
Caminho Sanabrês:
Zamora a Santiago de Compostela
“Malandro é o gato” e o café misterioso...
Ainda em abril de 2017, terminamos o Le Puy e seguimos pra Zamora, de trem, para iniciar o Caminho Sanabrês. Seriam mais 17 dias. Descansamos dois dias na cidade e aproveitamos para organizar a próxima caminhada.
Numa tarde, estávamos sentados num bar, com mesas nas calçadas, quando vimos um velhinho caminhando com dificuldade. Parecia ser cego. Quando chegou perto da nossa mesa, sua bengala caiu e ele ficou um pouco perdido. O Helinho se levantou, pegou a bengala no chão e devolveu. O homem agradeceu e pediu uma esmola. O Helinho, com pena dele, deu a esmola. O senhor saiu andando com dificuldade e na outra mesa onde estavam outros “gringos” o velhinho deixou a bengala cair, de novo!!! Percebemos a malandragem e rimos da criatividade. Pois é, e nós brasileiros é que levamos o título de malandros...
Descansados e com tudo organizado, iniciamos nossa caminhada. A paisagem rústica, plana, com retas infindáveis e com muito cascalho foi um castigo para nossos pés. No primeiro dia, chegamos em Montamarta, lugarzinho bem pequeno e com poucos recursos. Dali, seguimos para Granja de Moreruela.
Foi difícil achar um lugar para hospedar, mas, conversando com um comerciante aqui, uma prima ali, uma irmã acolá e, no final, ficamos numa casa rural. Vendo a dificuldade de duas ciclistas holandesas, a Caroline e sua companheira, para também encontrar hospedagem, conversamos com a nossa anfitriã e ela conseguiu um lugar na casa da irmã. Nesse dia fizemos mais uma boa ação e ainda ajudamos um casal da Bélgica.
Apesar de estarem, os quatro, hospedados em outras casas, o jantar foi onde estávamos hospedados. Cada um preparou o seu jantar, mas todos jantamos juntos, bebemos vinho, conversamos e o caminho começou a ficar bom, de novo.
No dia seguinte, continuamos caminhando na reta e no cascalho. Começamos a encontrar outras pessoas. Um canadense, uma francesa, um espanhol que conhecia o Brasil, um italiano caladão. Isso porque, este caminho é uma variante da Via de La Plata, que começa em Sevilha. E essas pessoas já vinham de longe, nesse caminho. Tivemos também a companhia da chuva, que veio para ficar alguns dias. Assim, fomos para Tábara e depois Santa Croya de Tera.
Num desses dias, nós e o italiano caladão seguimos juntos. Paramos para descansar num lugarejo que não tinha nenhum bar, nada. Mas, um senhor nos viu sentados na calçada e nos convidou para ir até a Associação dos Moradores. Aceitamos na hora. Era um lugar quentinho, com um bom “cafe con leche”, lanchinhos e água. Um bom descanso no meio do caminho.
No dia seguinte, fomos para Rionegro del Puente num caminho lindo e debaixo de mais chuva. Passando em Villar de Farfón, que mais parecia uma cidade fantasma, começou a chover muito forte. Vimos uma plaquinha de madeira com o desenho de uma xícara de café. Paramos e lá estavam um casal e o Wallace, dono do café e albergue chamado “Rehoboth”.
Este era um albergue bem pequeno de um casal de sul africanos. Eles dedicaram muito de suas vidas ajudando crianças órfãs na Zâmbia e Índia. Um dia, caminhando por ali viram uma casa em ruínas. Resolveram comprá-la, reformar e construir o que hoje é esse albergue super agradável, que sobrevive somente com donativos. Cada pessoa paga o quanto pode ou o quanto quer. Ficamos ali conversando, tomando café e comendo uns biscoitos enquanto a chuva melhorava.
Wallace nos contou sobre as suas decisões de ficar ali, sobre caminhos e seus significados. Comentamos que não sabíamos bem o porquê gostávamos tanto de caminhar. E que caminhar era o que nos fazia felizes. E ele nos disse que quando caminhamos voltamos ao “estado original”. Aquilo bateu forte! Era o precisávamos ouvir para compreendermos nossos sentimentos ao caminhar.
