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Caminho de Santo Antônio e São Francisco:

Pádua – La Verna - Assis

 

Santo Antônio, primeiro atleta olímpico... 

Todo caminho tem as suas particularidades. O Caminho de Santo Antônio foi difícil, solitário e de muita reflexão. Acreditem ou não, acabamos ficando fãs do santo, à medida que aprendíamos um pouco mais sobre a sua história. Apesar de ter nascido em Lisboa, como Fernando, tornou-se padre franciscano e viajou muito por Portugal, Andaluzia, Marrocos, Argélia, Sicília, norte da Itália e Sul da França, a pé, claro! Como morreu em Pádua, e a igreja católica reconhece o santo do lugar que ele morreu, ficou conhecido como Santo Antônio de Pádua, o que acirrou uma disputa entre portugueses e italianos sobre a sua cidadania. 

            

E acreditem, Santo Antônio era mais que um caminhante, era um atleta! Isso foi o que concluímos, porque subir e descer aquelas montanhas, muito perto uma das outras, é só para “atletas” ... Ainda bem que nos preparamos o ano todo e estávamos muito bem condicionados, e só por isso passamos no teste. Mas, não foi fácil! 

            

Bem, mas antes de colocar o pé na estrada, ou no caminho, fomos a Vicenza, pela segunda vez. Visitamos o Lucio, um dos amigos do Caminho Francês. Ficamos alguns dias na linda cidade, que fica próxima a Veneza. De lá, seguimos para Padova (ou Pádua), onde começaríamos a nossa caminhada em direção a La Verna. 

            

Em Pádua encontramos a Elisabetta, que foi nos visitar, junto com a sua pequena Ana, uma criança muito esperta e divertida. Foi muito bom passarmos a tarde juntos, e relembrar a Via Francigena e os amigos que lá fizemos. 

            

Era dia 17 de abril de 2019, primeiro dia de caminhada, numa estradinha plana, com clima agradável, em direção a Monselice. Foi tudo bem, até o Helinho reclamar uma dor na unha do dedo do pé. Pois é, sabe aquela máxima, “em time que está ganhando não se mexe”? O Helinho trocou o tênis de caminhada confortável, um modelo que ele sempre usava, por uma bota que, embora tivesse sido bem amaciada durante quase um ano, deixou uma unha do pé preta e dolorida, logo no primeiro dia. A solução foi voltar a Pádua, trocar aquela linda bota amaciada, mas ingrata, pelo mesmo modelo de tênis conhecido, e começar tudo de novo...  Mas, nada disso tirou o nosso ânimo. 

            

Monselice, era uma cidadezinha agradável. Ficamos numa casa de acolhimento, com muitos refugiados africanos. A princípio, ficamos um pouco desconfortáveis, pois a Vera era a única mulher no meio daquele bando de homens. Depois relaxamos. Todos eles trabalhavam, a maioria no campo. Ficamos ali observando e pensando como seria a vida deles em seus países de origem. Alguns riam, outros eram mais introspectivos... Aquilo nos deixou com o coração bem apertadinho. 

            

No dia seguinte, indo para Rovigo, fomos pensando naqueles refugiados. Quais seriam as condições em que viviam em seus países e que os forçaram a deixar tudo para trás para viver uma outra vida, num lugar distante, sozinhos e, muitas vezes, invisíveis aos olhos de alguns e discriminados aos olhos de outros? E assim, vimos muito mais refugiados durante esta caminhada...

 

Feriado só é bom para os moradores.... 

Em Rovigo, ficamos num seminário espetacular. Fomos recebidos pelo Manuel, um seminarista venezuelano, e sua amiga italiana Linda, a pedido de “Don Paulo”. Pensamos que “Don Paulo” fosse um padre velho, mas para nossa surpresa era bem jovem e muito simpático. Como era quinta feira santa, todos iriam passar a noite rezando numa outra ala do seminário, bem distante da nossa. 

            

E, mais uma vez, ficamos sozinhos naquela imensa construção. Antes de sair, Don Paulo pediu a cozinheira para nos servir o jantar, “antepasto”, “primo piatto”, “secondo piatto”, “contorno”, vinho e, como sobremesa, adiantando a Páscoa, todo tipo de “cioccolato”.

            

Uma recomendação a quem quer caminhar na Itália é que procurem ficar em seminários, monastérios, conventos ou casas paroquiais. Além de sermos muito bem recebidos, os valores a serem pagos são, na maioria, “donativos”. Algumas vezes, são servidos jantar e/ou café da manhã. Sem contar que são extremamente limpos. 

