primeira viagem, experimentamos um pouco de tudo, até carne de lhama. Bebemos té de coca, pisco e Inka Cola, sentimos os temblores e o soroche, que é o mal das alturas. Presenciamos o medo dos ataques do Sendero Luminoso e vimos manifestações políticas, a favor e contra a reforma agrária. Visitamos muitas ruínas Incas. Conhecemos muitas pessoas. Voltamos para casa e vimos que tudo tinha dado certo. Então, pensamos: se o nosso jeito de viajar funciona no Brasil, funcionou no Peru, funcionará no resto do mundo... E, foi assim que começou a nossa saga de viagem pelo mundo...