A chuva parou, nos despedimos e seguimos. Um pouco mais à frente começou a chover de novo. Ficamos debaixo de uma árvore, mas a chuva já não incomodava mais. Ao contrário, ficamos admirando a chuva. Nunca tínhamos visto uma chuva tão linda! Estávamos em estado de graça... O que teria acontecido? Será que foi pela descoberta do sentido de caminhar ou será que o café veio com algum aditivo? O fato é que nunca mais esquecemos daquele dia, daquela sensação e daquela chuva....
Recebendo mais uma visita do “bed bug” ...
Além da sensação boa da chuva do dia anterior, aquele seria um dia de prometida sorte. Reencontramos as “estevas”, aquelas flores que perfumavam o nosso caminho em Portugal, na Rota Vicentina/Trilho dos Pescadores. O detalhe foi que, um senhor português nos disse que teria sorte quem encontrasse a esteva de sete pontinhos. E, nós encontramos. Então, felizes com a boa sorte fomos para Puebla de Sanabria, uma cidade medieval.
No dia seguinte, saímos sem pressa. Era domingo e decidimos não caminhar uma distância muito longa. Passamos por estrada, florestas, trilhas, rios, até Requejo, um pequeno lugar como os outros que passamos até então, com menos de duzentos habitantes. De lá, nosso destino foi Lubián. As pessoas que encontramos nesta cidadezinha eram muito agradáveis e bons de papo. O casal, dono da pequena mercearia, disse que muitos jovens vão para as cidades maiores e a cidade vai se esvaziando. Mas ali, o que vimos foram muitas casas sendo reformadas, sinal de que esses mesmos jovens deviam estar voltando. Quem sabe já com filhos em busca de um lugar tranquilo para viver.
Então, seguimos, no dia seguinte, para A Gudiña, já na Galícia. Foi a quinta vez que entramos na Galícia, mas a emoção foi a mesma. Desta vez, a nossa alternativa foi ir para Laza, via Campobecerros, um lugarejo que tinha pouco a oferecer. Mas a caminhada prometia. Os pontos altos da visão de cima da Serra Seca, foram a represa As Portas, um mar de montanhas, o vale e avistar ao longe terras portuguesas. Os raros “pueblos” eram um punhado de casas, mas quase sem habitantes, que entre outros motivos, mudaram-se devido à dureza do clima e à presença de lobos, inimigo do gado.
Chegando a Campobecerros, na descida da serra, vimos sangue no chão. Depois, ficamos sabendo que uma senhora, que estava com a filha, tinha caído e se machucado bastante. A descida era muito escorregadia por causa das pedras soltas. O lugar tinha muitos trabalhadores, que faziam uma grande obra na via férrea. Só tinha um albergue esquisitíssimo, com as camas beliches, coladas umas às outras. Tinha também um hotel com um restaurante, onde ficamos, como a maioria dos trabalhadores.
Não era um primor de limpeza, mas, fazer o que? Tínhamos o nosso saco de dormir e toalha de banho. Não foi preciso usar nada do hotel. Acordamos na manhã seguinte e adivinhem quem veio para ficar? Aquela alergia brava, por causa de uma picada do maldito “bed bug”, ou seja, percevejo. De novo!!! Fiquei mal com coceiras, calafrios, o rosto e corpo com inchaços. Quando chegamos a Laza, fomos direto para o Centro de Saúde, porque os antialérgicos estavam no final. Só lembrando, no primeiro dia de caminhada do Le Puy, o mesmo aconteceu. O médico que atendeu foi muito simpático e tentou encontrar o nome espanhol para o “Alegra”, mas não encontrou. Fui medicada. Foi preciso higienizar todas as roupas, saco de dormir, mochila para garantir que nenhum daqueles malditos bichos estava pegando carona. E esta foi uma grande função.
Na nossa pousada ficou também um alemão que contou que tinha caído na descida para Campobecerros, assim como aquela senhora. Ele perdeu a câmera, todos os apontamentos de um livro que estava escrevendo sobre a Via de La Plata. Disse que voltaria para casa e não queria mais saber de caminhar. Sugerimos que ele pedisse a ajuda ao pessoal da Defesa Civil, que é muito prestativo. Mas, ele não aceitou a nossa sugestão e foi embora desiludido e com raiva. Ele já tinha caminhado mais de 800 km e sua atitude intempestiva pode ter trazido algum arrependimento mais tarde.