            

Bem, como disse, era quinta feira santa e todas as hospedagens começaram a se esgotar, por conta do feriado prolongado. Na Itália, além da Páscoa, é celebrada, na segunda feira, a Pasquetta, ou lunedì dell’angelo. Então, de Rovigo fomos para Polesella, na sexta feira da Paixão, já que lá tínhamos conseguido um ótimo B&B. 

            

No sábado, chegamos a Ferrara. Mas, como não conseguimos nenhum lugar para domingo, resolvemos ficar um dia a mais nessa cidade. O que foi ótimo! O Ostello era bom, a cidade bacana. Encontramos um senhor que disse saber falar espanhol. Quando comentamos que no Brasil falávamos português, ele disse que sabia alguma coisa em português, e mandou o seu versinho: “banana não tem caroço, mas tem um filamento grosso, que dificulta a mastigação”. Sinceramente, não sabemos, até hoje, de onde vem esse versinho. Se alguém souber, por favor, esclareça ... Toda vez que nos encontrávamos no ostello, ele repetia tudo de novo e o mesmo versinho... 

            

Na segunda feira surgiu um problemão. Não conseguimos hospedagem em Malalbergo, nossa próxima parada. Por isso, teríamos que caminhar 48 km até Castel Maggiore. Impossível! Foi aí que procuramos um ônibus que nos levasse, pelo menos, até a saída da cidade. Mas, convenhamos, olhar horários de ônibus na Itália não é tarefa fácil. Resumindo, ficamos a manhã inteira no ponto de ônibus, sem uma “vivalma” por perto e sem informações. Por fim, apareceu um bendito e único ônibus que nos deixou alguns quilômetros à frente, na estrada em direção a Castel Maggiore. Chegamos mais tarde na cidade e tudo estava fechado. Parecia uma cidade fantasma. Além disso, não tivemos uma boa impressão do lugar que ficaríamos. Mas, depois até gostamos. Não foi tão ruim. Afinal, seria apenas mais uma noite... No dia seguinte, seguiríamos cedo para Bologna!

 

Compartilhando alimentos...

 

O dia amanheceu com chuva e assim foi de Castel Maggiore até Bologna. Percorremos uma longa distância ao lado de um canal, o que nos deixou ainda mais encharcados. Como não poderíamos deixar de conhecer Bologna, paramos num parque, na entrada da cidade, e tiramos um pouco do barro dos tênis e das calças de chuva. Tomamos um café para nos aquecer e seguimos conhecendo, mesmo e debaixo de chuva, a cidade que respira história, arte, música e cultura. 

Bologna abriga a mais antiga universidade do mundo em funcionamento e agita-se com os universitários e os turistas. Depois de passar pela região central e visitar alguns pontos turísticos seguimos, debaixo de um aguaceiro, para o nosso B&B. Propositadamente, decidimos ficar na saída da cidade. 

À noite, recebemos uma mensagem avisando que não deveríamos seguir pela trilha original porque o caminho estava muito “fangoso”, ou seja, com muita lama. Só que o “fango” é uma lama que mais parece argila, o que torna impossível a caminhada. Aquilo gruda no tênis e a cada cinco passos é preciso parar e tirar um torrão que pesa e chega a tirar o tênis do pé. Ficamos pensando o que fazer, porque o caminho para Settefonti seria aquele mesmo.

            

No entanto, no café da manhã encontramos um casal de ciclistas que nos ensinou um outro caminho pela estrada. Colocamos no Google Maps e lá fomos nós. Num certo ponto, esbarramos com um rio enorme para atravessar, o que era impossível. O rio tinha muita correnteza, era fundo e largo. Ficamos ali “matutando” o que fazer. Foi quando vimos uma trilha que ladeava o rio. Resolvemos segui-la. E fomos caminhando até que encontramos um ciclista, que confirmou que a uns 5 km dali tinha uma ponte. Deveríamos atravessar e voltar até o mesmo ponto onde deparamos com o rio, só que na outra margem. 

 

Depois de atravessar a tal ponte, vimos uma sinalização do caminho. Tentamos seguir pela trilha indicada, mas foi impossível caminhar, porque ela estava muito “fangosa”. Seguimos por uma outra estrada e depois por uma estradinha asfaltada que subia e subia e subia... Chegando no topo vimos uma Foresteria, ou ostello, enorme. Não tinha ninguém. Ligamos para o anfitrião que morava nas proximidades. Ele nos recebeu, nós entramos, tomamos um bom banho para tirar todo o barro e saímos para ver o final de tarde, que estava lindo. O ostello não tinha nenhum hóspede e nenhum ser vivo por perto, quando vimos uma caminhante perdida. 

 

Em frente à Foresteria tinha um B&B, com um restaurante, mas estavam fechados. Aliás, não tinha absolutamente nada por perto. A nossa sorte foi que nós tínhamos algumas coisas para comer e água. Mas, Birgitte, a sueca que encontramos perdida, estava confiante que o B&B e o seu restaurante estariam abertos. Ficou desapontada, mas dissemos que onde estávamos hospedados tinha lugar de sobra para ela se instalar. Ligamos novamente para o anfitrião, explicamos a situação da sueca e lá ficamos nós três, dividimos o que tínhamos de alimento... 

            

Já estávamos no Parco dei Gessi Bolognesi e Calanchi dell’Abbadessa, com todo o seu complexo cársico, de rocha calcária, e que sofrendo corrosões formam cavernas e vales. Simplesmente maravilhoso. 

 

Quem tem medo do lobo mau? 

 

Ganhamos de presente um dia lindo. A previsão era chuva, mas foi o sol que apareceu. Saímos bem cedo de Settefonti em direção a San Martino in Pedriolo. Caminhamos pela crista de uma montanha e paramos no topo para apreciar a paisagem. Na descida da montanha, deparamos com muito barro. Aquele tal “fango” que impede a gente de caminhar. Nesse momento, a Birgitte nos alcançou. Eram dois ou três passos e era preciso tirar o excesso do barro dos calçados. No meio do barro vimos pegadas, que indicava serem de lobos, comuns naquela região. Mas, estávamos tão preocupados em conseguir sair daquele lamaçal que não ficamos focados nas pegadas. De repente, ouvimos pequenos uivos, provavelmente, de filhotes. Ficamos apreensivos, porque onde tem filhotes tem a mãe loba protetora por perto. Não vimos nada, a não ser as pegadas, mas ouvimos que estavam próximos. 

A região do parque, com aquele visual verde e das rochas calcárias formando desenhos, é incrível e inesquecível. Nós ficamos em San Martino e a Birgitte seguiu adiante. Não nos encontramos mais e perdemos o contato. Mas, gostaríamos muito de ter notícias dela, porque o próximo dia de caminhada foi muitíssimo cansativo e sem nenhum lugar para descansar ou comer. Ela arriscou um bocado seguindo em frente no mesmo dia, embora tivéssemos alertado que no caminho não tinha absolutamente nada. Mas, o risco é de cada um. 

            

E assim fomos, no dia seguinte, para Borgo Tossignano. A caminhada foi legal, mas a chegada foi muito difícil. Vimos do alto da montanha que a cidade ficava embaixo. Tivemos que descer numa vertical que deu medo. Foi um desafio e tanto, e muito perigoso. A nossa sorte foi que o terreno estava seco. Quando chegamos no pé da montanha as pernas tremiam de cansaço. 

            

Ainda estávamos em Tossignano. Tudo estava fechado e só abriria por volta das 17h. A nossa hospedagem ficava em Borgo Tossignano, a 3 km à frente e montanha acima. Ou seja, teríamos que subir os 3 km, voltar a Tossignano para fazer compras, porque lá em cima não tinha mercado. E voltar de novo lá para cima. E assim foi, mas na volta para o Borgo pedimos uma caroninha, porque já não era possível dar mais um passo. 

            

No dia seguinte, o nosso destino foi Brisighella. A caminhada era pelo Parco Naturale del Carnè. Um cenário lindo de gramados, matas e penhascos. O corpo ainda doía do dia anterior e a distância era demais, num caminho muito difícil, sem recursos e nenhum lugar para parar. Então, decidimos escapar e fomos passar umas boas horas em Ímola, antes de seguir para Brisighella.

 

Ovelhas “berrando” e cachorros latindo... 

 

Brisighella é uma vila medieval nas montanhas Apeninas. É cercada por três colinas: a primeira, tem um castelo do século XVI, La Rocca. A segunda, tem um santuário do século XVIII, o Monticino. A terceira, a Torre do Relógio, do século XIX. As ruas de paralelepípedos e as casas antigas configuram um cenário único e pitoresco. Ficamos num B&B estranho, com gente esquisita, mas um quarto maravilhoso. Na verdade, o quarto parecia fora de contexto.