O mais importante destas caminhadas é saber administrar as adversidades, como nós estávamos administrando. Quando entramos nos “caminhos” temos a consciência de que tudo pode acontecer. Por isso, é sempre bom manter o equilíbrio, a harmonia e cabeça fria... Sempre!
Mais um aniversário no caminho...
Uma ótima terapia é sempre lembrar “menos é mais”. Há muito tempo praticamos o desapego das coisas materiais. Nos sentimos bem melhor tendo menos, mas podendo aproveitar mais, experenciando a vida nos nossos pés. Viajar para caminhar ou caminhar para viajar, tanto faz. E o melhor é ter na mochila somente o suficiente. Pela manhã não ter que preocupar com o que vestir e o que calçar. A roupa é sempre a mesma. Temos uma rotina. Chegar da caminhada, descansar um pouco, lavar roupa, limpar os calçados, tomar um banho reconfortante, jantar, comprar lanche para o dia seguinte.
Mas, pensam que esta rotina é chata? Que nada! É ótima! Porque mesmo sendo uma “rotina”, cada dia ela acontece num lugar diferente, num cenário inédito, com pessoas diferentes.
E foi de forma rotineira, e diferente, que seguimos para Xunqueira de Ambía, onde no meio do caminho encontramos vários amigos. Cada um do seu jeito, de um lugar, mas todos numa mesma sintonia. Só para se ter uma ideia, o Marcel era um holandês assustado, que andava tão rápido que precisava parar sempre para descansar. O japonês maluco, que chamávamos de Takashi, porque nunca soubemos seu nome, não falava uma palavra de espanhol, inglês ou qualquer outro idioma que não fosse japonês. Ele carregava na mochila um notebook, dois Ipads e nos pulsos dois relógios imensos, que só faltavam falar... Até achamos que falavam. Era com toda essa tecnologia que conseguíamos nos comunicar. Mas, o tênis branco dele era um lixo. Também encontramos a Birgite, uma francesa muito divertida, o Cabral, que também não sabíamos o nome, mas sem problema porque quando não sabemos o nome sempre inventamos, e o italiano caladão, que já falava, e que depois ficamos sabendo seu nome: Gianni. Depois encontramos o Michel, um francês que fala muito bem o português, por ter morado muito tempo no Brasil, e que mantivemos o contato.
Bem, seguimos para a cidade grande, Ourense. Demos um tempo na paz do campo e aproveitamos a cidade para passear. Numa praça qualquer, um pombo qualquer, mas com uma bela pontaria, acertou um cocô na cabeça do Helinho. Seria este mais um sinal de sorte? Dali, fomos para Cea, Bergazos e, a um dia de Santiago, chegamos a Ponte Ulla.
No dia seguinte, 24 de maio, mais um aniversário da Vera, saímos calmamente porque o nosso destino já estava próximo. Esta era a nossa quinta vez em Santiago de Compostela. Mas, dessa vez, seria diferente porque chegaríamos por outro lado da cidade.
Era um lugar lindo, só nosso. Mas, no meio do caminho encontramos um espanhol que andava rápido e falava muito. Tivemos que dar um basta e parar. Deixamos que ele seguisse, porque não era assim que queríamos chegar.
O sol estava escaldante e a temperatura mais de 30 graus. E lá chegamos de novo. Felizes, num lugar que, nesta altura, já era a nossa casa. Fizemos todo o nosso ritual. Agradecemos a Santiago por mais esta oportunidade, assistimos a Missa dos Peregrinos, e seu famoso botafumeiro, e descansamos por cinco dias. Isso nos deu a oportunidade de ver o Phillipe e o Simon, um israelense, que conhecemos no Caminho Le Puy. E ainda encontramos o japonês maluco, o Takashi(?), com cara de perdido, ainda usando o seu tênis branco inapropriado e agora amarrado com silver tape. Comemoramos o meu aniversário na cidade, que já sentíamos como nossa, e planejamos o nosso próximo caminho...