A dona do B&B passou o dia todo deitada no sofá da sala fumando e bebendo. Era a personificação da “Rebordosa” do Angelí, para quem se lembra. No dia seguinte cedo, depois do café da manhã, servido pela Rebordosa que exalava fumo e álcool, seguimos para Modigliana. 

            

A caminhada foi bem fácil. Chegando na cidade, fomos para um convento e uma freira, muito simpática, de imediato nos cativou. Ela disse que era dia de San Giovanni e a cidade estava em festa. E que tinha muitos lugares para tomarmos um vinho. E assim passamos um domingo bem agradável, seguindo o conselho da freira. No dia seguinte, fomos para Dovadola. 

            

O ponto alto deste dia foi parar em Montepaolo. Tinha um Santuário, construído em homenagem a Santo Antônio. Visitamos também a gruta que Santo Antônio fazia as suas orações e pregou, quando ali esteve por duas ocasiões de sua vida. Sem dúvida, foi um lugar muito especial! 

            

Quando pegamos o caminho novamente, a chuva caiu forte. A sorte foi que ficamos num B&B fantástico. A Daniela e o Pasquale, os proprietários, resolveram mudar da cidade grande para este pequeno paraíso. Foi uma opção de vida invejável. O lugar era realmente lindo. Na manhã seguinte, apesar do frio, a chuva parou e fomos num caminho muito tranquilo para Rocca San Casciano. Ficamos 3 km antes da cidade, num “Agriturismo”, num pequeno sítio. 

            

Chegando próximo ao Agriturismo, vimos um cachorro maremmano, desses branquinhos, enormes e lindos, que cuidam das ovelhas. Ele estava deitado num monte de madeira. Geralmente, eles são mansinhos, principalmente, quando não estão tomando conta das ovelhas. Um pouco mais a frente, as ovelhas começaram a “berrar”. Foi quando três cachorros enormes, da mesma raça maremmano, vieram latindo e não nos deixavam passar. Ficamos assustados. Paramos, escondemos os bastões de caminhada, para não parecer ameaçadores. Com muita cautela, e implorando para que aquelas ovelhas parassem de “berrar”, fomos passando, devagar, passo a passo enquanto eles latiam e nos ameaçavam. Enfim, chegamos ao sítio. Os proprietários, Alberto e a Franca, eram muito simpáticos e bem simples. Nos receberam com vinho local e ricota quente de leite de ovelha. À noite, nos bastamos com um jantar delicioso, feito por eles, com direito a todos os pratos e contornos possíveis e muito vinho e licores ... Melhor impossível!

 

Caçadores de trufas...

Era 1º de maio e fomos surpreendidos, no café da manhã, com uma turma de amigos e muitos cachorros nos fazendo companhia. Depois de tomarem café e conversarem um pouco com o Alberto, saíram para a caça de trufas. Os cachorros faziam uma verdadeira algazarra, os amigos se divertiam e nós também. O Alberto nos ensinou um caminho, que coincidia com a trilha das trufas. Não sei se esse pessoal achou alguma trufa, mas a diversão foi garantida. 

            

Nesse dia, subimos e descemos morro, estrada de terra, lama, mata e chegamos numa cidade medieval, Portico de Romagna. Era uma cidade que mais parecia uma pintura. Ficava quase na divisa da Emilia-Romagna e Toscana. A paisagem era bucólica, as ruas de pedra e com muitas flores enfeitando as casas. Contam que foi por lá, que Dante e Beatriz, sua amada, teriam se encontrado. 

            

De Portico de Romagna seguimos cedo, num dia bonito, cientes de que a caminhada para San Benedetto in Alpe seria dura. E foi! Subimos muito e cruzamos montanhas com trilhas íngremes. Chegamos numa vista de 360 graus. Passamos por parques, bosques, muitas vezes numa “escalaminhada” dura. Gastamos muito mais tempo do que prevíamos para chegar à cidade. Ainda tivemos que subir bastante para chegar ao Ostello. Depois de instalados, fomos até uma “Alimentari” para fazer compras. Mas, estava tudo fechado. O único lugar que achamos foi um pequeno hotel que tinha ao lado um bar/pizzaria.

            

Fomos recebidos por uma senhora muito mal educada que disse que o restaurante funcionaria somente a noite. Ficamos com vontade de ir embora dali. Fomos até a um ponto de ônibus, mas nenhum transporte passaria naquele dia. Não tínhamos o que comer. Voltamos ao bar/restaurante para comprar uns croissants já velhos, que tínhamos visto por lá. Foi então que o pizzaiolo disse que faria uma pizza especialmente para nós. Santo pizzaiolo. Pegamos tudo e voltamos para o Ostello. E nós tínhamos boa expectativa para San Benedetto in Alpe, pois este é um dos lugares que Dante, ficou no período do seu exílio, como está na “Divina Comédia”. 

            

No dia seguinte, fomos em direção a Castagno D’Andrea, por dentro do Parco Nazionale dele Foreste Casentinesi, Monte Falterona, Campigna. O parque abrange tanto a Romagna quanto a Toscana. Descemos pelo lado Casentino. Foi um dia de extremos. Ao sair, decidimos ir pela montanha, passando pela Cascata dell’Acquacheta. De repente, o tempo que estava nublado, fechou de vez. Choveu muito! Chegamos num topo de montanha onde tinha um restaurante, felizmente aberto. Nos aquecemos, comemos e encontramos dois policiais, que nos aconselharam seguir pela trilha. Disseram que apesar do aguaceiro que caía, não recomendavam a descida pela estrada. Aquela era uma estrada muito íngreme, com muitas curvas fechadas e muito perigosa. 

            

Assim, fomos pela trilha de pedras soltas, montanha abaixo. Tinham muitas árvores caídas. A chuva e a neblina atrapalhavam nossa visão. Nos perdemos e, como não tinha sinal de celular, contamos com a sorte para achar a trilha correta. Felizmente, depois de muitas horas de caminhada chegamos a Castagno d’Andrea. 

            

Estávamos molhados, da cabeça aos pés, apesar das capas de chuva e dos tênis à prova d’água. Mas, encontramos um “Rifugio” quentinho, vazio, onde pudemos descansar e secar nossas roupas. E, finalmente, achamos uma Alimentari aberta para nosso deleite. Fizemos as compras para um jantar e descansamos. E a chuva continuou forte...

 

Santuário de La Verna... 

 

A chuva parou no dia seguinte, mas o tempo continuou muito nublado. O chão estava muito encharcado. Por isso, fomos recomendados a não passar pelas montanhas. O nosso destino era Pratti della Burraia. 

Já de saída, tivemos um pequeno desentendimento. O Helinho entendeu que a saída era por um lado e eu entendi que era pelo lado oposto. Com isso, resolvemos voltar e perguntamos a um senhor, que nos deu uma terceira opção. 

            

Começamos a andar no meio do barro, mas olhamos no GPS do celular e vimos que estávamos indo em direção contrária. Voltamos, novamente, e seguimos pela intuição do Helinho, que era a correta. Foi quando encontramos dois senhores, da Guarda Florestal, que nos disseram que era para seguir por aquela estrada e tentar chegar o quanto antes a Pratti della Burraia porque o tempo iria mudar. Disseram que a partir daquela tarde, o tempo seria “brutto” por dois ou três dias, com muito vento e uma nevasca muito forte. Foi então que decidimos ligar para o único refúgio que havia e eles confirmaram a péssima previsão. Não teríamos como sair de lá, por três dias ou mais, caso a neve fosse muito intensa. E lá só tinha esse refúgio, que era caro. Não tinha mais nada pelas redondezas. Diante disso, resolvemos voltar a Castagno D’Andrea e tentar achar uma solução. 

            

Entramos na igreja da vila e o padre veio falar conosco. Contamos nosso dilema, e ele, prontamente, nos aconselhou pegar o ônibus para Dicomano. De lá, teria trem para alguma cidade com mais recurso. Esse era o único ônibus do dia, porque era sábado. Então, resolvemos, ir para Firenze, que não ficava longe. 

E assim, fizemos. Aproveitamos para descansar, revendo a cidade que já tínhamos visitado há muito tempo. Colocamos as roupas em ordem, encontramos a Alê, uma amiga de São Paulo. Enfim, esperamos três dias para retomar o nosso caminho. Infelizmente, não conseguimos voltar ao ponto que paramos, porque ainda tinha muita neve. Fomos para Bibbienne. E, por lá, chegamos a La Verna, nosso primeiro e tão sonhado objetivo. 

            

O santuário fica numa altitude de mais de mil e duzentos metros, no Monte della Verna. A paisagem é indescritivelmente linda e rodeada de mistérios. Este foi o local onde São Francisco de Assis recebeu as chagas, ou estigmas. Independente da religião ou da crença, La Verna é um lugar muito especial, de meditação e reflexão. 

            

Ficamos dois dias. No primeiro dia, visitamos a cidadezinha, Chiusi della Verna, que fica a menos de dois km, morro abaixo. Deixamos para, no dia seguinte cedo, sem ninguém por perto, explorar cada cantinho daquele lugar enigmático e espetacular. Vimos a rocha onde São Francisco repousava, usando a pedra como cama. Caminhamos pela floresta, que para nós era encantada. Enfim, sentimos na pele, em silêncio, aquele lugar mágico. À tarde, vimos a procissão dos frades franciscanos, que acontece todos os dias às três horas, desde o ano de 1431. 

            

Diz uma lenda, que numa noite de inverno e tempestade, os frades não puderam fazer a procissão. Na manhã seguinte, acharam muitas pegadas de animais do bosque no caminho da procissão. Por isso, foi construído o Corredor do Estigma. Assim, os frades saem, todos os dias, da Basílica, passando por este corredor, onde estão os afrescos com episódios da vida de São Francisco, até a Cappella della Pietà. Eles entoam cânticos gregorianos. Especialmente, e por sorte nossa, naquele dia tinha muitos frades, de muitos países do mundo em visitação. Tinham asiáticos, africanos, europeus etc. Ficamos sabendo de um brasileiro, mas não o encontramos. Mas, conversamos bastante com dois frades angolanos. Trocamos experiências, ficamos sabendo um pouco mais sobre a vida de São Francisco e de Santo Antônio. 

 

Por fim, ali, terminava mais uma jornada, o Caminho de Santo Antônio. Mas, naquele ambiente mágico e extraordinário, iniciava mais um desafio, o Caminho de São Francisco de Assis.

 

Fiat Lux... 

 

O Caminho de São Francisco de Assis é mais curto, mais cheio e com mais infraestrutura do que o Caminho de Santo Antônio. Este era o nosso vigésimo terceiro dia caminhando.

Depois do café da manhã e de uma benção que acontece todos os dias às 7 horas, saímos de La Verna, debaixo de chuva forte, barro, neblina e muito frio. Partes do caminho ainda tinha neve ou barro congelado. 

            

Ficamos um pouco apreensivos, com receio do que nos esperava naquele dia. Começamos a subir muito, escorregando no barro, em pedras soltas e um aguaceiro sem fim. E, chegamos num platô. Era um lugar lindo. Comentamos que se estivesse com sol, seria maravilhoso. E, de repente, “Fiat Lux”. Até hoje não sabemos como, mas a chuva parou e o sol apareceu de repente. Como um passe de mágica. Sem sombra de dúvida, esse foi mais um presente que o caminho nos ofereceu. Ou, São Franciso? Ou, Santo Antônio? Ou...  

            

E seguimos, felizes da vida, para Pieve Santo Stefano. Soubemos que a Dora e o Gabriele, que encontramos na Via Francigena, iriam para Sansepolcro, nossa próxima parada, para nos encontrar. Ficamos felizes com a notícia. O caminho para Sansepolcro foi tranquilo. Chegando na cidade, fomos para uma Foresteria de um convento. E lá, encontramos o casal de amigos. 

            

Sansepolcro respira arte. Ali nasceram vários pintores famosos e, obviamente, abriga as artes dos filhos da terra. Depois tivemos uma aula sobre a “ballestra”, que nós conhecemos como “besta”. A precisão e a arte de atirar é impressionante. O clube ficava bem ao lado da Foresteria e um senhor, que ali estava, nos deu explicações interessantes. 

            

No dia seguinte, seguimos com a Dora e Gabrielle para Citerna, mas cada um em seu ritmo, ou seja, juntos, mas separados. Já saíamos da Toscana e entrávamos na Umbria. Nós ficamos na cidade e o casal de amigos resolveu caminhar um pouco mais. 

Nós não resistimos à beleza do lugar. Ficamos admirando a vista, as passagens cobertas, a Madonna de Citerna, de Donatello, e as esculturas do artista Gianfranco Gioni. Além disso, ficamos num monastério onde fomos recebidos com beijinhos, por uma Irmã bem idosa e simpática, e pela “suore Ilaria”, uma pessoa tranquila e bonita em todos os sentidos. Seria um pecado não aproveitar todo aquele bom astral...

 

Tutti buona gente...

 

De Citerna fomos para Città de Castello, onde combinamos encontrar a Dora e o Gabriele. A caminhada foi tranquila. Chegando na cidade, fomos para o Monastério, onde ficaríamos. Mais tarde, saímos para conhecer um pouco da cidade, suas igrejas, os museus, a Torre del Vescovo, a Catedral e a Pinacoteca, que abrigam tesouros e obras de pintores italianos famosos. 

            

Neste dia, jantamos no monastério. Tinham muitos caminhantes e foi bem divertido. Só achamos estranho jantar num salão que abrigava a ossada de um dos fundadores. Foi bem esquisito. 

No dia seguinte, nos despedimos da Dora e do Gabriele e seguimos para Pietralunga, debaixo de muita chuva. O casal voltou para casa. No caminho, resolvemos que seguiríamos pela estrada porque sabíamos que a caminhada pela trilha, naquele dilúvio, seria muito desgastante e perigosa. Talvez, tivesse sido melhor ter passado pela trilha. Isso porque, pela estrada subimos e subimos e subimos... só subimos. Além disso, um vendaval nos pegou bem em cima da montanha. O vento era tão forte que carregava galhos de árvores e quase nos carregou também. Foi até engraçado. Numa rajada de vento forte tivemos que segurar um no outro para não cair. Finalmente, chegamos sãos, salvos, com frio e cansados. Com isso, desistimos de ficar no lugar que reservamos e encontramos outro lugar melhor, mais confortável e mais aquecido. 

 

Descansados, seguimos para Gubbio. Ainda estava muito frio e com uma chuva fina. No caminho encontramos um casal de italianos com um amigo, que já tínhamos visto antes. Eles eram muito barulhentos e a gente sempre ficava um pouco mais afastado deles. Eles disseram que iriam parar numa cidadezinha, não muito longe de onde nos encontramos. Quando nós dissemos que íamos diretamente a Gubbio, eles resolveram seguir conosco. A princípio, pensamos “ih”. Mas, no final achamos eles muito engraçados e nos divertimos. Enquanto caminhávamos, contamos que tivemos que parar dois dias, por causa de uma nevasca, bla, bla.... E, não é que um deles usou a nossa história para convencer o hospedeiro do Convento onde ficaríamos, para lá ficarem dois dias, quando o permitido era apenas um dia? Isso porque, no dia seguinte teria uma festa famosíssima, a “Festa dei Ceri”.

            

Seguimos até o Convento, mas não sem antes parar para uma foto na estátua de São Francisco de Assis com um lobo. Conta a lenda que São Francisco de Assis, durante a sua permanência em Gubbio, teria amansado um lobo, ou uma loba feroz, que aterrorizava a região.

 

A “Festa dei Ceri” e Assis... 

 

Gubbio é uma cidade medieval. Na Idade Média era muito poderosa, mas depois esteve envolvida em muitas guerras. Numa dessas guerras, saiu vitoriosa, pela intervenção do seu bispo, Santo Ubaldo, que trouxe para a cidade um período de muita prosperidade. Assim, desde o ano de 1160, no dia 15 de maio, acontece a Festa dei Ceri, ou Corsa dei Ceri, em homenagem ao santo, patrono de Gubbio. 

            

É muito complicado explicar aqui toda a logística da festa. Resumidamente, a cidade fica dividida em 3 equipes. Cada equipe usa roupas com a cor do seu patrono e carrega uma estátua com o seu santo. São eles, Santo Ubaldo, Santo Antônio Abade e São Jorge. Os desfiles começam às 5 da manhã com encenações, uma louca corrida pelas ruas íngremes da cidade e termina com muita comilança. 

Cada santo é colocado num prisma octogonal de madeira, parecendo uma ampulheta com 4 metros de altura e pesando quase 300 quilos. E nós, vimos de perto, espremidos nas ruas estreitas, a multidão eufórica que cantava, bebia, corria e empurrava aquele gigantesco estandarte, como se fosse uma competição. Para dizer a verdade, num certo momento ficamos com medo, porque estávamos num lugar que não tinha saída e se tivesse qualquer confusão seriamos pisoteados. O povo canta, pula, corre e fica muito eufórico num tremendo empurra-empurra.  

            

Bem, depois dessa loucura toda, e de ver uma das maiores manifestações folclóricas da Itália, fomos para Valfabrica, já ansiosos para a última etapa até Assis. 

 

Sem pressa, saímos de Valfabrica num lindo dia de sol, com uma temperatura super agradável, depois de dias de chuva e muito frio. Estávamos com aquela sensação, que já descrevemos algumas vezes, coração apertadinho pelo final do caminho, mas felizes por estarmos conseguindo chegar ao nosso destino. 

            

Ainda de longe avistamos a Basílica de São Francisco de Assis, lá em cima, no Monte Subásio. Fica numa colina, antes conhecida como “Colina do Inferno”, porque era onde os criminosos mortos eram enterrados. Hoje, é conhecida como “Colina do Paraíso”. E não sem razão. É sem dúvida o Paraíso! Chegamos pelo parque, aproveitando a natureza e a calma do bosque, antes de nos depararmos com um monte de turistas que veio apreciar o clima da cidade e a “1000 Mille”. Pela segunda vez, nas nossas andanças pela Itália, tivemos a oportunidade de ver esse famoso evento, a corrida “1000 Mille”. 

            

E, finalmente, chegamos à Basílica de São Francisco de Assis. Paramos para uma foto e entramos para agradecer a São Francisco e Santo Antônio a oportunidade de mais uma caminhada e um dia tão bonito para chegarmos. Em Assis também conhecemos a bonita história de Santa Clara. Nos tornamos fãs deste trio, que nos acolheu e deu-nos paciência e entendimento para enfrentarmos os tempos difíceis que vieram depois, a pandemia de Covid.

Uma esticadinha até a Irlanda...

Sabe aquela vontade de tomar um Pint de Guiness in loco? Pois é, foi por isso que resolvemos descansar, dessa vez, em Dublin 

De Assis voltamos para Roma e, de lá, saímos com um dia de atraso, por conta do voo cancelado. Mas, isso não nos abalou. Aproveitamos o dia em Roma e seguimos para Dublin, com escala em Londres. 

Chegamos bem tarde da noite em Dublin. Ainda assim, vimos o agito da cidade. Ficamos num Airbnb, que era a casa de um casal bem interessante. Ela com ascendência asiática e ele bem irlandês. Os dois músicos da noite. Por isso, passavam a noite quase toda fora e durante o dia dormiam. Era como se estivéssemos sozinhos na casa. 

Dublin é uma cidade muito alegre durante o dia e à noite. Nas principais ruas da cidade, conhecidas pelas lojas e músicos de rua para todo lado, você esquece a vida. A região do Temple Bar é uma festa a qualquer hora. O próprio Temple Bar, e outros Pubs nas redondezas, tem apresentações de música folclórica ao vivo e com DJs. É divertido caminhar pelas ruas estreitas e de pedras, parando nos Pubs para ouvir um pouco de música e comer nos diversos restaurantes de culinária asiática, americana e irlandesa. 

Outras atrações da cidade, são a Trinity College, uma antiga universidade fundada em 1592 pela Rainha Elizabeth I, uma caminhada pelo Grand Canal ao lado do Rio Liffey, rumo ao Oscar Wild Memorial ou na Vicking Area, que é bem interessante. Uma paradinha na Christ Church ou na Saint Patrick Cathedral, um descanso no Phoenix Park. E ainda tem muita coisa para ver, como o Convention Centre Dublin, Dublin Brigade Memorial, Smithfield, que foi uma área de armazéns e que hoje são cafés, bistrôs e cervejarias. E, na praça central está a Jameson Distillery Bow Street que é onde o whiskey com o mesmo nome era destilado.

Atrações é o que não faltam na cidade, nem que seja ficar observando as portas coloridas das casas e os turistas que passam nos carros anfíbios de excursão, o hop-on hop- off, com chapéus vicking fazendo a maior algazarra, tanto em terra quanto na água. Mas, o imperdível mesmo é a visita à Guiness Storehouse e lá tomar aquele Pint da Guiness in loco. Era um dia especial, mais um aniversário da Vera viajando. Não nos contentamos com pouco e fomos para um Pub para aproveitar ao máximo a cerveja, que combina o sabor e a espuma cremosa no ponto certo. 

 

Num dia de domingo, resolvemos caminhar em direção a Dalkey e Killiney Village, subúrbio de Dublin, onde Bono Vox e o The Edge do U2 têm casa, assim como a cantora Enya. Foi uma caminhada super agradável, a beira mar com uma vista linda. A visita que todo turista gosta de ir de carro, fomos a pé, o que deixou uma moradora, que pedimos uma informação, espantada quando contamos que estávamos nos divertindo com aquela longa caminhada. 

 

Enfim, passamos dias ótimos em Dublin com a promessa de voltarmos. Depois da nossa visita ao país, decidimos colocar no radar o Ireland Way, um fantástico caminho na Irlanda. 

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